Pronunciamento de Sebastião Bala Rocha em 13/02/1996
Discurso no Senado Federal
HOMENAGEM AO SENADOR DARCY RIBEIRO PELA SUA VIDA POLITICA E SUA LUTA NA AREA DA EDUCAÇÃO.
- Autor
- Sebastião Bala Rocha (PDT - Partido Democrático Trabalhista/AP)
- Nome completo: Sebastião Ferreira da Rocha
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
HOMENAGEM.:
- HOMENAGEM AO SENADOR DARCY RIBEIRO PELA SUA VIDA POLITICA E SUA LUTA NA AREA DA EDUCAÇÃO.
- Aparteantes
- Romero Jucá.
- Publicação
- Publicação no DSF de 14/02/1996 - Página 1846
- Assunto
- Outros > HOMENAGEM.
- Indexação
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- HOMENAGEM, ELOGIO, TRABALHO, ATUAÇÃO, DARCY RIBEIRO, SENADOR, DEFESA, EDUCAÇÃO.
O SR. SEBASTIÃO ROCHA (PDT-AP. Pronuncia o seguinte discurso) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, nesta tarde, uso da palavra para prestar uma simples mas justa homenagem a uma das personalidades mais brilhantes com quem temos o prazer de conviver. Um eminente cidadão brasileiro que percorre os quatro cantos da Nação e do mundo, distribuindo elegância, simpatia e uma inesgotável alegria de viver a todos que têm ou que tiveram o privilégio de usufruir do seu saudável convívio.
Estou no Senado Federal há pouco mais de um ano. Este é o mesmo período em que minha atuação parlamentar estendeu-se ao nível federal e, conseqüentemente, me trouxe ao convívio intenso com muitas das mais importantes personalidades da política nacional.
Faço uso da palavra, hoje, para manifestar o carinho e a admiração que aprendi a cultivar, mais de perto, por uma dessas pessoas em especial. Um jovem que, por muitas vezes, renova o nosso necessário estoque de rebeldia e indignação. Mas, por outras, nos ilumina com sua sabedoria alegre e intensa.
No dia 15 de março de 1995, a Universidade de Brasília, através de seu reitor, João Cláudio Todorov, concedia ao Senador Darcy Ribeiro o título de Doutor Honoris Causa. Era o reconhecimento da cria ao progenitor. Essa homenagem, segundo o próprio Darcy - permitam-me assim chamá-lo -, o comoveu mais do que qualquer outra. Naquele dia, em seu discurso, Darcy dizia que ter seu nome emprestado ao Campus da UnB era "uma glória que satisfazia, a pleno, pela primeira vez, sua sede insaciável de elogios".
Pois bem, Darcy, estou aqui para oferecer-lhe humildes gotas que, por certo, não irão saciá-lo, mas que revelarão uma profunda discordância que tive com uma frase sua, naquela ensolarada manhã, no Teatro de Arena da UnB, quando avaliava as inúmeras mazelas provocadas pela ditadura militar, dentre as quais a diáspora dos sábios que vieram tornar real o sonho da Universidade de Brasília. Àquela altura, o jovem Darcy chegou a imaginar que sua entrega à prisão, fazendo-se refém da ditadura, renderia paz à sua amada universidade, mas concluiu: "Eu era nada e não sabia".
Não, Darcy, você compreendeu aquilo que hoje é reconhecido como o principal projeto de educação que se concretizou no Terceiro Mundo, que são os Centros Integrados de Educação Pública, os CIEPs. Projeto audacioso, seja por sua magnitude como obra pública, seja por sua beleza arquitetônica, seja pela revolução pedagógica, seja por seus resultados, chegando a atingir mais de 500 mil crianças com educação integral durante todo o dia e mais de 200 mil jovens em turnos noturnos.
Você fugiu da UTI para encontrar-se com a vida e nos conduzir, com sua sabedoria, para um novo projeto nacional de educação, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.
Portanto, é muito gratificante, Darcy, estar ao seu lado no Senado e no PDT. Sinto-me como um discípulo, mais do que correligionário. Lembro-me de suas palavras, em tom quase profético, naquela cerimônia de 15 de março, na UnB, quando erros e acertos da política acadêmica implantada naquela universidade eram ponderados. A grande vitória contabilizada naquele momento era justamente o fato de se ter conseguido ascendê-la ao nível da pós-graduação.
Essa façanha que se pretendeu estender a todas as instituições de nível superior no Brasil, por meio da LDB, foi frustrada pela aprovação precipitada de uma emenda de plenário que equiparou a especialização aos níveis de mestrado e doutorado, reduzindo a exigência de qualificação acadêmica para o corpo docente das universidades. A Câmara haverá de rever esse equívoco, retornando ao texto original de seu substitutivo.
Mas Darcy não sossega. O selvagem de Montes Claros, cidadão da vida, em sua inquietude marota nos provoca, propõe, contesta, critica e constrói. Pode-se dizer que Darcy inaugurou o estilo do intelectual empreendedor - o arauto da "Utopia Brasil". A utopia de um modelo autêntico de desenvolvimento, diferente daquele forjado nas matrizes da Cepal, que não enxerga as nossas especificidades e reproduz o colonialismo interno e as desigualdades regionais.
Darcy Ribeiro, com a sua clareza, consegue ser mais amazônida do que qualquer amazônida, antecipando que as nossas riquezas devem ser exploradas em sintonia com o meio ambiente, baseando-se na biodiversidade e no ecoturismo. Afinal, como diz o sábio: "A maior floresta tropical do mundo é tratada com uma imbecilidade colossal. O sistema usado é derrubar a mata para convertê-la em pampa argentino".
O Sr. Romero Jucá - Permite V. Exª um aparte?
O SR. SEBASTIÃO ROCHA - Pois não. Ouço o aparte de V. Exª, nobre Senador Romero Jucá.
O Sr. Romero Jucá - Nobre Senador Sebastião Rocha, V. Exª, nesta tarde, traz um discurso que fala, entendo eu, com o coração de todos nós, Senadores e Senadoras, companheiros do Senador Darcy Ribeiro aqui nesta Casa. Sem dúvida alguma, o esforço cívico que o Senador Darcy Ribeiro tem empreendido para exercer na plenitude seu mandato e dar uma contribuição como deu aqui à Lei de Diretrizes e Bases da Educação comove todos nós. Essa é uma demonstração de compromisso para com o País e era isso que todos nós esperávamos de Darcy Ribeiro. Sem dúvida nenhuma, para nós que somos Senadores de primeira legislatura neste Senado, a convivência com Senadores mais experientes tem sido um bálsamo e um prêmio para nossa vida política. Neste momento, eu gostaria não de me alongar, mas de estender-me, participando das palavras de V. Exª no sentido de homenagear o Senador Darcy Ribeiro por toda sua vida política, por toda sua história, por todos os seus encaminhamentos e por toda sua luta em favor da educação em nosso País e dizer que as palavras de V. Exª são justíssimas e a elas eu gostaria de apor, também, meu apoio, meu sentimento e meu carinho por Darcy Ribeiro porque S. Exª merece esta homenagem de todos nós. Meus parabéns.
O SR. SEBASTIÃO ROCHA - Agradeço o aparte de V. Exª e é com satisfação que o incorporo a este breve discurso que faço em homenagem a Darcy Ribeiro.
É essa sinceridade crua que torna Darcy Ribeiro ainda mais especial, mesclada a um desprendimento monástico que provoca-lhe gestos surpreendentes, como a doação de seu acervo pessoal de arte indígena ao Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília. Não é à toa que o autor de uma obra tão fecunda tenha recebido tantas homenagens de reconhecimento nesses últimos anos, especialmente em 1995, quando recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Brasília e a homenagem na XIV Feira do Livro de Brasília, dentre outras.
Pois bem, continue a nos surpreender, a nos provocar e a nos ensinar, Darcy. Continue a alegrar nossos debates, a nos iluminar com suas reflexões. Não nos poupe de sua confessada imodéstia, porque estaremos aqui, para saciá-lo em sua carência de afagos.
Obrigado, Darcy.*
Muito obrigado, Sr. Presidente.