Pronunciamento de Pedro Simon em 10/01/1997
Discurso no Senado Federal
IMPORTANCIA DA CONVENÇÃO NACIONAL DO PMDB, A REALIZAR-SE NO PROXIMO DOMINGO, ONDE S.EXA. MANIFESTAR-SE-A, CASO QUESTIONADO, FAVORAVELMENTE AO PLEBISCITO PARA A REELEIÇÃO. RETRATO HISTORICO DO PMDB NO RIO GRANDE DO SUL. COMENTARIOS A MANCHETE DO CORREIO BRAZILIENSE DE HOJE, INTITULADA: 'PLANALTO MONTA OPERAÇÃO DE GUERRA FAVORAVEL A REELEIÇÃO'. PUBLICAÇÃO NO JORNAL FOLHA DE S.PAULO DE EDITORIAL DEFENDENDO O PLEBISCITO.
- Autor
- Pedro Simon (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/RS)
- Nome completo: Pedro Jorge Simon
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
POLITICA PARTIDARIA. REFORMA CONSTITUCIONAL.:
- IMPORTANCIA DA CONVENÇÃO NACIONAL DO PMDB, A REALIZAR-SE NO PROXIMO DOMINGO, ONDE S.EXA. MANIFESTAR-SE-A, CASO QUESTIONADO, FAVORAVELMENTE AO PLEBISCITO PARA A REELEIÇÃO. RETRATO HISTORICO DO PMDB NO RIO GRANDE DO SUL. COMENTARIOS A MANCHETE DO CORREIO BRAZILIENSE DE HOJE, INTITULADA: 'PLANALTO MONTA OPERAÇÃO DE GUERRA FAVORAVEL A REELEIÇÃO'. PUBLICAÇÃO NO JORNAL FOLHA DE S.PAULO DE EDITORIAL DEFENDENDO O PLEBISCITO.
- Aparteantes
- Epitácio Cafeteira, Francisco Escórcio.
- Publicação
- Publicação no DSF de 11/01/1997 - Página 186
- Assunto
- Outros > POLITICA PARTIDARIA. REFORMA CONSTITUCIONAL.
- Indexação
-
- ANALISE, HISTORIA, PARTIDO POLITICO, PARTIDO DO MOVIMENTO DEMOCRATICO BRASILEIRO (PMDB), ESPECIFICAÇÃO, REPRESENTAÇÃO PARTIDARIA, MOVIMENTO DEMOCRATICO BRASILEIRO (MDB), ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL (RS), DEFESA, PARTICIPAÇÃO, MEMBROS, DECISÃO, POLITICA.
- ELOGIO, CONVENÇÃO NACIONAL, PARTIDO POLITICO, PARTIDO DO MOVIMENTO DEMOCRATICO BRASILEIRO (PMDB), DECISÃO, POSIÇÃO, REELEIÇÃO.
- COMENTARIO, ARTIGO DE IMPRENSA, CRITICA, REELEIÇÃO, ANALISE, ORADOR, ATUAÇÃO, IMPRENSA.
- DEFESA, PLEBISCITO, DEFINIÇÃO, REELEIÇÃO, CRITICA, POLITICA PARTIDARIA, NEGOCIAÇÃO, FAVORECIMENTO, TROCA, APOIO, PRESIDENTE DA REPUBLICA.
O SR. PEDRO SIMON (PMDB-RS. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, domingo o PMDB realiza uma convenção nacional.
É interessante que, em véspera de uma decisão importante do Congresso Nacional, o PMDB tome a decisão de reunir a sua convenção. Acho isso bom. É democrático um partido ouvir as suas bases na hora de tomar as grandes decisões.
Essa não é a tradição do Brasil. No Brasil, a tradição é a do político mineiro Benedito Valadares. Quando havia uma decisão importante a ser tomada em Minas Gerais, os seus companheiros de partido lhe perguntavam: "Governador, o senhor não vai reunir o partido para decidir?" Ele, então, respondia: "Como é que vou reunir o partido se ainda não tenho a decisão?"
Na verdade, o que impera nos partidos políticos brasileiros é isso. Quando muito, há os amigos do rei: presidente, uma liderança aqui, uma figura mais proeminente ali e essas pessoas são chamadas ao gabinete, onde se reúnem, discutem, analisam e tomam uma decisão.
No Rio Grande do Sul, quando criamos o MDB, contra a ditadura, contra o arbítrio, na hora mais difícil de se organizar um partido político no País, tomamos uma série de iniciativas prioritárias e inéditas na nossa História.
Perdoe-me, Sr. Presidente, não é vaidade, mas quando coloco essa questão quero apenas restabelecer a análise histórica.
Criamos, no MDB do Rio Grande do Sul, um partido de vida permanente. Além do Diretório Estadual, criamos a Associação dos Prefeitos do MDB, a Associação dos Vereadores do MDB, o setor jovem, o setor trabalhista, o setor das lideranças intelectuais, e passamos a fazer reuniões permanentes, seminários e simpósios.
Foi no Rio Grande do Sul que, pela primeira vez no País, se fez um seminário sobre como deveria ser a administração de um prefeito do MDB. Muita gente do Brasil compareceu. E muitos prefeitos que fizeram história na administração pública de municípios do Brasil já disseram que, naquele seminário, conheceram e compreenderam as principais idéias relacionadas ao assunto. Foi o primeiro de uma série de seminários.
Também no Rio Grande do Sul lançamos a "Carta de Porto Alegre". Foi o primeiro seminário, o primeiro congresso nacional de um partido brasileiro - fora os comunistas, na clandestinidade -, que se reuniu com o objetivo de estabelecer uma tomada de posição com relação ao regime, no caso da ditadura militar. Lá estiveram os líderes de todo o Brasil e lá, pela primeira vez, falamos nas palavras que eram consideradas crime contra a segurança: convocação de Assembléia Nacional Constituinte, eleição direta e anistia.
Essas teses foram absorvidas e, justiça seja feita, os partidos políticos podem ter mil defeitos e mil equívocos hoje, mas têm a sua fundação, fazem as suas reuniões e estabelecem os seus debates. Mas reunirem-se para decidir o fundamental, jamais. Daí a surpresa de o PMDB se reunir numa convenção nacional para decidir isso. Afinal, é uma tese nova: deve ou não haver reeleição?
O Partido vai se reunir. Acho que será uma reunião democrática e tranqüila.
O PMDB venceu aquela fase de turbulência que viveu desde que, lamentavelmente, com o meu protesto - a palavra é esta -, se afastou o Dr. Ulysses Guimarães da Presidência do Partido para que o Sr. Quércia a assumisse. Esse foi um erro histórico, cruel e ridículo que o Partido cometeu.
À época, eu dizia para os companheiros que o Dr. Ulysses possuía muitas qualidades, mas também muitos defeitos. Um dos equívocos do Dr. Ulysses era seu sonho total e permanente de chegar à Presidência da República, o que o fazia agir na Presidência do Partido tendo esse objetivo.
Eu, que fui seu primeiro Vice-Presidente, Secretário-Geral, seu grande amigo, dizia-lhe pessoalmente que se fosse mais independente, mais aberto, se deixasse as coisas fluírem, seria um candidato mais natural do que se se assustasse com a candidatura do Montoro, do Covas, do Teotônio ou do Dr. Tancredo.
Derrotado o Dr. Ulysses, eleito o Sr. Collor - uma derrota fragorosa, diga-se de passagem -, o sonho da Presidência desapareceu da sua cabeça, e só ficou o Dr. Ulysses com suas qualidades.
Naquele momento, quando o Dr. Ulysses poderia assumir o comando da vida partidária para "costurar" o Partido rumo ao futuro, o Sr. Quércia e o os seus seguidores houveram por bem retirá-lo da Presidência. De lá para cá, o PMDB viveu horas muito difíceis: o Sr. Quércia Presidente, o Sr. Quércia candidato à Presidência da República, o Sr. Quércia com uma votação inexpressiva. Basta que se diga que em primeiro lugar ficou o Sr. Fernando Henrique Cardoso, em segundo, o Lula, e, em terceiro, o Sr. Enéas. E até nessa disputa entre o nosso atual Presidente e o seu concorrente, o Paes de Andrade e o nosso querido Deputado paulista, o Partido viveu horas complicadas, mas parece que nesta convenção se chegou a um entendimento. Espera-se a presença praticamente da unanimidade dos convencionais e os Governadores, que na última convenção sequer compareceram, estão coordenando sua vinda.
Eu, que em sinal de protesto não compareci à convenção que elegeu o Sr. Quércia Presidente do Partido e também não compareci à que o elegeu candidato à Presidência, uma vez que já declarara, abertamente, não votar em sua candidatura por questões de consciência - votei no Sr. Fernando Henrique Cardoso -, também estarei presente a essa convenção.
Acho que o PMDB vai debater, discutir, analisar e é importante a sua palavra. Não tenho nenhuma ação, nenhuma presença e não tenho falado com ninguém que vá à convenção, nem do Rio Grande do Sul, mas pretendo dizer, se me perguntarem, que a saída para o debate que estamos vivendo é a realização de um plebiscito. Penso que quem quer ser amigo do Presidente Fernando Henrique Cardoso deve alertá-lo. Olha, Senhor Presidente, o Líder do Governo no Congresso Nacional leu, aqui, ontem, um editorial de capa do Correio Braziliense favorável à reeleição. Tudo bem! Mas a manchete de capa do Correio Braziliense de hoje diz que o Governo montou um QG de guerra a favor da reeleição: "Planalto monta operação de guerra favorável à reeleição". O mesmo Correio Braziliense, que ontem dizia no seu editorial de capa ser favorável à reeleição, hoje aparece com uma manchete de capa dizendo que o Governo está montando uma operação de guerra no Palácio do Planalto, visando à reeleição.
Houve uma época, durante muitos anos, em que eu mantive uma convivência praticamente diária com o Presidente da República, desde que Sua Excelência chegou do exílio até o momento em que assumiu a Presidência da República. Por isso, aconselharia ao Senhor Presidente que lesse com tranqüilidade os jornais de hoje.
Está ali o Senador Cafeteira, Líder do PPB, e quero aproveitar para discordar da frase que está no Jornal de Brasília, dizendo que o que aconteceu na Casa da Dinda é coisa muito pequena em comparação com o que está acontecendo na operação reeleição. Na verdade, o Senador Cafeteira não é o autor dessa frase. Essa frase pertence a um artigo, que não li, do Sr. Carlos Heitor Cony, publicado na Folha de S. Paulo de ontem. Aliás, esse artigo foi cruel, duro, drástico, chamando a atenção do Presidente da República para o fato e fazendo uma comparação entre a operação da Casa da Dinda, no Governo do Sr. Collor, e o que o Senhor Fernando Henrique Cardoso está fazendo na operação reeleição.
O Sr. Epitacio Cafeteira - Permite-me V. Exª um aparte?
O SR. PEDRO SIMON - Com prazer.
O Sr. Epitacio Cafeteira - V. Exª, depois de dizer que o Jornal de Brasília atribuiu a mim a frase, retificou a informação, dizendo ser de autoria do Sr. Carlos Heitor Cony. Mas, nobre Senador, quero chamar a atenção desta Casa para o fato de que o Congresso está mais ou menos na condição de um marisco, ou seja, na luta do mar contra o rochedo. O mesmo jornal que faz a apologia da reeleição, O Globo, que, pela televisão, pelo rádio, faz a mídia da reeleição, chega até a transformar aquele programa de domingo, o até então Domingão do Faustão em "Domingão da Reeleição" - todo domingo o Faustão leva um artista de renome, que canta todo o seu repertório, preenchendo todo o seu programa, e depois dá uma entrevista dizendo ser favorável à reeleição. Por isso, digo que estamos como o marisco. Se se pegar O Globo de hoje, que é o jornal da reeleição, poderemos ver a charge do Erthal - e uma imagem vale mais que mil palavras -, mostrando o Presidente Fernando Henrique Cardoso ao lado de um cofre com a pergunta: "Sabe qual é o segredo para aprovar a reeleição?" E Sua Excelência mesmo responde: "Rodar seis para a direita; três para a esquerda e dois para a direita". Ou seja, é a idéia que leva ao povo da compra de votos, que ofende menos o Presidente e mais o Congresso Nacional. E não vejo ninguém reclamar. Penso que isso aumenta a falta de credibilidade existente em relação ao Congresso Nacional. Parece que estamos todos interessados em não perder o voto. Não existe o interesse em marcar posição, a não ser se for em favor do Governo. Não resta dúvida de que o Presidente Fernando Henrique Cardoso é um homem muito simpático, muito educado, muito polido, mas o poder de sedução que todo o mundo lhe atribui só foi descoberto depois que Sua Excelência se tornou Presidente da República. Quando Sua Excelência era Senador não tinha esse poder de sedução - pelo menos ninguém notou. Poder de sedução, nobre Senador Pedro Simon, é o poder. O poder é afrodisíaco, é sedutor; o poder, neste Presidencialismo imperialista, tudo pode. Muito obrigado a V. Exª pelo aparte.
O SR. PEDRO SIMON - Agradeço o aparte de V. Exª.
O Congresso brasileiro vive um momento difícil. Como disse o nobre Senador Epitacio Cafeteira, a grande imprensa está numa mídia permanente. Justiça seja feita à Folha de S. Paulo, que publicou um editorial defendendo o plebiscito. A regra geral é o que diz o Senador Epitacio Cafeteira: a grande imprensa está na campanha da reeleição naquele mesmo esquema a que já me referi, Sr. Presidente. Quando a mídia se reúne em torno de uma tese ela é perigosa. Foi assim em 1954, quando derrubaram Getúlio Vargas. A mídia era um mar de lama e de corrupção. Foi assim em 1964, quando derrubaram João Goulart. Foi assim durante vinte anos para manter a Revolução. Foi assim para manter e defender o "milagre brasileiro" e para dizer que a Arena era o maior partido do Ocidente. É verdade que, naquela época, em plena ditadura, o decreto-lei era infinitamente menos ditatorial do que a medida provisória. Mas nenhum general teve a coragem de falar em reeleição. Eles tinham tudo. Inclusive o General Ernesto Geisel fechou o Congresso Nacional e editou a Emenda Provisória nº 1, em 1969, que era uma nova Constituição, criando até o senador biônico. Naquela oportunidade, S. Exª poderia ter inserido a reeleição. Mas não o fez.
Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, criamos o instituto da reeleição e o Congresso está praticamente sem poder. As manchetes estão dizendo que nunca, na história do Palácio da Alvorada, houve um afluxo de tantos Parlamentares, Senadores e Deputados, como ocorreu nesta semana. Foi um recorde de atendimento a Parlamentares no Palácio da Alvorada na terça, quarta e quinta-feira.
Volto a fazer um apelo ao Senhor Fernando Henrique Cardoso. Sua Excelência tem condições para ser um estadista, pois está fazendo um bom governo - justiça lhe seja feita - com a inflação a níveis baixos. Sua Excelência tem condições de fazer um governo que lhe permita governar com a sociedade brasileira; tem condições de, ao invés de levar a reeleição na base do cofre, como diz o Senador Epitacio Cafeteira, levar um plebiscito aberto e limpo com a consagração popular. Faço esse apelo dramático ao Senhor Presidente da República.
Sr. Presidente, Sua Excelência está cercado de pessoas que V. Exª sabe quem são, assim como eu, que precisam se valorizar, prestar serviço, fazendo almoços e jantares na casa do Presidente da Câmara e em outros lugares para aparecerem e serem os senhores da reeleição, serem os homens do Presidente, para que Sua Excelência possa ficar devendo.
Imagine, Sr. Presidente, se for votada até o fim do mês na Câmara dos Deputados, passando por cima de tudo, a emenda da reeleição, o Presidente ficará eternamente grato ao atual Presidente da Câmara, terá que agradecer a S. Exª um crédito inestimável. Depois, se no mês que vem o pai do Presidente da Câmara se eleger Presidente do Senado e conduzir o processo no Senado, aí, sim, teremos uma família imperial, onde o filho garantiu a reeleição na Câmara e o pai no Senado, e mais o Ministro tal, e mais o Presidente do partido tal. São as pessoas que estão ali que serão, praticamente, os donos do Presidente.
Sr. Presidente, o Presidente da República não precisa disso. Ele tem qualidades, ele tem mérito, tem credibilidade popular. Ele foi a Gramado, no Rio Grande do Sul, a Canelas, a Nova Petrópolis, a recepção foi espetacular. Fui lá uma semana depois e vi as pessoas falando da simpatia do Presidente, do otimismo com que encaram a figura do Presidente. Sua Excelência não precisa do Sr. Antonio Carlos, nem do filho do Sr. Antonio Carlos, tampouco do Ministro Serjão para costurarem, para trocarem cargos, para oferecerem favores em troca daquilo que Sua Excelência pode...
O SR. PRESIDENTE (Jefferson Péres) - O tempo de V. Exª está esgotado, Senador.
O SR. PEDRO SIMON - Já encerro, Sr. Presidente. Mas temos tão pouca gente aqui! São só 09h30min. Até pensei que estava preenchendo o tempo para ver se chegava mais alguém para falar. Quando alguém levantar a mão para falar, eu encerrarei.
O Presidente da República poderá ganhar a reeleição com grandeza. Sua Excelência está nas vésperas de ou ser um estadista ou ser o homem da operação de guerra que montaram no Palácio do Planalto.
A vida é estranha. O Sr. Cafeteira está equivocado. O Sr. Fernando Henrique Cardoso era homem com todas as condições de chegar ao poder. Era para ser Ministro de Tancredo. O Dr.Ulysses e eu defendíamos o seu nome para Ministro. E até acho que seria, mas o Dr. Tancredo não queria colocar no Ministério da Fazenda alguém de São Paulo, em hipótese alguma.
O Sr. Epitacio Cafeteira - Nobre Senador, fiz um elogio ao Presidente Fernando Henrique Cardoso, dizendo que é um homem educado, cortês, lhano, conversa conosco sorrindo, e V. Exª, para afirmar as qualidades do Presidente Fernando Henrique Cardoso, diz que o Senador Epitacio Cafeteira está equivocado. Por quê?
O SR. PEDRO SIMON - V. Exª está cometendo um equívoco...
O SR. PRESIDENTE (Jefferson Péres) - Senador Epitacio Cafeteira, V. Exª esqueceu de solicitar o aparte ao orador.
O Sr. Epitacio Cafeteira - Nobre Presidente, o Senador Pedro Simon e eu já estamos acostumados a entrar no discurso um do outro a qualquer hora. Isso já é praxe. Já nem pedimos apartes, apenas participamos do pronunciamento.
O SR. PEDRO SIMON - V. Exª está cometendo um equívoco que também cometo muitas vezes: deu o aparte antes do tempo.
V. Exª falou no poder de sedução e eu estou dizendo que nem sempre foi assim. O poder de sedução não valeu com o Dr. Tancredo, quando ele sairia Ministro e não saiu. E não saiu porque o Dr. Tancredo não queria como Ministro da Fazenda, como já disse, alguém de São Paulo. Em hipótese nenhuma! Aliás, vi duas pessoas fazerem isso: ele e o Sr.Itamar Franco que, no início do governo, não queria também Ministro da Fazenda vindo de São Paulo. Terminou o Sr. Fernando Henrique não saindo Ministro.
Aí, no Governo do Sarney, quando nós que éramos Ministros saímos para ser candidatos a Governador, imaginou-se que o Fernando seria aproveitado no Ministério do Sarney.
No Ministério do Dr. Tancredo, era o Itamaraty, e ele ia ser Ministro das Relações Exteriores. De repente, São Paulo indica o Setúbal para Ministro da Fazenda. Eu convivia na intimidade do Dr. Tancredo e ele dizia: "Eu não posso fazer duas agressões a São Paulo. São Paulo indicou o Setúbal como Ministro da Fazenda. O que eu vou fazer? Vou colocar o Setúbal nas Relações Exteriores". Quer dizer, cumpriu 50%. Não dá para se dizer que ele não atendeu à indicação dos empresários de São Paulo. Atendeu, só que não o colocou no Ministério da Fazenda. Aí o Fernando Henrique pagou a conta.
Ele esperava ser Ministro das Relações Exteriores do Sr. José Sarney. Ele era Líder do Governo nesta Casa - Líder do Governo José Sarney - e todos nós achávamos que ele seria o Ministro. De repente, o Sr. Sarney - e o Sr. Sarney é assim mesmo - tirou um amigo pessoal, que era o Sr. Abreu Sodré, e, para surpresa de todos - ninguém imaginava - o colocou como Ministro das Relações Exteriores. Aí o Senador Fernando Henrique rompeu com o Sarney. São célebres as frases do Fernando Henrique em relação ao Sarney. Quando o então Presidente viajava para São Paulo, ele dizia: "A crise foi para São Paulo". Quando o Sarney viajava para uma cidade no exterior, o Fernando Henrique dizia: "A crise está em Portugal". E o Presidente Fernando Henrique foi acre com o Sr. Sarney na questão dos cinco anos. Foi o Fernando Henrique, o Covas e os integrantes do hoje PSDB que afirmaram ter o Presidente José Sarney lutado para aumentar um ano do seu mandato, para ter cinco anos, o que não é verdade. O Sarney lutou para perder um e não perder dois.
Seria bom que o Sr. Fernando Henrique lesse os seus discursos e as manchetes dos jornais da época em que o Congresso votou os cinco anos; lesse quando surgiu a frase "é dando que se recebe". Seria importante que o Presidente rememorasse tudo isso.
O Sr. Epitacio Cafeteira - V. Exª me permite um aparte? Gostaria de entrar pela porta da frente, já que o nosso Presidente pede para que eu assim o faça. V. Exª me permite um aparte rápido?
O SR. PRESIDENTE (Jefferson Péres) - Agora é a porta de trás mesmo, porque o orador já ultrapassou em cinco minutos o tempo regimental.
O Sr. Epitacio Cafeteira - Mas o Senador é tão sedutor. Sexta-feira, Sr. Presidente, é uma espécie de terapia de grupo para nós que aqui ficamos no Senado Federal. E somos poucos!
O SR. PRESIDENTE (Jefferson Péres) - Mas seja curto na sua terapia.
O Sr. Epitacio Cafeteira - Nobre Senador Pedro Simon, ainda há pouco falei que o poder de sedução do poder é muito grande. Todo mundo sabe que tenho um adversário que não me trata como um adversário, mas como um inimigo, que é o Presidente da Casa. Este, sim, tem poder de sedução. Com poder ou sem poder, S. Exª tem poder de sedução, e é fácil enumerar. O então Deputado Sarney era da Bossa Nova na época do Jango; veio a Revolução e S. Exª passou a ser o candidato da Revolução no Maranhão, enquanto toda a Bossa Nova foi cassada. Aí saiu do Governo, veio a eleição e presidiu o partido da Revolução até o seu término ou quase término. Passou, então, para o PFL, foi ser Vice de Tancredo e acabou sendo Presidente. Fernando Collor foi eleito e disse que iria receber a faixa e prendê-lo, assim que o mesmo deixasse o cargo. V. Exª se lembra disso. Ele recebeu a faixa e, dias depois, foi para São José do Pericumã visitar o ex-Presidente José Sarney, dando-lhe todos os postos. Quando veio o impeachment, o Presidente da República Itamar Franco - que tinha sido aqui o Presidente da CPI da Corrupção contra o Senador José Sarney - passou a tê-lo como seu homem de confiança. À época da última eleição, S. Exª disse que só se pronunciaria no segundo turno. Não houve segundo turno, mas o Senador José Sarney continua a ser o homem forte de Fernando Henrique Cardoso. Isso é que é poder de sedução, Senador Pedro Simon. Mesmo sem poder, consegue sempre seduzir. Esta declaração que faço não é no sentido de dizer que me rendo a essa sedução. Fui muito castigado e continuo sendo pelo jornal de S. Exª. Não estou procurando ser seduzido; apenas quero mostrar o que é sedução: é o sujeito conseguir conquistar o que deseja quando está por baixo, e não quando está sentado na cadeira de Presidente da República, com uma caneta que escreve o que ele quer e um Diário Oficial para publicar o que escreveu. Muito obrigado a V. Exª.
O Sr. Francisco Escórcio - Senador Pedro Simon, conceda-me um aparte, por favor?
O SR. PRESIDENTE (Jefferson Péres) - Senador Pedro Simon, já fui benevolente com o Senador Epitacio Cafeteira e não poderei deixar de sê-lo com o Senador Francisco Escórcio.
Apenas pediria que, em seguida, V. Exª concluísse o seu pronunciamento.
O SR. PEDRO SIMON - V. Exª e eu estamos à margem disso. Houve um aparte com relação ao Senador José Sarney e haverá outro no mesmo sentido.
Tem V. Exª o aparte, Senador Francisco Escórcio.
O SR. PRESIDENTE (Jefferson Péres) - Senador Francisco Escórcio, V. Exª tem o direito de apartear o orador; se for apartear o aparteante, será melhor pedir cinco minutos de tempo para uma explicação pessoal.
O Sr. Francisco Escórcio - Não se trata disso, Sr. Presidente. Falarei sobre o tema que está sendo desenvolvido. Talvez a palavra "sedutor" não seja a mais adequada para se dizer do Presidente José Sarney. No meu modo de ver, a palavra mais adequada é "competente". O Presidente José Sarney tem sido competente. Um homem que faz uso do diálogo e tem mostrado isso à Nação; um homem que tinha seis anos de Governo e abriu mão de um ano, é um homem competente. Estamos vendo isso. V. Exª, Senador Epitacio Cafeteira, é quem pode dizer que competente é Maluf. Eu entendo que é o Presidente José Sarney. Muito obrigado.
O SR. PEDRO SIMON - Aliás, V. Exª e seu colega ao lado são dois exemplos da competência do Presidente José Sarney.
Apenas quero dizer que o Presidente Fernando Henrique Cardoso tem as qualidades, mas se esforçou para chegar onde chegou; e chegou pelas qualidades. Encontrou um Presidente, o Sr. Itamar Franco, que viu as suas qualidades e deu-lhe a oportunidade. E Sua Excelência tem condições de se transformar num grande Presidente e passar para a História deste País. O apelo que faço é no sentido de que não jogue fora essa oportunidade.
Pediria a V. Exª, Sr. Presidente, que é amigo do Presidente da República, que solicite à sua assessoria que providencie uns recortes de jornal da época da votação do mandato de cinco anos para o Presidente José Sarney, que conseguiu obtê-los. Poderemos observar que houve dois "Sarneys": o Sarney do Plano Cruzado, o Sarney da luta, e o Sarney dos cinco anos, quando a máquina, quando rádios e televisões teriam sido oferecidos em troca dos votos pelos cinco anos. Aquilo foi um carimbo em cima do Presidente José Sarney, embora seja uma injustiça. Dizem que ele brigou por mais um ano, o que é mentira; ele lutou para perder apenas um, e não dois anos. Mesmo assim, não se livrou mais daquela pecha.
Se o Presidente Fernando Henrique ler as manchetes daquela época e ler as manchetes de hoje, de todos os jornais, verá que o preço a pagar é muito caro. Não se trata apenas disso. Até entenderia que o Presidente dissesse: é um preço caro, mas eu pago. Getúlio Vargas fechou o Congresso em 1937 para ficar no poder. Mas Sua Excelência não precisa pagar. Se houvesse apenas uma alternativa - ou ganho a reeleição agora, ou não tenho mais chance -, eu aceitaria que se submetesse ao desgaste. Mas não se trata disso. Ou Sua Excelência vai para o desgaste agora ou sai consagrado pelo voto popular numa consulta plebiscitária. É isso que se está pedindo, para o Presidente não violentar as regras. Uma Constituinte disse "não", uma Assembléia revisora disse "não", e o Congresso, convocado extraordinariamente, numa sessão extraordinária, vai votar a reeleição.
Acredito que o PPB não irá ganhar no Supremo; duvido que o Supremo tenha coragem de pronunciar-se favoravelmente ao PPB.
Sr. Presidente, é estranho. O que é convocação extraordinária? Convocação extraordinária é aquela feita para votar o que é extraordinariamente importante para ser votado. Será que a reeleição não pode esperar pelo dia 15 de fevereiro? Tem de ser votada em sessão extraordinária? Ou será que tem de ser votada em sessão extraordinária porque o atual Presidente da Câmara tem de ser o condutor do processo? S. Exª tem que conduzir e tem que ser o herói. O herói, lá, o filho, e o herói, aqui, o pai, no Senado Federal.
Sr. Fernando Henrique, se Vossa Excelência seguir por esse caminho irá se arrepender, e amanhã haverá de lamentar o equívoco cometido.
Obrigado pela tolerância, Sr. Presidente.