Pronunciamento de Lúcio Alcântara em 15/01/1998
Discurso no Senado Federal
REFLEXÃO SOBRE A SAGA IDEALISTA DO MARECHAL JUAREZ TAVORA E DE LUIS CARLOS PRESTES, POR OCASIÃO DAS COMEMORAÇÕES DE SEUS CENTENARIOS DE NASCIMENTO.
- Autor
- Lúcio Alcântara (PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira/CE)
- Nome completo: Lúcio Gonçalo de Alcântara
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
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HOMENAGEM.:
- REFLEXÃO SOBRE A SAGA IDEALISTA DO MARECHAL JUAREZ TAVORA E DE LUIS CARLOS PRESTES, POR OCASIÃO DAS COMEMORAÇÕES DE SEUS CENTENARIOS DE NASCIMENTO.
- Aparteantes
- Artur da Tavola.
- Publicação
- Publicação no DSF de 16/01/1998 - Página 731
- Assunto
- Outros > HOMENAGEM.
- Indexação
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- HOMENAGEM, CENTENARIO, NASCIMENTO, LUIS CARLOS PRESTES, EX SENADOR, ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL (RS), JUAREZ TAVORA (PB), OFICIAL GENERAL, ESTADO DO CEARA (CE).
O SR. LÚCIO ALCÂNTARA (PSDB-CE. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Srª Presidente, Srªs. e Srs. Senadores, lamento abordar, neste fim de sessão, este assunto, que não é polêmico, mas, de alguma maneira, é histórico. Talvez os Senadores José Serra e Artur da Távola possam dar uma contribuição ao meu discurso.
Neste ano, comemoramos dois centenários de nascimento: o de Luiz Carlos Prestes, que nasceu em Porto Alegre em 03 de janeiro de 1898, e o de Juarez Távora, cearense, que nasceu em 14 de janeiro de 1898.
Muitas festividades, muitas comemorações, muitas manifestações de aplauso pela imprensa à figura de Luiz Carlos Prestes estão transcorrendo no País. Personalidades que se opuseram politicamente a Luiz Carlos Prestes, que integrou esta Casa como Senador, hoje estão, com toda a justiça, reconhecendo a sua importância política, mesmo que discordem ideologicamente dele. Todos reconhecem o que S. Exª representou para o Brasil em termos da agitação de idéias, de idealismo, de coerência política. Carlos Prestes era uma espécie de consciência crítica do País e verberava contra os maus costumes políticos, contra o subdesenvolvimento do País, contra os privilégios de uma pequena classe instalada no Poder. Tudo isso agora está sendo lembrado para comemorarmos o centenário de Luiz Carlos Prestes.
O centenário de nascimento de Juarez Távora, pelo que observei, até agora mereceu um pequeno convite, feito pela sua víúva, Dª Nair Belisário Távora, para uma missa a ser celebrada no Rio de Janeiro.
Nas páginas do Jornal do Brasil, perdido entre vários convites para missa, D. Nair convida os amigos de Juarez Távora para uma missa pelo seu centenário.
Minha família sempre militou no velho PSD, não obstante eu ter sido Prefeito de Fortaleza, quando era Governador o Sr. Virgílio Távora. Portanto, do ponto de vista político como jovem, como adolescente, como universitário, nunca tive qualquer proximidade política ou qualquer afinidade com as idéias defendidas pelo General Juarez Távora. Mas, há um fio comum nessas duas personalidades: foram tenentes, partiram juntos no seu ideal de modificar o Brasil, de renovar os nossos costumes políticos, de renovar nossas instituições; ambos eram do Exército; ambos eram filhos de famílias humildes - um era do interior do Ceará, lá de Jaguaribe, nascido na Fazenda Embargo, e o outro nascido em Porto Alegre. Ambos, como disse, tinham formação militar e iniciaram juntos sua rebeldia, o Movimento dos Tenentes, em 1922. Juarez Távora substituiu Prestes no comando de uma unidade militar e depois participou da famosa Coluna Prestes, que percorreu 13 Estados brasileiros, num total de 25 mil quilômetros, e durou cinco anos.
A Coluna se dividiu em duas: uma comandada por Carlos Prestes e a outra por Juarez Távora. Posteriormente, quando Prestes se exilou na Argentina, teve contato, primeiramente na Bolívia, depois na Argentina, com o marxismo, por intermédio de Astrogildo Pereira. Aí, recusou-se, em 1930, a ser o comandante militar da revolução que levou Getúlio Vargas ao poder, à qual esteve incorporado Juarez Távora, que, na época, era tido como vice-rei do norte. Juarez Távora foi Ministro dos Presidentes Getúlio Vargas, Café Filho e Castello Branco. Foi também candidato à Presidência da República.
Os dois faziam parte de uma geração de militares, uma geração dos chamados tenentes que se lançou nessa aventura de renovar, de modernizar o Brasil, de modificar nossas instituições políticas.
Divergiram em determinado momento - são opostas as biografias de Prestes e a de Juarez Távora. Seria, então, o caso de perguntar, agora que estamos lembrando o centenário de nascimento dos dois: quais foram as idéias que venceram? Como Prestes veria a queda do muro de Berlim, os países da chamada Cortina de Ferro, do socialismo real, que aluíram completamente? Como Juarez Távora - como lembram o Senador José Serra, que era homem da UNE, e o Senador Artur da Távola -, que era um homem que defendia a exploração do petróleo pelos Estados Unidos, veria agora a quebra do monopólio do petróleo, nesta épóca em que discutimos desestatização? Será que as idéias dele triunfaram? Será que realmente era o caso de se abrir a economia, favorecer a participação do capital estrangeiro?
Enfim, faço esta intervenção neste final de sessão para, de certa maneira, homenagear a memória desses homens, porque, mesmo que se discorde deles politicamente - eu, por exemplo, discordei de Juarez Távora, como tenho certeza de que também meus dois Colegas que estão ali discordavam -, eram dois caracteres inflexíveis, homens que procuravam guardar uma grande coerência moral. Juarez, por exemplo, nunca foi atacado do ponto de vista moral, do ponto de vista de qualquer deslealdade para com o Poder Público, para com o poder público. Era um homem sisudo, austero. Conta-se dele que, em campanha à Presidência da República, ou à época da Revolução de 30, ao descer numa estação de trem, o líder local arrastou do paletó de casimira - em pleno calor, debaixo de um sol a pino do Nordeste - um discurso. E ele prontamente respondeu: “Não podemos perder tempo. Me dê que eu leio em casa.” Ele era um homem desse tipo. Em um determinado momento, eu o vi valorizando muito o caráter e o comportamento das pessoas envolvidas naquele movimento do rearmamento moral. Ele possuía essas peculiaridades. Não deixou descendentes, não teve filhos.
Vi aquele convite perdido naquela página de obituários dos jornais, a viúva de Juarez Távora convidando os amigos para uma missa de 100 anos do seu nascimento. Essa cerimônia religiosa ocorreu ontem no Rio de Janeiro. Não sei quantos terão ido.
O Sr. Artur da Távola (PSDB-RJ) - Permite-me V. Exª um aparte?
O SR. LÚCIO ALCÂNTARA (PSDB-CE) - Ouço o aparte de V. Exª.
O Sr. Artur da Távola (PSDB-RJ) - Quero fazer um pequeno reparo, Senador. O General Juarez Távora tinha dois ou três filhos, um dos quais foi meu colega de colégio.
O SR. LÚCIO ALCÂNTARA (PSDB-CE) - O reparo é oportuno.
O Sr. Artur da Távola (PSDB-RJ) - Esse filho, pelo que soube, mudou-se para São Paulo e até, se não me engano - talvez o Senador José Serra tenha alguma lembrança -, candidatou-se naquele Estado a algum cargo eletivo. Inclusive seu nome é Juarez Távora Filho.
O SR. LÚCIO ALCÂNTARA (PSDB-CE) - Interessante. No convite havia apenas o nome da viúva, Nair Belisário Távora. Eu não sabia que ele tinha filhos. Aliás, a família Távora teve uma participação muito importante na política brasileira. Joaquim Távora foi um revolucionário precocemente desaparecido; Manoel do Nascimento Fernandes Távora, irmão de Juarez Távora, foi Senador e interventor no Ceará, e seu filho, Virgílio Távora, sobrinho de Juarez Távora, foi Senador por dois mandatos e por duas vezes foi Governador do Ceará. É uma família ilustre que participou da vida pública brasileira.
Ao fim de toda essa luta, com todo o desdobramento da economia, da política, da vida brasileira, o que foi feito dos ideais que eles defenderam?. Será que a política muda muito? Esses homens não mudaram. Os dois, por acaso, mantiveram os seus ideais, suas convicções até morrer. Todavia, o País mudou, e estamos vendo que muitas dessas idéias defendidas por um ou por outro terminaram sendo incorporadas à nossa vida política e econômica.
Sr. Presidente, com este pronunciamento, quero registrar esse fato e lembrar a figura desses idealistas - estou falando desses dois, cujos centenários de nascimento transcorrem agora - , evocar aqui a saga desses homens que, ao longo de anos, deram alguns deles sua própria vida em defesa dos seus ideais e das suas propostas para um Brasil melhor, moderno, grande e desenvolvido como todos nós queremos.
Muito obrigado.