Autor
Pedro Piva (PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira/SP)
Data
15/09/1999
Casa
Senado Federal 
Tipo
Pronunciamento 

O SR. PEDRO PIVA (PSDB - SP. Como Líder. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, é uma pena que não esteja aqui o Senador Renan Calheiros, a quem pedi que comparecesse para ouvir a minha resposta sobre o seu discurso de ontem à tarde.  

Queria dizer a V. Exªs que Política não se faz com o fígado. O exercício da Política se faz com a cabeça, com a razão.  

Essa foi uma grande lição deixada por um dos maiores democratas que este País já conheceu, o nosso saudoso Ulysses Guimarães. Esse exemplo me veio à lembrança ontem, enquanto ouvia, com surpresa, o discurso do nosso companheiro e amigo Renan Calheiros. Eu não conseguia entender como um homem do equilíbrio e sensibilidade do Senador Renan Calheiros podia investir com tamanha fúria contra outro grande democrata brasileiro, o Governador Mário Covas.  

Naquele momento, lembrei a frase de Ulysses Guimarães. Ela significa que o ódio cega e que a razão ilumina.  

Compreendi, então, que o móvel do discurso do nosso Senador por Alagoas era a paixão, não a razão.  

Quero dizer que não é a paixão que me traz à tribuna para responder àquelas acusações de ontem - embora seja difícil não se apaixonar na defesa de um homem público como Mário Covas, por todo o seu passado, por sua trajetória de lutas, por sua biografia de democrata incansável, pela coragem que demonstrou nos momentos mais difíceis da história política deste País, pela integridade que é marca característica de todos os seus passos, reconhecida até mesmo pelos seus mais ferozes adversários.  

Eu dizia que não é com paixão que venho a esta tribuna, porque quero recorrer à razão, a luz que pode clarear os caminhos. Exatamente por isso não pretendo recordar erros que adversários momentâneos tenham cometido no passado. Afinal, eles são manifestação da natureza humana. A única coisa que não devemos fazer é cometer os mesmos erros. Além de revelar falta de inteligência, a reincidência seria também falta de originalidade - pois se há tantos outros erros a serem experimentados, por que repetir os que já cometemos?  

Mas eu venho à tribuna, Srªs e Srs. Senadores, para dizer que o Governador Mário Covas não precisa de ninguém que o defenda. Sua luta pela redemocratização do País, sua biografia inatacável, suas realizações como político e como administrador, sua estatura de homem público, tudo na vida de Mário Covas desenha o perfil de um estadista que prescinde de alguém que fale a seu favor. Quem fala por Covas é o seu passado, é o seu presente, é todo o imenso potencial que o credencia a assumir novas responsabilidades perante o País — e isso tudo o Brasil inteiro conhece de sobra.  

Feita essa ressalva, Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, gostaria apenas de fazer alguns comentários sobre o discurso de ontem. Faço-o em nome da verdade e em respeito ao Estado que represento nesta Casa.  

Apesar de toda a sua pujança, São Paulo sofre os mesmos problemas e as mesmas dificuldades que acometem o País. Falar da pobreza, do desemprego, das questões sociais e econômicas paulistas é falar do Brasil, é falar da imensa herança de injustiças e misérias que nos foi deixada como passivo por séculos de políticas predatórias.  

São homens como Mário Covas que podem ajudar a reescrever essa história cruel. E exatamente por ter um projeto, uma proposta para seu Estado e seu País, é natural que queira eleger seu sucessor, que queira dar prosseguimento ao trabalho que vem sendo realizado. Nenhum político tem o direito de ignorar que esta é a motivação fundamental de todo homem público: a continuidade de uma obra administrativa, de um programa de governo que constrói alicerces sólidos para o futuro.  

Falou-se na perda de uma montadora de automóveis que deixou São Paulo e se transferiu para o Nordeste. Não vejo nada de mais nisso. Nem acho que se deva ficar feliz com episódios desse tipo. Seria ocioso, por exemplo, ficar apregoando que São Paulo é hoje o maior produtor de açúcar do Brasil, condição que até há poucas décadas era de Alagoas. Mais razoável seria aplaudir esse episódio como indicador de que estamos no caminho da redução das desigualdades regionais - única forma de Alagoas e outros Estados mais pobres conquistarem sua autonomia econômica e financeira.  

Todos sabemos, igualmente, que o aplauso e as vaias são manifestações absolutamente democráticas e que o homem público responsável, efetivamente preocupado com o futuro de sua terra, não pode pautar sua conduta pelo aplauso fácil, nem deve ter receio de desafiar interesses poderosos apenas para crescer nos índices de popularidade.  

Mário Covas governou São Paulo por quatro anos e essa gestão mereceu total aprovação popular, com sua reeleição para um segundo mandato. Dispensa, pois, conselhos e julgamentos apressados.  

Para encerrar, Srs. Senadores - não quero polemizar -, gostaria de repetir aqui o que disse o ex-Presidente Juscelino Kubitschek, quando de seu último discurso da tribuna do Senado, ao saber que acabara de ser cassado. Ele pediu desculpas à comunidade internacional por aquele momento infeliz do Brasil, cujo povo não tinha culpa por estar sendo governado por forças obscuras. Neste momento, penso que devemos pedir desculpas ao povo brasileiro pelos excessos que um bom companheiro comete, movido pela emoção - até compreensível -, mas sem o respaldo na verdade dos fatos.  

Muito obrigado, Sr. Presidente.  

 

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