Discurso durante a 16ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Comemoração dos 180 anos da participação do Estado do Piauí na Batalha do Jenipapo. Solicitação de apoio do governo Lula à instalação de refinaria de petróleo no Piauí.

Autor
Mão Santa (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/PI)
Nome completo: Francisco de Assis de Moraes Souza
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
HOMENAGEM. POLITICA SOCIAL. DESENVOLVIMENTO REGIONAL.:
  • Comemoração dos 180 anos da participação do Estado do Piauí na Batalha do Jenipapo. Solicitação de apoio do governo Lula à instalação de refinaria de petróleo no Piauí.
Aparteantes
Almeida Lima.
Publicação
Publicação no DSF de 14/03/2003 - Página 3384
Assunto
Outros > HOMENAGEM. POLITICA SOCIAL. DESENVOLVIMENTO REGIONAL.
Indexação
  • HOMENAGEM, PARTICIPAÇÃO, POPULAÇÃO, ESTADO DO PIAUI (PI), CONFLITO, HISTORIA, BRASIL, CONTRIBUIÇÃO, INDEPENDENCIA, SUBORDINAÇÃO, PAIS ESTRANGEIRO, PORTUGAL.
  • MANIFESTAÇÃO, APOIO, POLITICA SOCIAL, LUIZ INACIO LULA DA SILVA, PRESIDENTE DA REPUBLICA, PRIORIDADE, PROGRAMA DE GOVERNO, COMBATE, FOME.
  • SOLICITAÇÃO, APOIO, GOVERNO FEDERAL, INSTALAÇÃO, REFINARIA, PETROLEO, ESTADO DO PIAUI (PI), EXISTENCIA, RIQUEZAS, RECURSOS NATURAIS, IMPORTANCIA, PROMOÇÃO, DESENVOLVIMENTO REGIONAL.

O SR. MÃO SANTA (PMDB - PI. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, brasileiras e brasileiros que assistem à programação da TV Senado, com grande convicção digo daqui, desta tribuna que o dia de hoje, 13 de março, é o mais importante da História do nosso País. Dos 365 dias, durante os 502 anos de Brasil, o dia mais importante deste País ocorreu há 180 anos, a 13 de março, no grandioso Estado que represento, o Piauí.

Pouco se sabe sobre a nossa verdadeira História; e quem melhor a escreveu foi Darcy Ribeiro, no seu livro A Verdadeira Formação do Povo Brasileiro. Pouco se sabe da nossa História!

Temos de aprender com a História e com os mortos. Atualmente, ouve-se falar muito na guerra que se aproxima, e quero falar da guerra que foi o orgulho do nosso País.

Muitas foram as guerras e revoltas que tivemos, e a televisão está revivendo a do Rio Grande do Sul, mas nenhuma foi tão grandiosa e nos deixou tão orgulhosos como a de 13 de março de 1823, há 180 anos.

A independência deste País não foi aquele acordo de pai para filho: “Tome, filho, o Sul”! Os portugueses queriam o norte do Brasil. Enquanto lá tudo era festa, havia a herança de pai para filho, D. João VI queria o norte.

É preciso dizer que ele estava aqui com medo de Napoleão Bonaparte, que tentou invadir Portugal, mas não conseguiu, porque havia um oficial brilhante chamado Fidié. E esse mesmo Fidié, afilhado e sobrinho de D. João VI, um dos maiores militares das Forças Armadas portuguesas, foi deslocado para o norte deste País, para o Piauí, para a cidade de Oeiras, cujo nome mostra a dependência de Portugal. Desceu em 22 de agosto. Ele era Governador das Armas de Portugal. Não era qualquer um. Ele defendera, com êxito, Portugal do exército napoleônico. E, em agosto, ele constatou que havia um movimento de rebeldia na minha cidade Parnaíba.

Sr. Presidente, o maior brasileiro ilustre - lamentamos pouco se estudar e pouco se saber sobre este País - foi Simplício Dias da Silva. Ninguém o excedeu. A História foi mal contada. Esse jovem, filho de português e rico, estudando em Porto e na Espanha, conviveu com Simon Bolívar. Esse jovem é o maior do grande livro da nossa História, escrito por uma mulher - tinha que ser uma mulher -, As Barbas do Imperador. Naquela época, ela disse que só havia quatro orquestras no Brasil. Uma era em Parnaíba, desse jovem que estudou na Europa, companheiro de Simon Bolívar. Os seus escravos, que eram milhares, ele os mandou estudar música em Portugal - esse fato também está no livro As Barbas do Imperador.

Esse jovem não aceitou a tomada da região e iniciou um movimento para expulsar os portugueses do norte do Brasil. Já havia o decreto segundo o qual o País seria chamado Maranhão. O Maranhão estava aliado a Portugal. E, chegando Fidié ao Piauí, mandou o primeiro decreto-ordem, mudando o delegado de minha cidade; mudando o brasileiro Joaquim Timóteo por um português, e o povo da minha cidade não aceitou.

O interventor português, o Governador das Armas portuguesas, foi debelar esse movimento na cidade de Parnaíba. Srªs e Srs. Senadores, por quase 700 quilômetros - naquele tempo em que era difícil a locomoção -, os comandantes foram a cavalo e os soldados a pé.

Os portugueses invadiram a nossa cidade apoiados por forças do Maranhão, mas Simplício Dias da Silva, homem experimentado e estudioso, levou seus companheiros para o Ceará, arregimentou companheiros cearenses e esperou a volta de Fidié.

Em março de 1823, deu-se a grande Batalha do Jenipapo. O Piauí perdeu para Portugal. Morreram muitos, mais de duzentos. Eram dois mil piauienses e alguns cearenses com o ideal de liberdade, e o exército português, com canhão, era como, hoje, o Bush invadindo o Iraque. Era essa a desproporção, ressaltando a história. Era esse o desnível.

Os piauienses, com facão, foices, armas e espingardas, tombaram, mas, em 24 de janeiro, o povo do Piauí tomou o palácio, e o comandante português, mesmo vencendo a batalha, não se sentiu com coragem de voltar a Oeiras, refugiando-se no Maranhão.

O Senador Alberto Silva, ex-Governador do Piauí, mandou construir um monumento da Batalha do Jenipapo, e o Exército nacional, por inspiração do ex-Presidente militar Castello Branco, reconheceu-a como uma das mais gloriosas e honrosas batalhas travadas no nosso País, passando a comemorá-la. Neste exato momento, o Exército brasileiro está lá comemorando essa batalha.

O Piauí teve participação heróica na manutenção da unidade do País. Por isso, quando olharem o mapa e virem esse Brasil grandioso, lembrem-se de que somente os piauienses participaram de uma batalha sangrenta pela manutenção da nossa unidade. Os baianos também o fizeram, mas em julho de 23, e hoje o Brasil é grandioso.

Segundo Ortega y Gasset, não valemos pelo que fomos ou pelo que somos, e sim pelo que viremos a ser, pelo porvir.

Sr. Presidente, a grandeza do Piauí não é o passado, nem o presente, este momento democrático, em que foi o Estado brasileiro teve o mais corajoso comportamento, corrigindo falhas da Justiça. De forma pior que na crucificação de Cristo, em que Pilatos lavou as mãos, na Justiça brasileira houve gente que as sujou e me afastou. Nós que expulsamos o interventor português Fidié, recentemente, não em guerra, mas na paz democrática, expulsamos um interventor americano. Ensinei o meu povo a cantar: “Lula, lá, Mão Santa, cá”, e o Piauí deu a mais retumbante vitória ao Presidente Lula. Elegemos um Governador do PT, Partido que não tem nem um Prefeito nas 224 cidades do Piauí, das quais 76 Deus me permitiu criar.

Assim, estamos aqui para dizer ao Presidente da República que os outros Estados em que ganhou a eleição, Sua Excelência já os tinha conquistado. A grande conquista, o grande cântico ocorreu no Piauí.

Repetindo, como disse Ortega y Gasset, não valemos pelo que fomos - fizemos a batalha da unidade do Brasil -, ou pelo que somos - no Senado, o Piauí é o maior Estado, pois é o único que tem quatro Senadores: Alberto Silva, o mais velho; Heráclito; Mão Santa e o Senador do Acre, Sibá Machado. É sempre assim, atentem bem. Na Legislatura passada, além dos três, tínhamos Francelino Pereira, do Piauí.

Gostaria de dizer ao Presidente Lula que há perspectiva no Piauí, que teve coragem no passado, a tem no presente e a terá no futuro, porque não somos problema, somos a solução. Aprendi com Sófocles que muitas são as maravilhas da natureza, mas a maior delas é o ser humano. E não há gente mais maravilhosa do que a gente do Piauí.

Não como Senador, mas como professor de Biologia, de Fisiologia, como médico, entendo que a substância mais importante da natureza é a água. Uma criança de dez quilos tem oito quilos de água; um adulto de 100 quilos tem 60 quilos de água. Pois o Piauí é o Estado do Nordeste que tem mais água: seis rios perenes, dezoito rios, cem lagoas e lugares em que ela jorra, por isso precisa da atenção e do reconhecimento do Presidente Lula.

Sou muito orgulhoso de ser médico. Acho a medicina a mais humana das ciências, e quis Deus que o Presidente hoje fosse médico. O médico é o grande benfeitor da humanidade.

Eu gostaria de dizer ao Presidente da República que o Piauí tem perspectivas invejáveis. Ele não é problema, nunca o foi; ele é a solução.

O Píauí elegeu um Governador do PT, um bom jovem, um bom caráter. Eu o apoiei, nele votei e acredito. E o Lula é muito afável. Essa é uma grande virtude. A meu ver, ela lhe dá esse carisma que tem. Ele é afável. Na residência do Presidente Sarney, disse-me ele: “Mão Santa, ajude o meu menino; carinhosamente, porque você é companheiro dele e ele é muito jovem!” Ajudamos a elegê-lo. Agora, Lula, ajude-nos! Ajude o seu menino e o Piauí!

Eu não sou contra o programa de combate à fome. Em primeiro lugar, sou cristão. O Sarney falou muito bonito sobre a paz, mas, melhor do que o Sarney é o Francisco. Não eu, mas o santo: “Pai, faça-nos instrumento da vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor; onde houver discórdia, a união”.

No Iraque não tem São Francisco. Bush também não tem santo. Por isso, eu lembrava Crivella, um bom irmão: “Eu acho que é isso”.

Mas quero dizer ao Lula que não sou contra dar comida. Como Governador do Estado, do PMDB, partido maior do Brasil, maior na história, maior em quantidade, no Senado, e em qualidade - orgulho-me dele, porque se não achasse isso, eu sairia; mas tenho convicção de que me prende a ele a grandeza, o ideal, os colegas, a honradez -, tive coragem de transferir um batalhão militar localizado ao lado do Palácio do Governo para ali fazer um restaurante denominado “Sopa na Mão” - o primeiro. A idéia expandiu-se: Mário Covas plagiou-me; Garotinho também. Sou cristão: “Dai de comer a quem tem fome e beber a quem tem sede”. É bom o programa. Mas o Piauí quer que ele visite Guaribas, Acauã. E o que nós queremos é muita coisa!

E que ele se inspire em Juscelino Kubitschek, médico como nós, cirurgião de Santa Casa, Prefeito, Governador. Ele sofreu e tomou a decisão e construiu Brasília, sonho existente desde José Bonifácio, no Império. Mas JK teve a coragem! Foi caro, muito caro, bem o sabemos. Mas ele acreditou que era necessário interiorizar. A Capital ele podia transferir para Petrolina, para Goiânia; mas ele quis interiorizá-la. Acreditou na sua crença. E como o Brasil cresceu!

Fala-se em refinaria, mas o que nós queremos do Lula é que ela seja no Piauí. Não tem esse negócio de dizer que os outros têm mais condições. Todo os outros lugares do Brasil tinham mais condição de ser capital do que Brasília. O que prevaleceu foi a determinação, foi a coragem de Juscelino Kubitschek. 

Então, Lula - meu amigo Lula! -, se você não der para o seu menino e para o Piauí essa refinaria... Muito já foi dado para os outros! O Ceará, terra boa, já tem um porto, já tem o Banco do Nordeste. O Dnocs é no Ceará. Pernambuco tem a Sudene, tem Suape. A Bahia já tem tanta gente boa, tem o Rui Barbosa.

O Sr. Almeida Lima (PDT - SE) - Senador Mão Santa, permite-me V. Exª um aparte?

O SR. MÃO SANTA (PMDB - PI) - Com todo prazer. V. Exª enriquecerá nosso pronunciamento, Senador Almeida Lima.

O Sr. Almeida Lima (PDT - SE) - É evidente que não me permitirei, neste instante, discordar de V. Exª. Temos idêntico pleito para o Estado de Sergipe. Eu o farei em outra oportunidade, em respeito, sobretudo, ao brilhante pronunciamento que faz neste instante, mostrando a riqueza histórica e o presente do Estado que V. Exª bem representa, o Piauí. Mas tenha a certeza de que uma outra parte do pronunciamento que faz V. Exª tocou-me profundamente, sobretudo quando citou um grandioso brasileiro, Juscelino Kubitscheck. Na verdade, sou suspeito para falar de Juscelino Kubitscheck, porque tanto eu quanto a minha família admiramos esse grande brasileiro que assumiu a Presidência da República. Quero apenas ressaltar, na figura do Presidente JK, um aspecto que considero fundamental: tudo quanto ele fez pelo País, sobretudo a Capital Federal, fez para resgatar um anseio histórico da nacionalidade brasileira. E o mais importante é que construiu o bastante exercendo o mandato de Presidente da República dentro do Estado de Direito Democrático. Construir Brasília em quatro anos, numa ditadura, seria fácil; legislando por intermédio de decreto-lei, seria fácil. Foi difícil, mas mesmo assim ele conseguiu superar as dificuldades, dependendo do Congresso Nacional, da imprensa e da opinião pública brasileira. Construir Brasília dentro de um processo democrático, respeitando as leis, com toda certeza, é onde está o seu grande mérito. Era o aparte que pretendia oferecer a V. Exª.

O SR. MÃO SANTA (PMDB - PI) - Agradeço a V. Exª, Senador Almeida Lima.

Juscelino é a inspiração para a conclusão do meu pronunciamento. Terminaremos, por inspiração do Senador Almeida Lima, com Juscelino, que nos ensinou que era melhor sermos otimistas, porque o otimista pode errar, mas o pessimista já nasce errado e continua errando.

Queremos essa refinaria, porque o Piauí está no meio, é Meio-Norte. A cidade de Paulistana, localizada no sudeste do Piauí, está eqüidistante de todas as capitais, inclusive já foi feito um estudo demonstrando isto - a maior deficiência de petróleo está no Norte e no Nordeste.

Disse o Presidente Lula: “Mas Mão Santa, eu terei que construir 27 refinarias!” E eu disse-lhe: “Construa as 27, mas a primeira tem que ser no Piauí, demonstrando a sua gratidão ao nosso povo e a nossa gente”!

Muito obrigado, Sr. Presidente.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 14/03/2003 - Página 3384