Pronunciamento de Roberto Saturnino em 06/02/2001
Discurso durante a 4ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal
Análise dos aspectos político e comerciais do contencioso Brasil x Canadá.
- Autor
- Roberto Saturnino (PSB - Partido Socialista Brasileiro/RJ)
- Nome completo: Roberto Saturnino Braga
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
COMERCIO EXTERIOR.:
- Análise dos aspectos político e comerciais do contencioso Brasil x Canadá.
- Aparteantes
- Casildo Maldaner, Geraldo Melo, Maguito Vilela, Pedro Simon.
- Publicação
- Publicação no DSF de 07/02/2001 - Página 406
- Assunto
- Outros > COMERCIO EXTERIOR.
- Indexação
-
- ANALISE, MOTIVO, CRESCIMENTO, DEFICIT, BALANÇO DE PAGAMENTOS, BALANÇA COMERCIAL, EXPECTATIVA, REDUÇÃO, EXPORTAÇÃO, AUSENCIA, PLANEJAMENTO, PRIVATIZAÇÃO, EMPRESA ESTATAL, PAIS.
- CRITICA, INICIATIVA, PAIS ESTRANGEIRO, MEMBROS, ACORDO DE LIVRE COMERCIO DA AMERICA DO NORTE (NAFTA), IMPEDIMENTO, EXPORTAÇÃO, CARNE BOVINA, PAIS, MOTIVO, AUSENCIA, POSSIBILIDADE, CONTAMINAÇÃO, DOENÇA GRAVE.
- APOIO, INICIATIVA, PAULO HARTUNG, SENADOR, APRESENTAÇÃO, REQUERIMENTO, CONVOCAÇÃO, CELSO LAFER, MINISTRO DE ESTADO, ITAMARATI (MRE), OBJETIVO, ESCLARECIMENTOS, BUSCA, SOLUÇÃO, IMPASSE, GOVERNO BRASILEIRO, GOVERNO ESTRANGEIRO, PAIS ESTRANGEIRO, CANADA.
| SENADO FEDERAL SF -
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O SR. ROBERTO SATURNINO (PSB - RJ. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, o dólar, ontem, ultrapassou a barreira dos R$2,00. Pela informação que tenho, hoje se mantém sem flutuação maior, em torno dessa cotação.
Nada de assustador haveria nessa desvalorização do real, determinada pelo próprio mercado, que acresce os custos da nossa produção com insumos importados e que empobrece o povo brasileiro na medida em que desvaloriza ainda mais o seu salário. De qualquer forma, diria que não há nada de assustador numa variação que é inteiramente normal quando uma moeda está submetida ao regime de flutuação, como o caso do nosso real.
A questão, Sr. Presidente, é que essa desvalorização do real não é um fenômeno conjuntural. Trata-se de uma tendência de natureza estrutural, resultante da verdadeira armadilha em que se encontra a economia brasileira, resultado da política que tem sido aplicada pelo Governo.
As autoridades econômico-financeiras do País fizeram muita questão que o Congresso aprovasse a Lei de Responsabilidade Fiscal, porque tinham um compromisso com Washington de que isso seria feito. Evidentemente, não se interessaram por nenhuma lei de responsabilidade cambial ou lei de responsabilidade patrimonial, enfim, qualquer um desses mecanismos que fatalmente viria a puni-los exatamente pela falta de responsabilidade com que agiram nos últimos anos, levando o País, a economia nacional, a essa armadilha em que hoje se encontra.
Na verdade, Sr. Presidente, a cotação do dólar está subindo porque a nossa balança comercial - já nem quero falar do balanço de pagamentos, pois esse está com gigantesco déficit, garantido pela remessa de lucros, pelo pagamento de serviços, pelo pagamento de juros da dívida e tudo o mais -, que, de dois anos para cá, desde a desvalorização no início de 1999, tinha previsões muito otimistas por parte do Governo, como saldos de aproximadamente US$5 bilhões, acabou resultando em déficit. No ano passado, a previsão era de um saldo de US$5 bilhões e acabou com um déficit de quase US$1 bilhão.
Este ano, outra vez. Prevê-se um saldo na balança comercial, e o primeiro mês já registra um déficit substancial. O mercado está vendo que essa é uma tendência de longo prazo e que a economia brasileira está condenada a déficits crescentes no balanço de pagamentos e mesmo na balança comercial, como resultado da armadilha em que foi colocada.
A armadilha resulta exatamente da desnacionalização da nossa indústria. As privatizações das nossas grandes empresas, a venda das nossas indústrias privadas a preços de conveniência fizeram com que os novos detentores algumas vezes fechassem fábricas que produziam insumos para a própria produção nacional e, outras vezes, as mantivessem abertas, mas com redução da produção e demissão de empregados, transformando - isto é importante - todo o esquema de produção em importação de insumos, predominantemente.
Essas empresas são multinacionais que traçam a sua estratégia sem nenhuma consideração aos interesses nacionais do Brasil, mas apenas à maximização da sua lucratividade. Na medida em que assim agem, ao adquirirem uma produção nacional que se abastecia com insumo nacional, trocam esse insumo nacional por importações de filiais suas ou de associadas suas. De forma tal que, hoje, qualquer crescimento da atividade produtiva brasileira, qualquer crescimento da economia brasileira seguramente vai acarretar um crescimento mais do que proporcional das importações, gerando um déficit comercial crônico e toda uma insegurança no tocante ao balanço de pagamentos e à crise cambial, o que leva naturalmente o mercado a reagir, aumentando a cotação do dólar.
Essa armadilha está aí posta. Como sair dela? Este Governo implantou essa situação com a abertura indiscriminada para atender aos apelos da globalização e com a venda das empresas nacionais, estatais ou privadas, a preços de conveniência. E essa situação se agrava na medida em que a economia brasileira desnacionaliza também grandes empresas prestadoras de serviço, como é o caso das empresas de telecomunicações e de produção de energia elétrica. Essas empresas não geram exportação nenhuma; geram, isto sim, importações. Isso porque, na medida em que foram desnacionalizadas, a produção de seus serviços passou a contar com um acréscimo de importação de equipamentos, de insumos de toda natureza, gerando uma grande pressão sobre o dólar. Elas não geram nenhuma exportação porque seus serviços são destinados ao mercado interno brasileiro, que, aliás, é grande o bastante para provocar o interesse dessas empresas. Não geram exportação, mas geram pressão nas importações de insumos e pressão no balanço de serviços, na medida em que as remessas dos lucros, garantidas pela própria legislação brasileira devido à ação das agências reguladoras respectivas, serão sucessivas nos próximos anos. A longo prazo, isso gerará a continuidade desse déficit gigantesco na nossa balança de serviços.
Está aí caracterizada a irresponsabilidade sob o ponto de vista cambial, que se está manifestando como uma tendência de longo prazo, agravada por novos fatores que vão surgindo no horizonte. O arrefecimento da atividade econômica nos Estados Unidos, o chamado “pouso da economia americana” - uns dizem que é um pouso suave, outros dizem que é emergencial, veloz -, não obstante a redução dos juros praticada pelo Banco Central americano, o Federal Reserve Bank - FED, não dá sinais de recuperação. Com isso, as perspectivas de crescimento das exportações brasileiras vão se estreitando consideravelmente, apesar dos bafejos do Governo brasileiro.
Em segundo lugar, mais recentemente houve a retaliação às nossas exportações, uma verdadeira guerra comercial. O Senador Paulo Hartung fez muito bem em convocar o Ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, para dar explicações e nos informar - a nós, Senadores, e à opinião pública brasileira - sobre o significado efetivo e real dessa atitude, que não foi só do Canadá, mas do Nafta. A verdade é que esses três países estão unidos econômica e politicamente. Vamos falar claro: a associação dos Estados Unidos com o Canadá e com o México é econômica mas é também política, defendendo, portanto, os interesses das economias associadas. E na medida em que o Canadá, a pretexto de defesa sanitária do seu rebanho, proíbe a importação de carne brasileira, os Estados Unidos e o México seguem-no automaticamente.
Hoje, há notícias de que os Estados Unidos vão atenuar essa restrição e começarão a importar a nossa carne. Sinceramente, Srs. Senadores, não acredito, porque acho que essa é uma posição mais política do que econômica. Ninguém jamais levantou suspeita sobre a existência da doença da vaca louca no rebanho brasileiro, um tipo de rebanho que não se alimenta de rações de origem animal, e que, por conseguinte, não está sujeito a infecção por parte da proteína que provoca a doença.
Portanto, trata-se de uma atitude política que tem suas raízes na contenda da Embraer com a Bombardier. Mas não é só isso. É também uma guerra econômica que pretende forçar o Brasil a aceitar de joelhos o seu ingresso na Alca, a grande associação americana de livre comércio, onde a nossa economia iria comparecer com o seu modesto grau de produtividade, entregando sua produção aos gigantes do Hemisfério Norte.
Sr. Presidente, permito-me ler apenas o primeiro parágrafo do Informe Econômico do jornalista Valderez Caetano, publicado na edição de hoje do Jornal do Brasil, onde ele diz:
Os acontecimentos dos últimos dias em torno do episódio da Bombardier versus vaca louca mostram que a guerra comercial na economia globalizada representa, cada dia mais, assunto para gente grande. As exportações brasileiras estão crescendo e incomodando. A represália dos países da Alca (Estados Unidos, Canadá e México) ao subsídio dos aviões da Embraer veio justamente sobre a carne, um produto cuja capacidade de crescimento das exportações é a maior entre os principais exportadores mundiais.
Assim, Sr. Presidente, é preciso atingir aqueles países que têm algum potencial de concorrência nessa guerra comercial internacional, e o Brasil é um concorrente em determinados setores. Por exemplo, o de exportação de carne. Obviamente, essa medida retirará do mercado a vantagem de algum outro produtor que não tem a nossa produtividade e a nossa sanidade do rebanho. Portanto, é a declaração de uma guerra particular que começa aqui e ali, mas que tem como objetivo impedir que a economia brasileira atinja as dimensões de uma concorrente substancial no mercado internacional.
Esse é o verdadeiro significado dessa guerra, que nos leva ao reconhecimento de um fator agravante: além da tendência a longo prazo que vem colocando a economia brasileira na armadilha de não poder crescer sem gerar uma pressão sobre a taxa cambial e produzir, por conseguinte, um acréscimo de custos que dificultará sua competitividade no mercado econômico, ingressam como fatores nesse quadro essas manifestações de ordem política que, no fundo, nos pretendem enquadrar no sistema comandado pelos países do Norte e submeter a nossa economia à Alca, que seria antecipada para 2003.
Há notícias - ainda contraditórias - de que a Argentina estaria capitulando, mas o fato é que, depois da capitulação do Chile, que estava aceitando entrar no Mercosul e que renegou o convite para associar-se diretamente aos Estados Unidos, a Argentina dá sinais de que estaria seguindo o Chile.
Permito-me, Sr. Presidente, ler também um parágrafo de matéria publicada hoje no jornal O Valor, com o título “Argentina dá sinais de que aceita antecipar a Alca”:
A Argentina admite antecipar, de 2005 para 2003, o lançamento da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). O sinal foi dado ontem por um dos principais integrantes da equipe econômica argentina - o secretário de Finanças, Daniel Marx.
“É algo que gostaríamos de analisar e ver quais são as vantagens. Não descartamos que haja algumas vantagens em se fazer isso”, disse Marx, que se reuniu ontem, em Washington, com o novo secretário de Tesouro dos Estados Unidos, Paul O’Neill. “A Argentina está buscando ter as opções abertas. Não há nenhum custo em explorar opções”.
Sr. Presidente, o pior cego é aquele que não quer ver. E só não enxerga quem não quer ver: há uma ação desencadeada por parte dos Estados Unidos para cooptar a Argentina, nosso principal sócio no Mercosul, para a Alca. E o novo governo americano, o Governo Bush, tem mais empenho em executar essa manobra e tem mais condições de obter junto ao Congresso americano autorização para uma negociação mais rápida, o chamado fast track.
Isso tudo nos empurra para a aceitação dessa manobra, que será extremamente prejudicial aos interesses econômicos do Brasil e do nosso povo. O quadro está aí para quem quiser ver. E a ele se somam todos os fatores produzidos pela própria política econômica do Governo que geram a vulnerabilidade da nossa economia, a nossa fraqueza diante das pressões internacionais de caráter comercial e financeiro.
O Sr. Pedro Simon (PMDB - RS)- Permite-me V. Exª um aparte?
O SR. ROBERTO SATURNINO (PSB - RJ) - Ouço, com muito prazer, o Senador Pedro Simon.
O Sr. Pedro Simon (PMDB - RS) - Felicito V. Exª pelo pronunciamento. Mas não há como negar que, desde a sua criação, o Mercosul foi recebido com tremenda antipatia pelos Estados Unidos. Os Estados Unidos nunca esconderam que receberam quase que como uma afronta a criação do Mercosul. O Presidente José Sarney, o Presidente Raul Alfonsín e o Presidente uruguaio - teve uma importância muito grande nesse processo - tiveram muita competência e foram levando tranqüilamente, serenamente. A Argentina desde o início sentiu que não era bom, desde o início manifestou-se contrariamente. Mas a verdade é que deu certo. Deu certo. A Argentina, contrária anteriormente, elegeu Carlos Menem. Ele mudou completamente a política na Argentina, e continuou aceitando o Mercosul tal como vinha funcionando. No Brasil, saiu o Sarney e entrou o Collor, que também apoiava. Saiu o Collor, entrou o Itamar, que também aceitava. E o Mercosul passou a ser uma realidade. Desde o início, esperava-se que o Chile viesse a integrar o Mercosul. Aliás, deveria ter entrado no início, mas, à época, o Chile argumentava que, devido a diferenças cambiais, à falta de proteção nesse setor, eles deveriam ter compensações. Do contrário, tendo em vista o protecionismo que se estabeleceria aos membros que integrariam o Mercosul, a situação deles ficaria difícil. Pouco depois, com o êxito do Mercosul, o Chile aceitou. E já se passou a discutir o fato de que o Mercosul não deveria ser Mercosul, mas deveria ser América do Sul. Desde essa época, o mercado americano, fundado com o México e o Canadá, começou a crescer. E fecharam-se entre si. Na verdade, eles querem terminar com todas as facções, como a Alca, transformando a América do Sul em colônia oficial dos Estados Unidos. Como é que vamos discutir, negociar com os Estados Unidos sem um mínimo de proteção? Como vamos deixar as fronteiras totalmente abertas? O Congresso votou - não sei se V. Exª estava aqui -, o Senado votou por unanimidade moção, não digo contra a Alca em termos definitivos, mas no sentido de que não se deve falar em Alca enquanto o Mercosul não estiver totalmente consolidado. Repare V. Exª que boicotaram o Chile. Estão aproveitando a situação dramática da Argentina para fazerem o mesmo lá. A rigor, não deixa de estar dentro desse contexto o que o Canadá está fazendo conosco. Vencemos, no que se refere aos aviões brasileiros, normalmente, numa negociação livre. E agora fazem essa retaliação com relação à carne e a outros produtos brasileiros! O Canadá, os Estados Unidos e o México proibirem a importação da carne e de outros produtos brasileiros parece-me ser uma violência, uma crueldade. Alguma coisa tem que ser feita a respeito. Se baixarmos a cabeça e aceitarmos essas questões, vamos partir para uma situação cada vez pior do que a que está aí. Por isso, entendo que o Presidente Fernando Henrique e o Presidente argentino têm que fazer um esforço dramático no sentido de cumprir a determinação existente. Alca, sim, mas lá adiante, quando estiver consolidado o Mercosul, e não a entrada da Alca acabando com o Mercosul sem nenhuma garantia, sem nenhuma proteção. Isso significa que vamos comprar a preço de laranja qualquer produto americano e eles vão vetar quando bem entenderem qualquer produto brasileiro. Com toda a sinceridade, penso que essa questão da Alca e o fato de estar o Canadá - estendendo ao México e aos Estados Unidos - proibindo a importação da carne brasileira sob o argumento da tal da vaca louca de uma hora para outra, dificultando a nossa exportação do produto para qualquer outro lugar, é muito séria e precisa ser vista com atenção. Se o Canadá está dizendo que o produto é grave e está ameaçado, como é que a Europa vai comprar? Quer dizer, eles fazem isso sem preocupação alguma, sem preparo. E aí, Senador, entendo que o Senado brasileiro precisa ter mais ação. Estamos muito imobilizados. V. Exª afirmou que talvez o Presidente Bush tenha mais força no Congresso americano do que tinha o anterior. Concordo, e o Congresso americano funciona, inclusive para defender os interesses americanos, proibindo a entrada de produtos outros. Mas, nesta Casa, não temos nenhuma participação, a não ser a homologação tácita dos embaixadores e a homologação - praticamente lendo e não dizendo nada - dos acordos que já são feitos sem que saibamos. Quando esses acordos chegam ao Senado Federal, já foram homologados. Como, então, vamos rejeitar algo que já está em pleno funcionamento? O pronunciamento de V. Exª, repito, é muito importante, mas não deveríamos nos resumir a ele. A Casa deveria fazer algo além nesse sentido.
O SR. ROBERTO SATURNINO (PSB - RJ) - Senador Pedro Simon, recebo com muito regozijo o aparte, como sempre brilhante e substancioso, de V. Exª. Observo que meu pronunciamento se segue a outros feitos ontem aqui por outros Senadores, entre eles o Senador Carlos Patrocínio.
Hoje, por iniciativa do Senador Paulo Hartung, convocamos o Ministro Lafer a dar explicações sobre o contencioso com o Canadá. Temos a obrigação de nos aprofundarmos mais nessa questão. Vindo aqui o Ministro Lafer, não vamos inquiri-lo, não vamos pedir a S. Exª informações tão-somente do caso vaca louca ou Bombardier do Canadá. É preciso que S. Exª nos informe também sobre as pressões que estão sofrendo o Brasil para o ingresso na Alca, sobre as manobras que estão sendo feitas com a Argentina e que, certamente, o Brasil tem conhecimento.
O nosso Itamaraty, o nosso Ministério de Relações Exteriores, tem uma tradição de muita competência. É evidente que nossos diplomatas estão sabendo de muita coisa que nós, Senadores, bem como a opinião pública, não sabemos. Por exemplo: por que o Ministro Lampreia entregou o cargo? A mim não está muito claro isso.
O Sr. Pedro Simon (PMDB - RS) - Para mim também não. Senador, cá entre nós, deixar o cargo de Ministro das Relações Exteriores para ocupar sei eu que posição ali fora em uma hora dramática como essa, juro por Deus que não entendo!
O SR. ROBERTO SATURNINO (PSB - RJ) - Numa hora dramática, sabendo ele o que sabe.
O Sr. Pedro Simon (PMDB - RS) - Numa hora dramática como essa, juro por Deus que não entendo. O Sr. Lampreia deve uma explicação à Nação.
O SR. ROBERTO SATURNINO (PSB - RJ) - Não entendo. Ouço informações, não confirmadas, evidentemente, de que ele estaria sabendo de coisas e não estaria tendo força para enfrentar a equipe econômica, que, afinal de contas, acaba tomando as decisões pelo Governo, decisões que vão influenciar profundamente o comportamento do Brasil, sob o ponto de vista do seu relacionamento internacional.
Penso que, vindo aqui o Ministro Lafer, precisamos indagá-lo sobre todas essas questões e não apenas sobre o caso do contencioso com o Canadá, que é grave sim, mas que revela, a meu juízo, uma decisão de natureza política.
O nobre Senador Pedro Simon disse muito bem que as nossas exportações para a Europa não estão absolutamente ameaçadas, porque as entidades de natureza tecnológica e científica da Europa, que estão estudando profundamente o assunto, sabem muito bem - porque têm examinado a carne brasileira - que não existe a mínima possibilidade de estarem infectadas com a proteína da vaca louca. Quer dizer, entidades da maior seriedade e do maior rigor examinaram a nossa carne e atestam a boa qualidade da mesma. Entretanto, de repente, levanta-se essa suspeita por parte do Canadá. Obviamente esse é um gesto de natureza política em represália ao crescimento da economia brasileira e à ameaça que o Brasil exerce não só sobre o Canadá, mas sobre os Estados Unidos, o México, enfim, os países que compõem Nafta e que querem nos obrigar a ingressar na Alca, a fim de completar o cerco de dominação que já está posto sobre a nossa economia, fruto da política econômica que vem sendo desenvolvida pelo Governo.
O Sr. Geraldo Melo (PSDB - RN) - Permite-me V. Exª um aparte?
O SR. ROBERTO SATURNINO (PSB - RJ) - Ouço, com muito prazer, o aparte do nobre Senador do Rio Grande do Norte.
O Sr. Geraldo Melo (PSDB - RN) - Senador Roberto Saturnino, muito obrigado pela oportunidade que me dá. Eu apenas queria acrescentar uma ponderação dentro dessas preocupações que estão se manifestando hoje, aqui, em relação à questão com o Canadá, sugerindo ao Ministério das Relações Exteriores que verifique até que ponto vão - e, aparentemente, são muito profundas - as ligações empresariais entre a Bombardier e a Raytheon, que é uma empresa com grandes interesses no Brasil. Seria interessante saber em que medida essa conexão não está sendo desprezada como um dos instrumentos de negociação mais importantes que poderíamos ter na discussão da questão com a Bombardier. Era esse o registro que eu queria incorporar ao importante pronunciamento de V. Exª.
O SR. ROBERTO SATURNINO (PSB - RJ) - Registro muito sugestivo e importante, Senador Geraldo Melo. Creio que V. Exª tem toda a razão. Temos que exercer esse direito. Eu diria que, mais do que um direito, é um dever nosso levantar essas suspeições e agir na averiguação, na investigação dessas conexões que, possivelmente ou muito provavelmente, existem.
O Sr. Maguito Vilela (PMDB - GO) - Permite-me V. Exª um aparte?
O SR. ROBERTO SATURNINO (PSB - RJ) - Ouço, com muito prazer, o Senador Maguito Vilela.
O Sr. Maguito Vilela (PMDB - GO) - Gostaria de cumprimentá-lo pelo belíssimo pronunciamento, assim como todos os Senadores que também já se manifestaram, inclusive o Senador Paulo Hartung, que tomou a iniciativa de convocar o Ministro das Relações Exteriores, e o Senador Osmar Dias, que em boa hora também pede a convocação do Ministro Agricultura. O Senador Pedro Simon está certo: o Senado Federal, a Câmara dos Deputados e o Congresso Nacional, enfim, todos nós temos que nos preocupar mais com esse episódio. Creio que a vinda do Ministro das Relações Exteriores e do Ministro da Agricultura vai esclarecer, sem dúvida nenhuma, muita coisa a respeito dessa contenda entre Canadá, seguido agora pelos Estados Unidos e pelo México, contra a importação de carne brasileira. Antes, era a febre aftosa. Todos colocavam mil obstáculos às importações em vista disso. O Brasil praticamente erradicou a febre aftosa. E agora, depois que muitos Estados já são considerados como áreas livres, estão inventando essa questão da “vaca louca”, que já afetou alguns países da Europa e, agora, estão querendo dizer que o problema também está existindo no Brasil. Creio que não podemos parar por aqui. Amanhã também farei um pronunciamento, porque o Brasil, de uma forma geral, está sendo e será muito prejudicado, principalmente o Centro-Oeste brasileiro: Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Estados com vocação extremamente voltada para a pecuária, em que os prejuízos serão alarmantes. Cumprimento V. Exª. Vamos continuar debatendo essa questão, para ver se conseguimos atenuar esse problema, que é grave para todos nós.
O SR. ROBERTO SATURNINO (PSB - RJ) - Obrigado, Senador Maguito Vilela. Penso que a contribuição de V. Exª e de tantos outros Srs. Senadores é extremamente importante. V. Exª representa um Estado que certamente será um dos mais prejudicados, e estaremos todos atentos a seus pronunciamentos e a suas opiniões.
Sr. Presidente, quero encerrar este meu discurso, dizendo que, de um lado, estamos verificando a eclosão de uma situação cambial difícil, fruto - repito - da própria política econômica desenvolvida pelo Governo brasileiro, que tanto temos criticado aqui e que colocou a economia nacional nessa armadilha de difícil desarme, através da qual as importações crescem mais do que proporcionalmente, e há um estrangulamento cambial. A história econômica do Brasil, exatamente pela sua situação de dependente e retardado sob o ponto de vista do desenvolvimento econômico e de país que sempre se situou na periferia dos grandes centros internacionais de comércio, finanças e indústria, sempre foi uma história de crises cambiais. Isso mais uma vez está acontecendo. Na verdade, as respostas, quando foram boas respostas a crises que ocorreram no passado, suscitaram a elevação de um degrau importante na situação econômica do Brasil, em termos de produtividade e de capacidade de produção. Isto é, a crise cambial pode ser positiva sob o ponto de vista econômico, desde que a resposta a ela seja adequada.
E aí está a nossa preocupação, porque eu pessoalmente, Sr. Presidente, não vejo nenhuma possibilidade de resposta adequada enquanto estiver este governo de Pedro Malan e Armínio Fraga no poder. Vamos ter que esperar a posse de um novo governo, com uma nova orientação, um governo que seja opositor a este sob o ponto de vista de modelo econômico, para que o Brasil possa encontrar uma resposta que seja criativa e que seja eficiente no sentido de aproveitar a crise para superá-la com o galgar de um patamar de produtividade e desenvolvimento mais elevado a exemplo do que aconteceu muitas vezes na nossa história econômica.
O Sr. Casildo Maldaner (PMDB - SC) - V. Exª me concede um aparte?
O SR. ROBERTO SATURNINO (PSB - RJ) - Com muito prazer, Senador Casildo Maldaner.
O Sr. Casildo Maldaner (PMDB - SC) - Eu não poderia perder essa ocasião. Perdoe-me se não o acompanhei em todo o seu pronunciamento, eis que não me encontrava no plenário. Prestei muita atenção e tentei chegar aqui para lhe cumprimentar. V. Exª pegou o fio da meada, entendeu que a questão é política, principalmente na questão do Canadá, dos Estados Unidos, do México, e da Nafta e daquilo que vem ocorrendo agora com o Brasil. O Ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, esteve em Washington conversando com a Secretária da Agricultura dos Estados Unidos e já está entendendo que a questão é dali. Os Estados Unidos estão usando o Canadá como um instrumento político para chegar onde o que V. Exª declina, que é a questão da Alca, não há a menor dúvida. Creio que precisamos refletir em cima disso. Penso que a questão é exatamente por aí: em solidariedade, o México entra nessa com o Canadá, e o Canadá fala em nome dos Estados Unidos. E por trás de tudo isso está a questão da Alca, ou seja, estão tentando fazer com que o Brasil abaixe a cabeça. Portanto, penso que a reflexão tem que ser profunda, já que vão tentar prejudicar o Brasil com essa questão da vaca louca através dessa questão. E isso vai gerar reflexos profundos e negativos para todos nós, sem dúvida alguma. V. Exª está de parabéns. E o Brasil deve estar acompanhando essa verdadeira aula que V. Exª está a proferir da tribuna do Senado.
O SR. ROBERTO SATURNINO (PSB - RJ) - Obrigado, Senador Casildo Maldaner. Encerro o meu discurso com muita alegria, com o meu coração batendo alegre pelo aparte de V. Exª, que reforça enormemente os argumentos que pretendi desenvolver aqui. Penso que V. Exª tem trazido a esta Casa o seu conhecimento e a sua experiência, e a sua lucidez tem-nos dado importantíssimas locuções. O meu discurso fica muito engrandecido com o aparte de V. Exª.
Sr. Presidente, agradeço à benevolência, a tolerância do tempo que ultrapassei muito. Encerro aqui as minhas considerações.
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