Discurso durante a 17ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

NECESSIDADE DA ADOÇÃO, PELO GOVERNO, DE UMA POLITICA COMERCIAL EXTERNA MAIS AGRESSIVA, QUE GARANTA O INCREMENTO DAS EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS.

Autor
Ney Suassuna (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/PB)
Nome completo: Ney Robinson Suassuna
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
COMERCIO EXTERIOR.:
  • NECESSIDADE DA ADOÇÃO, PELO GOVERNO, DE UMA POLITICA COMERCIAL EXTERNA MAIS AGRESSIVA, QUE GARANTA O INCREMENTO DAS EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS.
Aparteantes
Jefferson Peres, Lúdio Coelho.
Publicação
Publicação no DSF de 02/02/2000 - Página 1442
Assunto
Outros > COMERCIO EXTERIOR.
Indexação
  • COMENTARIO, APREENSÃO, SUPERIORIDADE, DIVIDA EXTERNA, DEFESA, SOLUÇÃO, AUMENTO, EXPORTAÇÃO, PAIS.
  • ANUNCIO, RECEBIMENTO, DELEGAÇÃO, DIPLOMATA, PAIS ESTRANGEIRO, TAIWAN, COMISSÃO DE ASSUNTOS ECONOMICOS, OBJETIVO, REALIZAÇÃO, NEGOCIAÇÃO, POSSIBILIDADE, INVESTIMENTO, PRODUÇÃO, PAIS.
  • APRESENTAÇÃO, PROJETO DE LEI, AUTORIA, ORADOR, PROPOSTA, ACEITAÇÃO, PASSAPORTE, AUTORIZAÇÃO, CIDADÃO, PAIS ESTRANGEIRO, ESPECIFICAÇÃO, RELACIONAMENTO, COMERCIO, BRASIL.

O SR. NEY SUASSUNA (PMDB – PB. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) – Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, a dívida externa do Brasil beira os US$200 bilhões, e sua dívida interna é de cerca de R$400 bilhões. Isso não é preocupante para nós, brasileiros, se conseguirmos manter a economia sob controle e, mais que isso, se conseguirmos aumentar nossas exportações.  

É preciso que, por ano, nossa taxa de exportações seja 10% superior à atual. Se não conseguirmos, vamos ter desconforto em relação à dívida externa, e, com certeza, reflexos na dívida interna, e também índices preocupantes de desemprego. Se exportarmos, o acréscimo de 10% nas exportações também servirá para descongestionar a economia e para gerar empregos, com fortes reflexos, portanto, no campo social.  

Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, sempre que um país compra mais do que exporta, cria um desequilíbrio sério, mas o desequilíbrio principal talvez ocorra na área social: a perda de empregos. O Brasil tem chance de mudar isso, até porque exportamos pouco em comparação com países asiáticos e europeus. E não temos sabido aproveitar as oportunidades.  

Outro dia, desta tribuna, eu dizia que compramos da Argélia U$700 milhões, mas só exportamos para lá US$40 milhões. Compramos petróleo e exportamos umas bobagens, que somam apenas US$40 milhões, o que é desproporcional ao tanto que vendemos.  

No mundo globalizado, onde todos lutam pelo mercado, quem compra US$700 milhões tem poder de barganhar uma parcela maior de vendas. Lutamos para ter quotas no Mercado Comum Europeu e nos Estados Unidos. E esse mercado que tem quotas não é fácil; muitas vezes, no dizer dos paraibanos, "comemos mosca", como aconteceu na exportação de frangos, por exemplo. De repente, quotas nossas foram parar em outros países, que nem participaram do acordo no qual foi feita a divisão das quotas para exportação de frango.  

Exportamos menos carne do que o Uruguai e muito menos do que a Argentina, embora tenhamos um rebanho que deve ser o segundo ou terceiro do mundo. No entanto, não só exportamos pouco como ainda exportamos com preço muito ruim, às vezes metade do preço da tonelada de carne de países como a Austrália, por exemplo.  

Na área de suínos, apenas um país compra os nossos produtos, e a Europa, com a alta defesa dos interesses corporativos europeus, não aceita a divisão do Brasil em regiões – há regiões do Brasil em que não há febre aftosa, brucelose, etc. No entanto, eles generalizam: Brasil; fazem isso como se o Brasil fosse um país pequeno, que não tivesse regiões inteiramente diferenciadas.  

Infelizmente, a nossa diplomacia não está preparada para a guerra econômica que hoje vivemos. Os nossos diplomatas não têm, ainda, a agressividade dos americanos e nem a dos europeus.  

Por essa razão, analisando os dados da nossa economia, a Comissão de Assuntos Econômicos tem feito todo o possível, Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, para melhorar os canais de comércio. E não temos deixado de lado o Itamaraty; pelo contrário, temos convidado o Itamaraty para participar das discussões conosco.  

Dessa forma, tivemos a presença, aqui, dos Embaixadores da Tunísia, Argélia, Marrocos, Líbia, dentre outros. E temos discutido, Sr. Presidente, uma forma de realizar missões comerciais, com dois Senadores da Comissão de Assuntos Econômicos participando dessas missões, que deverão durar 10 ou 12 dias, na busca de novos mercados.  

Um dos mercados importantes para a importação e exportação, com grande potencial, é, com certeza, Taiwan. Hoje, estaremos recebendo, daqui a minutos, uma delegação de cinco parlamentares que estão no Brasil. Neste momento, eles estão sendo recebidos pela Vice-Presidência da Casa, e vão, em seguida, para a Comissão de Assuntos Econômicos. Convido todos os Srs. Senadores para irem lá tomar um chá com esses diplomatas. Eles têm, hoje, US$ 120 bilhões, cash, para aplicar. E todos os Srs. Senadores sabem que a China é opositora direta de Taiwan. Depois de ter incorporado Hong Kong e Macau, a China agora quer incorporar Taiwan. Em Taiwan, existem 122 milhões de pessoas, e lá produzem tanto capital e tantos produtos – ali não há recursos naturais; são quatro ilhas – que já aplicaram, na própria China continental, sua adversária na teoria, US$60 bilhões nos últimos anos.  

Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, para um comerciante de Taiwan entrar na China, basta ter seu passaporte carimbado. Assim, eles aplicam seus recursos naquele país e, depois, vão embora. E assim ocorre nos Estados Unidos, na Itália, na França, em todos os países. O Brasil não mantém relações diplomáticas com Taiwan, apenas relações comerciais. E quando um empresário daquele país quer aplicar seu capital no nosso País, ele tem que ir a um escritório comercial do Brasil em Taiwan e tirar um laissez-passer, enfrentando toda uma burocracia para isso. E, ao sair do Brasil, a Polícia Federal toma o seu laissez-passer e o arquiva. Conseqüentemente, em caso de retorno ao nosso País, ele precisará retirar novo laissez-passer. A China, que é sua inimiga, aceita o passaporte; nós somos mais realistas que o rei, não damos passaporte, apenas o laissez-passer. Por isso, Sr. Presidente, apresentei um projeto propondo que o Brasil aceite o passaporte dos cidadãos de países com quem mantemos relações comerciais.  

Mas essa irracionalidade não pára por aí. No comércio bilateral Líbia-Brasil, já movimentamos US$6 bilhões – hoje, movimentamos algumas centenas de milhares de dólares. Pois bem, a Líbia quer comprar do Brasil carne, frutas, grãos, a linha branca – geladeira, lavadora de roupa, fogão –, mas ainda não restabelecemos completamente o intercâmbio com a Líbia. E os países que nos levaram a essa situação – os Estados Unidos e os países do Mercado Comum Europeu – já fizeram os seus acordos e estão vendendo milhões ou bilhões de dólares para a Líbia. Recentemente, ganharam a concorrência para construir um aqueduto, no valor de US$20 bilhões, obra a que podíamos ter concorrido, mas não o fizemos porque temos uma política de exportação pouco agressiva.  

Sr. Presidente, a Comissão de Assuntos Econômicos tem discutido esse assunto. Já realizamos reuniões com os embaixadores da China, da Líbia e, na semana passada, promovemos uma reunião entre o Embaixador da Líbia e o Presidente da República. Convidamos o chanceler líbio para vir ao Brasil, porque aquele país quer comprar equipamentos complementares, de reposição, de produtos que vendemos para eles no passado. É preciso ter mais velocidade na resolução desse problema. E, dentro desse espírito, estaremos recebendo, em poucos minutos, a Comissão de Taiwan. Criamos, também, o grupo parlamentar de apoio a esse comércio bilateral, porque ele é importante para o Brasil.  

O Sr. Jefferson Péres (Bloco/PDT – AM) – Senador Ney Suassuna, V. Exª me permite um aparte?  

O SR. NEY SUASSUNA (PMDB - PB) – Com muita satisfação ouço V. Exª.  

O Sr. Jefferson Péres (Bloco/PDT – AM) – Senador Ney Suassuna, V. Exª e eu somos membros da Comissão Brasil-Taiwan. Creio que o Brasil não está sabendo explorar suficientemente as relações comerciais e financeiras com Taiwan, um gigante econômico com mais de US$100 bilhões em reserva, um grande investidor. O Governo de Taiwan faz empréstimos, e as empresas taiuanesas, algumas de porte internacional, fazem grandes investimentos fora de seu território. E o Brasil, Senador Ney Suassuna, não intensifica essas relações por medo da China, por entender que isso poderá prejudicar nossas relações comerciais com aquele país. No entanto, o Brasil deveria afirmar sua soberania e independência, intensificando tais relações, independentemente do que pense o governo chinês. Na hipótese remota de cair o nosso intercâmbio comercial com a China, em razão de uma aproximação com Taiwan, não tenham dúvida de que se multiplicaria o comércio com aquele pequeno gigante da Ásia que é Formosa. Meus parabéns, portanto, pelo pronunciamento de V. Exª.  

O SR. NEY SUASSUNA (PMDB - PB) – Muito obrigado, nobre Senador Jefferson Péres.  

Eu até generalizo: tínhamos que ter abertura para todos os mercados. Não consigo entender como é que a Líbia quer comprar 500 pára-brisas para os jipes de combate que vendemos àquele país e nós ainda estamos pensando; quer comprar fragatas e nós estamos pensando; quer que construamos aquedutos e nós estamos pensando; quer comprar produtos de toda a área de alimentos e nós estamos pensando. Eu não entendo como um País que precisa fazer crescer a sua exportação em 10% ao ano pode estar perdendo tempo.  

Portanto, eu gostaria que tivéssemos uma política comercial mais agressiva com os países da área do Pacífico e com os países árabes. Com os africanos é mais difícil, porque eles estão sem liqüidez e, com raras exceções, estão passando por grandes problemas. Porém, há muitas áreas em que poderíamos ser mais agressivos. Dessa forma, estaríamos exportando muito mais do que esses 10% – talvez 20% a 30% – e teríamos, com certeza, uma paz social muito maior porque estaríamos gerando uma grande quantidade de empregos e de divisas, para pagarmos essa conta infame que pesa sobre a cabeça de todos nós.  

O Sr. Lúdio Coelho (PSDB - MS) – Permite-me V. Exª um aparte?  

O SR. NEY SUASSUNA (PMDB - PB) – Senador Lúdio Coelho, V. Exª tem a palavra.  

O Sr. Lúdio Coelho (PSDB - MS) – Senador Ney Suassuna, é importante o pronunciamento de V. Exª. O aumento das exportações brasileiras é essencial à geração de empregos no nosso País. No início do Plano Real, quando se persistiu com a política de supervalorização da moeda, as nossas exportações diminuíram muito em relação ao crescimento do mercado internacional. O volume das exportações brasileiras não cresceu nesse período. Afirmamos sempre que a exportação precisa de tradição, pois não se consegue exportar do dia para a noite. Penso que a estabilização da nossa moeda dará mais confiança ao mercado e desenvolveremos o setor de exportações, desde que o Governo central invista mais recursos nessa área. O Brasil importa, permanentemente, produtos de outros países. Atualmente, importamos muito milho dos Estados Unidos e da Argentina, comprando, às vezes, com um ano de prazo, a juros de 6% ao ano. No entanto, o financiamento da área federal aos exportadores brasileiros é muito pequeno. Quero felicitá-lo, como Presidente da Comissão de Assuntos Econômicos, pelo dinamismo que V. Exª está dando àquela Comissão.

 

O SR. NEY SUASSUNA (PMDB – PB) - Muito obrigado, nobre Senador Lúdio Coelho, essa é a nossa obrigação. Se cada brasileiro, dentro das suas possibilidades, fizer um pouco mais, o País todo, como um somatório, fará muito mais. Se cada um produzir um pouco, o somatório será, com toda certeza, significante.  

E nós, Senadores, temos como ajudar nessa missão, e cobrando, inclusive, da nossa diplomacia e dos nossos Ministérios. Amanhã à noite, a Comissão de Assuntos Econômicos fará um debate com o Ministro Alcides Tápias sobre esses assuntos e pediremos ao Governo uma política mais agressiva na área de exportação.  

Precisamos crescer, e o caminho é a produção de mais alimentos internamente, para que boa parte seja exportada, mas também a produção de bens em geral. E sabemos como fazê-lo. O nosso parque industrial tem capacidade ociosa. Vamos todos, unidos, buscar todas as possibilidades e, com certeza, este não será o País do futuro, mas o País do presente.  

Muito obrigado, Sr. Presidente.  

 


Este texto não substitui o publicado no DSF de 02/02/2000 - Página 1442