Discurso no Senado Federal

INDICAÇÃO DO NOME DE S.EXA., POR COMPANHEIROS DO PARTIDO DOS TRABALHADORES EM TODO O TERRITORIO NACIONAL, A PRE-CANDIDATURA AO GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL.

Autor
Lauro Campos (PT - Partido dos Trabalhadores/DF)
Nome completo: Lauro Álvares da Silva Campos
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
POLITICA PARTIDARIA.:
  • INDICAÇÃO DO NOME DE S.EXA., POR COMPANHEIROS DO PARTIDO DOS TRABALHADORES EM TODO O TERRITORIO NACIONAL, A PRE-CANDIDATURA AO GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL.
Aparteantes
Bernardo Cabral, José Eduardo Dutra.
Publicação
Publicação no DSF de 13/01/1998 - Página 392
Assunto
Outros > POLITICA PARTIDARIA.
Indexação
  • INFORMAÇÃO, CONVOCAÇÃO, PARTIDO POLITICO, PARTIDO DOS TRABALHADORES (PT), ORADOR, QUALIDADE, CANDIDATO, DISPUTA, ELEIÇÃO, CARGO ELETIVO, GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL (GDF).

O SR. LAURO CAMPOS (Bloco/PT-DF. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs. e Srs. Senadores, gostaria de levar ao conhecimento desta Casa que, ao contrário daquilo que estava em meus planos para o futuro, sem antes ter dado sequer um telefonema, sem ter participado de qualquer encontro ou reunião, pessoal ou coletiva, fui convocado de forma insistente e, ao contrário do que pretendia fazer nos anos que me restam, mais uma vez obrigado a tentar, como pré-candidato, o Governo do Distrito Federal.

Tentei, particularmente, encontrar um espaço interno dentro do Partido, que me foi fechado, para discutir vários problemas que foram se acumulando ao longo de três anos de Governo. Durante esse período, encontrei-me duas vezes apenas com o Governador Cristovam Buarque. Pedi uma audiência e expus a S. Exª minha insatisfação diante de um Governo que considero neoliberal, muito próximo das diretrizes do Governo Federal, e que, do meu ponto de vista, não tem correspondência com o desiderato, com os objetivos e finalidades que trouxeram nosso Partido à existência e deram-lhe ânimo, coragem e vitórias.

A primeira vez que fui procurado por companheiros do Partido, estava em minha residência. Nunca fui do Diretório, nunca exerci qualquer função dentro do aparelho partidário, não tenho nenhum representante nas instâncias partidárias. Assim, jamais pensei que minha conduta pudesse ser acoimada de ambiciosa ou, ao contrário daquilo que algumas vezes escutei na vida, que estivesse rompendo com minha conduta anterior, que eu havia perdido uma das mais importantes qualidades do ser humano; aquela virtude que, no meu ponto de vista, fez com que, na hora da morte, Sócrates, a quem estenderam a chave da liberdade, preferiu a morte: a coerência humana, que, para mim, é a mais importante das virtudes. Alguns colegas e companheiros meus tiveram a extrema gentileza de, em certo momento da minha apagada existência, ver na minha vida a coerência como uma companheira permanente.

Portanto, não é a primeira vez que o Partido me convoca para ser candidato ao Governo do Distrito Federal. Na primeira vez em que isso aconteceu, havia um mandato tampão de dois anos, e ainda não se decidira se seria preenchido por meio de votação ou do que a Constituição de 1988 viesse a determinar. O mandato tampão foi finalmente preenchido pelo interventor e, depois, Governador Joaquim Roriz. Naquela ocasião, o meu nome estava indicado pelo Partido dos Trabalhadores, por unanimidade, para ser o candidato ao Governo.

Posteriormente, repetiu-se e recaiu sobre a minha pessoa, que nunca tive e não tenho qualquer influência na máquina partidária, a insistência de que me prontificasse a ser candidato ao Governo. Por motivos particulares, acabei renunciando à candidatura, e naquela ocasião, perguntado quem poderia me substituir à frente da disputa eleitoral, lembrei o nome de alguém que não estava no Partido dos Trabalhadores, Professor Cristovam Buarque.

Sr. Presidente, lutei dentro do Partido para que, além do Professor Cristovam Buarque, o Professor Paulo Bica, o Dr. Saraiva e outros viessem, inclusive o Chico Vigilante, que uma vez foi pré-candidato ao governo. Lutei sempre para que a democracia começasse em casa, para que houvesse vários candidatos disputando a preferência dos companheiros do Partido para encabeçar essa chapa. Assim, pensei que estivesse contribuindo para que a democracia partidária não pudesse jamais ser abandonada pelo Partido, para que as disputas fossem sempre bem acolhidas, com um espírito superior, que coloca os ideais democráticos acima dos interesses de grupos ou individuais. Portanto, ao contrário do que desejava, vou lançar, como pré-candidato, minha candidatura ao Governo do Distrito Federal. Só concordei fazê-lo em função de instigações que recebi de companheiros do Estado do Pará ao Rio Grande do Sul. Na realidade, o que me parece é que questões ideológicas importantes, questões políticas fundamentais, devem ser debatidas.

Desejo que o destino afaste de mim esse cálice e que finalmente eu possa desempenhar mais uma vez uma função que considero altamente positiva, garantindo, contra a vontade daqueles que se sentem ameaçados pelo meu nome, uma colaboração para o debate interno, aberto e sério, colocado em nível elevado, a respeito da postura que deve tomar, que deve ter, das diretrizes políticas que devem selar os compromissos dos Governos Estaduais ocupados por companheiros do Partido dos Trabalhadores.

O Sr. Bernardo Cabral (PFL-AM) - Permite V. Exª um aparte, Senador Lauro Campos?

O SR. LAURO CAMPOS (Bloco/PT-DF) - Pois não, com muito prazer.

O Sr. Bernardo Cabral (PFL-AM) - Claro que não vou analisar nem julgar o problema interno do Partido de V. Exª. Mas da sua manifestação colho dois sentidos: quanto ao primeiro quero discordar frontalmente quando V. Exª diz “a minha apagada existência”. V. Exª não tem nem esmaecida quanto mais o termo forte de “apagada” pelo seu passado retilíneo e sempre coerente. E aí, a segunda parte do pronunciamento de V. Exª da qual quero discordar. A discordância, portanto, já está aí retratada. Não posso ouvir V. Exª dizer, depois de um convívio de três anos, batalhando, lutando e incentivando os seus correligionários, que V. Exª tenha uma existência apagada politicamente sequer, porque profissionalmente V. Exª tendo herdado as qualidades do seu pai, tão grande professor. O segundo ponto é que, lamentavelmente, Senador Lauro Campos, na vida pública não podemos esperar reconhecimento dos nossos contemporâneos. A história fará com que os pósteros, aí sim, digam qual foi a sua atividade no Senado Federal. Cito, até porque a maturidade leva a isso, que V. Exª registra não um desabafo, mas um descontentamento por verificar que nesta democracia política, como V. Exª disse bem, Sócrates - V. Exª não quis falar na cicuta, mas falo agora - quando preferiu a cicuta, é exatamente essa cicuta que V. Exª agora, do plenário do Senado, faz chegar aos seus colegas. Registrei aqui que, lamentavelmente, V. Exª percebe o que se vê na vida pública: são os interesses dos grupos ou os interesses individuais se sobrepondo aos interesses da coletividade. Essa é a maldição do presidencialismo. Se não tivéssemos o presidencialismo, não teríamos esta máquina, nem dos Governadores nem do Presidente da República, a como querer proibir uma pré-candidatura pelo sol que ela representa, porque se fosse apagada até contribuiria para que aqueles que querem continuar no poder pudessem se valer disso. Não poderia ficar calado, Senador Lauro Campos, apesar de termos colocação em partidos diversos, mas não somos diferentes em nenhum instante quando lutamos pelo nosso País. Não podia ficar calado sem lhe dar minha solidariedade. O meu silêncio seria uma forma de coonestar a perseguição oblíqua que V. Exª está sendo vítima.

O SR. LAURO CAMPOS (Bloco/PT-DF) - Considero que apenas ter sido alvo do aparte que V. Exª acaba de fazer ao meu pronunciamento já seria algo que justificaria a minha pré-candidatura.

Realmente agradeço a compreensão de V. Exª e aproveito para dizer o seguinte: realmente sou uma pessoa errada no meio político. Nos meus 40 anos de vida universitária, eu realmente estava no ambiente em que nasci, que vivi e onde sentia o meu crescimento individual, jamais aceitei o cargo de diretor ou de chefe de departamento; e, quando o Prof. Edmar Bacha insistiu muito para que eu fosse Vice-Diretor do Instituto, disse a S. Sª que apenas o seria com uma condição, qual seja, a de jamais assumir a Diretoria. Quando isso ocorreu, uma semana depois, renunciei. Nunca pretendi ser guru, chefe ou dirigente de nada. Inclusive, no ano que vem, quando talvez haja uma escolha ou um rodízio da nossa Liderança, tal como aconteceu no ano passado, já recusei desde logo qualquer possibilidade de ocupar esse honroso posto.

De modo que, então, quando ofereceram a Sócrates a chave da liberdade, em troca do que ele teria de se tornar um bárbaro, deixando Atenas para viver junto àqueles que os atenienses consideravam bárbaros, ele preferiu encerrar ali a sua existência, com coerência e com dignidade.

Desse modo, então, tendo em vista essa situação em que eu mais e muito mais e, exclusivamente, fui conduzido do que conduzi, posto que não dei um telefonema, não fiz um pedido, não passei um fax, absolutamente nada fiz para que os companheiros lembrassem, de novo, insistentemente, meu nome. Chegou a situação a tal ponto que não pude recusar e, então, prontifiquei-me a democraticamente disputar a candidatura a Governador do Distrito Federal.

Se vier ser indicado pelo PT, onde não tenho poder algum, representante algum - não participo nem da máquina do Partido nem da máquina do poder - minha candidatura será apenas uma oportunidade de levar o debate político nesta situação em que nos encontramos, numa conjuntura tão complexa, numa conjuntura tão obscura em que notamos a tergiversação dos líderes brasileiros que, no meu ponto de vista, não sabem se posicionar, sempre titubeiam e sempre voltam atrás e sempre preferem o muro porque perderam a capacidade de enxergar com transparência os rumos desta sociedade.

Não pretendo trazer luz para este espaço, mas pretendo que a minha presença acenderá o debate. Do contrário, seria candidatura única, seria repetir os exemplos que nós abominamos de organizações ditatoriais. Nós que pretendemos ser democratas e populares não devemos nos erguer contra nenhuma candidatura. Tenho certeza absoluta de que jamais fiz isso. Pelo contrário, estimulei a presença no Partido dos futuros pré-candidatos Cristovam Buarque, Saraiva, Chico Vigilante e Paulo Bica. Para mim foi uma grande satisfação observar que aqueles meus desejos finalmente tenham-se cumprido.

Fui escolhido por unanimidade porque os dois outros concorrentes desistiram de suas candidaturas na hora da votação. Portanto, fui escolhido por unanimidade, e essa unanimidade foi espontânea e não foi forçada.

Sinto ter trazido este debate a esta tribuna, que realmente não é o local adequado. Prometo que não darei mais entrevistas, não levarei mais questões partidárias para o ágora. Tratarei de temas partidários apenas dentro do Partido. E espero que o Presidente do PT também o faça e não venha com ameaças, porque, do contrário, poderá exacerbar a minha conduta. Em circunstâncias como essas - eles sabem - o meu temperamento, a minha formação me levam a dar respostas que, muitas vezes, podem parecer um pouco ou muito agressivas.

Sr. José Eduardo Dutra (Bloco/PT-SE) - Senador Lauro Campos, V. Exª me concede um aparte?

O SR. LAURO CAMPOS (Bloco/PT-DF) - Com prazer, Senador José Eduardo Dutra.

O Sr. José Eduardo Dutra (Bloco/PT-SE) - Senador Lauro Campos, V. Exª, enquanto Senador, embora insista em colocar-se como uma espécie de outsider tanto da política quanto do PT, mesmo com essa postura que faz questão de manter, V. Exª contribui muito para o debate, tanto internamente no Partido quanto na sociedade, sobre o tipo de governo, o tipo de sociedade que queremos construir. A presença de V. Exª numa prévia interna do PT por si só já demonstra a diferença de nosso Partido em relação aos outros. Basta fazermos um levantamento da situação em todo o Brasil para verificarmos que, embora em muitos Estados haja pessoas que gostariam de ser candidatos a governador, ninguém ousa colocar seu nome à disposição porque parte do princípio de que o candidato tem que ser aquele que já está ocupando o cargo. Então, considero muito salutar a existência de uma prévia para a escolha de candidatos, não só no Distrito Federal mas também em vários outros Estados. No Rio Grande do Sul, por exemplo, onde o PT, pelo menos até o momento, é o favorito para ganhar a eleição, temos dois candidatos do mais alto gabarito, ambos com potencial eleitoral, com representatividade social e representatividade interna no PT: Olívio Dutra e Tarso Genro. Farei agora um apelo à militância do PT - porque tenho certeza de que, se depender de V. Exª e do Governador Cristovam Buarque, o que temo não vai acontecer. Muitas vezes a militância acaba se empolgando no debate interno e a energia que deveria ser economizada para o processo eleitoral acaba sendo gasta na disputa interna do Partido e o resultado disso pode ser a derrota eleitoral do Partido. Isso ocorreu nas prévias de Diadema em 96 e nas prévias de Santos, porque o debate fugiu do campo das idéias. Tenho certeza de que, se depender de V. Exª e do Governador Cristovam Buarque, isso não ocorrerá em Brasília. Todavia, desejo fazer este apelo diretamente à militância do Partido para que restrinja o debate que terá lugar na prévia ao terreno das idéias, para que o conjunto da militância escolha aquele que, no seu entender, representará melhor a postura do Partido para a candidatura ao Governo no Distrito Federal, e que, a partir do resultado dessas prévias, todos os militantes do Partido unam-se em torno do candidato vencedor, no sentido de evitar o retrocesso do Partido no DF, fato, que, afinal de contas, muitos desejam que ocorra. Muito obrigado.

O SR. LAURO CAMPOS (Bloco/PT-DF) - V. Exª, nobre Senador José Eduardo Dutra, é um dirigente partidário, um Líder do nosso Partido, um jovem Senador com promissora carreira, carreira que não é mais promissora porque é uma raridade engrandecedora a atuação de V. Exª como Líder do nosso Partido. Portanto, a compreensão de V. Exª de que é necessário mantermos esse conflito interno, conflito de idéias, conflito de pontos de vista em que se entrechocam as diversas tendências que compõem o nosso Partido, uma diversidade na unidade partidária. É justamente por isso que devemos lutar.

Já concorri a duas eleições. Em uma, fui o segundo mais votado. Havia três vagas, mas não tomei posse. Na outra, fiquei em segundo lugar. A perda foi como se eu tivesse perdido o cabelo que cresceu demais e foi cortado: não significou absolutamente nada. Para mim não foi uma perda; foi uma derrota numa eleição.

Tendo em vista essa minha posição, também com ela se afirma algo contrário a algumas correntes dominantes. Vencer ou vencer, dizem eles. Algumas vitórias têm todas as características de uma derrota e de algo que retroage ao invés de avançar. Vencer ou vencer jamais foi e jamais será o meu lema. É por isso que me encontro muito bem situado no Partido dos Trabalhadores, com os quais eu me irmano, com os quais sempre me identifiquei, porque sou um trabalhador da universidade, sou um trabalhador do ensino.

           Portanto, vou utilizar esse espaço para fazer avançar o debate. Se derrotado, será apenas mais uma derrota que marcará o caminho de meu modesto avanço e progresso político e intelectual nesta minha modesta vida.

           Muito obrigado.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 13/01/1998 - Página 392