Autor
Benedita da Silva (PT - Partido dos Trabalhadores/RJ)
Data
15/04/1998
Casa
Senado Federal 
Tipo
Para discursar 

A SRª BENEDITA DA SILVA (Bloco/PT-RJ. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão da oradora.) - Sr. Presidente, Srªs. e Srs. Senadores, hoje, 15 de abril, completa um mês de ausência do nosso grande cantor popular Tim Maia. Na ocasião do seu falecimento, não pude prestar-lhe a homenagem devida por encontrar-me, com a CPI do Trabalho Infantil, em Fortaleza, acompanhando a sua Presidente, Senadora Marluce Pinto, e a Senadora Emilia Fernandes.

No momento daquela notícia, chorei. Chorei pela perda e por não poder estar no Rio de Janeiro no dia 15 de março, quando perdi um grande e íntimo amigo, que dedicava muito respeito ao meu esposo, o qual teve a oportunidade de produzir-lhe alguns shows, e sempre dizia: "Tim Maia tem uma qualidade -- pode faltar a qualquer show onde tenha que ganhar dinheiro, mas duvido que falte a um show beneficente".

Esse era Tim Maia, nosso notável cantor e compositor da Música Popular Brasileira, esse negritude senhor, considerado o "síndico" da MPB. Tim Maia trouxe a consciência da raça negra no seu jeito, na sua música para a MPB muito antes de outros cantores pelos quais também tenho a mesma consideração e que merecem nosso carinho, como Jorge Benjor e Gilberto Gil. Sem dúvida, Tim Maia foi um dos principais, entre esses nomes, para que o surgimento da Música Popular Brasileira pudesse conter esse calor, essa emoção, esse jeito, esse perfil afro-brasileiro

Ele era um vocalista excepcional. Acompanhei cada uma de suas gravações. Não posso deixar de lembrar que tinha a preocupação de pegar o seu carro - pois, pelo fato de a minha casa ser no alto da colina, ele não conseguia subir a pé - e ir ao Chapéu Mangueira para que ouvíssemos sua música antes mesmo do lançamento do CD. Era com esse carinho que nos tratava.

Era também um crítico. Criticou-me pelo fato de não ter desfilado na Escola Caprichosos de Pilares junto com Pelé, quando a escola prestava-nos uma homenagem. Esse "inventor" da música popular brasileira misturou os sons. Marcou com um ritmo dos Estados Unidos e marcou com um ritmo do Brasil um momento muito singular da música popular brasileira. Inventou no balanço negro classificado como soul music. Na verdade, o seu grande estilo era um estilo carioca de fazer música. 

Ele era capaz de fazer músicas que outros não fariam. No momento em que eu soube de seu falecimento, uma dessas músicas soava em meus ouvidos - na oportunidade até comentei isso com as Senadoras Marluce Pinto e Emilia Fernandes. Trata-se da música "Me dê motivo", composta por Tim, enquanto ele estava internado numa clínica. Era o dia de ir embora, havia recebido alta, mas não saiu de lá sem antes fazer um discurso. Começou o discurso falando que as funcionárias da clínica trabalhavam demais, que aquilo parecia uma escravidão. Depois comentou a forma com que se vestiam, dizendo que aquele uniforme lembrava-lhe o romance Casa-Grande & Senzala. Por fim reclamou da assistência prestada na clínica, ameaçando falar com o Vereador Antônio Pitanga e com a Senadora Benedita da Silva. O discurso estava sendo gravado. Depois de alguns protestos, deu alguns passos e cantou: "Tô indo embora".

Dias depois ele me mandou a fita. Ao assisti-la, comentei: "Esse Tim é demais, ele é muito louco.

Mas ele era também uma pessoa muito consciente.

Aquele momento ficou em minha memória. Então, no instante em que soube da sua morte, contei essa história e comentei que o Tim era uma pessoa íntima nossa, era amigo da gente e não só porque sempre assistíamos a seus shows.

Ele era interessante. Ele dizia: "Quando eu apareço nos shows, eu arrebento". Ele tinha consciência de seu modo rebelde e sabia que tinha talento.

A Srª Marluce Pinto (PMDB-RR) - V. Exª me permite um aparte?

A SRª BENEDITA DA SILVA (Bloco/PT-RJ) - Concedo o aparte a V. Exª.

A Srª Marluce Pinto (PMDB-RR) - Senadora, ao vê-la na tribuna, recordo-me exatamente da hora em que V. Exª recebeu o telefonema de sua filha, do Rio de Janeiro, comunicando a morte de seu grande amigo Tim Maia. Estávamos em Fortaleza, a serviço da Comissão sobre a Exploração do Trabalho Escravo da Criança. Naquele momento em que V. Exª recebeu o telefonema em seu celular, estávamos na residência da minha mãe. E V. Exª ficou desfigurada. Com muita dor, com muito sentimento, relembrou algumas passagens da vida de seu amigo e, em um determinado momento, não pode conter as lágrimas. E agora eu a vejo na tribuna, contando, muito serenamente, passagens alegres e também passagens difíceis da vida de seu grande amigo cantor Tim Maia. V. Exª relata, com carinho, com amor fraternal, a pessoa que ele foi para a gente carente, o fato de ele nunca ter faltado a um show beneficente, sendo que muitas vezes não compareceu a shows quando ia receber cachê. Senadora Benedita da Silva, quero me congratular com V. Exª pela homenagem que presta a seu grande amigo.

A SRª BENEDITA DA SILVA (Bloco/PT-RJ) - Agradeço o aparte, que também é uma homenagem de V. Exª a essa grande figura que se foi e deixou grandes recordações.

Tim Maia era considerado uma pessoa pirada, mas era bastante lúcido, Senadora. Era muito lúcido, muito consciente. Talvez as pessoas não tenham sabido aproveitar a lucidez de Tim Maia. Eu tive essa oportunidade.

Graças a sua rebeldia, Tim Maia criou um padrão próprio, pôde ser livre, produziu sons que outros talvez não ousassem: bossa-nova, funk, ritmos regionais do Nordeste, samba, tudo na pura intuição, sem nenhuma preocupação de ferir algum estilo. Cancelava shows de última hora. Se aceitassem ou não suas desculpas, pouco importava. E não era irresponsável quando assim agia. Havia sempre uma justificativa para não comparecer. Às vezes dizia estar sendo vítima de uma campanha difamatória movida por um grupo que ele denominava ETA - Exploradores do Talento Alheio. Era assim que falava conosco.

Nós que acompanhamos sua trajetória, ouvimos quando disse que seria político. Ligou para Antônio Pitanga e disse: "Pitanga, quero ser político. O que você acha? Vou entrar nessa. Precisa mudar aquele Congresso. Precisa ter uma representação. Isso não pode ficar assim". Nós falamos: "É bom que você vá".

           Lembro-me do Senador Eduardo Suplicy, que ligou para ele para desejar felicidades. E Pitanga esteve presente no aniversário, quando ele se filiou ao PSB. E, ao filiar-se ao PSB, pensava implantar no Senado Federal brasileiro um novo estilo. Ele queria ser Senador e dizia: "Neste ano de 1998, todo mundo tem que me apoiar. Não quero saber dessa história de partido. Vou me filiar ao PSB e agora é que quero ver se vocês vão ou não me apoiar." Nós dizíamos: "Tim, você é um grande nome. Você é uma pessoa maravilhosa. Quem é que não vai dar o apoio, em que pese termos compromissos partidários? Os seus fãs farão de você um Senador da República."

           Lamento, lamento profundamente, que esse monstro sagrado da música popular brasileira tenha tido tantas dificuldades e tenha partido sem realizar não sei se o seu último sonho, mas um deles: o de ser um Senador da República.

           Em todos os momentos de sua vida, inspirado, ele sempre gravava, interpretava ou compunha algumas de suas músicas. E, como não poderia deixar de ser, ele o fez como uma despedida para nós.

           Não sei se alguém tem esse grande presente, mas Tim Maia deixou para Pitanga e para Benedita da Silva uma fita gravada chamada "Sorriso de Criança". Hoje tive oportunidade de ouvir, mais uma vez, essa fita que me emocionou demais. Quem ouvi-la vai sentir o quanto esse homem era consciente, o quanto pensava neste País; como ele pôde, por intermédio da música, falar de tudo o que debatemos politicamente nesta Casa. Ele comentou até aquilo que temos como prioridade. E um desses temas diz respeito ao discurso do Senador Romeu Tuma, que acabou de prestar sua homenagem à Rede Globo de Televisão pelo seminário que ela patrocinou, em São Paulo, sobre a educação. Pois bem, o Tim Maia tem no seu repertório uma das músicas mais lindas que já ouvi em toda a minha vida e está gravada exatamente nessa fita "Sorriso de Criança". Essa musica fala sobre a educação. Por que educação? Por que estudar? É linda demais!

           Concluo meu pronunciamento deixando no Senado da República do Brasil, mais uma vez, minhas palavras emocionadas de saudade e de agradecimento.

           Agradecimento? Será que ele está me ouvindo? Não, não importa se ele não me ouve. O que importa é que ele "me deu motivo" para estar nesta tribuna.

           Tim, você é o máximo!

           Nosso adeus e nosso carinho nesse um mês de saudade.