Autor
Edison Lobão (PFL - Partido da Frente Liberal/MA)
Data
06/08/1997
Casa
Senado Federal 
Tipo
Para discursar 

O SR. EDISON LOBÃO (PFL-MA. Pronuncia o seguinte discurso.) - Sr. Presidente do Senado Federal, Srs. Senadores, Drª Amália Lucy Geisel, representante da família nesta solenidade, Senhor representante do Vice-Presidente da República, que se encontra no exterior, Srs. Ministros de Estado do Governo Ernesto Geisel, Srs. Ministros dos Tribunais Superiores, Srs. Oficiais Generais, Srs. Oficiais Superiores, minhas Senhoras, meus Senhores, é com muita honra que ocupo esta tribuna como primeiro orador da sessão especial que, a meu pedido, promove o Senado Federal em homenagem póstuma a um grande brasileiro - um dos maiores do nosso tempo -, o Presidente Ernesto Geisel, falecido aos 89 anos de idade a 12 de agosto do ano passado.

A par do meu dever de homem público, reconhecido e grato à fecunda atuação dos nossos patriotas, move-me o sentimento do cidadão privilegiado com a amizade e a consideração pessoal de um brasileiro exemplar.

Evoco, nesta hora, a figura admirável do soldado, do estadista, do administrador e do cidadão que exerceu papel decisivo na história recente do País, fartamente merecedor desta homenagem do Poder Legislativo.

O poeta Horácio, depois de construir a sua obra, encontrou consolo para a morte numa frase célebre: Non omnis moriar, ou seja, "não morrerei de todo". Geisel é desses homens imprescindíveis, como Horácio, que não morrem por completo. Ele permanece na nossa memória e tem lugar assegurado na história deste País.

Diz-se com muita razão que não se pode traçar com isenção a biografia dos nossos contemporâneos, pois somos influenciados pelas emoções e pelas paixões. A história é feita pelas gerações porvindouras, distantes dos acontecimentos que abalaram emocionalmente os seus antepassados. Já dizia Gregório Marañon, no seu livro "Tibério": "A história não se faz somente com dados, mas também com interpretações". No entanto, essas limitações, acrescidas das minhas próprias, não me intimidam em falar sobre Ernesto Geisel, a quem considero uma das mais preeminentes lideranças já surgidas em nosso País em todos os tempos.

A própria imprensa, nos dias que se seguiram à morte de Geisel, deu grande repercussão à sua atuação na vida pública. As matérias que me foram dadas a ler a propósito do Governo Geisel, em sua grande maioria, revelam uma louvável preocupação de fidedignidade histórica, uma correta avaliação do alcance das medidas efetuadas e da coerência da personalidade do nosso pranteado General.

Assim, foram corretamente apontados o seu zelo pelo exercício da autoridade e o seu respeito à hierarquia, claramente explicitados nos episódios da demissão do Ministro do Exército, o General Sylvio Frota, na abolição do AI-5 e na demissão do Comandante do II Exército, General Ednardo D´Ávila Mello. Em todos esses delicados acontecimentos, ficou evidente que o Presidente Geisel não tinha constrangimentos em exercer o poder na sua plenitude, porque não o fazia nunca em causa própria.

Destacou também a imprensa, com propriedade, o aperfeiçoamento a que seu Governo submeteu a política externa, prosseguindo na linha independente adotada por Jânio Quadros e João Goulart e estreitando relações com a África, a Ásia e o Leste Europeu.

Finalmente, admitiu toda a imprensa que os méritos do Governo Geisel não se restringiram ao seu galardão de haver proporcionado a grande transição de um regime de força para um regime democrático. Na área administrativa, foi notável a orientação imprimida ao Governo e o esforço empreendido para a elaboração do III Plano Nacional de Desenvolvimento - PND, uma obra de planejamento de inegável repercussão e excepcional alcance técnico.

Os editoriais, artigos, entrevistas, depoimentos e reportagens referentes à figura de Ernesto Geisel efetuaram um levantamento minucioso dos fatos relevantes de seu Governo e um mapeamento cuidadoso dos aspectos notáveis de sua personalidade. Mesmo assim, gostaria de retomar um traço que, embora não tenha passado despercebido nos perfis publicados, merece, a meu ver, um destaque especial não por ser especialmente relevante, pois, ao contrário, harmoniza-se plenamente com as demais características do seu caráter, mas por ser insólito e raro na política brasileira: a determinação com que perseguiu e foi fiel aos seus objetivos.

Os que tiveram a oportunidade de acompanhar a sua vida sentem-se a um só tempo orgulhosos e perplexos com a sua excepcional e prematura vocação para a vida pública, toda ela dedicada, nas posições oficiais ou na iniciativa privada, aos interesses maiores do nosso País.

Quando eleito Presidente da República por um Colégio Eleitoral, em processo determinado pela Constituição, aceitou a investidura como mais um dever que lhe cabia cumprir como patriota. Adotando algumas medidas rigorosas ainda dentro de um contexto revolucionário, a oposição, ignorando as qualidades de Geisel, não soube perceber, a princípio, que ele dava execução a uma estratégia que nos levaria, como levou, à plenitude democrática.

Mas logo se viu que o novo Presidente procurou reforçar-se na sua posição de Chefe de Estado e assegurar-se de uma induvidada autoridade, firme e corajosa, que lhe permitiria, por exemplo, frustrar planos sediciosos e impedir eventuais excessos dos agentes responsáveis pela ordem pública.

Sem a incontestada autoridade de Ernesto Geisel - conquistada pela firmeza das suas atitudes, sua honradez, lealdade e inteligência -, seguramente não teríamos obtido, no tempo em que se efetivou, a rotina democrática por que tanto ansiava a sociedade brasileira.

À época, não se entenderam as reiteradas mensagens do Presidente Ernesto Geisel, que aqui resumo em trechos de dois de seus numerosos pronunciamentos:

Num deles, dizia Geisel:

      "O desenvolvimento político se requer lento, meditado e progressivo, para que seja seguro, realmente duradouro, construtivo e socialmente justo."

Em outro pronunciamento ponderava o então Presidente:

      "Reitero, uma vez mais, os propósitos de perseguir o desenvolvimento político - sem compromissos de espécie alguma, com fórmulas ultrapassadas e, comprovadamente, inadequadas à realidade brasileira."

O Presidente Ernesto Geisel, assumindo o governo a 15 de março de 1974, recebeu um pesado impacto de problemas que exigiam soluções só possíveis através da liderança firme de um estadista.

Habituado aos planos de Estado Maior, preparou-se devidamente para conjurar crises militares e institucionais, conforme o demonstram as seguintes iniciativas: armou um forte esquema militar, promovendo e lotando oficiais-generais de sua confiança; articulou um esquema político coeso e trabalhou para uma conscientização nacional com a colaboração de Golbery do Couto e Silva e Armando Falcão.

Indicou Petrônio Portella para a Presidência do Senado e prestigiou-o o mais que pôde, entregando-lhe a missão de promover o que chamou de consenso em torno da abertura lenta, gradual e segura; criou a figura do Senador indireto para garantir maioria ao governo seguinte, que deveria governar sem sobressaltos legislativos para que não houvesse retrocesso; suspendeu a censura à imprensa, providência que julgou indispensável, embora fizesse graves restrições ao seu comportamento.

Vistos agora, a uma distância de 20 anos, os atos do Presidente Geisel confirmam a nossa certeza de que assumiu o Governo já armado de uma estratégia que visava ao desfecho democrático alcançado.

Ao assumir o Governo, o País ainda saboreava os frutos de um milagre econômico que não podia se repetir por dificuldades conjunturais. Não só o Brasil, mas o mundo, engolfava-se, à época, na crise do petróleo, responsável por terrível recessão que se impunha aos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Naquele período, ainda não estavam cicatrizadas as feridas traumáticas que sempre acompanham um processo revolucionário em plena vigência, e permanecia vivo e atuante o desejo dos que não queriam ver encerrado o processo revolucionário, que alguns diziam, publicamente, seria estendido até o ano 2000.

Ainda em março de 1974, anunciava o Presidente "que os instrumentos excepcionais só permanecerão em vigor até que se vejam superados pela imaginação política criadora, capaz de instituir, quando for oportuno, salvaguardas eficazes e remédios prontos e realmente eficientes dentro do contexto constitucional."

Na saudação ao povo brasileiro pela televisão, após ter sido escolhido pelo Colégio Eleitoral, em janeiro de 74, o General Ernesto Geisel já deixava delineado o seu perfil de estadista:

      "Sei que nunca poderei agradar a todos e que certamente descontentarei a muitos, tão complexo é o tecido de ideais, interesses e paixões conflitantes em que se estruturam uma nação, sobretudo quando seiva nova, vigorosa, a impulsiona em busca de seu destino maior. Voltado ao atendimento das aspirações do povo, em geral, excluído o domínio de interesses de indivíduos, grupos, classes ou regiões, entendo mesmo que das maiores qualidades de um governante é saber dizer não às proposições que lhe pareçam intempestivas ou que, em justa análise, se lhe afigurem ilegítimas."

Há que se reconhecer que toda essa problemática foi resolvida pelo Presidente Ernesto Geisel.

Com muita paciência, firmeza, criatividade e isenção, sem ceder em nenhum instante ao crescente prejuízo de sua autoridade, Geisel entregou ao seu sucessor, cinco anos após a sua posse, um Brasil com ampla liberdade de imprensa e com livres partidos políticos. Disputaram-se eleições corretas, assegurada a igualdade de condições entre os concorrentes. Exerceu-se na plenitude o direito ao sufrágio universal, inaugurando-se um processo democrático que dura até os nossos dias.

É preciso recordar que coube ao Presidente Ernesto Geisel patrocinar a revogação do art. 185 da Constituição de então, aquele que mantinha perpétua as punições revolucionárias sofridas pelos brasileiros que houvessem sido cassados com base em Atos Institucionais. Sob o amparo de seu Governo, extinguiu-se a censura, e a imprensa recuperou sua plena liberdade de informação e de opinião. Com Geisel, ficaram resguardados os direitos humanos.

Cumpria-se, assim, a sua estratégia da descompressão. Davam-se avançados passos, no possível desenvolvimento político da época, de forma necessariamente lenta, meditada e progressiva, "para que seja seguro, realmente duradouro, construtivo e socialmente justo", no seu desfecho.

O saudoso jornalista e escritor Odylo Costa Filho publicou no Correio Braziliense, jornal no qual trabalhei por tantos anos, ao término do Governo Geisel, uma série de artigos de grande repercussão, entre os quais ressaltava que duas figuras militares definiam o contraste fundamental na emersão do autoritarismo para a normalidade da História republicana do Brasil: Floriano Peixoto e Ernesto Geisel.

Registrou Odylo:

      "Geisel não negaceia. Mesmo quando recua, ele o faz taticamente, sem perder de vista o fim a que visa: a restauração do Estado de Direito, a extinção do autoritarismo esclarecido, a instauração de um convívio democrático, sem que isso signifique a volta a um passado de deterioração da autoridade em que a Nação podia perecer ou, pelo menos, dividir-se na contestação armada."

Nessa série de artigos, o grande jornalista e escritor revela que Geisel fizera gestões reservadas, afinal frustradas, para que fosse sucedido na Presidência da República por um civil. Escapou a Odylo Costa, filho, na época, a informação, sabida por alguns, de que só não se fixou a pretendida candidatura civil porque fora desaconselhada pelas próprias lideranças políticas, justamente preocupadas em que tal solução pudesse comprometer a normalidade do encaminhamento democrático, que afinal se conquistou sem estremecimentos.

Nesse trabalho de pesquisa e avaliação, observou ainda o referido jornalista:

      "Na figura de Geisel fundem-se a memória ilustre de Prudente de Morais e a firmeza, a malícia, a presença, a sabedoria de ação do grupo que, em torno de Glicério e com o apoio de Bernardino de Campos e Afonso Pena, encaminhou a sucessão de Floriano em 1894. Só o tempo dirá - se é que dirá - a parte que tiveram seus companheiros, a começar por Golbery de Couto e Silva, nessa grande tarefa, seu grande projeto político. Mas a Nação, apenas e simplesmente comparando as liberdades públicas e as instituições jurídicas no dia da sua posse e agora que deixa o Poder, reconhecer-lhe-á na fisionomia, mais envelhecida de onde por vezes transparece o amargor da injustiça, os traços do seu grande servidor, transfigurados pela idéia de missão e pela consciência da missão cumprida."

Os méritos do Governo Geisel não se restringiram ao seu galardão de haver proporcionado a grande transição de um regime forte para um regime democrático. Na área administrativa, foi notável a orientação imprimida ao governo, conseguindo, ao lado de um Ministério da mais alta qualificação técnica e moral, superar as gravíssimas dificuldades que envolviam o mundo nas crises econômicas que se superpuseram no período de seu mandato presidencial.

A sua filosofia de trabalho ficou bem expressa em algumas de suas declarações públicas, como aquela de que "a sociedade, como o Estado - sua expressão política de decisão, planejamento e gerência, apoiada no extraordinário poder de ação que lhe é definido -, existe para o homem, que é a célula individual e constitui, na verdade, sua própria razão de ser."

Também disse que "a democracia tem como finalidade procurar o bem social da coletividade" e, mais adiante, asseverou que "o desenvolvimento - econômico, político e social - visa à realização integral e humanista do próprio homem."

O Presidente Ernesto Geisel, enfim, teve como preocupação primordial a melhoria da qualidade de vida do brasileiro. Ao lado do feroz combate à inflação, criou o Ministério da Previdência e Assistência Social e o Conselho de Desenvolvimento Social. Estendeu aos camponeses e às empregadas domésticas os benefícios da legislação trabalhista. Elevou em 70% o orçamento do Ministério da Saúde. Criou o 1º Programa de Alimentação e Nutrição, instituiu o Sistema Nacional de Saúde, implantou o Programa Nacional de Vigilância em Saúde, bem como os de Erradicação e Controle de Endemias e de Saneamento Básico Integral em Áreas Rurais.

O Governo Geisel buscou a universalização do ensino de 1º grau e a melhoria em qualidade do 2º grau e do ensino técnico. Todos nos lembramos, por outro lado, do esforço despendido para a erradicação do analfabetismo de adultos. Estimulou as atividades culturais, as de educação física e a prática dos esportes. Preocupou-se com o problema do menor abandonado e com a modernização do arcaico sistema penitenciário existente no País.

O Governo Geisel, Sr. Presidente, Srs. Senadores, assumiu ações notáveis para afastar do Brasil o fantasma da crise do petróleo.

Aos que o criticam por haver expandido a nossa dívida externa e gerado o mecanismo incontrolável das estatais, lembro que essa análise só pode ser corretamente efetuada levando-se em conta a perspectiva histórica. O País precisava crescer, mas a iniciativa privada não possuía reservas financeiras que lhe permitissem assumir o desenvolvimento rápido de determinados setores estratégicos. Daí ter sido responsável pela criação de grande parte das empresas estatais, estratégia absolutamente correta àquele momento. E foi graças às estatais que o País obteve os grandes saltos de seu desenvolvimento.

O endividamento externo, pelo qual, em boa parte, Geisel é freqüentemente responsabilizado, pertence a um outro capítulo que precisa ser melhor explicado.

Diante da monumental crise do petróleo, o Presidente pediu ao seu Ministro Mário Simonsen alternativas. Recebeu duas: a primeira, seria seguir os passos da maioria das nações do mundo, colocando o Brasil em recessão, com racionamento de combustíveis, desemprego em massa e outras restrições; a segunda, seria valer-se o País da poupança externa e, com isso, manter o nível de emprego e de pleno desenvolvimento.

Examinando o documento do saudoso e sempre lembrado Mário Simonsen, o Presidente desejou ouvir o Embaixador Roberto Campos, que então representava o Brasil em Londres. Naquele momento, encontrava-me em Londres e conversava com Roberto Campos sobre esse episódio. Campos propôs a primeira alternativa, qual seja, a de colocar o País em recessão, acompanhando as demais nações no desemprego, mas Geisel preferiu a segunda, graças à qual o País passou por um período de fecundas realizações.

A propósito, é conveniente lembrar que, graças ao dinheiro externo, temos as nossas siderúrgicas, usinas hidrelétricas, sistema de telefonia, uma forte indústria de química fina e tantos outros investimentos que viabilizaram as condições para o nosso grande desenvolvimento. Os investimentos eram imprescindíveis. O progresso não foi contido. E o fantasma do desemprego foi exorcizado.

Mesmo em relação à energia nuclear, alvo de críticas, algumas das quais baseadas, unicamente, naquilo que se pode chamar de "alarmismo apocalíptico", reconhece-se, hoje, o acerto das medidas. O atual Governo retomou as obras de Angra II, incluiu o projeto de construção de Angra III no planejamento estratégico da Eletrobrás, criou um Centro de Ciência Nucleares em Pernambuco e assumiu o compromisso de investir R$20 milhões para fazer uma linha de produção de pó e pastilhas de urânio em Resende, no Estado do Rio de Janeiro. Resgatou-se o programa nuclear, certamente, pelas mesmas razões que levaram o Presidente Geisel a criá-lo: a sua inevitabilidade. A energia gerada pelas hidroelétricas é insuficiente para o abastecimento do País a médio prazo, não só pelos altos custos de instalação e transmissão, como pelo esgotamento inevitável, caso fossem implementadas todas as geradoras necessárias.

A energia nuclear, aliás, é a solução que vem sendo encontrada pelas nações desenvolvidas ou em desenvolvimento, que estão em condições de implementá-la. E o Brasil, felizmente, é o segundo maior detentor de reservas de urânio do Planeta.

A administração Geisel otimizou a utilização dos recursos energéticos de origem hidráulica, em pouco tempo conseguindo uma economia de 60% do combustível. Determinou que a Petrobrás celebrasse contratos de risco com empresas estrangeiras para a prospecção e exploração do petróleo. Criou a Nuclebrás, possibilitando o aproveitamento da energia nuclear; concluiu a usina-piloto de beneficiamento de urânio de Poços de Caldas; iniciou as obras de montagem da primeira central núcleo-elétrica de Angra dos Reis e iniciou estudos para a construção da segunda unidade geradora de energia termonuclear também em Angra do Reis.

Procurando vencer uma difícil conjuntura internacional, o Presidente Geisel estimulou a exportação de minérios, destacando-se os projetos de ferro de Carajás e o da bauxita de Trombetas. Expandiu e diversificou as exportações, deu ênfase à empresa privada nacional e à economia de mercado, estimulou a agropecuária mediante concessões de variados benefícios e crédito a juros baixos.

Foi obra do Governo Geisel a Comissão Nacional de Coordenação da Política de Crédito Rural, bem como o Programa de Desenvolvimento dos Cerrados, o Poloamazônia, o Polonordeste e o Programa de Desenvolvimento do Pantanal.

Assumindo o Governo a 15 de março de 1974, Geisel, um mês e meio depois - a 2 de maio do mesmo ano -, encaminhou a este Congresso a Mensagem com o projeto de lei que criou a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco. Entre tantos outras iniciativas, proporcionou as condições para a fusão dos Estados do Rio de Janeiro e da Guanabara, cumprindo a Constituição e a legislação complementar. Sob o estímulo do seu Governo, foi concluída, em São Paulo, em outubro de 1975, a primeira linha do metrô paulistano.

No então BNDE, criou mecanismos de apoio para o desenvolvimento da indústria brasileira de bens de capital, para investimento dos setores produtores de bens e consumo popular, para as empresas exportadoras de manufaturados e para viabilizar o aumento da produção de alumínio, cobre, zinco, enxofre, cloro, carvão, fertilizantes e outros insumos básicos.

Estou me referindo, Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, a alguns dos feitos creditados à administração do Presidente Ernesto Geisel, os quais, pela sua diversificação, demonstram um amplo universo da sua preocupante ação em manter o Brasil no trilho do desenvolvimento.

Aos que o criticaram por haver expandido a nossa dívida externa, Geisel respondeu á época que pior seria ter deixado o povo brasileiro esmagado sob o desemprego e mergulhado na miséria. Sobre o mesmo tema, disse-me uma vez um economista: "Os que fazem tal acusação parecem esquecer que, graças ao dinheiro externo, temos hoje as condições industriais de uma nação-potência."

Na verdade, é sabido que a balança comercial brasileira começou apresentar, em 1984, superávites já da ordem de US$12 a US$13 bilhões por ano, graças aos programas de Insumos Básicos e de Bens de Capital lançados no III PND.

Quanto à dívida externa, é preciso ressaltar que seu aumento, no período Geisel, se fez de forma programada, tanto que no último ano do Governo do Presidente, no final de 1978, a nossa dívida líquida não ultrapassava US$31,6 bilhões. E destaque-se que naquela época o Brasil só aceitava empréstimos a longo prazo, não permitindo a entrada de capital especulativo.

Esse rigor no disciplinamento do capital estrangeiro não comprometeu em nada o prestígio do Brasil no mercado financeiro internacional. Ao contrário, o nosso País, no Governo Geisel, alcançou enorme respeitabilidade entre as nações desenvolvidas e em desenvolvimento, graças às linhas traçadas para a política externa.

Foi nesse período, também, que o Brasil se tornou a primeira Nação do mundo a reconhecer, corajosamente, a independência de Angola.

Neste ponto do meu pronunciamento, me pergunto se obtiveram êxito, como soluções definitivas para o País, todas as iniciativas da administração Geisel? E encontro como resposta a certeza de sua adequação ao seu tempo e à sua conjuntura.

Não se pode esquecer o êxito do Governo Geisel no setor industrial, quando o emprego cresceu a taxas da ordem de 7% ao ano. A pobreza absoluta em nosso País, por força desse crescimento e do grande aumento nos investimentos sociais caiu de 40% do total das famílias, em 1970, para apenas 18% em 1980.

O estudo da vida de Ernesto Geisel impressiona pela sua ativa participação nos principais acontecimentos da vida pública brasileira neste século. Logo que saiu da Escola Militar, onde sempre se distinguiu como primeiro aluno da sua turma, foi elemento ativo, no início do seu oficialato, na Revolução de 30 e na Revolução de 32. Com 24 anos de idade, foi Secretário-Geral e Chefe do Departamento de Segurança Pública do Governo do Rio Grande do Norte. Um ano depois, Secretário da Fazenda, Agricultura e Obras públicas da Paraíba. Em todas essas funções deixou a coragem e a correção moral como marcas das suas ações como administrador.

Chefe da Casa Militar do Presidente interino Ranieri Mazzili* e do Presidente Castello Branco, Ministro do Superior Tribunal Militar e Presidente da Petrobrás.

Os livros do Historiador Fernando Jorge e do ex-Ministro Armando Falcão narram interessantes particularidades da vida do ex-Presidente e de sua família, a começar pela informação de que o nome Ernesto vem do alto-alemão antigo Ernust, significando lutador resoluto, decidido, correspondendo ao que Geisel foi ao longo de toda a sua vida.

Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, o julgamento histórico pertence à posteridade, não mais influenciada pelas paixões que emocionam os contemporâneos. A meu ver, contudo, a figura de Ernesto Geisel vai crescer com a passagem dos anos. Ele será visto, em retrospecto, como um Presidente que se esforçou por exercer os poderes da Presidência com uma concepção definida de estratégia geopolítica e econômica para o Brasil, conforme recomendava a sua formação e uma vertente da teoria política de seu tempo.

Se analisado sob o prisma da isenção, o general Geisel será visto como um dos expoentes de uma geração de governantes, civis ou militares, que defendeu e pôs em prática idéias nacionalistas do interesse do País. A esse papel, cumpre acrescentar o mérito inquestionável de uma honradez pessoal que jamais foi posta em dúvida.

Até me eleger Deputado Federal, em 1978, exercia o jornalismo político. Conheci o general Geisel em circunstância singular. Ele havia convocado ao seu gabinete o Líder do Governo na Câmara, Deputado José Bonifácio, que com ele levou ao Planalto todos os seus vice-Líderes. Geisel disse-lhes, então, que era contrário ao AI-5, mas ainda não poderia revogá-lo. Pediu aos Líderes que o ajudassem a criar as condições favoráveis a essa revogação a que ele se determinara. Solicitou reserva da conversa. Mas, como sempre ocorre nessas ocasiões, a imprensa acabou sabendo de tudo. Informado, em off reccord, escrevi minha coluna sobre o assunto. No dia seguinte, os jornais que a publicaram atribuíram manchete de primeira página ao assunto. O Correio Braziliense também: "Geisel é Contra o AI-5".

Eclodiu, então, grande agitação, sobretudo nas áreas de segurança, que não acreditavam pudesse o Presidente ter feito tal declaração. Àquela época, soava como heresia falar-se em extinção do AI-5. Houve, então, quem levasse ao Presidente a sugestão de prender o jornalista e enquadrá-lo na Lei de Segurança Nacional. Geisel, correto como sempre, recusou a sugestão dizendo que o jornalista fora fiel às suas palavras; os Deputados é que haviam sido inconfidentes.

Dias depois, o Presidente recebia este jornalista para uma audiência no Palácio, marcada pelo Ministro Armando Falcão. Foram reservados 30 minutos e, na verdade, a nossa conversa durou mais de uma hora. O Presidente pediu a mim, então, que analisasse o seu governo. Ouvindo críticas a alguns ministros, saía sempre em defesa deles, com explicações convincentes. Daí por diante, ficamos amigos e eu lhe telefonava com freqüência para conferir informações que recebia como jornalista.

De outra feita, pedi-lhe nova audiência. Lá chegando, sugeri-lhe que suspendesse a censura à imprensa imediatamente. Então, o Presidente Ernesto Geisel mostrou-me os jornais do dia com grandes manchetes contra o Governo. É que a Polícia havia cercado a Universidade de Brasília por decisão judicial, mas os jornais atribuíam ao episódio uma motivação de ato atentatório à liberdade. O fato é que, tempos depois, a censura foi oficial e totalmente suspensa.

A meu convite insistente, o Presidente Geisel visitou o Maranhão em 1978. Em São Luís, a Câmara de Vereadores outorgara-lhe o título de Cidadão Ludovicense. Os vereadores foram, então, ao Palácio dos Leões, sede do Governo, durante o almoço, e a Presidente da Câmara, Vereadora Lia Varela, pediu-me que comunicasse ao Presidente que os edis ali se encontravam para entregar-lhe um título de cidadão da Capital do Maranhão. Não foi fácil convencê-lo a aceitar a homenagem. Alegava o Presidente que não podia receber o título porque nada fizera para merecê-lo. Só acedeu depois de muita insistência de minha parte.

Perguntei-lhe, certa vez, se ele se considerava realizado com as funções que exercera ao longo da vida. Disse-me ser um homem sem ambições. De fato, ocupara as mais altas funções políticas e até chegara à Presidência da República. Todavia, não exercera o cargo para o qual se preparara e que realmente gostaria de ter exercido. "Ministro do Exército?" - arrisquei. "Não. Chefe do Estado-Maior do Exército." Foi tudo quanto Sua Excelência almejou ser na vida e acabou não sendo. Aí mais uma demonstração de sua afinidade com o planejamento.

Depois que deixou a Presidência, passei a visitá-lo com freqüência em Teresópolis. Conversávamos longamente sobre o regime militar e sobre as questões político-institucionais de então, a respeito das quais discorria e opinava com conhecimento e total segurança.

Esses fragmentos de lembranças não resgatam, nem pretendem fazê-lo, a totalidade da figura humana do retratado, mas apontam componentes que a constituíam: a grandeza da visão, a retidão de propósitos e a determinação no cumprimento dos objetivos traçados, sem qualquer hesitação. Essas mesmas características da figura humana compõem, a meu ver, o perfil do administrador e do estadista.

Não se pode omitir nesta homenagem ao General Ernesto Geisel a importante participação, em sua vida, da esposa Dona Lucy e da filha Amália Lucy, que se tornaram conhecidas e respeitadas, em todo o País, pela distinção, sobriedade e discrição. Sempre distantes do crepitar das movimentações políticas e militares do marido e do pai, e das luzes do poder, às vezes tão inebriantes, Dona Lucy e Drª Amália Lucy mereceram e merecem a grande simpatia do povo brasileiro. Em todas as minhas visitas à família Geisel em Teresópolis, encontrava Dona Lucy ao lado do marido, delicada e cordial com o amigo visitante, a quem oferecia chávenas de café por ela própria preparado. A essas duas mulheres tão tipicamente brasileiras, igualmente a minha homenagem.

Como jornalista profissional, no período em que Geisel governou este País, dele mereci atenção especial e a confiança de um amigo. Acompanhei, dia a dia, a sua luta e testemunhei a correção inexcedível com que se houve na Presidência da República. Dele também recebi o estímulo para ingressar na política e sou-lhe grato pelos conselhos, ponderações e os exemplos da sua irrepreensível conduta pessoal.

O Brasil, Srªs e Srs. Senadores, orgulha-se de ter tido, como um dos seus mais ilustres filhos, o honrado gaúcho General Ernesto Geisel.

Incorporo ao meu discurso, e solicito o deferimento de V. Exª, artigo que o Senador José Sarney, então Presidente desta Casa, publicou em O Globo sobre Geisel, com o título "Geisel e os caminhos da abertura". Trata-se de uma peça histórica e de grande beleza literária, que vem enfatizar a forte impressão que o Presidente Ernesto Geisel deixou registrada para os pósteros.

Estou certo de que, aos contemporâneos que fazem justiça à elevada contribuição que o saudoso Presidente Geisel ofereceu ao País, se juntará o reconhecimento da posteridade.

Era o que tinha a dizer.

Muito obrigado.(Palmas.)