Discurso durante a 2ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Considerações sobre o trabalho realizado pelos pesquisadores Umberto Santos e Hilândia Cunha, denominado Hidroquímica da Bacia Amazônica, destinado à reforçar a necessidade da gestão dos recursos hídricos do país.

Autor
Bernardo Cabral (PFL - Partido da Frente Liberal/AM)
Nome completo: José Bernardo Cabral
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
POLITICA DO MEIO AMBIENTE.:
  • Considerações sobre o trabalho realizado pelos pesquisadores Umberto Santos e Hilândia Cunha, denominado Hidroquímica da Bacia Amazônica, destinado à reforçar a necessidade da gestão dos recursos hídricos do país.
Aparteantes
Gilberto Mestrinho, Lúcio Alcântara, Maguito Vilela, Nabor Júnior, Pedro Simon, Romeu Tuma.
Publicação
Publicação no DSF de 20/02/2002 - Página 347
Assunto
Outros > POLITICA DO MEIO AMBIENTE.
Indexação
  • COMENTARIO, ESTUDO, BACIA AMAZONICA, APRESENTAÇÃO, DADOS, COMPOSIÇÃO, QUIMICA, RIO, IMPORTANCIA, MELHORIA, GESTÃO, RECURSOS HIDRICOS, BRASIL, PREVENÇÃO, FALTA, AGUA, AMBITO INTERNACIONAL.

  SENADO FEDERAL SF -

SECRETARIA-GERAL DA MESA

SUBSECRETARIA DE TAQUIGRAFIA 


            O SR. BERNARDO CABRAL (PFL - AM. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Eminente Presidente Antonio Carlos Valadares, Srªs e Srs. Senadores, a Amazônia é, cada vez mais, objeto de interesse e curiosidade de todo o mundo, havendo aí desde a motivação mais nobre e generosa, em favor da saúde do planeta, até a mais indefensável, diante da qual devemos nos pôr em guarda.

            Quanto aos brasileiros, sei que todos nutrem sentimentos de amor para com nossa Amazônia; certamente, nós, do Norte, estamos sempre na linha de frente dos que lutam para valorizá-la.

            A melhor maneira de traduzirmos em termos práticos essas emoções positivas é estudar a natureza amazônica, criando bases sólidas para bem conhecê-la e, assim, poder plantar boas políticas que promovam seu desenvolvimento sustentável e o uso criterioso de seus recursos naturais.

            A ciência, principalmente aquela feita por brasileiros, é caminho privilegiado e excelente para penetrarmos os segredos dessa região, abraçando-a com nossa racionalidade e nosso afeto.

            Quando dizemos estudo científico na Amazônia, pensamos logo, corretamente, em estudo de suas águas, de suas plantas, solos, geologia. Ora, existe um ângulo de estudo científico que reúne e soma essas várias abordagens, por via indireta, seguindo, qual trabalho de detetive - especialidade do nosso Senador Romeu Tuma, que é capaz de perscrutar as coisas mais difíceis -, as pistas deixadas pela natureza: trata-se da análise química das águas dos rios amazônicos.

            Essa possibilidade chegou à minha atenção graças a um denso trabalho científico intitulado “Hidroquímica da Bacia Amazônica (Amazônia Ocidental)”, de autoria dos pesquisadores Umberto Santos e Hilândia Cunha. Suas tabelas e gráficos, contendo dados de composição química do Solimões-Amazonas e dos seus afluentes e subafluentes podem parecer áridos aos não especialistas.

            Em verdade, Sr. Presidente, uma matéria dessa - que requer uma pesquisa difícil, que só se encontra nesses heróis que por ali passam, sempre atentos ao que quer dizer a composição química dos rios daquela região - merece a minha presença na tribuna, com um dado relevante, qual seja a atenção desta Casa.

            Por isso mesmo, os próprios autores, Umberto Santos e Hilândia Cunha, chamam a atenção para as férteis análises que se podem derivar a partir da química de águas que atravessam as centenas e milhares de quilômetros da gigantesca bacia amazônica.

            Esses pesquisadores insistem - e parece-me que com absoluta e boa razão - na tese de que a investigação do enorme mundo amazônico deve iniciar-se pelo estudo da hidroquímica das águas de seus rios, pois o teor e a variação dos elementos químicos dissolvidos ou em suspensão nessas águas podem nos dar preciosas informações sobre a geoquímica do solo das regiões atravessadas pelos rios e sobre a bioquímica da sua cobertura vegetal.

            Temos aí, por meio da análise química das águas, uma visão da água, do terreno e da floresta. Assim, a análise hidroquímica conduz à melhor compreensão da totalidade do funcionamento do complexo meio ambiente amazônico, com as suas riquezas e potenciais.

            O Sr. Romeu Tuma (PFL - SP) - V. Exª me permite um aparte?

            O SR. BERNARDO CABRAL (PFL - AM) - Senador Romeu Tuma, concedo a V. Exª o aparte tão logo conclua este pensamento.

            Ao dizer bacia amazônica estamos falando de uma área ciclópica de 6 milhões de quilômetros quadrados, a mais densa rede de drenagem do mundo, responsável por 1/5 do volume de água doce disponível no planeta. São rios sujeitos a um regime fluvial chamado de duas cheias. Na parte sul da bacia, as chuvas intensas começam em novembro. No norte, elas se iniciam em maio. Em média, tem-se uma precipitação pluviométrica de 2.460 milímetros por ano. Veja só, Sr. Presidente, em média, tem-se uma precipitação pluviométrica de 2.460 milímetros por ano!

            Na parte central da bacia, esse regime implica uma variável de vazões que leva a oscilações de nível d’água de 10 a 12 metros. Em Tabatinga, fronteira ocidental do Brasil, e no baixo Amazonas, as oscilações de cheia e vazante situam-se na faixa de 7 metros.

            São águas em permanente movimento, alagando, estiando, interagindo com o reino mineral e com o mundo vegetal, trazendo sedimentos, essências vegetais dissolvidas das planícies e das montanhas longínquas, contendo mensagens sobre a natureza para os que conseguem lê-las e decifrá-las.

            Esse é um instante importante, pois traz no seu bojo mensagens sobre a natureza. E felizes aqueles que conseguem lê-las e decifrá-las, como faz o caboclo do norte, o caboclo da nossa região, que sente na pele quando é o instante para plantar, para colher, para mudar, para sair, para adiantar, sempre apontando caminhos e indicando soluções.

            Conteúdos químicos - e neste ponto chamo a atenção do Senado - dão coloração diversa às águas. Daí deriva a classificação básica dos rios amazônicos, uma classificação óptica, de impressão visual, profundamente associada às características químicas dos rios, à natureza das terras por onde fluem. Temos, por isso, na Amazônia, os chamados rios de água branca, barrentos, como é o próprio Solimões, ricos em sedimentos suspensos; os rios de água preta, em tons de preto a marrom escuro, como o rio Negro, pela presença de matéria vegetal dissolvida; e os rios de água clara, com baixa concentração de sedimentos e, às vezes, presença de algas de lhes dão um tom esverdeado. Exemplo desses últimos é o rio Tapajós.

            Ao longo dos anos, os estudos hidrológicos e hidroquímicos foram pormenorizando e sofisticando essa classificação básica. Contribuição de muitos estudiosos, em trabalhos que se vão acumulando, formando os tijolos que permitem a consolidação do nosso entendimento sobre aquele formidável ecossistema.

            O estudo específico a que aludi, e que provocou estas minhas considerações, procurou abranger a maior parte da bacia. Tomou informações de onze pontos do rio Solimões-Amazônia, de 27 de seus afluentes e de 80 subafluentes. Buscou determinar parâmetros físico-químicos das águas, tais como: acidez, condutividade elétrica, conteúdo de sílica, de material húmico, derivado de decomposição vegetal; de cálcio, manganês, sódio, potássio, ferro, magnésio e vários outros elementos.

            A síntese dos resultados parece confirmar a lógica da classificação visual básica; mas é claro que as pequenas variações, contidas nos resultados detalhados, contam muito para a ciência, que sabe interpretá-las.

            Os rios de água branca, barrenta, como Solimões, Javari, Içá, Juruá, Purus, Acre, Macauã, Caeté, Iaco, Branco e Madeira apresentam elevada carga de sedimentos, alta acidez e condutividade, altos teores de ferro, sílica e alumínio e pequenas a moderadas concentrações de manganês, fósforo, nitrogênio e material húmico. Devido aos sedimentos que carreiam e depositam, esses rios formam várzeas. Nos períodos de cheias, suas águas retiram nutrientes do solo por meio do mecanismo de erosão chamado de “terras caídas”.

            Os rios de água preta apresentam baixa carga de sedimentos e baixa acidez, pois o material húmico é normalmente alcalino; além disso, suas águas têm baixos teores de eletrólitos e de sais minerais. As variações que ocorrem nos teores de diversos elementos químicos correspondem às mudanças na constituição geológica das suas bacias de drenagem.

            Os rios de água clara, como Japurá, Trombetas, Tapajós e Arapiuns, apresentam características semelhantes aos de água preta, diferenciando-se, contudo, nas concentrações de material húmico, que são menores.

            Sr. Presidente, tenho voltado repetidas vezes a esta tribuna para falar da Amazônia, da sua natureza e de suas águas. Há anos dedico atenção à legislação que rege os recursos hídricos. Legislação que, nos anos recentes, tem se renovado no caminho da modernidade.

            A gestão dos recursos hídricos, insisto - e é uma pena que às vezes as pessoas não me dêem atenção -, merece extremo cuidado, tanto na escassez como na fartura, como é o caso do norte brasileiro. A água caminha rapidamente para ser, neste novo século que se inicia, um material estratégico de primeira grandeza em escala internacional. O Estado de Israel, hoje, negocia com a Turquia a compra de água a ser embarcada em navios. Esse tipo de relação comercial se tornará mais e mais freqüente.

            Veja, Sr. Presidente, que, tempos atrás, eu chamava a atenção, aqui da tribuna, para o fato de que o Canadá estava exportando água para o Médio Oriente. Depois dessa minha manifestação, fiz um programa de televisão, pela nossa TV Senado, com o Embaixador do Canadá, que afirmou que a exportação é feita da seguinte maneira: por um barril de água exportado, o Canadá recebe em pagamento três barris de petróleo. Repito, Sr. Presidente: por um barril de água exportado, o Canadá recebe em pagamento três barris de petróleo. Enquanto nos Emirados Árabes Unidos compram-se com um dólar seis litros de gasolina, são necessários seis dólares para um litro de água.

            Ora, Sr. Presidente, quando digo que há riqueza na Amazônia, na nossa região, sem que o Governo dê atenção àquele segmento, é porque vejo que estamos, mais uma vez, desperdiçando a oportunidade de utilizarmos essa riqueza imensa de nosso País.

            O Sr. Romeu Tuma (PFL - SP) - Permite-me, V. Exª, um aparte?

            O SR. BERNARDO CABRAL (PFL - AM) - Concedo o aparte ao Sr. Senador Romeu Tuma.

            O Sr. Romeu Tuma (PFL - SP) - Sr. Presidente, Sr. Senador Bernardo Cabral, se o Regimento permitisse, eu falaria de pé, a fim de homenageá-lo pelo brilhante e até poético pronunciamento, tão de acordo com a realidade em que vivemos. Acompanhei de perto todas as exposições que V. Exª fez sobre as águas, inclusive as edições elaboradas pelo Senado com a sua orientação. Algumas universidades em São Paulo solicitaram-me tais exemplares que, infelizmente, se esgotaram. V. Exª me cedeu alguns, o que viabilizou o fato de várias dessas universidades publicarem trabalhos sobre a legislação das águas. Considerei interessante a colocação de V. Exª sobre o rio Negro. Durante o carnaval, visitei a área de treinamento da Polícia Federal na Amazônia e me inteirei das operações realizadas, mediante a vigilância efetiva dos rios, com relação à possibilidade de contrabando de armas e à guerrilha da Colômbia. O Senador Gilberto Mestrinho sabe da importância dessa permanente vigilância nos rios. Mas eu lembrava, Senador Bernardo Cabral, que quando vou ao Amazonas e não consigo um barco que me leve para tomar um banho no rio Negro, sinto que não nasci. Lembro-me, então, do rio Jordão, em que os cristãos eram batizados por João. Renasço a cada banho no rio Negro. Parece que recebo uma nova vida - provavelmente, João e Jesus andam por essas águas -, uma alegria diferenciada daquela que encontramos nos nossos rios poluídos, principalmente no Sul e em São Paulo. O medo é que isso aconteça com a Amazônia. De forma que esse estudo que V. Exª traz sobre as águas de vários rios tem uma importância vital para a sociedade brasileira e, acredito, até internacional. Por isso há tanta cobiça e uma permanente vigilância com relação à Amazônia. Pessoas como V. Exª, que é filho da Amazônia, que é o Senhor das Águas, conforme homenagem prestada pelo povo do Amazonas - o que me deixa feliz e até arrepiado -, tem condições de tratar do assunto com conhecimento, com elegância e com uma enorme força interior, por ter nascido com os pés nas águas do Amazonas. V. Exª, assim como o Senador Gilberto Mestrinho e outros Senadores desta Casa, nasceram no rio Amazonas, são filhos daquela natureza. Logo, defendê-la é natural. É também uma imposição que os olhos transmitiram aos cérebros de V. Exªs, fazendo pulsar permanentemente o coração com a água do Amazonas, que se mistura ao sangue. Eu já senti isso de perto. Que Deus o ajude nessa caminhada.

            O SR. BERNANDO CABRAL (PFL - AM) - Senador Romeu Tuma, quando eu era rapazola, aí por volta dos meus 10, 12 anos, meu velho pai tinha uma fazendinha, um sítio às margens do rio Solimões. E eu ficava olhando aqueles troncos de árvore que desciam o rio, observando-lhe a estratégia: o rio sempre contorna os obstáculos que lhe surgem pela frente até atingir o seu objetivo. Estou me sentindo assim. O obstáculo que V. Exª coloca à minha frente, com esse belíssimo aparte, faz com que eu tente contornar a minha dificuldade no agradecimento. Fique certo, no entanto, que ele parte do coração.

            Como eu dizia ainda há pouco, a água caminha rapidamente para ser, sem dúvida nenhuma, um material estratégico de primeira grandeza.

            O Sr. Nabor Júnior (PMDB - AC) - V. Exª me permite um aparte?

            O SR. BERNARDO CABRAL (PFL - AM) - Não quero ir adiante, eminente Presidente Antonio Carlos Valadares, sem antes ouvir os Senadores Nabor Júnior e Gilberto Mestrinho, que pertencem à minha região, porque sei que enriquecerão este discurso.

            Ouço V. Exª, Senador Nabor Júnior.

            O Sr. Nabor Júnior (PMDB - AC) - Senador Bernardo Cabral, não é a primeira vez que V. Exª assoma à tribuna do Senado Federal para falar deste importante problema, as águas, que representam uma riqueza incomensurável à vida da humanidade. Nós, que somos da Amazônia, nos orgulhamos de ter a maior bacia hidrográfica do mundo, que pode, no futuro, quem sabe próximo, socorrer outros países, como o Canadá está socorrendo Israel, conforme exposto por V. Exª em seu pronunciamento. Então, quero parabenizá-lo por esse oportuno discurso, chamando mais uma vez a atenção das nossas autoridades e da sociedade brasileira, de um modo geral, para a importância das águas. Que não haja tanto desperdício e que não se polua tanto os rios, como há poucos dias mostrou uma reportagem de televisão. Foram apresentados vários casos de rios poluídos cujas águas sequer podem ser utilizadas pelas populações ribeirinhas. Mostraram também praias que recebem esgotos, como nas cidades do Rio de Janeiro, Santos e tantas outras cidades litorâneas do Brasil, cujas águas são consideradas impróprias para serem utilizadas pela população. Então, nós nos vangloriamos de sermos de uma região onde não existe, pelo menos,....

            O SR. BERNARDO CABRAL (PFL - AM) - Escassez e poluição.

            O Sr. Nabor Júnior (PMDB - AC) - ...escassez e poluição nos nossos rios. V. Exª fez alusão a vários rios de grande porte, rios que conhecemos, como o Solimões, o Madeira, o Juruá, o Purus e tantos outros. Lá no meu Município de Tarauacá, temos o rio Jordão - o Senador Romeu Tuma se referiu ao rio Jordão na Palestina, nós temos um rio de mesmo nome no Município de Tarauacá que, hoje, se chama Município de Jordão em homenagem àquele rio. Lembro-me de quando eu era criança: meu pai, que era mascate, subia aquele rio vendendo os seus produtos, e tomávamos banho nas águas do rio Jordão. Parabenizo V. Exª por este brilhante e oportuno discurso que está proferindo nesta tarde.

            O Sr. Gilberto Mestrinho (PMDB - AM) - Permite V. Exª um aparte?

            O Sr. Pedro Simon (PMDB - RS) - Permite V. Exª um aparte?

            O Sr. Maguito Vilela (PMDB - GO) - Permite V. Exª um aparte?

            O SR. BERNARDO CABRAL (PFL - AM) - Sr. Presidente, peço permissão a V. Exª para ouvir os apartes dos Senadores Gilberto Mestrinho, Pedro Simon e Maguito Vilela. Em seguida, concluirei o meu pronunciamento.

            Concedo o aparte a V. Exª, Senador Gilberto Mestrinho.

            O Sr. Gilberto Mestrinho (PMDB - AM) - Nobre Senador Bernardo Cabral, nunca é demais falar sobre a Amazônia, e V. Exª tem sido constante nesta tribuna a falar sobre a nossa região, não somente sobre suas belezas, mas sobre sua importância para o País e para a humanidade. Mais do que isso, V. Exª exige a atenção do Poder Público para aqueles que vivem na região. Queremos apenas contribuir para o desenvolvimento do País; queremos apenas ser tratados em condições de igualdade, com o reconhecimento daquilo que temos e daquilo que podemos fazer em benefício desta Nação. V. Exª, ao falar sobre as águas, as características dos rios amazônicos, a sua influência na vida da região e na própria vida da humanidade, presta um serviço ao País e à Amazônia. Aqueles que vivem na Amazônia sabem que aqui, no Senado, têm em V. Exª um defensor, uma voz constante em defesa dos interesses daquela região e daquele povo. Com certeza, nós todos, juntos, um dia, cantaremos a vitória da nossa região. Parabéns, Senador!

            O SR. BERNARDO CABRAL (PFL - AM) - Sr. Presidente, vou responder ao mesmo tempo a todos.

            Ouço o Senador Pedro Simon e, a seguir, o Senador Maguito Vilela.

            O Sr. Pedro Simon (PMDB - RS) - Eu não estava assistindo ao desfile de Carnaval quando a minha mulher me chamou para mostrar V. Exª desfilando com a família. Fiquei muito emocionado não apenas pela beleza do desfile de Carnaval, que é uma cultura popular, mas pela justiça que fizeram a V. Exª ao denominá-lo “O Senhor das Águas”. V. Exª merece o título e a homenagem. Neste Congresso, é difícil assistirmos a debates em torno de idéias. E V. Exª vem lutando - e como vem lutando! - pela sobrevivência da Amazônia, com garra, com luta, com publicações. V. Exª faz muito por merecer respeito. Tenho dito a mim mesmo, nessa minha malfadada campanha à Presidência, em que os meus maiores inimigos são os líderes do PMDB - o Dr. Renan Calheiros, que atua como ex-líder do Collor e não como líder do PMDB e o Geddel, que ainda se lembra dos tempos em que ele e o pai estavam na Arena, o pai como Secretário do Antonio Carlos Magalhães - que, se eu vencesse, a minha prioridade, depois de extinguir a fome do povo e de implementar a agricultura familiar, seria a Amazônia, que deve merecer a nossa maior atenção. Estou sentindo no ar o cheiro dos que querem vender a Amazônia. O atual Presidente americano, George W. Bush, cuja mãe esteve no Brasil - aliás, teve um atuação melhor do que a dele quando era candidato - disse, em um debate na televisão com seu oponente, respondendo a perguntas de jornalistas: “Acho que o Brasil poderia resolver o seu problema da dívida externa em troca de terras, com a venda da Amazônia”. É o Presidente americano, é o Primeiro-Ministro da Inglaterra, é o Governo francês, é o Governo alemão, que abertamente expressam esse ponto de vista, dizendo, ufanisticamente, que a Amazônia deve ser patrimônio da humanidade. Para defender a Amazônia é necessário tomar medidas, entre as quais a preservação, e não apenas uma preservação como querem alguns, em que não haja desenvolvimento nem progresso, mas que seja uma fórmula combinada. V. Exª está desempenhando um papel notável nessa luta pela preservação da Amazônia. Receba o meu abraço muito carinhoso. V. Exª, que já é um líder, um jurista, foi Presidente da OAB nacional, foi nosso Relator na Constituinte, é o relator do Código do Judiciário, tem mais este brilhante trabalho a executar: ser o grande defensor da nossa Amazônia.

            O SR. BERNARDO CABRAL (PFL - AM) - Concedo o aparte ao Senador Maguito Vilela e, em seguida, responderei aos quatro.

            O Sr. Maguito Vilela (PMDB - GO) - Primeiramente, agradeço a V. Exª a gentileza de conceder-me esse aparte. Vejo que todo o Senado gostaria de aparteá-lo porque o seu discurso é realmente oportuno e importantíssimo, pois trata da Amazônia, das águas do Amazonas e da sua relevância para o Brasil e para o mundo. V. Exª não pode ser chamado simplesmente de “O Senhor das Águas”, mas sim o “Embaixador das Águas”. V. Exª está credenciado a falar ao mundo inteiro sobre a importância do seu Estado, a importância das águas que o seu Estado abriga. O interessante é que o seu Estado, a par de pertencer a uma das regiões mais importantes para o mundo, possui uma inteligência brilhante como a de V. Exª para interpretar e divulgar as suas belezas naturais. Muito obrigado.

            O SR. BERNARDO CABRAL (PFL - AM) - Sr. Presidente Ramez Tebet, ainda há pouco pedi permissão ao Presidente Antônio Carlos Valadares, já que V. Exª assume agora, de fato e de direito, a cadeira da Presidência, para responder de uma vez aos quatro aparteantes que me honraram, interrompendo, para gáudio meu e alegria minha, o meu discurso.

            Verifico uma grande coincidência nos quatro aparteantes: todos foram Governadores dos seus Estados. O Senador Nabor Júnior foi Governador do Estado do Acre; o Senador Gilberto Mestrinho, Governador do Estado do Amazonas; o Senador Pedro Simon, Governador do Rio Grande do Sul e o Senador Maguito Vilela, Governador do Estado de Goiás.

            O Sr. Pedro Simon (PMDB - RS) - E os líderes do PMDB dizem que o Partido não tem, de forma nenhuma, candidatos à Presidência da Republica, que precisa apoiar candidato de fora.

            O SR. BERNARDO CABRAL (PFL - AM) - Mas V. Exª é candidato à Presidência da República. Ainda que V. Exª, Senador Pedro Simon, cause essas erupções cutâneas, V. Exª continue com a sua candidatura.

            E dizia, Sr. Presidente, dessas coincidências, desses acasos que trazem para o Senado quatro Governadores que chefiaram os seus Estados e conhecem de perto as necessidades. Como agradecer a cada um em particular se não me sobra tempo para isso? Talvez lembrando uma frase: quatro aparteantes foram Governadores de Estado. E o que me pede um aparte agora, o Senador Lúcio Alcântara, é um aspirante a Governador de seu Estado.

            É mais uma coincidência, Sr. Presidente! Ou será que aquela velha frase que aprendi a pronunciar não é a correta? Aquela que diz que não existem acasos nem coincidências. Acasos e coincidências são pseudônimos que Deus utiliza quando não quer assinar as suas próprias obras. Quando Ele não quer assinar, coloca embaixo “acaso”.

            Logo, trata-se da presença de Deus neste plenário, dando, por intermédio da sua participação - ainda que não saibamos por onde -, o apoio à Amazônia.

            O Sr. Lúcio Alcântara (Bloco/PSDB - CE) - Permite-me V. Exª um aparte?

            O SR. BERNARDO CABRAL (PFL - AM) - Ouço o Senador Lúcio Alcântara para fechar com chave de ouro o meu pronunciamento. A seguir, concederei um aparte ao Senador Pedro Piva, a quem devo render homenagens depois, por causa do seu discurso.

            O Sr. Lúcio Alcântara (Bloco/PSDB - CE) - Senador Bernardo Cabral, quero dar aqui o meu testemunho do quanto V. Exª se dedica às questões da Amazônia e às questões hídricas do País. V. Exª inclusive é autor de um volumoso livro, publicado pelo Senado - aliás, um dos mais solicitados à nossa Secretaria Especial de Editoração e Publicações -, justamente sobre a água, a escassez, a importância, enfim, a legislação em torno do tema. Como uma pessoa que acompanha o trabalho de V. Exª, eu não poderia deixar de dar-lhe o testemunho do conhecimento que tenho da sua dedicação pelo assunto, como homem da região amazônica. Há um cearense de renome, não sei se V. Exª o conheceu, chamado Quintino Cunha, um grande poeta... 

            O SR. BERNARDO CABRAL (PFL - AM) - Autor do poema “O encontro das águas”.

            O Sr. Lúcio Alcântara (Bloco/PSDB - CE) - E autor de “Pelo Solimões”. V. Exª, há pouco, falava da sua infância, observando os troncos que a água tangia na sua correnteza, o caminho sinuoso que levava a riqueza da água a toda aquela região banhada pelo rio. Enquanto V. Exª falava, eu me lembrava de “Pelo Solimões”, do Quintino Cunha, que, além de “O encontro das águas”, escreveu duas peças que retratam com muita sensibilidade esse fabuloso mundo da Amazônia.

            O SR. BERNARDO CABRAL (PFL - AM) - Senador Lúcio Alcântara, quando Quintino Cunha chegou ao chamado “Gaiola” e parou no encontro das águas, rio Negro e Solimões, ele compôs o poema “O encontro das águas”, cuja primeira e última estrofes são as seguintes:

            Vê bem, Maria, aqui se cruzam: este

            É o Rio Negro, aquele é o Solimões.

            Vê bem como este contra aquele investe,

            como a saudade com as recordações.

            O poema é longo e finda com esta quadra:

            Se estes dois rios fôssemos, Maria,

            Todas as vezes que nos encontramos,

            Que a Amazônia de amor não sairia

            De mim, de ti, de nós que nos amamos!

            É uma homenagem ao Ceará e a V. Exª.

            Vou concluir, Sr. Presidente, mas, antes, V. Exª vai me permitir ouvir o Senador Pedro Piva, por algumas razões, senão a principal: o Senador Pedro Piva, hoje, dá um “até breve” ao Senado. Não vejo como um discurso de despedida, nem poderia ser rotulado de tanto.

            V. Exª sai por uma contingência, que, infelizmente, queiram ou não, abre uma lacuna nesta Casa.

            No instante em que V. Exª me aparteia, eu me vejo privado de apartear o seu discurso, mas não de registrar a alegria deste “até breve”, porque, em outubro de 2002, teremos eleições e, em 2003, quem sabe não nos reencontraremos!

            Ouço V. Exª, Senador Pedro Piva.

            O Sr. Pedro Piva (Bloco/PSDB - SP) - Senador Bernardo Cabral, não vou aparteá-lo, porque quero que V. Exª me aparteie no meu discurso de despedida.

            O SR. BERNARDO CABRAL (PFL - AM) - Senador Pedro Piva, eu esperava o aparte de V. Exª para enriquecer o meu discurso. Já que V. Exª não o enriqueceu, vou empobrecer o de V. Exª. Não há nenhum problema!

            Sr. Presidente, vou concluir o meu discurso. Permita-me que leia a última página do meu pronunciamento.

            Interessa-nos solidificar crescentemente nosso efetivo domínio sobre a Amazônia brasileira, esse mundo das águas. Isso, de plano, exige conhecimento da natureza, atividade científica.

            Sr. Presidente, estudos como este que trago à atenção desta Casa são passos com os quais vai avançando a ciência, ampliando a nossa visão e compreensão do imenso universo das águas amazônicas, que varam planícies, nascem em alagados, brotam de montanhas. A propósito, nunca é demais lembrar que o Solimões começa, modesto, em pequena lagoa nas geleiras dos Andes, a 5.000 metros de altura. Depois disso, ele anda 6.570 km, devorando distâncias, absorvendo geologias, sugando essências florestais; ele, por si mesmo, e por meio de seus afluentes e subafluentes.

            É um mundo a estudar e a conhecer. É com satisfação que comprovamos a contribuição de cientistas brasileiros nessa obra em andamento. Obra que pode levar a um desenvolvimento equilibrado, à obtenção de riquezas. Conhecimento científico que pode firmar e reforçar a presença humana e institucional, a posse política. Fazê-la construtiva, incontestável.

            Sr. Presidente, sei que haveremos de saber somar o conhecimento da sutileza da química das águas às sutis interações por meio das quais nós, brasileiros, iremos, na Amazônia, tecendo o econômico e o político, o social e o ambiental. Nesse enorme espaço, generoso, onde precisamos encontrar caminhos e soluções, muito próprias, de um convívio entre geografia e sociedade gerador de prosperidade e de dignidade para a região e para o Brasil.

            Sr. Presidente, ao descer da tribuna, quero agradecer primeiramente ao eminente Presidente Antonio Carlos Valadares, que, no começo desta sessão, fez com que eu pudesse me prolongar nesta tribuna - e agora a V. Exª -, em quase uma hora. De qualquer sorte, vale para a Amazônia, pela Amazônia e por todos nós, que somos brasileiros.

            Muito obrigado, Sr. Presidente.

 

            


            Modelo110/15/2610:08



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