Pronunciamento de Geraldo Mesquita Júnior em 21/02/2003
Discurso durante a 4ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal
Registro de uma expedição que ocorre no Acre com o objetivo de conhecer os problemas da região e chamar a atenção da imprensa local e nacional para as riquezas e potencialidades daquele Estado. Contestação ao pronunciamento do Senador Romero Jucá, que fez críticas a política econômica do governo federal.
- Autor
- Geraldo Mesquita Júnior (PSB - Partido Socialista Brasileiro/AC)
- Nome completo: Geraldo Gurgel de Mesquita Júnior
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
DESENVOLVIMENTO REGIONAL.
GOVERNO FEDERAL, ATUAÇÃO.:
- Registro de uma expedição que ocorre no Acre com o objetivo de conhecer os problemas da região e chamar a atenção da imprensa local e nacional para as riquezas e potencialidades daquele Estado. Contestação ao pronunciamento do Senador Romero Jucá, que fez críticas a política econômica do governo federal.
- Aparteantes
- João Capiberibe, Romero Jucá, Sibá Machado.
- Publicação
- Publicação no DSF de 22/02/2003 - Página 1984
- Assunto
- Outros > DESENVOLVIMENTO REGIONAL. GOVERNO FEDERAL, ATUAÇÃO.
- Indexação
-
- REGISTRO, REALIZAÇÃO, EXPEDIÇÃO, ESTADO DO ACRE (AC), OBJETIVO, PESQUISA, CONHECIMENTO, RIQUEZAS, REGIÃO, DIVULGAÇÃO, IMPRENSA, AMBITO ESTADUAL, AMBITO NACIONAL, PROMOÇÃO, DESENVOLVIMENTO REGIONAL.
- CONTESTAÇÃO, DISCURSO, AUTORIA, ROMERO JUCA, SENADOR, CRITICA, POLITICA ECONOMICO FINANCEIRA, GOVERNO FEDERAL, ESCLARECIMENTOS, ANTERIORIDADE, CRISE, ECONOMIA NACIONAL, GESTÃO, FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, EX PRESIDENTE DA REPUBLICA, REGISTRO, COMPROMETIMENTO, LUIZ INACIO LULA DA SILVA, PRESIDENTE DA REPUBLICA, BENEFICIO, POPULAÇÃO CARENTE, PROMOÇÃO, DESENVOLVIMENTO SOCIAL.
O SR. GERALDO MESQUITA JÚNIOR (Bloco/PSB - AC. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, assessores, visitantes, caras companheiras Taquígrafas, por meio das quais cumprimento todos os servidores desta Casa, que têm se mostrado diligentes para comigo, calouro, recém-chegado, facilitando o meu trabalho no Senado Federal.
Farei um registro de uma verdadeira aventura que ocorre presentemente no meu Estado, mais propriamente na região do Juruá. Trata-se de uma expedição pelos bonitos rios daquela região, encabeçada pelo desembargador Arquilau de Castro Melo, acompanhado do jornalista Elson Martins, ilustre amigo comum meu e do Senador João Capiberibe; da jornalista, socióloga e escritora Maria Maia; do médico e Presidente do Partido Verde, Júlio Eduardo, Dr. Julinho, que foi suplente da Senadora Marina Silva nesta Casa; do paleontólogo Alceu Ranzi; do fotógrafo Edson Caetano; do engenheiro florestal Guilherme Andrade e do artista Marquesom Pereira da Silva, mestre em marchetaria.
Fui convidado para essa expedição, mas, na impossibilidade de comparecer, faço este registro, pois é como se lá estivesse, usufruindo toda aquela beleza. Numa próxima oportunidade, não faltarei.
O mentor da viagem, desembargador Arquilau de Castro Melo, explica a expedição como uma forma de conhecer os problemas da região e chamar a atenção da imprensa local e nacional para as riquezas e potencialidades do Acre. É com essa intenção que a equipe passará por aldeias indígenas, visitará centenas de milhares de ribeirinhos, acima da cidade de Thaumaturgo, no rio Amônia e em outros rios daquela região. O desembargador defende que vale a pena mergulhar na acreanidade, aprofundando os conceitos de povos1 da floresta e florestania. No nosso Estado, cunhamos a expressão “florestania”, que traduz o nosso compromisso radical com a promoção da cidadania dos povos da floresta.
Feito o registro e após ter ouvido o ilustre Senador Romero Jucá, com muita atenção, quero dizer que estou surpreso. Meu sentimento após as últimas eleições e ao chegar a esta Casa é o sentimento de quem desperta de um grande pesadelo, vivido durante muitos anos neste País. Hoje, juntamente com esse sentimento tenho outro: o de que estamos sonhando acordados, um sonho que se afigura bonito, um sonho de construção, de companheirismo e camaradagem com todo o povo brasileiro, notadamente a grande maioria da população brasileira, que sempre viveu excluída dos benefícios do desenvolvimento, marginalizada e tratada com descaso e desrespeito. Isso ocorreu porque, durante muitos e muitos anos, as suas representações políticas, até então majoritárias, ocuparam-se precipuamente em privilegiar grupos do grande capital, especuladores, predadores deste enorme e querido País.
Fico surpreso ao perceber que tivemos uma eleição em que o povo brasileiro se manifestou espontânea e maciçamente pela realização e construção de um projeto nacional, liderado pelo Presidente Lula, uma pessoa dotada de extrema sensibilidade e de radical compromisso com a transformação efetiva deste País. Dessa forma, as enormes camadas sofridas da população, que, nos últimos anos, não mereceram por parte de seus governantes um tratamento condigno, poderão usufruir os benefícios do progresso que haveremos de construir.
Em jantar recentemente oferecido pelo Presidente do Senado, Senador José Sarney, ao Presidente da República, tive oportunidade de dizer ao Presidente Lula que me animei com o convite formulado pelo meu Partido, pelo Governador do meu Estado, pela Senadora Marina Silva, pelo Senador Tião Viana, pelo querido companheiro Sibá Machado, hoje Senador, e por muitas lideranças do meu Estado, para concorrer a uma vaga no Senado Federal porque eu antevia como seria gratificante integrar esta Casa e assumir de coração, com sinceridade e com paixão o compromisso de dar sustentação política àquele que eu já vislumbrava futuro Presidente deste País, o que acabou se confirmando. Eu disse ao Presidente Lula: “Presidente, estou no Senado movido por esse sentimento, o senhor é o responsável por isso. Estou lá por sua causa. Em outras circunstâncias, talvez eu não tivesse me animado a participar do pleito, reservando-me a ajudar aqueles companheiros que para cá viriam com certeza”.
O Governo deste País foi entregue ao Presidente Lula cheio de nós, de nós bem atados, que levarão tempo e darão trabalho para ser desatados. Essa é uma tarefa difícil e árdua e, ninguém aqui se iluda, o povo brasileiro tem a exata consciência do que está acontecendo.
Há setores neste País que teimam ...
O Sr. João Capiberibe (Bloco/PSB - AP) - Senador Geraldo Mesquita, V. Exª me permite um aparte?
O SR. GERALDO MESQUITA JÚNIOR (Bloco/PSB - AC) - Com todo o prazer, Senador.
O Sr. João Capiberibe (Bloco/PSB - AP) - Os Senadores Mesquita e Sibá vêm das cabeceiras do rio Amazonas, S. Exªs protegem as nascentes do rio. E eu sou um Senador da foz do rio Amazonas, por isso, temos uma comunicação através do rio e uma identidade na preocupação com a cidadania dos povos da floresta e também com a preservação desse imenso patrimônio ambiental da sociedade brasileira. A ausência de políticas capazes de contemplar os diversos ecossistemas de um País que é uma potência ambiental precisa ser discutida nesta Casa. Precisamos definir, além da política florestal, a política de uso e de inclusão social nos diversos ecossistemas brasileiros. E essa discussão tem que ser trazida principalmente por nós, detentores de um imenso patrimônio ambiental preservado. É evidente que somos resultado daquilo que plantamos e cultivamos. Este País é uma federação de Estados, que, neste momento, está reunida com o Presidente da República. Percebemos que uma boa parte desses Estados está mergulhada em uma crise econômica e social e alguns estão até inadimplentes. Ontem, juntamente com o Senador Geraldo Mesquita, participei de uma reunião com a Governadora Rosinha Matheus, que nos apresentou os dados de inadimplência, de insolvência do Estado do Rio de Janeiro. O que é mais grave é que o imenso déficit daquele Estado não permite mais a S. Exª honrar os compromissos com os salários, ora atrasados. Trata-se de um déficit crescente, que precisa, evidentemente, de solução. Citei o caso do Rio de Janeiro, as dificuldades que o Estado atravessa, bem como vários outros Estados brasileiros, mas quero afirmar que nem todos estão nessa situação. Ontem, abrindo a Internet, analisando os depósitos nas contas do Governo do Estado do Amapá, tive a grata surpresa de ver que, em menos de dois meses, o Governador recém-empossado dispõe de R$70 milhões em caixa, o que mostra a saúde financeira, o equilíbrio orçamentário e financeiro do Estado. A Previdência, no Amapá, foi reformada há quatro anos, para evitar problemas futuros. A Previdência dos servidores está garantida. Então, é um Estado absolutamente equilibrado, resultado da decisão política daquela sociedade. Ora, se temos, meu caro Senador, um Estado equilibrado e outros em situação de extrema penúria, e a sociedade brasileira mergulhada em crise, isso é o resultado daquilo que cultivamos na política. E o Governo Lula é resultado de um somatório de lutas políticas e sociais - e incluo-me nessas lutas, desde 1989, da primeira candidatura de Lula, quando fui prefeito de Macapá, cercado por todos os lados, tempo de uma oposição ainda fundamentada na Guerra Fria. Desde aquela época, estamos acumulando força para que Lula se tornasse o nosso Presidente. Se o Governador Waldez Góes, no Amapá, assume um Estado em absoluto equilíbrio, é porque há um histórico de sacrifícios, de impopularidade, a que fomos submetidos, para equilibrar e fazer a gestão pública do Amapá com extrema responsabilidade fiscal - o que foi feito nos três primeiros anos do mandato e me rendeu uma impopularidade absurda, de mais de 70%, no Amapá. Além disso, passei por um conflito permanente para evitar que as elites locais, os ricos, continuassem transferindo renda dos pobres para si, o que me rendeu mais de 180 processos judiciais. Portanto, não há avanço sem conflitos, sem crise. As medidas que o Governo Lula vem tomando, a extrema precaução nas suas decisões, são porque sabe que esse castelo não tem alicerce, e algumas outras medidas para desconcentrar a renda com a rapidez que a crise social exige podem mergulhar o País numa crise maior. Portanto, quero dizer que a nossa expectativa, evidentemente, é que as políticas iniciais são para aprofundar o nosso conhecimento, pois somos recém-chegados tanto na esfera do Legislativo como do Executivo. Porém, tenho absoluta convicção de que, da mesma forma como conquistamos o equilíbrio orçamentário e financeiro, como fizemos uma grande distribuição de renda, de acordo com os índices do IBGE - que elaborou um relatório sobre a sustentabilidade socioeconômica no País demonstrando que o meu Estado é, hoje, o melhor em distribuição de renda, de acordo com o Índice de Gini -, do mesmo jeito como, naquele ente federado, um pedaço do Brasil, nós conquistamos o equilíbrio financeiro, se nós concentrarmos a nossa discussão e o nosso debate na saída para a crise, iremos conseguir o que queremos a médio prazo. Não é possível conquistar ou fazer mudanças num passe de mágica. Mudanças exigem sacrifícios, e aqueles que já perderam tanto não podem mais continuar perdendo. Alguém terá que se sacrificar e, evidentemente, são os grupos que jamais perderam ao longo de qualquer modificação ou proposta de mudança neste País. Muito obrigado a V. Exª por me conceder este aparte.
O SR. GERALDO MESQUITA JÚNIOR (Bloco/PSB - AC) - Eu é que agradeço, nobre Senador João Capiberibe.
O Sr. Romero Jucá (PSDB - RR) - Permite-me V. Exª um aparte?
O SR. GERALDO MESQUITA JÚNIOR (Bloco/PSB - AC) - Pois não. Ouço o aparte de V. Exª, nobre Senador Romero Jucá.
O Sr. Romero Jucá (PSDB - RR) - Nobre Senador, eu não pretendia voltar ao tema. Eu fiz uma rápida colocação aqui sobre as taxas de juros e algumas discordâncias da política econômica do Governo, mas, como V. Exª e o nobre Senador Duciomar Costa trataram do tema, eu acho importante voltarmos ao assunto, nem que seja rapidamente, para fazer um registro que considero extremamente importante. O que nós estamos vendo - e é isto que tem chamado a atenção e para o que, de certa forma, estamos alertando - não é só o aumento de um ponto na taxa de juros ou, na verdade, não é algum tipo de atitude administrativa tomada por esse ou aquele motivo. Eu quero voltar mais um pouco. No ano passado, nós tivemos uma eleição e, nessa eleição, foram colocados dois caminhos para o povo brasileiro. Um caminho que, na época, era defendido pelo Governo do qual fui Líder e que falava da responsabilidade fiscal, da herança que o País tinha, de 500 anos de herança de muita dificuldade, falta de atividade econômica, com a pobreza grassando em várias regiões, principalmente nas nossas Regiões Norte e Nordeste. Enfim, gerou-se um quadro de dificuldades, e clamávamos pela responsabilidade, pela governabilidade e pela necessidade de implementar ações duras, a fim de que essa realidade fosse modificada. O Governo Fernando Henrique avançou muito, montou uma rede de proteção social importante. V. Exª sabe o quanto é importante no Acre o PET, por exemplo, o Programa Agente Jovem ou o Bolsa-Escola, os quais também servem todos os Estados, principalmente os do Norte e do Nordeste. No Governo Fernando Henrique, olhou-se para o lado social e também para o lado estruturante de mudanças. E, ao longo desse debate, o que vimos por parte do PT? Não vimos o PT preocupado com governabilidade, não vimos o PT preocupado com os meios necessários para se chegar aos fins. Vimos o PT, com muita razão - respeito a sua posição -, discutindo o modelo. O PT dizia, em alto e bom som, para quem quisesse ouvir, que a alteração da taxa de juros era uma decisão política, não era uma decisão técnica: “O Governo está aí para mandar. Não pode aumentar a taxa de juros”. Sou membro da Comissão de Orçamento há oito anos nesta Casa e sou testemunha de que a Bancada do PT jamais votou a questão do superávit primário. O PT dizia: “Superávit é para pagar juros, o que privilegia o capital internacional especulativo. Não vamos votar o superávit. O dinheiro do superávit tem que ser aplicado em obras sociais, em ações que possam gerar empregos”. Esse era o discurso do PT. Fomos para a eleição. Respeito o Presidente Lula, e, em muitas questões, somos aliados do PT no meu Estado. Na verdade, lá o PT sou eu; se há alguém mais radical, que age de forma mais concreta no meu Estado, somos nós, não é o PT. Tive mais votos do que o Presidente Lula, sou o parlamentar mais votado na história do meu Estado, pelas posições que tenho assumido. Tive mais votos do que o Presidente, do que os Senadores, do que os Governadores. Tenho tido uma posição muito clara quanto a essas questões. Apóio parte das mudanças que o Partido dos Trabalhadores propôs na eleição. Ainda no Governo passado, discuti várias vezes e era uma voz contra a cobrança previdenciária dos inativos, porque considerava uma proposta equivocada. Houve a eleição, e ouvimos um discurso do PT e um discurso do Governo. O discurso do PT ganhou a eleição, legitimamente. Havia uma necessidade e um anseio de uma forte mudança. Por quê? Por conta da esperança provocada pelo discurso feito para o povo brasileiro, propondo um reajuste de 72% ao servidor público e muitas coisas mais. O que nos surpreende agora? Se V. Exª está surpreso, imagine eu, que debati muito sobre essa questão aqui no Senado. O PT entra no Governo e, num passe de mágica, começa a dizer que não é possível mudar agora, porque temos uma herança. Essa herança não é de oito anos - já disse isso aqui na tribuna -, mas sim de quinhentos anos. O Presidente Fernando Henrique também recebeu uma herança, assim como o Presidente Lula, que também deixará uma herança para o próximo Presidente. Temos que trabalhar, ajustando a Casa, para que essa herança seja menor. E podia ter sido menor se o PT tivesse votado a reforma da Previdência e uma série de mudanças que nós propusemos e que o PT não quis votar na época e, agora, quer. Surpreende-me agora abrir o jornal e saber que o PT está aumentando juros - e não foi esse o discurso do passado -, que o PT está propondo a cobrança previdenciária dos inativos - e não foi esse o discurso do passado...
A Srª Heloísa Helena (Bloco/PT - AL) - O PT não está cobrando isso. V. Exª sabe disso.
O Sr. Romero Jucá (PSDB - RR) - O PT está cobrando isso. Tudo isso está na proposta, numa carta enviada por José Dirceu aos Governadores, Senadora Heloísa Helena. Vou-lhe fornecer uma cópia. Talvez o PT de V. Exª não esteja cobrando isso, mas o PT do Governo está. Então, são mudanças como essa que precisam ser esclarecidas. O PT pode querer assumir que era Oposição; que pregava algo que não era realidade, que era sonho, utopia; que tem que lutar pelo sonho, mas que não é possível concretizá-lo agora. Portanto, o Lula deve dizer: “Esqueçam o que eu disse, o que escrevi, e, agora, vamos trabalhar na linha pragmática, da responsabilidade. Vamos dar um passo de acordo com cada perna”. Ótimo. Vamos ficar muito felizes, porque vamos votar algumas questões juntos, neste plenário. Mas, cobrança de inativos, não votarei. Não votaria nessa questão junto com o Governo passado, que sabia disso. Vamos lutar pelo reajuste salarial. Hoje, o Governo fala em não dar nem os 4% de aumento ao salário dos servidores, o que é previsto no Orçamento. E está aí o Sindicato pedindo 49% de aumento. Vamos apoiar essa luta. Se Lula tivesse dito na campanha eleitoral que ia aumentar juros, que ia cobrar a previdência dos aposentados e que ia continuar a política econômica de Fernando Henrique, eu não estaria cobrando agora coerência. Mas o discurso não foi esse. O discurso foi diferente. Estou preocupado, porque percebo que o Governo está com muita dificuldade de avaliar todas as áreas. Está aqui no jornal O Globo: ”Ministro Graziano é declarado persona non grata em Recife, na Câmara Municipal”. E isso se dá com os votos do PT, pois os vereadores do PT votaram contra o Graziano. Está aqui. Somos nós da Oposição que estamos inventando isso? Não. Um Ministro desastrado falou à imprensa, na Fiesp, o templo do capital no Brasil, acusando os nordestinos de serem a causa da violência. Alguns nordestinos até são um pouco mais radicais, como eu e a Senadora Heloísa Helena, que temos um sangue um pouco mais quente. Mas a capacidade de avaliação do Governo está perdida em todos os campos. Está tão perdida a capacidade de avaliação do Governo, que, ontem, em uma matéria do jornal O Globo, o Senador Aloizio Mercadante, Líder do Governo, disse que Marco Maciel era um xiita radical. Pode-se até dizer isso de mim, da Senadora Heloísa Helena - como já estão dizendo -, do Senador Antero Paes de Barros, que é combativo. Mas como se pode dizer que o Senador Marco Maciel é um xiita? Eu disse a S. Exª, inclusive, que eu e a Senadora Heloísa Helena iremos ao PSTU e vamos levar o Senador Marco Maciel também.
O SR. GERALDO MESQUITA JÚNIOR (Bloco/PSB - AC) - Situe a questão. O Senador Aloizio Mercadante se referiu a esse fato para ilustrar a ausência do Senador Marco Maciel no jantar oferecido.
O Sr. Romero Jucá (PSDB - RR) - É claro. Eu sei disso. Digo isso porque, quando as peças começam a se formar, na verdade, percebemos que o Governo está um pouco perdido. E eu lamento isso. Eu esperava que o Presidente Lula assumisse, no dia 1º de janeiro, com uma proposta consistente, preparada. Juro a V. Exªs que acreditei naquele programa de televisão do Duda Mendonça, em que passava aquela grua mostrando o povo trabalhando com computador, aquela equipe de pessoas competentes, inteligentes. Acreditei que aquilo era para valer, que havia uma proposta de Governo, a qual seria implementada no primeiro dia. Mas isso não ocorreu. No primeiro dia, aumentaram os juros, que, depois, foram elevados novamente; depois, aumentaram o superávit, fizeram isso e aquilo. Tudo isso, entendo, queima a esperança do povo brasileiro. Os aposentados que nos estão assistindo não votaram no Lula para que ele passasse a cobrar deles contribuição previdenciária. O servidor público que nos está assistindo votou no Lula para ter reajuste salarial, não apenas os 4% - e já estão dizendo que só serão 2,3% de aumento. É esse tipo de coerência que quero cobrar, porque não quero que o Governo do Lula caia no descrédito. Não quero isso! Sou oposição, vamos brigar muito aqui. Vou jogar duro, mas vou jogar na bola, não na canela. Quero que o País avance com o Lula, como quero ganhar a eleição contra ele daqui a quatro anos. Mas esse será um outro momento. Não vamos jogar no “quanto pior melhor” para radicalizar o País. Pelo contrário. Sempre tivemos aqui uma relação de amizade, uma relação fraterna, com todos os membros da antiga Oposição, que agora formam a base do Governo. Eu ia até defender a Senadora Heloisa Helena hoje de umas declarações do Presidente do PT, José Genoíno, mas, como S. Exª aqui chegou, se tocar no assunto, estarei solidário, porque penso que as coisas têm que ser encaminhadas de forma cuidadosa. O PT está errando. Para falar no jargão do futebol que o Presidente gosta de usar na política, eu diria que o PT “está pisando na bola”. Temos que ajudar para que ele não pise na bola e sim faça gol, porque é disso que o País precisa. Muito obrigado pelo aparte.
O SR. GERALDO MESQUITA JÚNIOR (Bloco/PSB - AC) - Agradeço-lhe, Senador Romero Jucá.
Partindo do final da sua manifestação, eu diria que existem muitas diferenças entre o Governo passado, perverso com o povo brasileiro, e o que se instalou agora. Mas a grande diferença é exatamente esta: nós trabalhamos a construção coletiva. Até os erros eventuais que cometemos, e haveremos de cometer, são frutos do trabalho e da participação coletiva.
Este não é um governo de pacotes. Lastimavelmente nos habituamos a ver, num passado muito recente, pacotes e mais pacotes serem inclusive mal embrulhados e jogados no colo da população brasileira na marra, sem que a população tivesse oportunidade de discutir os assuntos neles contidos.
O Sr. Sibá Machado (Bloco/PT - AC) - V. Exª me permite um aparte?
O SR. GERALDO MESQUITA JÚNIOR (Bloco/PSB - AC) - Concedo um aparte ao Senador Sibá Machado.
O Sr. Sibá Machado (Bloco/PT - AC) - Senador Geraldo Mesquita Júnior, em primeiro lugar, parabenizo V. Exª pela chegada a esta Casa, pelo seu trabalho, pela sua participação brilhante na construção da aliança política que reconduziu o nosso espaço político no Estado do Acre. Em segundo lugar, ainda sobre o tema, fico impressionado em ver o Senador Romero Jucá, de certa forma, querendo culpar o PT pelas reformas que não ocorreram no Governo Fernando Henrique. Os números são claros: de 513 Deputados Federais, o PT contava com 60, um pouco mais de 10%. No caso do Senado, a estatística é mais ou menos a mesma: oito Senadores, num total de 81. Portanto, fico impressionado por se querer responsabilizar o PT pela não-aprovação das reformas. Não se pode transferir essa responsabilidade.
O SR. GERALDO MESQUITA JÚNIOR (Bloco/PSB - AC) - Falava-se muito no rolo compressor.
O Sr. Romero Jucá (PSDB - RR) - Eu gostaria de dar uma informação. O PL nº 9, que é o projeto legislativo fundamental para se definir o modelo de previdência complementar do setor público, está há três anos parado na Câmara por causa da ação de obstrução dos partidos que eram Oposição, inclusive as emendas.
O SR. GERALDO MESQUITA JÚNIOR (Bloco/PSB - AC) - E onde estava o rolo compressor, Senador?
O Sr. Sibá Machado (Bloco/PT - AC) - Nesse debate de espaço, do direito de espaço para se falar e expor idéias, não podemos ser responsabilizados pelos fatos ocorridos. Mas quero parabenizá-lo pela sua lembrança. Em primeiro lugar, as palavras do Senador Aloizio Mercadante a respeito do Senador Marco Maciel faziam referência à ausência de S. Exª em um jantar. Agora, na TV Senado, passa-se a imagem de que S. Exª está sendo chamado de xiita por seu comportamento nesta Casa. Reafirmo, como já foi dito por V. Exª, que queremos, em todos os momentos, promover um debate coletivo e participativo de toda a sociedade. Nada de pacotes ou de decisões tomadas de cima para baixo. Obrigado.
O SR. GERALDO MESQUITA JÚNIOR (Bloco/PSB - AC) - Agradeço a V. Exª, Senador Sibá Machado, pelo aparte...
O SR. PRESIDENTE (Eduardo Siqueira Campos) - Senador Geraldo Mesquita Júnior, a Mesa informa que não pretende interromper um debate tão oportuno, mas V. Exª já ultrapassou o tempo em 13 minutos. Peço que V. Exª balize os apartes e finalize o seu pronunciamento.
O SR. GERALDO MESQUITA JÚNIOR (Bloco/PSB - AC) - Sr. Presidente, já vou encerrar.
Quero me referir à transição de governo. O processo de transição foi cheio de salamaleques, cheio de mesuras. Na minha avaliação pessoal, isso teve como um dos propósitos mascarar, disfarçar aquilo que estava sendo entregue ao futuro governo, do companheiro Lula. Há pouco, eu disse que este País foi entregue cheio de nós atados: o nó da concentração absurda e indecente de renda na mão de poucos; o nó da concentração absurda e indecente de terras na mão de poucos; o nó da dificuldade que o pequeno agricultor tem para obter crédito para sua atividade, quando -- isso era uma realidade - bancos oficiais rolavam o tapete vermelho para que os grandes proprietários, os grandes do capital ingressassem nesses bancos e retirassem dali dinheiro que, muitas vezes, jamais eram devolvidos. O povo brasileiro está ciente disso.
Eu disse que estava surpreso com a postura daqueles que, até há pouco tempo, eram governo e que, agora, procuram o clima da discórdia, jogando o povo brasileiro contra aqueles que estão sinceramente comprometidos e imbuídos do propósito de construir um Brasil justo, um Brasil fraterno, um Brasil em que prevaleça a justiça social. Estou surpreso, mas não estou preocupado, porque tenho certeza de onde chegaremos. Tenho certeza de que esse País, com o qual todos sonhamos há muitos anos, está sendo construído com a participação de todo o povo brasileiro. É isso o que muita gente não entende. O Presidente Lula está ouvindo a sociedade brasileira de diversas formas. Sua Excelência jamais chegaria a este Congresso Nacional trazendo pacotes, sem a discussão prévia e a participação da sociedade brasileira organizada.
Eu gostaria inclusive de dizer que considero injusto o que se dizia, por exemplo, do PSDB, que era um Partido que vivia em cima do muro. Creio que, dizendo isso, cometemos uma grande injustiça, porque o PSDB foi um Partido que, quando era Governo, desceu do muro e aliou-se ao grande capital, aos especuladores e aos predadores deste País.
Para encerrar, Sr. Presidente, reafirmo o meu propósito de, aliado aos companheiros que têm uma história de luta nos movimentos social e sindical, que sofreram e militaram com a população brasileira, de continuar essa luta. Estou aqui para me unir a essas pessoas e a estes ilustres representantes do povo brasileiro para que promovamos, sim, com sinceridade, com dedicação e com respeito ao povo brasileiro a sustentação política do Presidente Lula; e, no que diz respeito ao meu Estado, a sustentação política do Governador Jorge Viana, que, já em um segundo mandato, tem o carinho e o respeito da população acreana e de todo o País. Tenho certeza de que S. Exª fará novamente uma grande gestão.
Convido as Srªs e os Srs. Senadores que têm essa paixão, esse compromisso com a população do nosso País para que, unidos, possamos participar deste momento bonito, que se afigura como sendo a construção de um País justo e fraterno, em que se pratica a justiça social.
Muito obrigado.