Discurso durante a 8ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

HOMENAGEM AO PRESIDENTE ANTONIO CARLOS MAGALHÃES, POR OCASIÃO DE SUA DESPEDIDA DA PRESIDENCIA DA CASA.

Autor
Lauro Campos (PT - Partido dos Trabalhadores/DF)
Nome completo: Lauro Álvares da Silva Campos
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
HOMENAGEM. SENADO.:
  • HOMENAGEM AO PRESIDENTE ANTONIO CARLOS MAGALHÃES, POR OCASIÃO DE SUA DESPEDIDA DA PRESIDENCIA DA CASA.
Aparteantes
Tião Viana.
Publicação
Publicação no DSF de 14/02/2001 - Página 654
Assunto
Outros > HOMENAGEM. SENADO.
Indexação
  • RECONHECIMENTO, EMPENHO, COMPETENCIA, ANTONIO CARLOS MAGALHÃES, SENADOR, EXERCICIO, PRESIDENCIA, SENADO, MELHORIA, ATUAÇÃO, INSTITUIÇÃO PUBLICA, RESPEITO, PARTIDO POLITICO.
  • DEFESA, CANDIDATURA, JEFFERSON PERES, SENADOR, PRESIDENCIA, SENADO.

  SENADO FEDERAL SF -

SECRETARIA-GERAL DA MESA

SUBSECRETARIA DE TAQUIGRAFIA 


            O SR. LAURO CAMPOS (Bloco/PT - DF. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, hoje falo porque a lei moral que há em mim não permite que eu me silencie. Estou há vários dias perplexo, nesse momento crucial da existência do Parlamento, nesse momento de uma das mais importantes eleições que o País conhece - talvez tão importante quanto a eleição do Presidente da República -: a dos Presidentes do Congresso Nacional e da Câmara dos Deputados.

            A menos de vinte e quatro horas do pleito, o meu silêncio e o de meus companheiros incomoda-me muito. Deveríamos estar aqui, como propôs em duas ocasiões o companheiro Eduardo Suplicy, ouvindo e debatendo com os candidatos à Presidência do Senado o seu programa, a sua colocação diante dos outros Poderes, o seu posicionamento diante das relações internacionais que se estão manifestando, inclusive por meio da vaca louca. As tantas e importantes manifestações deste mundo globalizado têm aqui, no Senado Federal, um dos eixos fundamentais para a orientação da população.

            Gostaria, realmente, que o ambiente fosse outro. Gostaria que os telespectadores deste Brasil afora não ficassem perplexos diante do nosso silêncio. Que silêncio é este? Será que ficamos todos velhos de uma hora para outra? Perdemos a capacidade de escutar e de reagir? Perdemos a capacidade de nos inflamar, que se teria concentrado apenas na figura do Presidente Antonio Carlos Magalhães? Alguns acham que há um certo exagero nas suas atitudes, mas, pelo menos, há de se reconhecer essa vontade, essa lei moral que existe dentro de nós, que nos incendeia algumas vezes. Portanto, devemos compreender os excessos para reafirmar, abençoar e compartilhar desse impulso ético, desse impulso de moralização.

            O que me traz aqui, hoje, é essa insopitável vontade de fazer, pelo menos, uma catarse, porque não agüento mais esse silêncio, esse tergiversar, essas conversinhas, esses discursos em torno de nada. Parece que não estamos escutando o som do vendaval que se aproxima. Parece que não vai acontecer, também, amanhã, absolutamente nada.

            O day after vem aí. Amanhã, vamos começar a tomar consciência do que realmente fizemos, cometemos e praticamos.

            O apelo feito pelo Senador Eduardo Suplicy de que, pelo menos, parlássemos, parlamentássemos, falássemos alguma coisa. Só há cochichos, conciliábulos secretos, tititi. Isso não é digno do Senado Federal!

            À falta de algo melhor para fazer, incapaz de mover o mundo e de mudar as decisões medrosas, covardes, indecisas - e o povo está vendo esse vale das indecisões, do silêncio em que nos encontramos -, estou aqui, de certa forma, à espera de um milagre. Contudo, não queria esperar em silêncio, mas, pelo menos, rezando, para que o milagre viesse nos salvar, ou estamos perdidos definitivamente?

            Os instrumentos usados nessas decisões mostram a importância delas. Não é à toa que o Partido do Presidente da República ou um de seus aliados compra alguns deputados, de maneira inegável, descarada - isso, por acaso, foi gravada também. Mas crime é a gravação ou a continuidade daqueles processos? Certa vez ouvi Sua Excelência, o Presidente da República, dizer: “Não recorremos mais a essas medidas pouco assépticas, sujas, entre o Executivo e Legislativo”. Eu escutei isso três vezes, com palavras e sinônimos muito elegantes e diferentes. Mas será que mudou alguma coisa ou será que se agravou a situação, diante de um conjuntura econômica-financeira internacional que se torna cada dia, claramente, mais grave?

            Cheguei a esta Casa e, entre outras coisas, não gostaria de deixar de registrar que observei muito a conduta do Presidente Antonio Carlos Magalhães. Peguem os discursos que fiz e, em alguns deles, há crítica dirigida a S. Exª bastante acerba; mas tenho que fazer justiça, e já disse muitas vezes e repito que S. Exª, o Presidente Antonio Carlos Magalhães, tem agido aqui, neste Senado, mais ou menos como o treinador do time. S. Exª quer ver o time acertar, que ver o time ser aplaudido, quer ver o time melhorar.

            Tenho que reconhecer, e reconheço há muito tempo, que a preocupação de S. Exª, ao dirigir os nossos trabalhos, foi talvez como os exageros a que S. Exª se permitiu há alguns dias, o exagero de quem quer salvar, de quem quer afastar e exorcizar a catástrofe.

            Entre os candidatos que até agora se apresentaram, poderíamos até ter aberto mão da candidatura do modelar companheiro Senador Jefferson Péres, homem de uma compostura, uma atitude, um comportamento, uma prática exemplares. Poderíamos fazer esse sacrifício também em nome da salvação da Casa, neste momento crucial e decisivo para o Congresso Nacional e para o País. Contudo, infelizmente, até agora, essa possibilidade sequer surgiu.

            Tendo em vista a formação e o estofo do nosso companheiro Senador Jefferson Péres, tenho absoluta certeza de que S. Exª abriria mão, seria o primeiro a abrir mão - como, aliás, já disse que isso poderia ocorrer. O nobre Senador não tem ambições individuais, não tem a vontade do poder que cega alguns, portanto, S. Exª poderia, tranqüilamente, deixar de ser um obstáculo à realização de uma coalizão salvadora. Mas parece que os ouvidos ficaram moucos e que as consciências - algumas delas - não perceberam o que acontecerá amanhã, a importância do dia da eleição de nosso Presidente.

            Realmente, eu gostaria que não houvesse um day after; gostaria que o Presidente assumisse com tranqüilidade esta Casa tranqüila e que não permitisse a existência de acerto de contas, perseguição, entrincheiramento para a vendeta, que receio venha a ocorrer. O poder do Senado Federal é muito maior do que as pessoas pouco atentas possam imaginar.

            Em um dos momentos de crítica a esta Instituição e ao funcionamento dos três Poderes, cheguei a dizer e a procurar demonstrar que o Presidente do Senado no Brasil representa uma espécie de ditador pela metade. “Há uma ditadura compartilhada”, disse eu. E não pedi desculpas ao Presidente Antonio Carlos Magalhães. Estou agora, na hora da saída, dizendo que o Senado e sua Presidência são tão poderosos que agem, algumas vezes, como uma espécie de ditador que compartilha com o verdadeiro ditador - o Presidente da República Fernando Henrique Cardoso - essa ditadura disfarçada e compartilhada.

            Isso não atingiu o Presidente Antonio Carlos Magalhães ou por não conter uma verdade ou por outro motivo qualquer. No entanto, estou repetindo o assunto apenas para mostrar como tenho consciência do poder desta Casa. E este poder, se por acaso não estiver em mãos serenas, como, por exemplo, as do Senador Jefferson Péres, se não estiver em mãos que não desejam passar a limpo as suas frustrações pessoais e o seu desejo de vingança individual, passaremos a limpo outras coisas, como as nossas derrotas internas e os nossos conflitos intestinos. Será um verdadeiro desastre. Gostaria muito de poder contribuir o mínimo que fosse para que essa tragédia não acontecesse.

            Desse modo, o desastre de depois de amanhã pode ser maior ainda e com muito mais vítimas do que o de amanhã. Não quero ser catastrofista, como costumam algumas vezes afirmar que sou. Por isso estou fazendo essa catarse verbal neste momento. Gostaria muito - e daria para isso boa parte da minha existência - que a situação se resolvesse nesta Casa, que sempre treinou a lhanura, a educação e a morigeração.

            O Senado Federal é campeão dessas virtudes. Sou dos menos virtuosos nessas questões parlamentares.

            Quem sabe se nós, ainda, teremos uma saída honrosa? Estamos sendo observados, estamos sendo cobrados. O nosso silêncio é muito estranho pelo menos, condenável, principalmente num momento em que consciências são compradas e portas de Partidos são abertas à custa do vil metal. Mais uma vez, essas relações espúrias continuam a inquinar a nossa dignidade. Dessa forma, não poderia ficar silencioso, não poderia ficar calado, pelo menos para traduzir, nestas palavras mal-enjambradas, aquilo que eu não poderia silenciar, para não contrariar a lei moral que há em mim.

            O Sr. Tião Viana (Bloco/PT - AC) - Concede-me V. Ex.ª um aparte?

            O SR. LAURO CAMPOS (Bloco/PT - DF) - Concedo um aparte ao nobre Senador Tião Viana.

            O Sr. Tião Viana (Bloco/PT - AC) - Senador Lauro Campos, quero apenas, de maneira modesta, contribuir com o grande professor e o grande Senador que se constitui a figura de V. Ex.ª na Casa, dizendo que essa opressão precordial, que não é enfarte, não é isquemia, eu também a sinto neste momento da vida parlamentar. Especialmente no Senado Federal, ela está dividida entre alguns Senadores. O pronunciamento de V. Ex.ª desperta o sentimento de que estamos envolvidos em uma grande decisão, bem como nas conseqüências que dela advirão. Este é um momento de mais alta responsabilidade para esta Casa. Não gostaria de, em minha caminhada parlamentar, levar a imagem do que pode ser o day after da maneira como V. Exª define aqui. Iria externar algumas palavras ao Senador Antonio Carlos Magalhães após a saída de S. Exa da Presidência da Casa, quando já estivesse na “planície”, como é costume dizer-se no Congresso Nacional. Todavia, soube que há uma possibilidade real de vitória - e não foi S. Ex.ª quem me disse - de um outro grupo que não o que se vislumbra na grande imprensa. Assim, aproveito o pronunciamento de V. Exa para dar o meu testemunho do que representou a figura do Presidente Antonio Carlos Magalhães no Senado Federal. Quando, no dia da posse, na primeira semana, tivemos uma reunião para discutir a escolha do nome do Presidente do Senado Federal, participei - com a convicção de quem saía do movimento estudantil, de um movimento popular, em 1980, e, naquele momento, a imagem do Senador Antonio Carlos Magalhães se diferenciava de maneira radical do nosso projeto político - e reprovei o nome do Senador Antonio Carlos Magalhães em reunião do nosso Partido. V. Ex.ª concordou de certa forma com a minha opinião, externando o respeito da convivência. Naquele momento, a decisão da Bancada, após embates internos, foi a de que o Partido dos Trabalhadores não votaria. Esse era o ponto de vista de alguém que não pertencia ao Parlamento e convivia com uma personalidade política. E após esses dois anos de testemunho da presença do Presidente do Senado, Senador Antonio Carlos Magalhães, seria uma injustiça, um ato de covardia, não reconhecer que, no exercício da Presidência do Senado, o Senador Antônio Carlos Magalhães observou o mais alto respeito por todos os Senadores, por todos os Partidos políticos. Como já externei em reuniões nossas do PT aqui, não sei, Senador Lauro Campos, se outro Parlamentar na Presidência desta Casa teria coragem de enfrentar o Judiciário, como fez o Senador Antonio Carlos Magalhães; teria coragem de autorizar ao Senado a cassação de um Senador da República. Entendo este testemunho como um ato de justiça, um ato de respeito. Não compreendo como alguns, que àquela época defendiam a Presidência do Senado pelo Senador Antonio Carlos Magalhães, hoje o hostilizam nos bastidores de maneira tão ranheta. S. Exa não mudou. Não conheço um ato público que o desabone de dois anos para cá na vida pública do País. Se há uma imagem pesada, do ponto de vista democrático, ela é anterior a esse seu exercício da Presidência do Senado. Então, o que mudou foi a versão de alguém que não aceita essa presença política agora como um reconhecimento de justiça. Repito: eu iria fazer este testemunho após a saída de S. Exa da Presidência da Casa, mas o faço em favor de um mandato que quero que caminhe serenamente. Sou daqueles que entendem que política e honra são compatíveis. Não imagino política e honra como água e óleo. Sinceramente, espero que o day after não contribua para que eu perca o ânimo e a esperança de ser um jovem Senador da República que acredita em seu País e neste Senado Federal. Assumi, com tanto entusiasmo, meu mandato e espero levá-lo até o final, honrando cada voto que me foi dado, a minha consciência e a minha determinação pela ética na vida pública. Parabéns, V. Exª é uma referência de vida, não só da vida pública, não só da vida educativa, mas uma referência de vida que vou levar como lembrança.

            O SR. LAURO CAMPOS (Bloco/PT - DF) - Agradeço muito o aparte de V. Exª. Sei que V. Exª não poderia ser uma daquelas vozes silenciosas, daquelas vozes que faltaram aqui neste plenário até este momento.

            O Sr. Tião Viana (Bloco/PT - AC) - Peço a V. Exª apenas dez segundos apenas para reafirmar toda a coerência do Partido dos Trabalhadores com o Senador Jefferson Péres.

            O SR. LAURO CAMPOS (Bloco/PT - DF) - Não poderia deixar de ser de outra forma, porque o relacionamento com V. Exª significou um desses grandes encontros que tive no Senado Federal. A sua fidelidade às idéias, o seu amor à vida e à proteção dela, e a sua dedicação à Medicina continuam nesta Casa. Como não poderia deixar de ser, V. Exª é fiel à vida, é fiel aos gestos que protegem Eros, que protegem a vida em todas as suas manifestações, principalmente a vida humana.

            Agradeço muito a sua delicada intervenção e faço votos para que V. Exª, tão jovem, continue assim. O fato de apenas continuar significará para todos nós uma alegria e uma honra muito grande tê-lo conhecido e acompanhado em seu rastro luminoso.

            Muito obrigado!

            Sr. Presidente, gosto sempre de pedir desculpas e agora devo estar precisando de fazê-lo, mas acredito que não devo desculpas, por exemplo, a V. Exª, que algumas vezes tem feito referências à minha pessoa, a familiares meus inclusive, de público, o que demonstra que, se não castigarem muito V. Exª, se não o deformarem demais por meio de pressões insuportáveis, V. Exª continuará a ser, para tristeza de seus opositores, um conquistador. V. Exª é um conquistador: V. Exª sabe utilizar a sua inteligência, a sua simpatia, a sua lhanura, mas também sabe utilizar o outro lado, para expulsar os vendilhões do templo.

            Muito obrigado, Sr. Presidente.


            Modelo110/15/2610:22



Este texto não substitui o publicado no DSF de 14/02/2001 - Página 654