Pronunciamento de Sérgio Machado em 13/04/2000
Discurso durante a 35ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal
PERSPECTIVA DE CRESCIMENTO DA ECONOMIA BRASILEIRA EM 4% DO PIB. NECESSIDADE DE REESTRUTURAÇÃO DO TRANSPORTE COMERCIAL AEREO, E DA CRIAÇÃO DA AGENCIA NACIONAL DA AVIAÇÃO COMERCIAL - ANAC.
- Autor
- Sérgio Machado (PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira/CE)
- Nome completo: José Sérgio de Oliveira Machado
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
POLITICA DE TRANSPORTES.:
- PERSPECTIVA DE CRESCIMENTO DA ECONOMIA BRASILEIRA EM 4% DO PIB. NECESSIDADE DE REESTRUTURAÇÃO DO TRANSPORTE COMERCIAL AEREO, E DA CRIAÇÃO DA AGENCIA NACIONAL DA AVIAÇÃO COMERCIAL - ANAC.
- Aparteantes
- Romero Jucá.
- Publicação
- Publicação no DSF de 14/04/2000 - Página 7284
- Assunto
- Outros > POLITICA DE TRANSPORTES.
- Indexação
-
- ANALISE, SITUAÇÃO, CRESCIMENTO, ECONOMIA NACIONAL, OPORTUNIDADE, DEMONSTRAÇÃO, APREENSÃO, CRISE, SETOR, TRANSPORTE AEREO, NATUREZA COMERCIAL, DEFESA, NECESSIDADE, REESTRUTURAÇÃO, RETOMADA, DESENVOLVIMENTO.
- DEFESA, IMPORTANCIA, TRANSPORTE AEREO, SETOR, TURISMO, ECONOMIA, INCENTIVO, PROCESSO, INTEGRAÇÃO, AMBITO NACIONAL, RELAÇÕES INTERNACIONAIS.
- DEFESA, NECESSIDADE, CRIAÇÃO, AGENCIA NACIONAL, AVIAÇÃO CIVIL, REGULAMENTAÇÃO, SETOR, TRANSPORTE AEREO, GARANTIA, CONCORRENCIA, EMPRESA, MELHORIA, QUALIDADE, SERVIÇO, IMPEDIMENTO, MONOPOLIO.
SR. SÉRGIO MACHADO
(PSDB – CE. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) – Sr. Presidente, Srª s e Srs. Senadores, a economia brasileira já decolou rumo aos 4% de crescimento do PIB em 2000, e os indicadores comprovam essa tendência de evolução. As encomendas de bens de capital já aumentaram 12% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com igual período de 1999. O consumo de energia elétrica na indústria registrou crescimento de cerca de 2% em março, contra 1% de fevereiro, e um crescimento de 0,2% sobre o primeiro trimestre do ano passado. A Fiesp está prevendo um crescimento da economia de 6,5% no primeiro quadrimestre de 2000 sobre igual período do ano passado.
Apesar desse quadro econômico francamente favorável, as grandes empresas aéreas nacionais enfrentam, hoje, um dos momentos mais delicados da história do setor no País.
Sr. Presidente, venho a esta tribuna para dizer: ou se faz uma reestruturação do transporte comercial agora, ou corremos o risco de perder uma grande oportunidade de preparar esse setor estratégico para os novos tempos de um mundo globalizado e para a retomada do desenvolvimento.
Trata-se de um setor que emprega diretamente cerca de 35 mil funcionários, além de induzir o crescimento de outros setores da economia. Portanto, merece atenção especial o momento desfavorável que o setor vivencia. É chegada a hora de analisarmos os principais agentes desse setor sob todas as óticas, seus anseios e reclamações, para que juntos procuremos um novo modelo que, se não ideal, pelo menos incentive sua recuperação. Refiro-me ao Governo Federal e ao Poder Legislativo, como agentes reguladores, às empresas aéreas e aos funcionários do setor, como prestadores do serviço, e aos usuários como consumidores finais do setor.
São muitos os estrangulamentos. Os representantes das companhias reclamam que o custo do capital de giro no Brasil chega a 30% ao ano, enquanto nos Estados Unidos é de 4%. E ainda se paga aqui uma das maiores taxas de juros para capital de giro do mundo, atingindo mais de 19% ao ano, valor quase quatro vezes maior do que o cobrado nos Estados Unidos: 5,22%. As fortes oscilações dos preços dos combustíveis, o grande número de impostos, o chamado custo Brasil e os altos custos de algumas características específicas do setor, como as operações de leasing das aeronaves, diminuem muito a margem de lucro e de competição dessas empresas.
Deve-se ter em mente que a indústria do transporte aéreo no Brasil é totalmente dolarizada no que diz respeito às aeronaves, impondo ao setor elevados custos de aquisição, manutenção e financiamento, situação agravada após a liberação do câmbio em janeiro de 1999. A título de comparação, pode-se citar que os custos para aquisição de uma aeronave Boeing 737, por parte de uma empresa brasileira, chegam a 3,5% além da taxa libor, para um prazo de financiamento de 12 anos, enquanto que uma empresa americana paga, por financiamento em 20 anos – vejam a diferença de financiamento, que é muito importante -, apenas 0,19% acima da taxa libor. No que diz respeito ao item seguro de aeronaves, as taxas de juros cobradas no Brasil também excedem as existentes nos Estados Unidos.
Merece também ser destacada a elevada carga tributária existente no Brasil, que onera as companhias nacionais em 35%, contra 7,5% nos EUA e 16% na Europa. Nesse aspecto, acrescente-se ainda que, a partir de janeiro de 2000, passou a incidir imposto de renda sobre as remessas para pagamento de leasing operacional, estipulando-se a alíquota de 15%. Isso deve aumentar ainda mais a carga tributária já existente, haja vista que grande parte das aeronaves, motores e equipamentos de solo são adquiridos no exterior através do leasing operacional.
Os empresários têm procurado soluções ousadas. Especulou-se até na imprensa nacional a possibilidade de fusões. Entretanto, hoje almejam de fato a desregulamentação do setor, algo que poderia internamente diminuir seus gastos em geral com manutenção e com a racionalização dos serviços, por exemplo.
Os trabalhadores também têm as suas reivindicações: revisão dos acordos bilaterais, refinanciamento, diminuição dos preços dos combustíveis, redução das tarifas aeroportuárias, entre outros pontos que seriam levados a um fórum conjunto entre empresas, empregados e Governo.
Apesar das dificuldades, estima-se para o setor um crescimento de 10% somente no mercado interno nos próximos anos.
Chegamos ao esgotamento de um modelo no que diz respeito à normatização, às atuais regras de mercado e à concorrência dos mercados interno e externo. Muito se discute a situação do mercado externo, mas quanto é que representa o volume de faturamento dessa parcela do setor num país continental como o Brasil, mesmo se comparado a outros mercados, como o dos Estados Unidos? Não passa de 20% em relação ao mercado interno, que é de 80%.
O que temos que fazer é estabelecer um novo pacto, completamente diferente de tudo o que foi feito até agora. As conseqüências da regulamentação podem ser sentidas na realidade de graves restrições à concorrência, distorções de diversas ordens, como acordos bilaterais que precisam ser revistos com urgência. Nos Estados Unidos, após a desregulamentação do transporte aéreo, que ocorreu em 1978, o número de passageiros/ano pulou de 320 milhões – número daquela época – para 650 milhões, hoje em dia. Atualmente, os números do mercado nacional apontam para 35 milhões de passageiros/ano, que na minha opinião poderiam ser facilmente duplicados por medidas como a desregulamentação.
É preciso abrir à sociedade essa discussão. Qual é a política de desenvolvimento para o setor que nós queremos? Qual é o mercado que se pretende atingir? Que modelo de aviação comercial pretendemos implantar? Qual é o cliente que pretendemos atender? E devemos garantir a liberdade de mercado e de concorrência para, a partir daí, discutir a nova realidade do transporte aéreo brasileiro, sem nenhum medo, sem preconceito e sem compromissos preestabelecidos com o passado.
Eu, que sou de um Estado do Nordeste, o Ceará, sei da importância do transporte aéreo para setores da economia como o turismo, atualmente uma das atividades econômicas que mais tem se desenvolvido no mundo inteiro. Entre outras potencialidades, o Nordeste do Brasil, bem como outras regiões com economia menos desenvolvida como o Pantanal e a Amazônia, possuem reconhecida vocação para o turismo. Contudo, alguns obstáculos têm impedido um maior desenvolvimento do setor, destacando-se entre eles a limitada oferta de serviços de transporte aéreo para essas regiões.
Hoje, no mercado nacional, dois grandes grupos de consumidores sustentam o atual modelo, com forte desequilíbrio: o viajante de negócios, que representa 70% dos compradores de bilhetes; os turistas, que somam 28%; e os que viajam por outros motivos, que ficam nos restantes 2%. E nunca é demais lembrar que, de cada 10 empregos no mundo, 1 vem do turismo, o que corrobora a afirmação de que atualmente esse setor é o de maior capacidade de gerar empregos na nossa economia. Por essa razão, volto a insistir na importância do turismo e, por conseguinte, dos transportes aéreos para o País. Esse é o grande desafio que nosso País tem pela frente: o de incentivar esses setores.
Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, a situação do setor no Brasil é muito preocupante. Afinal, além de indutor da economia, a aviação civil possui papel fundamental no processo de integração nacional, bem como na integração do País com a América do Sul. O transporte aéreo representa no mundo atual um aliado essencial para as relações comerciais entre países. No que se refere ao relacionamento internacional, deveria haver maior preocupação com o Mercosul. Temos de investir em nossos parceiros do Cone Sul, incentivar acordos regionais e reforçar os laços econômicos que unem essas nações.
Para se ter uma idéia, as quatro grandes empresas norte-americanas já dominam mais da metade do espaço aéreo da América Latina, e, em alguns países, essa hegemonia chega a 100%, transportando 63% dos passageiros de uma maneira global. Em 1990, as companhias brasileiras dominavam 70% do tráfego Brasil-EUA; hoje, dominam apenas 40% da rota. O acordo bilateral entre os dois países prevê 105 vôos semanais para cada país. Os norte-americanos operam todos; o Brasil, apenas a metade. E o avanço estrangeiro continua: em oito anos, os Estados Unidos assinaram acordos com 42 países no mundo.
Não é também segredo a existência de ociosidade de lugares nos aviões em determinados horários de vôos. A taxa de ocupação das aeronaves no mercado nacional limita-se a cerca de 60%. Uma solução para isso seria a flexibilização total de rotas, freqüências e tarifas para o mercado doméstico, desde que fosse garantida a concorrência, não se permitindo o monopólio. Em vários países, possibilitou-se a elevação dos preços de bilhetes para pessoas jurídicas, para aqueles que usam o avião em horários certos. Os horários restantes teriam tarifas mais baixas, aproveitando a ociosidade e estimulando a atividade turística, que será o grande empregador do Brasil, sobretudo no Nordeste e em outras regiões.
O Sr. Romero Jucá (PSDB – RR) – Permite-me V. Exª. um aparte?
O SR. SÉRGIO MACHADO (PSDB – CE) – Concedo um aparte ao Senador Romero Jucá.
O Sr. Romero Jucá (PSDB – RR) – Meu caro Senador Sérgio Machado, V. Exª traz um tema extremamente estratégico e importante para o nosso País. V. Exª trata da crise que se abate sobre a aviação civil comercial brasileira no momento em que se torna público, por meio da imprensa, que todas as quatro grande empresas de aviação brasileira – inclusive a novata TAM, que estava há pouco tempo numa situação melhor por não ter um passivo muito grande – já começam a apresentar prejuízos significantes. As quatro empresas que detêm a condição de transportar, num país continental como o Brasil, a nossa população, apresentam um quadro extremamente preocupante. Os noticiários sobre a Vasp preocupam-me sobremaneira, assim como os 8.500 empregos gerados diretamente pela empresa e o atendimento de rotas, inclusive, estratégicas, para o Norte e para o Centro-Oeste. V. Exª aborda o problema e aponta soluções. O Governo brasileiro precisa resolver o problema, e há um grupo discutindo essa questão no âmbito do Executivo. No Senado, o assunto está sendo tratado na Comissão de Assuntos Econômicos. Já ouvimos algumas autoridades e alguns representantes de empresas, mas é importante que isso seja feito com celeridade. V. Exª demonstrou o avanço das empresas internacionais neste mercado. Se não agirmos com rapidez, em pouco tempo não haverá mais como reestruturar o setor, porque as empresas estarão paralisadas em solo e o mercado estará aberto para a consolidação das empresas internacionais. Parabenizo V. Exª por apontar o direcionamento das soluções, ressaltando a importância de um
mix na questão da modelagem das tarifas para o turismo interno. Esse é um fator decisivo para a alavancagem do turismo interno brasileiro. É urgente o assunto que V. Exª trata com muita propriedade nesta manhã. Parabenizo-o pelo pronunciamento e deixo o alerta para as autoridades principalmente do Governo Federal e da Infraero, que está mudando na próxima semana para se adequar à modelagem da Agência Civil de Aviação Comercial. Temos de agir com rapidez, porque o tempo está passando e a situação está se agravando.
O SR. SÉRGIO MACHADO (PSDB – CE) – Senador Romero Jucá, agradeço o aparte de V. Exª. É exatamente este o problema: temos de pensar na remodelação do setor, tendo em vista seu papel estratégico para o desenvolvimento. Novas regras devem ser estabelecidas, para que possamos cumprir esse papel e atingir esse objetivo, fortalecendo cada vez mais o Brasil no contexto internacional e gerando empregos.
Como a crise é parteira da História, esse é o melhor momento para buscar soluções ousadas. O Governo está estudando a criação de uma agência, nos moldes da Aneel ou da Anatel, para regular o setor. Trata-se da Anac. Defendo que o nome seja mudado de Agência Nacional de Aviação Civil para Aviação Comercial para que não discutamos o que seja militar ou civil, mas sim comercial ou não.
O papel da futura agência deve ser o de garantir a competição entre as empresas, a melhoria da qualidade dos serviços oferecidos e evitar o monopólio. Isto é, estaria a cargo da nova agência o controle e a fiscalização do setor no que diz respeito às suas características socioeconômicas. Entretanto, sugiro que a Anac não incorpore todos os órgãos e todas as atividades inseridos no atual Sistema de Aviação Civil, SAC, e sob o Comando da Aeronáutica. Seria mais prudente a separação de algumas competências.
O controle de tráfego aéreo e navegação, as comunicações aeronáuticas, o treinamento e a formação de pessoal especializado nessa área, a regulamentação técnica, isto é, todo e qualquer controle e fiscalização técnica continuariam a cargo do Comando da Aeronáutica. É fundamental que os aspectos técnicos permaneçam sob a responsabilidade militar, visto que os militares possuem a melhor capacitação disponível para o exercício dessas funções.
Sem sombra de dúvida, considero temerário que atividades dessa natureza, que implicam diretamente a segurança dos usuários, não sejam executadas pelos profissionais que possuem maior conhecimento no setor, até porque têm cumprido, com total êxito, tal missão. Basta ver que o índice de acidente na aviação comercial brasileira é o segundo mais baixo do mundo.
Temos também de separar completamente a questão empresarial da questão técnica. Proponho, na área da normatização, que tenhamos dois códigos: o de Aviação Comercial, que regularia todos os aspectos ligados ao mercado, contendo apenas recomendações político-econômicas; e o Código Brasileiro de Técnicas da Aeronáutica, que conteria as regulamentações técnico-operacionais do setor. De fato, o Ministério da Defesa deve apressar a criação da agência e enviar, o mais rápido possível, a proposta ao Congresso.
Os Parlamentares têm dado sua contribuição ao debate para tirar o transporte aéreo nacional da situação em que se encontra. Sugiro que tenhamos uma visão de planejamento estratégico, sendo observada a importância da aviação para a integração do País, para o desenvolvimento da economia, para o crescimento de setores que dele tanto dependem, como o turismo, e para a geração de empregos.
Não podemos mais retardar essa solução. Precisamos de urgência para que possamos dar um rumo a um setor vital ao desenvolvimento do País.
Muito obrigado, Sr. Presidente. Era o que tinha a dizer.
ß