Discurso no Senado Federal

IMPORTANCIA DO DEBATE, NO CONGRESSO NACIONAL, SOBRE OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO.

Autor
Pedro Simon (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/RS)
Nome completo: Pedro Jorge Simon
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
TELECOMUNICAÇÃO. HOMENAGEM.:
  • IMPORTANCIA DO DEBATE, NO CONGRESSO NACIONAL, SOBRE OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO.
Aparteantes
Heloísa Helena, Luiz Estevão.
Publicação
Publicação no DSF de 23/03/1999 - Página 6052
Assunto
Outros > TELECOMUNICAÇÃO. HOMENAGEM.
Indexação
  • DEFESA, AUMENTO, DEBATE, MEIOS DE COMUNICAÇÃO, CONGRESSO NACIONAL, AMBITO, INFLUENCIA, FORMAÇÃO, CRIANÇA, UTILIZAÇÃO, RADIO, TELEVISÃO, CAMPANHA, ESCLARECIMENTOS, POPULAÇÃO.
  • DEFESA, CRIAÇÃO, SUBCOMISSÃO, COMISSÃO DE EDUCAÇÃO, SENADO, CONTINUAÇÃO, ESTUDO, RELACIONAMENTO, MEIOS DE COMUNICAÇÃO, SOCIEDADE, ESPECIFICAÇÃO, PROGRAMAÇÃO, RADIO, TELEVISÃO.
  • CRITICA, IMPUNIDADE, PODER ECONOMICO, BRASIL, DEFESA, PUNIÇÃO, RESPONSAVEL, ERRO, MEMBROS, LEGISLATIVO, EXECUTIVO, JUDICIARIO, NECESSIDADE, INVESTIMENTO, ETICA, FORMAÇÃO, JUVENTUDE.
  • ELOGIO, ROBERTO SATURNINO, SENADOR, ESTADO DO RIO DE JANEIRO (RJ), EXERCICIO, PRESIDENCIA, SESSÃO.

O SR. PEDRO SIMON (PMDB-RS. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, ocupo esta tribuna voltando a um tema que me tem apaixonado: a omissão atual, a ação futura necessária do Congresso Nacional no debate sobre os meios de comunicação.  

Não há dúvida alguma de que o Brasil tem em seu rádio e basicamente em sua televisão um dos setores mais modernos e respeitados — inclusive, tecnicamente, é um dos mais avançados do mundo. No que se refere à TV Globo , por exemplo, suas novelas e minisséries são de primeiríssima grandeza. É difícil encontrar algo realmente superior no que tange à técnica, à qualidade e ao significado.  

Mas a tese que defendo é a de que este Congresso Nacional deve entender o seu papel. Depreendemos que, tal como está inscrito na Constituição, o Constituinte brasileiro compreendeu a importância do significado do rádio e da televisão, determinando aos setores de comunicação, concessionários de serviço público, a responsabilidade no que tange a uma série de fatores na formação da sociedade, da personalidade da gente brasileira. Isso me parece absolutamente lógico. O Congresso Nacional debate permanentemente a família, a sociedade, a educação, a saúde, a Igreja. Discute-se a família porque a criança se forma no meio da família, porque a personalidade do indivíduo começa na família. Discute-se a escola, porque a escola é que instrui, é que forma a criança, o cidadão.  

Já está provado que, muito mais do que a família, muito mais do que a Igreja e do que a escola, a cabeça da criança é feita basicamente pela televisão. É muito maior o número de horas que uma criança passa na frente da televisão do que no convívio da casa, da escola, da Igreja. Então, se estamos aqui, na Câmara e no Senado, debatendo e discutindo normalmente a questão da educação como prioritária; se discutimos constantemente regras, leis e projetos que orientam e estimulam a educação, a escola; se estamos aqui permanentemente discutindo a formação da família, do lar, a formação de lares que existem ou não de direito, apenas de fato; se estamos preocupados com uma infinidades de questões que envolvem a nossa mocidade, como podemos pensar e não olhar, não atentar àquela que se chama rádio e televisão no que tange a nossa responsabilidade?  

Parece-me que é uma questão da mais absoluta prioridade no Brasil. Não vejo fórmula pela qual possamos alcançar grandes propostas, grandes idéias, aprofundar, melhorar o conhecimento do nosso povo, a não ser utilizando o rádio e a televisão. Algumas campanhas de orientação de saúde, uma simples publicidade, que é água com açúcar e que pode evitar o mais sério, tem um significado muito sério e muito importante na vida de uma criança.  

Defendo isso com garra. Vejo até que há por parte dos proprietários, dos dirigentes de rádio e televisão um desejo em acertar. Mas vejo também uma irresponsabilidade da classe política em cumprir a sua parte. Não há a preocupação em buscar um caminho, em relação ao qual tenhamos a coragem de manter uma atuação permanente e constante nesse setor.  

Há dois anos, presidi, aqui na Casa, uma Comissão Especial que debateu longamente a questão da televisão, inclusive publicando um livro de cerca de 800 páginas. Esse livro foi mais para orientar e esclarecer, uma espécie de vade mecum para as pessoas que se interessam pela matéria. Nele, elas podem conhecer a lei, o estudo, e podem localizar, na biblioteca ou em qualquer local, o compêndio em que a matéria é tratada.  

Mas a primeira proposta da Comissão que presidimos foi a de criar aqui na Casa - não digo uma Comissão Permanente, porque são tão poucos os Senadores e tantos os assuntos, que seria difícil -, na Comissão de Educação, uma subcomissão permanente com a responsabilidade de, rotineiramente, não de forma extraordinária, não por um determinado período, mas permanentemente, tratar do debate e da discussão do rádio e da televisão.  

Enumerei, ao apresentar a proposta, algumas das finalidades da Comissão: propiciar o debate acerca do papel dos meios de comunicação eletrônicos no País, podendo para tanto realizar audiências públicas com entidades da sociedade, bem como solicitar depoimentos de qualquer autoridade, cidadão, nos termos dos incisos tais; promover a interação do Senado Federal com órgãos do Poder Executivo e entidades da sociedade civil que, pela natureza de suas atividades, possam contribuir para o debate sobre a comunicação de massas do nosso País; promover a interação do Senado Federal com as entidades representativas das emissoras de rádio e televisão, de modo a estabelecer constante diálogo entre produtores e consumidores nas programações veiculadas; apreciar programas, planos e políticas governamentais instituídos para o setor de comunicação de massas no País; receber reclamações e avaliar sugestões da sociedade quanto à programação de rádio e televisão, especialmente no que diz respeito ao atendimento no disposto do art. 221 da Constituição Federal; realizar e dar publicidade a estudos e pesquisas que versem sobre os assuntos compreendidos da Constituição Federal; propor ao Plenário da Comissão de Educação medidas legislativas resultantes do estudo de avaliação nos termos dessas atribuições.  

Sr. Presidente, estaremos dando um passo tremendamente importante para sanear uma lacuna absolutamente incompreensível, qual seja, a ausência total do Poder Legislativo no que tange às comunicações.  

Discursos, debates, comissões especiais, leis, propostas, temos permanentemente. É evidente que essa matéria, a cada dia, é debatida na Casa do Congresso, mas assim como as Comissões de Saúde, do Trabalho, da Agricultura, de Educação, de Assuntos Sociais, etc., deveríamos ter um órgão com a missão específica de tratar do problema da comunicação, da programação, no que diz respeito à formação da sociedade e do indivíduo. Isso, a meu ver, é necessário em um país do tamanho do Brasil, de dimensões continentais, com tantas diferenças regionais e com as grandes diferenças sociais e econômicas na sua população. Antevejo o amanhã, Sr. Presidente.  

O que o Ministro Paulo Renato Souza fez no ano retrasado foi o início – e não sei até que ponto o seu projeto foi ou não aprovado amplamente na prática. Porém, no momento em que S. Exª enviou um aparelho de televisão, enviou também a possibilidade da transmissão de aulas para todo o Brasil, com os melhores professores orientando os alunos por intermédio do videocassete. Imagino que, daqui a um par de anos, com a televisão a cabo e uma pequena antena conseguiremos sintonizar um canal de televisão no meio da Floresta Amazônica. Estou a imaginar daqui a quanto tempo assistiremos aulas pela televisão, via satélite, dadas pelos melhores professores e instrutores do Brasil em todos os colégios e escolas brasileiras. Não tenho nenhuma dúvida de que problemas como educação, saúde, problemas básicos de nossa sociedade, através da televisão interativa serão beneficiados. Haverá a possibilidade de ampliar ao infinito a capacidade de avançar rumo às zonas geograficamente mais insípidas, mais difíceis, mais complicadas e economicamente mais atrasadas. Creio que tal interação terá um significado muito importante.  

Não entro no debate porque não é o momento de saber como deve ou não ser feito e quais os melhores programas, mas também não passa pela minha cabeça fazer censura ou qualquer coisa semelhante. Não passa pela minha cabeça censurar ou fazer qualquer coisa semelhante. Deus me livre. Pagou-se um preço muito caro por isso. Não me passa pela cabeça ter uma determinação no sentido de dizer qual vai ser, como vai ser e o que vai ser a programação dessa ou daquela emissora de televisão. Não se faz isso nos colégios; na escola, damos orientação, mas cada universidade tem o seu currículo; cada escola tem a sua maneira de orientar. Como não se faz isso na religião; cada religião tem o seu culto e tem a sua maneira de defender a sua espiritualidade. Mas defendo a possibilidade de nos aprofundarmos naquilo que para mim é fundamental: uma criança que às vezes não tem nada que lhe garanta no lar – porque muitas vezes o lar já não é mais lar, é um ponto de encontro. Em primeiro lugar, quantos são aqueles que não conhecem os próprios pais? Quantos são aqueles que conhecem a mãe, mas não conhecem o pai? Quantos são aqueles que conhecem o pai e a mãe, mas os dois saem de madrugada, enquanto a criança está dormindo, e voltam de madrugada, enquanto a criança está dormindo, porque uma é doméstica e o outro é operário, e, lá no Rio de Janeiro, por exemplo, moram num subúrbio e levam duas horas para chegar em casa? Quantos são aqueles que podem se instruir na escola mas pouca é a educação que recebem? Mesmo junto à classe pobre: muitas vezes, vemos que não têm água, não têm absolutamente nada, mas lá está o aparelhinho de rádio e, quase sempre, a televisão.  

Por isso, Sr. Presidente, defender essa matéria, discuti-la, aprofundá-la e esclarecê-la, parece-me uma responsabilidade, uma obrigação do Congresso Nacional. Mas é natural que o proprietário de uma rádio ou de uma televisão busque o melhor, como é também natural, na lei de mercado, que se busque também o lucro e a audiência. E muitas vezes a audiência fornecida pelo Ibope é a que determina os programas que ficam ou saem do ar. Perguntei para os especialistas: por que não há mais programas como o "Sítio do Pica-Pau Amarelo", que informa e educa? Praticamente era o que mais educava uma criança. Havia ali a velhinha, o Pedrinho, a Emília e o Sítio do Pica-Pau Amarelo. A resposta foi singela: tratava-se de um programa muito caro. Aos poucos, o concorrente colocou um programa de desenhos, de cantorias, etc. e ficou provado que aquele outro programa de custo 2 ganhava em audiência desse programa de custo 98. Então, saiu o programa Sítio do Pica-Pau Amarelo e entrou um programa com uma menina bonitinha brincando com as crianças e apresentando os desenhos, diga-se de passagem, de maior significado e de maior formação, substituindo aquele programa.

 

Ora, Sr. Presidente, não pode ser apenas o Ibope que orienta a determinação de um programa. Entretanto, se eu fosse dono de uma televisão, se quisesse anunciantes e se tivesse concorrentes, é claro que me orientaria pelo Ibope. Assim, se não for estabelecida uma orientação que deve ser seguida por todas as televisões, o proprietário se guiará pela lei de mercado e, guiando-se por ela, terá de ver qual o rendimento que pode ter, qual a resposta do público, qual a audiência que está tendo, porque, de acordo com ela, poderá cobrar mais ou menos pela publicidade.  

Sendo assim, não há que acusar os proprietários de televisão, porque estão buscando o melhor Ibope. É preciso que haja uma orientação, que todos tenham de seguir determinadas normas.  

Parece que melhorou, mas houve um momento em que o Ibope foi colocado em segundo lugar, porque em primeiro estava o 0900. As ligações para o 0900, para participar dos sorteios de automóveis e de outros prêmios, eram mais importantes que o próprio Ibope. Às vezes, o lucro dos telefonemas era maior que o lucro da publicidade.  

Em um programa de 45 minutos, ganhava-se mais nos telefonemas para o sorteio do carro do que na publicidade inerente ao programa. Essas coisas ocorrem enquanto estamos aqui discutindo se devemos ou não liberar os cassinos. De repente, ligamos a televisão e um cassino entra em sua casa. Essas questões têm de ser discutidas com serenidade, com tranqüilidade, com coragem, mas sem ousadia, sem provocação. Ninguém tem o mínimo interesse de fazer uma provocação desnecessária, não reconhecendo a importância, o significado, o peso dos proprietários de rádio e de televisão. Devemos respeitá-los, mas não devemos ter medo de dizer o que precisa ser dito. Não podemos desrespeitar nossa consciência a ponto de deixarmos de debater o que deve ser debatido. Se não tivesse um filho de quatro anos, apesar da minha idade, talvez não pensasse sobre tais coisas. Meu filho mais velho hoje já está formado. Quando mais jovem, vivi em uma época difícil. Durante o regime militar, corria todo o tempo e não tinha o tempo de que disponho atualmente para ver determinadas coisas que acontecem. Vendo isso, dou-me conta da importância que temos na conscientização da nossa gente, do nosso povo.  

Quando vejo o abandono a que se relega a imensidão da sociedade brasileira, quando vejo a despreocupação com que se fala de colégios que têm turnos de uma ou duas horas, quando vejo a despreocupação com a formação das consciências, penso em nossa responsabilidade. Se analisarmos os equívocos que nossa sociedade cometeu ao longo dos 500 anos que vamos festejar, se analisarmos a nossa sociedade e compará-la com outras, verificaremos que a grande verdade, a verdade absoluta é que faltou ao Brasil as grandes decisões nas horas exatas.  

Tenho tido uma luta muito grande no Congresso contra o que chamo de impunidade. Há vinte anos venho dizendo nesta Casa que neste país só vão para a cadeia os ladrões de galinha. As elites brasileiras não se preocupam com a responsabilidade que têm.  

Quando vejo o Presidente desta Casa afirmar que vai divulgar uma série de fatos relacionados a um Poder, pergunto: e daí? Podemos citar a mesma quantidade de fatos semelhantes a esses, ou até mais, que ocorrem no Poder Legislativo ou no Poder Executivo. O mesmo podemos fazer em relação à classe dirigente, aos industriais, aos empresários, ou a qualquer pessoa importante neste País. E não acontece nada, Sr. Presidente!  

Não podemos de repente apenas levantar a voz e apontar os erros de A, B ou C. Na minha opinião, temos que atuar em dois ângulos: primeiro, é preciso formar a personalidade do jovem, mostrando-lhe os valores éticos, sociais e morais dignos da sociedade; segundo, é preciso punir quem errou, seja Senador, Presidente da República, membro do Judiciário ou Governador. Devemos punir quem deve ser punido. No momento em que isso acontecer, as pessoas vão verificar que as leis são para valer.  

Sr. Presidente, logo que o novo Código de Trânsito entrou em vigor - parecia que as punições seriam maiores -, em Porto Alegre as infrações diminuíram em 90%. Não sei como está agora, porque não se sabe se a lei é para valer ou se é para não ser aplicada.  

O Sr. Luiz Estevão (PMDB-DF) - V. Exª concede-me um aparte?  

O SR. PEDRO SIMON (PMDB-RS) - Pois não, Senador.  

O Sr. Luiz Estevão (PMDB-DF) - Nobre Colega, Senador Pedro Simon, pedi a V. Exª a oportunidade de aparteá-lo por reconhecer, mais uma vez, em seu pronunciamento imensa pertinência com relação a um problema fundamental do mundo de hoje. Realmente, com a aceleração do processo de comunicação, estamos vivendo em um mundo em transformação, que V. Exª diagnostica com grande precisão. Cada vez mais os meios de comunicação, notadamente a televisão e o rádio, exercem papel fundamental na formação dos nossos jovens não só no Brasil, mas em todo o mundo. Portanto, a discussão que V. Exª traz a este plenário é muito oportuna. Em outros países, essa questão é debatida não apenas pelo Poder Legislativo, mas principalmente pela sociedade. As sociedades fazem um controle efetivo da programação de televisão, rádio e até de cinema. Essas sociedades estão acostumadas a uma participação maior, participação essa que infelizmente o povo brasileiro, por ter vivido vinte e um anos à margem do processo democrático, de certa forma, desaprendeu como fazer. É muito importante que ouçamos o chamamento de V. Exª e partamos para essa participação efetiva por meio do Poder Legislativo e, principalmente, de todos os cidadãos brasileiros. Não podemos permitir que o mais extraordinário avanço do nosso século, que oferece a possibilidade de educar pessoas à distância, de informar, de fazer dos meios de comunicação um modelo de aperfeiçoamento da sociedade, seja desvirtuado e, em vez de aperfeiçoar, desvirtue a formação dos nossos jovens. Parabéns a V. Exª. Quero dizer que modestamente, no meu trabalho como Senador que se inicia com este mandato, pretendo cerrar fileiras com V. Exª, para que possamos direcionar os meios de comunicação para a formação da nossa juventude. Muito obrigado.  

O SR. PEDRO SIMON (PMDB-RS) - Agradeço a V. Exª. Digo que V. Exª tem razão quando insiste que essa responsabilidade não é apenas do Congresso, e sim de toda a sociedade. V. Exª está absolutamente certo.  

É evidente que a sociedade deve debater, deve discutir. Há alguns dias participei da TV Comunitária de Brasília e fiquei impressionado com as pessoas, com o seu carinho e afeto. Não sei se eles têm audiência, mas estão tentando fazer uma televisão voltada para Brasília. Evidentemente, a sociedade tem de participar, tem de estar presente. Para tanto, é preciso um caminho. Falamos, por exemplo, na possibilidade de inserir um ombudsman na televisão, como já o tem a Folha de S. Paulo , encarregado de receber e dar respostas aos pedidos de informação, às interrogação feitas.  

No momento em que a sociedade tiver um canal por meio do qual possa debater, discutir, fazer-se presente, vamos entender que esse é o caminho. Quando a sociedade compreender que tem chance de realmente modificar, vai participar.  

Muitos têm se surpreendido. A primeira vez que se levou a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre a uma zona de gente humilde, os músicos relataram que nunca tocaram com tanta emoção, pois era espontânea a alegria daquelas pessoas, que, pasmadas, estavam talvez ouvindo música clássica pela primeira vez, obviamente uma música clássica adaptada. Contudo, não houve quem se levantasse. Disseram-me que nunca, em nenhum lugar daquela vila, nem mesmo na igreja, tinha havido tanto silêncio quanto naquele momento em que ouviam a Orquestra Sinfônica.  

Dizer que só promovemos o programa porque é o que quer a sociedade, é o que quer a nossa gente, ou porque é o que o público D e E querem, não é bem assim. Eles devem ter a chance de melhorar. É claro que, se forem levados ao ar filmes pornô ou assemelhados, termina-se levando essa gente pela maneira de ser. Mas, com alguma oportunidade de serem orientados, esclarecidos, de fazer as coisas de maneira diferente, as coisas serão diferentes.  

Já disse alguém que a grande razão do êxito das novelas brasileiras é que o cidadão sai de casa de madrugada, trabalha, leva uma vida humilde, sacrificada, uma vida que não vale nada e, quando chega em casa, por volta das 20h30min, assiste à novela e se insere em uma segunda realidade, onde ele constrói uma dupla personalidade, indo dormir com a que está vendo, não com aquela do dia que passou. Na hora em que assiste à televisão, quando vê aquele ambiente mais tranqüilo, mais sereno, fica com o personagem que está ali e dorme vivendo essa segunda realidade. Isto dá a ele um sono mais tranqüilo.  

Por outro lado, há outro tipo de programas, como o nosso Ratinho – e não o conheço, diga-se de passagem –, que coloca no ar as coisas mais estranhas, os fatos mais pitorescos, aquilo que é mais bizarro. Assim, ao invés de aquela pessoa ver a novela, aquele mundo bacana, e dormir com aquela realidade, ela vê o marido que cortou a garganta da mulher, o outro que esbofeteou, as pessoas que se bateram, e pensa: "Eu apanho, mas facadas ainda não levei." Assim, ela observa que há uma realidade mais dura que a vivida por ela.  

Não sei se é assim. Quem me revelou esse aspecto foi um psicólogo de massas. Sei apenas que uma coisa ou outra não se torna um bom valor para tal atitude.  

A Srª Heloisa Helena (Bloco/PT-AL) - Permita-me V. Exª um aparte?  

O SR. PEDRO SIMON (PMDB-RS) - Ouço o aparte da nobre Senadora Heloisa Helena.  

A Srª Heloisa Helena (Bloco/PT-AL) - Senador Pedro Simon, quero felicitá-lo pelo pronunciamento. Infelizmente, somos poucos nesta sessão deliberativa de segunda-feira; contudo, não apenas como Senadora, mas como mãe e como cidadã brasileira, desejo agradecer-lhe pela persistência no trato deste assunto. Não tenho dúvida quanto à importância dos adventos tecnológicos na área da comunicação para a formação das pessoas. Da mesma forma, não ignoro que só através do conhecimento é que poderemos ser senhores ou senhoras do nosso próprio destino. Ao conhecer o mundo, podemos criar opções para o relacionamento com este mesmo mundo. Infelizmente, os meios de comunicação - com raríssimas exceções em uma ou outra programação -, em função da nossa omissão enquanto legisladores, não se preocupam com esse assunto. Todavia, há debates, mesmo que pequenos, no seio da sociedade. Existem vários fóruns constituídos, pela própria sociedade, em prol da Democratização dos Meios de Comunicação, para que se possa garantir que estes permaneçam a serviço da sociedade. O que falta é efetivamente o que V. Exª traz a esta Casa nesta tarde. Assim, da mesma forma como o Senador Luiz Estevão, comungo de suas opiniões e me coloco à disposição, como voluntária, para que possamos apresentar os resultados desses debates nesta Casa, que tão pouco tem feito para cumprir o seu papel. Assim, apresentaremos mecanismos concretos e eficazes para que esse advento tecnológico nos proporcione conhecimentos e valores novos à sociedade, já que os atualmente apresentados - cada vez ditos mais modernos - são deploráveis para as normas estabelecidas na vida em coletividade. Isso deve ser feito com a ousadia e com a coragem que o tema exige. Senador Pedro Simon, não acrescento nada ao seu pronunciamento, apenas o felicito como cidadã brasileira.

 

O SR. PEDRO SIMON (PMDB-RS) - Senadora Heloisa Helena, quando V. Exª se pronuncia como mãe, a par da vida pública, deve interpretar, analisar e sentir os dramas que vivemos com os nossos filhos nestes dias. O mundo passa por uma transição geral. Há drogas e violência; as liberdades estão em um momento de consolidação; os costumes mais liberais; a auto-afirmação da mulher; etc. São tantas coisas misturadas que trazem angústia aos pais em relação ao futuro de seus filhos.  

Quanto a saber hoje do drama de um jovem que busca entrar na faculdade, posso dizer-lhe que, outro dia, estava vendo que, no Paraguai, cerca de 500 jovens atravessam a fronteira para estudar onde não se exige a aprovação no exame vestibular, o que não ocorre aqui.  

Se, de um lado, há o drama da pessoa para entrar na faculdade; de outro, há o drama daquele que depende da bolsa de estudo – e saiu daqui agora o nobre Senador por Santa Catarina que nos trouxe o caso dos que se formam como bolsistas e que não têm como pagar imediatamente a bolsa, porque o diploma debaixo do braço tem pouco significado diante do futuro e das perspectivas que ele encontrará pela frente.  

Se isso já é uma realidade hoje, digo a V. Exªs com toda a sinceridade: a meu juízo, temos de começar pelo início da formação da personalidade do cidadão.  

Vejo agora, na Presidência dos trabalhos, V. Exª, Senador Roberto Saturnino. Aproveito a oportunidade para dizer-lhe do carinho, do respeito e da admiração que tenho por V. Exª. Quando cheguei a esta Casa, V. Exª já era Senador, uma grande voz que aprendi a respeitar como Deputado Federal pelo meu Estado. É V. Exª um homem de coragem, um homem de bravura. Nunca me esqueço de que V. Exª saiu magoado do meu partido, que cometeu erros enormes e um deles, que eu nunca consegui entender, foi como deixou ir embora um homem como V. Exª, que saiu magoado porque o Partido não correspondia aos seus desejos, que eram corretos; voltou para casa, desiludido com a vida pública. Depois, quando lhe fizeram um desafio, V. Exª aceitou. Nunca me esqueço do que V. Exª disse: "Eu aceito, porque penso que ir para casa sem protestar não está certo. Saí para protestar". Começando nas pesquisas com 2%, terminou se reelegendo Senador pelo Rio de Janeiro com uma votação extraordinária. Depois de ter sido prefeito e vereador, V. Exª demonstrou que o espírito público, o conhecimento e a fórmula de servir à causa pública independe do cargo, pois com a mesma grandeza com que brilhou no Senado, V. Exª foi da vereança e volta agora a esta Casa. Com muito prazer e para minha alegria, vejo V. Exª na Presidência e digo-lhe, com toda sinceridade, que fica muito bem nesta cadeira e ela assenta a sua personalidade, a sua competência e a sua dignidade.  

Que bom seria se conseguíssemos estabelecer aqui um grande debate em torno dessa matéria, que, como disse bem a nobre Senadora, já existe na sociedade! Eu estaria sendo injusto se não dissesse que vejo que os homens da televisão se preocupam mais com essa matéria do que nós. Não tivemos ainda a conscientização de debater com seriedade, não buscando a manchete, dizendo que esse ou aquele fato foi descoberto. Vejamos tudo com a seriedade que o assunto merece.  

Se tivermos chances de criar essa subcomissão na Comissão de Educação, com a responsabilidade rotineira de debater essa matéria, talvez estejamos lançando a semente de uma grande perspectiva de colheita ética e moral para a nossa sociedade.  

Muito obrigado.  

A Srª Heloisa Helena (Bloco/PT-AL) - Permite-me V. Exª um aparte?  

O SR. PEDRO SIMON (PMDB-RS) - Ouço V. Exª com prazer.  

A Srª Heloisa Helena (Bloco/PT-AL) - Senador Pedro Simon, não poderia deixar V. Exª sair da tribuna sem parabenizar a sua moção ao nosso Presidente da Casa. Esses momentos do Congresso são muito importantes a serem registrados, especialmente o de dois homens públicos que acompanhava, como novata hoje, mas a distância. Como sertaneja que sou, já admirava a capacidade de V. Exªs de dizerem não, de protestarem, de não resmungarem em casa e de estarem nos espaços públicos fazendo o belíssimo e bom combate.  

 

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Este texto não substitui o publicado no DSF de 23/03/1999 - Página 6052