Pronunciamento de Lauro Campos em 14/01/1999
Discurso no Senado Federal
ANALISE HISTORICA E CRITICA DO NEOLIBERALISMO GLOBALIZADO, E DA TEORIA KEYNESIANA, A PROPOSITO DA ATUAL CRISE BRASILEIRA. HOMENAGEM AO JOGADOR RAI, QUE AFIRMOU ESTAR O PAIS EM GUERRA CIVIL.
- Autor
- Lauro Campos (PT - Partido dos Trabalhadores/DF)
- Nome completo: Lauro Álvares da Silva Campos
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
POLITICA ECONOMICO FINANCEIRA.:
- ANALISE HISTORICA E CRITICA DO NEOLIBERALISMO GLOBALIZADO, E DA TEORIA KEYNESIANA, A PROPOSITO DA ATUAL CRISE BRASILEIRA. HOMENAGEM AO JOGADOR RAI, QUE AFIRMOU ESTAR O PAIS EM GUERRA CIVIL.
- Aparteantes
- Casildo Maldaner.
- Publicação
- Publicação no DSF de 15/01/1999 - Página 1507
- Assunto
- Outros > POLITICA ECONOMICO FINANCEIRA.
- Indexação
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- ANALISE, EVOLUÇÃO, ECONOMIA, KARL MARX, JOHN MAYNARD KEYNES, ECONOMISTA, GLOBALIZAÇÃO, LIBERALISMO, CAPITALISMO.
- CRITICA, POLITICA ECONOMICO FINANCEIRA, GOVERNO, EXCESSO, TAXAS, JUROS, VALOR, MOEDA, REAL, CAMBIO, PROVOCAÇÃO, FALENCIA, FABRICA, BRASIL, COMPROMETIMENTO, CRESCIMENTO ECONOMICO, PAIS.
- CRITICA, AUMENTO, IMPOSTOS, PROMOÇÃO, GOVERNO FEDERAL, ATENDIMENTO, EXIGENCIA, FUNDO MONETARIO INTERNACIONAL (FMI), NEGOCIAÇÃO, EMPRESTIMO, BRASIL.
- ELOGIO, DECLARAÇÃO, ATLETA PROFISSIONAL, FUTEBOL, REFERENCIA, SITUAÇÃO, CRISE, BRASIL.
O SR. LAURO CAMPOS (Bloco/PT-DF. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, para mim um dos maiores pensadores da humanidade foi Karl Marx. Li quatorze vezes a sua obra principal, O Capital. Não nasci pensando isso do ilustre filósofo alemão, mas, com o transcorrer do tempo e da experiência, tive que me render a ele.
Aos vinte e oito anos de idade, eu tinha feito uma crítica, que a mim parecia altamente satisfatória e da qual até hoje me orgulho, da obra de John Maynard Keynes, o maior economista capitalista deste século. Do meu ponto de vista, a minha crítica me satisfez, não me preocupei nem em publicá-la e só o fiz vinte anos depois de vê-la amadurecer em minhas gavetas, em 1980, sob o título “A Crise da Ideologia Keynesiana”. É esta crise que aqui está agora, instalada no mundo.
O assunto que tomou a minha vida, primordialmente, foi a crise. Porque Marx havia feito uma observação a respeito da crise de 1857, na Alemanha, em que dizia que aquela crise haveria de rachar a cabeça dos alemães e enfiar nelas a dialética: fazer aprender os alemães que, realmente, a prosperidade capitalista leva e desemboca, necessariamente, numa crise. Talvez seja por isso que, agora, no dia 13 de dezembro, uma turma de economistas que se formou em 1968 na Universidade de Brasília, e da qual fui paraninfo, reuniu-se, e cinco ou seis desses alunos me disseram que, em 1968, aprenderam comigo que viria uma crise de sobreacumulação no Japão. Fiquei surpreso com a memória deles. Como é que tinham guardado, durante 30 anos, que eu havia falado, ensinado, em 1968, quando o Japão crescia a 14% ao ano, que esse país iria experimentar uma crise de sobreacumulação.
Naquela ocasião, não sabia que havia uma corrente de economistas japoneses, em que Makoto Itoh era um dos mais importantes, adotava a tese de que uma crise de sobreacumulação de capital rondava o Japão. Eu não sabia que lá no Japão havia pessoas tão identificadas com o meu pensamento.
É natural que a crise, no início, confunda totalmente, liquidando os antigos padrões de pensamento, mostrando, na prática, que aquela ideologia que ensinava certas diretrizes para o Governo já não ativa mais o real, e aquela ideologia que foi louvada e considerada como intocável, durante décadas, havia sido desmoralizada pela crise, tornando-se inútil para mover e conseguir a reprodução do capitalismo, ou em escala nacional ou em escala global.
É natural que o Governo erre, é natural que os tecnocratas formados e moldados com as suas trilhas mentais construídas na era keynesiana, e depois, diante da crise de Keynes, ao invés de ir para frente, ao invés de enfrentar o futuro, ao invés de formular e tentar equacionar as questões de uma fase superior da população, uma fase pós-capitalista, deram marcha à ré. Voltaram a 1873, ano em que, em Viena, na Inglaterra e Lausanne foi construída a ideologia neoliberal. A liberal é de 1776, data em que Adam Smith publicou a sua obra magna, “A Riqueza das Nações”.
Em 1873, na mais prolongada crise do capitalismo, surgiu, de três cabeças situadas nesses pontos da Europa, a ideologia neoliberal. Obviamente, o que ela propunha? Laissez-faire, laissez-passer, tal como Quesnay propôs ao Rei da França, Luís XVI, anteriormente. Acabar com o governo, o governo não deve interferir em nada, porque, de acordo com essa ideologia neoliberal iluminista, existem leis providenciais que serão reveladas e que indicarão aos governos, aos economistas e à sociedade a melhor forma de gerir os seus negócios, administrar a economia, de produzir o nível da produção, o nível de preços. Tudo seria indicado por essas leis, que seriam reveladas desde que não se interferisse no processo, nem através da ação governamental, nem através da ação sobre o sistema monetário, sobre a taxa de juros, nada deveria ser manipulado, administrado.
Assim, o pleno-emprego e o lucro máximo seriam obtidos, de acordo com essas cabeças, desde que não houvesse inflação, não houvesse deflação, não houvesse interferência no comércio internacional, e o Governo não fizesse absolutamente nada.
Pois bem, equilibrar o orçamento é uma proposta de 1873, quando a Inglaterra tinha de gastar para manter o seu exército em escala mundial, conservando o sistema colonial inglês, Cecil Rhodes, os ingleses na Índia e no resto do mundo. De modo que, então, era realmente absurda, já naquela ocasião, essa proposta neoliberal, e em nada ela fez com que a crise fosse resolvida, porque a crise de 1870 perdurou 30 anos. Essas idéias de pleno-emprego automático, de que tudo vai se ajustar, de que uma taxa de juro ideal vai baixar sobre a sociedade, tudo isso já foi desmentido há muito tempo, pela prática.
Em 1929, desmoralizou-se completamente esse sistema ideológico, um desemprego que atingiu 45% da força de trabalho na Alemanha, um desemprego que chegou a 25% nos Estados Unidos, uma explosão na bolsa provocada pela desgovernabilidade da economia. Hitler propôs colocar cobro, colocar limites, agir sobre a economia e impedir que os agiotas - como acontecia naquela ocasião, com a taxa de juros elevadíssima - se beneficiassem, se locupletassem e impedissem o funcionamento do sistema.
Pois bem, o remédio foi o Governo aumentar os seus gastos, uma vez que os empresários não podiam investir numa situação de crise, numa situação de quebradeira generalizada, numa situação em que, só nos Estados Unidos, entre 1930 e 1933, cinco mil bancos foram à falência. Como investir numa situação dessa? Absolutamente impossível. Só um investidor poderia agir: aquele que produzisse o seu próprio dinheiro. Arquivaram o ouro que impedia essa ação estatal. Então, aí, como Keynes afirma, Hitler, a Alemanha, o Estado Totalitário tem grandes afinidades com a tese que proponho para salvar o capitalismo. Salvá-lo como? Aumentando os gastos do Governo, desequilibrando o orçamento e realizando despesas, se possível, no social.
Mas, como Keynes reconhece, duvido que tenhamos conhecido um auge duradouro capaz de levar ao pleno-emprego, exceto durante a guerra. Ele repetiu seis vezes que esses gastos do Governo, estimulando as compras de materiais bélicos, o emprego nos setores bélicos, o emprego de funcionários públicos para aumentar a capacidade de consumo e reativar a atividade econômica. Esse foi o grande remédio, o “ovo de Colombo” que Keynes colocou de pé, o déficit orçamentário. Mas aquilo que é racional no momento - aí está a dialética que nos ensina - torna-se irracional num outro momento.
Esse poder emissor, de acordo com Karl Friedrich Knapp, no seu livro sobre a “Teoria Estatal do Dinheiro”, afirma que Deus sopra no papel a alma, o poder de compra do dinheiro, assim como Deus soprou no pó a alma do homem. Então, o Estado divino, todo poderoso, despótico, totalitário, Keynesiano, bélico, que desenvolve as forças destrutivas, não podendo desenvolver mais as forças produtivas voltadas para o bem-estar da humanidade, passa a desenvolver o seu contrário. A partir daí, o mundo se contaminou com a guerra declarada de Guerra Fria e manteve um auge de prosperidade não muito elevado.
Os Estados Unidos cresceram depois da Segunda Guerra Mundial a 2% ao ano apenas. Greenspan afirma: “Não podemos crescer muito. Cuidado com o aumento, com a valorização dos papéis na Bolsa”. Greenspan sabe que o capitalismo não pode crescer muito, sob pena de entrar numa crise sobre acumulação; de produzir acima da capacidade de consumo da coletividade, de derrubar a taxa de lucro. Quando a Bolsa cai, Greenspan respira aliviado; quando a Bolsa começa a esquentar, ele não dorme, porque sabe que se pode repetir aquilo que aconteceu, por exemplo, em 1870 e em 1929. A Bolsa sobe, os papéis sobem, esquentam-se e explodem.
O que foi, então, sugerido naquela ocasião? Em 1954, os Srs. Friedman e Von Haieck se reuniram na Suíça. Perceberam, então, que era o momento de reafirmar a proposta neoliberal, que o keynesianismo já estava entrando em crise. Portanto, eles ressuscitaram o neoliberalismo. Por isso, eu os chamo de neoliberais, diante da falência do Estado, que havia gasto demais, que havia sustentado guerras, que havia sustentado o pleno emprego, que havia sustentado o lucro dos empresários por meio de doações, por meio de incentivos distintos.
O governo quebrara; o governo que salvara o capitalismo nos anos 30, com os seus gastos, quebrara, entrara em crise. É a crise das finanças públicas. O governo já não podia mais continuar a manter o déficit orçamentário e a cobrir esse déficit com novas emissões, ocasionado um sopro inflacionário. De acordo com Keynes, a inflação é um elixir que ativa a economia. Ativa como? A inflação aumenta os lucros - ótimo para o capital; a inflação aumenta os salários - excelente para o capital; a inflação faz com que a taxa de juros, de acordo com a teoria keynesiana, diminua - ótimo para os investimentos do capital e sua acumulação.
Portanto, como demonstrei em uma tese que comecei a escrever em 1957, a inflação é um remédio perverso; e o capitalismo não pode confessar que é viciado nesse remédio, que esse remédio é necessário à sua vitalização e que a deflação é a pior das situações possíveis, porque deprime os lucros.
Os empresários vendem cada vez a preços mais baixos as suas mercadorias, porque os preços estão caindo. Os trabalhadores têm que ser desempregados; com isso, não produzem o lucro para o capital ou produzem menos, porque estão desempregados devido à situação que se manifesta com a deflação.
Esse Plano Real, ao combater a inflação, errou a dose e levou o Brasil a uma deflação. Não tínhamos mais memória da deflação. Não sabíamos que ela acompanhou todas as crises do capitalismo a partir de 1810 e fez com que essas crises se aprofundassem. Disseram que tínhamos que acabar com a memória da inflação, e acabamos também com a memória da deflação, mas caímos nela, o precipício da deflação. Esse é o único momento em que o poder de compra do dinheiro se eleva. Por exemplo, com R$100, compra-se mais, porque, como as mercadorias estão com preço mais baixo, havendo deflação de 20%, a pessoa pode comprar 20% de mercadorias a mais no mês seguinte.
Porém, com esse processo deflacionário que se instala no Brasil e do qual já não tínhamos mais memória, agravam-se todos os problemas da economia; a taxa de juros tem que subir, já que ela sobe em todas as crises, e o dinheiro fica escasso. Então, paga-se uma taxa maior para se obter o dinheiro emprestado. Este Governo, como tantos outros, eleva a taxa de juros, o que é muito fácil fazer.
O nobre Senador José Fogaça, com quem debati há pouco, tem toda razão ao afirmar que é muito difícil baixar a taxa de juros, mas elevá-la é fácil. Prova é que os nossos tecnocratas passaram a nossa taxa de juros há pouco tempo de 19% para 49%. Isso bloqueia qualquer investimento, pois é impossível investir a uma taxa de juros de 49% ao ano. Disseram que estavam fazendo isso não porque alguma lei os obrigasse, uma lei providencial ou algo parecido. Não. Estavam fazendo isso para impedir que o dinheiro que aqui estava, o dinheiro especulativo internacional, o dinheiro do imperialismo senil que aqui estava nos sugando fosse embora. O que aconteceu? Ao passar para 49% ou 50% a taxa de juros, todos os agentes econômicos e financeiros, a banca internacional, os especuladores internacionais que estavam com o dinheiro parado, aplicado no Brasil, na Bolsa ou nos títulos da dívida pública saíram correndo. Quem paga 49% de juros não tem credibilidade diante do mundo, que paga 4%, 6% ao ano.
Dessa forma, o tiro saiu pela culatra! Ao aumentar a taxa de juros, ao invés de atrair capital estrangeiro e de mantê-lo cevado na especulação nacional, o capital fugiu. Não foi absolutamente nenhuma medida de uma província mineira que fez com que esse capital sumisse do Brasil. Muito antes de Itamar Franco tomar posse, as reservas brasileiras, que chegaram a 82 bilhões, já se haviam escoado e caído para 40 bilhões.
Agora, o Governo propõe um outro desastre para tentar sanar aquele: recompor as reservas brasileiras. Recompô-la como? Aumentando a carga tributária; utilizando a CPMF, que vamos aprovar na semana que vem, como já foi anunciado, e fazendo com que essa alíquota passe para 0,38%. Quer aumentar a contribuição, conforme matéria que aprovamos ontem, na sessão do Congresso Nacional, de vários impostos. Quer-se aumentar a receita de qualquer maneira, até mesmo pinçando recursos dos aposentados e dos funcionários públicos. Arrumaram um bode expiatório para essa situação que não conseguem entender: os funcionários públicos. “Temos que reduzir os seus vencimentos”. “O déficit orçamentário é ocasionado pelos funcionários públicos.”
Na realidade, o Brasil pagou, apenas de encargos da dívida externa, juros e rolagem, em 1998, R$45,965 bilhões. Conseguimos elevar a nossa dívida externa de R$6 bilhões, em 1970; R$ 123 bilhões, em 1990, para R$228 bilhões. Por que subiram tanto assim a nossa dívida, os juros e o serviço da dívida externa? Para manter os preços internos. Para fingir que a inflação tinha sido vencida, o Governo colocou a taxa de câmbio, como reconhece o Presidente Fernando Henrique Cardoso, sobrevalorizada.
Gustavo Franco, que agora se despede, virando as costas ao seu fracasso, é o mesmo do calote de Collor. Naquela ocasião, nos últimos dias antes da eleição, inventou que Lula daria o calote que Collor e ele próprio viriam a aplicar no dia seguinte à posse. Agora, o Sr. Gustavo Franco coloca a taxa de câmbio dessa maneira. Se as suas idéias tivessem vingado e se transformado em prática, poderíamos, com um real do Sr. Gustavo Franco - o deus que soprou no papel o poder do dinheiro -, comprar dois dólares. Nessa proporção, um carro novo chegaria ao Brasil por U$8 mil. Tudo que pudéssemos importar, importaríamos pela metade do preço atual, já altamente reduzido. E reduzido para quê? Para achatar a inflação, para impedir que os preços subissem no mercado brasileiro.
Com isso, obviamente, quebrou-se tudo. O Brasil ficou incapacitado de concorrer com essas mercadorias subsidiadas, compradas pela metade do preço normal. Então, quebraram-se as autopeças, as indústrias de calçados, de tecidos, de porcelana do Paraná. Enfim, houve quebradeira em todos os setores, obviamente, em virtude daquilo que Fernando Henrique Cardoso declarou no dia 19 de junho, páginas 9, 10 e 11 da Gazeta Mercantil: “O Sr. Gustavo Franco exagerou na taxa de câmbio”. Mas esse exagero perdurou por quatro anos. Por que não o corrigiram? Deixaram o Brasil quebrar e, com isso, o desemprego aumentar, a agricultura se arrebentar, os exportadores ficarem manietados, impedidos de aumentar as exportações porque recebiam apenas um real por dólar exportado.
O Sr. Casildo Maldaner (PMDB-SC) - Permite-me V. Exª um aparte, Senador Lauro Campos?
O SR. LAURO CAMPOS (Bloco/PT-DF) - Com muito prazer, nobre Senador Casildo Maldaner, concedo-lhe um aparte.
O Sr. Casildo Maldaner (PMDB-SC) - Venho acompanhando o desenho que V. Exª realiza - como professor de Economia da UnB, a qual tive a honra de freqüentar - da evolução econômica mundial, a partir da Idade Média e até os tempos atuais. Quando V. Exª fala sobre a globalização, percebo que nossas mercadorias não puderam competir quando se abriu o País para o mundo, pois nossas empresas e indústrias não estavam preparadas para isso. Dessa forma, deixamos de gerar riquezas, houve desemprego, o fechamento de inúmeras fábricas e a nossa agricultura também foi sucateada. Enfim, essa é a realidade e não sei como ela poderá ser corrigida. O País entrou na competição mundial de maneira apressada. É claro que deveríamos participar dessa concorrência, aperfeiçoando nossas empresas e indústrias, mas deveríamos tê-lo feito de maneira moderada. Digo, muitas vezes, que no meu Estado a corrente elétrica é de 220v, mas se aplicarmos uma corrente de 300v, não há como resistir. As empresas nacionais não resistiram e sucumbiram, em grande parte, à concorrência internacional, devido aos incentivos oferecidos em outros países. Precisamos enfrentar essa situação, pois estamos, na verdade, nas mãos de agiotas mundiais. Os recursos vêm para cá, mas a altos custos. Na semana passada, prenderam dois ou três agiotas em Brasília, que cobravam, principalmente de servidores públicos, de 30 a 50% de juros ao mês.
O SR. LAURO CAMPOS (Bloco/PT-DF) - E não prendem o Governo, que eleva os juros a 50%.
O Sr. Casildo Maldaner (PMDB-SC) - A imprensa publicou a notícia. Nós - os brasileiros, o Governo, o País - encontramo-nos, também, nas mãos dos agiotas. E quem prenderá os agiotas internacionais?
O SR. LAURO CAMPOS (Bloco/PT-DF) - Justamente. (Risos)
O Sr. Casildo Maldaner (PMDB-SC) - Não sei a quem denunciar esse fato, talvez ao FMI. Cito esse acontecimento para ilustrar, em sentido figurado, a posição em que nos encontramos no campo internacional, é claro que em outras proporções. Senador Lauro Campos, conforme V. Exª bem disse, os custos internacionais estão na ordem de 5 a 7%. Talvez pudéssemos buscar recursos externos a esses custos, introduzindo-os diretamente em nossas empresas e reativando a economia. Isso poderia ser feito por meio do BNDES, pois o Governo não teria a credibilidade necessária. Precisamos fazer com que a indústria e a agricultura busquem recursos externos na cotação internacional, oferecendo, em troca, como garantia, títulos recebíveis. Esta é uma contribuição que trago, após acompanhar atentamente o pronunciamento de V. Exª no dia de hoje.
O SR. LAURO CAMPOS (Bloco/PT-DF) - Agradeço a V. Exª, nobre Senador Casildo Maldaner, tanto a atenção de V. Exª quanto a sua interferência e sugestões.
Gostaria de questionar como iremos esperar lá fora se existem 1,2 bilhão de pessoas desempregadas no mundo!. Como vamos procurar imitar lá fora se o modelo imposto ao Brasil, à Argentina e ao México conseguiu fazer reduzir, entre 1976 e 1988, em 86% o salário mínimo dos trabalhadores mexicanos! O trabalhador mexicano, que ganhava R$100 em 1976, hoje recebe R$14. A situação é essa em escala mundial. Se, na China, se paga R$0,80 por dia a um trabalhador, como nós, em um mundo globalizado, poderemos pagar, como se faz na França, US$1.300 como salário mínimo ao trabalhador?
A globalização trouxe à tona todas as contradições. O crescimento do México virá, com o salário correspondente a 14% do que era em 1976. As empresas norte-americanas continuarão a se instalar ali na fronteira para explorar o trabalhador mexicano. É como se a China tivesse se encostado nos Estados Unidos, despejando mercadorias. Eles estão com um ótimo nível de atividade. Só que as empresas norte-americanas mudaram de lá, vieram atrás da exploração e do salário baixo. Basta ir a Nova Iorque ou a Miami para ver como esses mercados se encontram abarrotados de produtos feitos no Sudeste Asiático, em Bangladesh, na China, e, agora, cada vez mais, no infelicitado México.
A situação realmente é global. A crise mostrou que as contradições globalizadas estão agora se somando umas às outras e dificultando realmente que o processo possa percorrer maior caminho.
Raí, o nosso grande jogador de futebol, para mim, hoje, é o príncipe dos sociólogos brasileiros. Ele chegou aqui para fazer investimentos, aplicações em duas escolas e entidades de atenção às crianças, de atenção ao social; doação que ele veio trazer. E o que foi que ele disse? “O Brasil se encontra numa guerra civil e o impressionante é que ninguém percebe”. Os nossos sociólogos dizem que as classes acabaram e já não sabem mais o que está acontecendo; não perceberam que as contradições mudaram de forma. Acabaram com as classes sociais, acabaram com os sindicatos, acabaram com a consciência dos trabalhadores e das classes exploradas. Acabaram com tudo. Pulverizaram a ideologia, prenderam, nos cárceres, a ideologia. E agora, sem liderança política, sem organização social, essa sociedade anômica, como dizia Durkheim, criou a sua forma de protesto, de luta - e de guerra civil, como diz Raí. A guerra, a luta, a contradição da sociedade subiu para os morros, abandonou a organização política, deixou de ser guerrilheira para ser simplesmente miserável. Onze mil e duzentos assaltos ocorreram no mês passado na capital de São Paulo! É isso o que Raí afirma ser a guerra civil. Ela mudou de forma. A pobreza reage nos semáforos, nas paradas de carro, invadindo ônibus, agredindo pedestres e assaltando bancos. E nós ficamos aí - como diz Raí - sem perceber que a luta de classe mudou a forma que vem assumindo - e há bastante tempo digo isso - na sociedade brasileira.
Diante disso, o Governo afirma, por intermédio da mídia, que tudo vai bem no melhor dos mundos. Houve um Orçamento - o Orçamentão - para ganhar a eleição. Depois da eleição, enxugaram o Orçamento. Da proposta orçamentária antiga, retiraram R$5 bilhões do social, depois de assegurada a eleição. Agora, esses pacotes, que não respeitam sequer a miséria em que formos lançados nesta sociedade.
Fernando Henrique Cardoso, há dois anos, em Paris - seu lugar predileto -, afirmou, quando o desemprego na França estava em 11%, que tinha fracassado numa coisa no Brasil: o desemprego, no Brasil, se encontrava num nível elevadíssimo, de 5% ao ano. Vejam só o que Sua Excelência arranjou para criticar a si e ao seu Governo lá na França, que estava com 11% de desemprego e a Espanha com 22%! Disse que fracassara porque o Brasil estava com 5% de desemprego e que talvez subisse um ponto no ano seguinte. Obviamente é uma falsa modéstia, porque uma afirmativa dessas mostrava aos franceses que Sua Excelência era um super-homem, porque havia conseguido reduzir o desemprego para 5%, quando, na Espanha, essa taxa se encontrava em 22%. Quando Sua Excelência faz pouco, ele constrói o mundo. Mas é o mundo da imaginação; é um mundo completamente desgravitado do mundo real; é o mundo da lua; é o mundo da irrealidade virtual.
Então, o que realmente veremos daqui para frente é não apenas o retorno da inflação - inflação que o Governo já começou a desejar quando aumentou o preço do petróleo, da gasolina e derivados, enquanto no resto do mundo o preço do petróleo encontra-se num nível real inferior ao de 1973. O preço do petróleo, no mundo, caindo, e, no Brasil, elevando-se o preço da gasolina. Para quê? Porque o preço da gasolina contamina o preço do transporte e contamina o preço de todas as mercadorias. O Governo, que tanto combateu a inflação, está inflacionando a economia brasileira através do aumento do preço do petróleo, evitando a deflação, que agora eles começaram a perceber que realmente é um desastre maior, uma catástrofe maior do que a própria inflação.
Diante dessa situação, o Governo brasileiro, que já não era mais Governo nacional - nisso, é preciso reconhecer a pequena parcela de culpa do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Sua Excelência não pode ser culpado por um Governo que não está em suas mãos. No Governo brasileiro, a taxa de juros, o volume de emprego, o déficit orçamentário, etc., etc., tudo é controlado de fora. Como escreveu Sua Excelência o Presidente da República, quando era Professor e Pensador, vai-se criando no Brasil o anti-Estado Nacional, esse anti-Estado que doa as empresas estatais, que faz o BNDES emprestar dinheiro para as telefónicas espanholas, para o capital estrangeiro comprar as nossas empresas estatais na bacia das almas com o dinheiro emprestado pelo BNDES. É o patrimônio público, o sangue do trabalhador acumulado durante décadas, o esforço para construirmos esse patrimônio. Tudo é doado e desvalorizado e dizem que quem desvaloriza quer comprar. O Sr. Luiz Carlos Mendonça de Barros desvaloriza para vender.
De modo que, diante desta situação, vemos que, realmente, é pequena a culpa do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Sua Excelência não governa. É o FMI que determina a nossa taxa de câmbio, é o FMI que manda no nosso déficit orçamentário. É o FMI que, em tabela, determina o volume do nosso desemprego. São as forças externas conjugadas, porque o FMI está quebrado mas continua sendo o “órgão” da fala que expressa a voz do dono, a voz do conquistador, a voz do explorador externo.
De modo que, então, diante dessa situação, já não temos mais - parece - o que entregar. E dos US$41 bilhões que o FMI não tinha e não tem para nos emprestar - pediram emprestado e lá fizeram um consórcio dos G-7, os sete países ricos, para nos emprestar US$41 bilhões - o FMI entrou com 4 ou 6 bilhões. Tudo isso que está acontecendo no Brasil, inclusive o aumento da taxa de juros a níveis elevadíssimos, é para o Governo brasileiro conseguir, através do aumento de receita, da reforma tributária que estamos sofrendo, 28 bilhões de reais. O Governo está fazendo tudo isso conosco para conseguir 28 bilhões de reais a mais. Mas essa quantia, se ele doou agora 33 bilhões de reais só para o Banespa? O Estado de São Paulo levou muito mais do que isso, 41 bilhões de dólares pelos quais nos ajoelhamos, quando 41 bilhões de dólares há pouco tempo era brincadeira e o Governo Federal brincava com essa quantia.
Só o Proer levou 20 bilhões de dólares, sem retorno, recebendo de volta somente 1,5 bilhão. Logo, são 20 bilhões de dólares só para os banqueiros. De modo que o dinheiro que sobejava, sobrava, há pouco tempo atrás... Em junho, Sua Excelência, Fernando Henrique Cardoso, disse que dinheiro não iria faltar, quando o jornalista da Gazeta Mercantil, no dia 19 de junho, perguntou-lhe de onde viria tanto dinheiro para cumprir essas metas como as do Brasil em Ação, as do Brasil em eleição, em reeleição. Sua Excelência respondeu que dinheiro não iria faltar e que não se esquecesse de que o petróleo que está no subsolo não pertence à Petrobrás, mas à União, ou seja, venderia as nossas bacias petrolíferas, para fazer a grande festa reeleitoral. A nossa reeleição - um dia os historiadores irão fazer a soma de seu custo - é que aumenta o custo FHC; o custo Brasil, este não existe, pois a sua redução significaria redução de salário. Temos que reduzir o custo Brasil de acordo com a globalização e a sua lógica perversa, até o nível em que o trabalhador brasileiro ganhar R$0,80, valor que ganha um trabalhador chinês ou de Bangladesh.
Na Alemanha já detectaram o problema. Para que este país conseguisse concorrer com o Sudeste Asiático e com a China foi preciso que reduzisse em 27 vezes o salário do trabalhador alemão, ou seja, que cada alemão concordasse em receber em um mês de trabalho, aquilo que ganha, hoje, em um dia. Os 358 mais ricos do mundo açambarcam uma fortuna, uma renda igual ao que ganham 2 bilhões e 500 milhões de seres humanos. Este é o resultado do processo de concentração de capital desvairado, livre. Obviamente que quem conhecer na crise, estará conhecendo nela o seu castigo.
Lembrava o General Golbery do Couto e Silva que a mesma deusa grega da crise era a mesma deusa da distribuição de renda.
O capitalismo parece que só consegue distribuir renda quando vem uma crise e se desemprega os trabalhadores de um lado, e se produz a falência generalizada, e o empobrecimento dos ricos do outro. Reduz a riqueza acumulada através das crises e falências, e assim provoca esta infeliz redistribuição de renda, através do desemprego dos pobres e da falência dos ricos.
Mas os ricos aqui no Brasil custam a falir. Ainda existe dinheiro para o Banco Central pagar 28% de juros ao ano para o dinheiro parado. Por que o dinheiro está parado, está bloqueado? Porque ninguém pode tomar dinheiro emprestado a 49% nem a 32% ao ano. Os comerciantes estão falindo, os exportadores estão estrangulados, então o dinheiro está parado no bancos. O que acontece? O Banco Central criou uma remuneração de 19% e agora passou para 28%, porque ela é indexada, num país em que não tem indexação. A remuneração desse dinheiro parado nos bancos é de 29% ao ano para a sobra de dinheiro dos banqueiros, pois a sociedade está quebrada. Por outro lado, enquanto os inativos, que trabalharam a vida inteira, não têm 29% ao ano - auxílio do Banco Central aos bancos que não emprestam dinheiro, um novo Proer disfarçado que está em ação, favorecendo os banqueiros. E aos pobres inativos? Que tal receber também, como aquele dinheiro que se encontra parado, na sua aposentadoria? A esses o governo oferece a sua justiça, aos banqueiros o pão, aos aposentados e pensionistas a justiça de retirar de sua magra aposentadoria uma maior arrecadação. Mas Sr. Presidente, isso não vai adiantar nada - disse um de seus auxiliares há uma semana, isso aí vai ser um dinheiro insignificante a mais para os cofres públicos. Sua Excelência falou - não, tenho que cobrar dos inativos essa maior contribuição porque assim estou sinalizando ao FMI. Sinalizando o que ao FMI? Sinalizando que somos obedientes, não respeitamos sequer a pele, o osso dos inativos, dos aposentados. Isso é para retirar deles o sangue ralo que escoará para o FMI e os capitalistas internacionais. De modo que faço, no final desse meu pronunciamento, uma homenagem àquele que considero um dos mais sérios cientistas sociais nesse deserto de coragem - a coragem não desertou do Brasil: Raí, que afirmou que estamos numa guerra civil e que ninguém percebe isso, é o meu homenageado de hoje.