Discurso durante a 18ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Críticas aos discursos do Presidente Lula, principalmente os pronunciados no exterior. (como Líder)

Autor
Jefferson Peres (PDT - Partido Democrático Trabalhista/AM)
Nome completo: José Jefferson Carpinteiro Peres
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
PRESIDENTE DA REPUBLICA, ATUAÇÃO.:
  • Críticas aos discursos do Presidente Lula, principalmente os pronunciados no exterior. (como Líder)
Aparteantes
Mão Santa.
Publicação
Publicação no DSF de 12/02/2004 - Página 3893
Assunto
Outros > PRESIDENTE DA REPUBLICA, ATUAÇÃO.
Indexação
  • CRITICA, INCOERENCIA, IMPROPRIEDADE, PRONUNCIAMENTO, LUIZ INACIO LULA DA SILVA, PERIODO, VIAGEM, EXTERIOR, DEMONSTRAÇÃO, INCOMPATIBILIDADE, FUNÇÃO, CHEFE DE ESTADO.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT - AM. Como Líder. Sem revisão do orador.) - Conto com a benevolência de V. Exª.

Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, todo Governo há de ser julgado pelo que faz e pelo que deixou de fazer, obviamente, em termos de programas, de obras públicas, de institucionalização, etc. No entanto, há coisas que parecem menores mas que, na verdade, não são, como a aparência de um Governo, a verbalização de um Governo, a fala de um Governo.

Tenho estado muito preocupado - já abordei este assunto outro dia - com as falas do Presidente da República, tanto as escritas como as improvisadas. Ninguém ainda disse a Sua Excelência que elas são lamentáveis.

O Senador Arthur Virgílio disse, outro dia, que todos os Presidentes da República têm um ghost-writer para os seus discursos. O ghost-writer de Getúlio Vargas se chamava Lourival Fontes, homem que tinha um estilo brilhante; o de Juscelino, durante algum tempo, foi um intelectual do porte de Augusto Frederico Schmidt. Não sei quem escreve os discursos do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva para serem lidos aqui e no exterior, pois são deploráveis, pobres, e têm estilo e conteúdo ruins. Dos discursos de improviso nem se fala! São um amontoado de lugares-comuns. São tautológicos. O Presidente é contraditório e parece - lamento dizê-lo e faço-o contristado - o Conselheiro Acácio, a dizer banalidades com a imponência de quem está dizendo algo muito original.

Ouçam o que o Presidente disse ontem: “É muito mais fácil acabar com a fome no mundo que acabar com uma Nação ou fazer uma guerra”. Mais adiante, disse: “Se fosse fácil acabar com a fome, outros já teriam resolvido. Se fosse fácil, não teríamos fome”. É fácil ou é difícil? Não sei.

Vejam os lugares-comuns: “Só existe fome e miséria no Brasil por que existe má distribuição de renda”. Eu não sabia, Senadora Heloísa Helena, que a miséria era produto da má distribuição de renda. V. Exª sabia disso, Senador Cristovam Buarque? Olhem que descoberta monumental!

Ouçam esta outra pérola - imagino como a voz do Presidente ficou rouca ao dizê-lo: “Não há ser humano 100% mal, nem 100% bom”. Eu não sabia. Eu pensava que o mundo era dividido assim: os maus e bandidos, de um lado, e, de outro, os santos. V. Exªs sabiam que não há ser humano 100% bom nem 100% mal? O Presidente diz a frase, fecha a cara, faz uma voz rouca, e todos o aplaudem.

Trata-se de incontinência verbal do Presidente e dos Ministros. Há poucos dias, ouvimos a piada de mal gosto feita com o Governador do Piauí, do seu Partido - outra brincadeirinha infeliz com a água do Piauí.

Ontem, o Ministro Ciro Gomes, pessoa por quem tenho o maior apreço, disse: “Agora, o Ministério não é mais bodega”. Como fica o PMDB? O Senador Efraim Morais já abordou o assunto nesta Casa. Senador Mão Santa, os Ministros do Governo passado foram todos do PMDB, do seu Partido. Como fica o Senador Ney Suassuna, que ainda agora estava elogiando o Governo da tribuna? Como fica o Senador Ramez Tebet, ex-Presidente deste Senado e ex-Ministro? E o Senador Fernando Bezerra, que à época era do PMDB e que hoje está no PTB? Era Ministro da Integração Social do Governo Fernando Henrique Cardoso e hoje é Líder do Governo. Parabéns a S. Exª! Mas como S. Exª fica ao saber que transformou o Ministério numa bodega?

Não vejo ninguém se manifestar; estou tomando as dores do PMDB. Imaginem se eu fosse do PMDB, Senadores! Eu estava quebrando esta tribuna de indignação. Parece que não há nada de mais em se dizer que eram bodegueiros os ex-Ministros. Sabem o que está por trás da palavra “bodega”? Balcão. Bodega é local de compra e venda. O que será que se insinua com relação à atitude desses Ministros? Que falta de respeito pelos antecessores e por um Partido que dá sustentação ao Governo neste Senado!

Infelizmente, não se pode conceder aparte, Senador Mão Santa.

O Sr. Mão Santa (PMDB - PI) - Lembro apenas outros bodegueiros da história: Andreazza, Alexandre Costa, Cícero Lucena. O Ramez Tebet passou por aquele Ministério também.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT - AM) - Enfim, é preciso que os fâmulos - todo Governo tem fâmulos - digam ao Presidente da República e aos Ministros que tenham contenção verbal, o que faz parte de uma coisa chamada compostura. Todo ser humano dever ter compostura, mas principalmente quem ocupa um cargo público. Incontinência verbal é falta de compostura, mas o Presidente parece não estar percebendo isso. Sua Excelência está empolgado com o cargo.

Vamos rememorar a fábula do rei nu. Os fâmulos, com certeza, quando o Presidente diz todas essas tautologias, dizem: “O senhor abafou, o senhor fala a linguagem popular”. Estão precisando de uma criança no Planalto para dizer, enquanto todos exaltam a suntuosa roupa do rei: “Lá está a genitália do rei. O rei está nu”. Falta alguém dizê-lo no Planalto.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 12/02/2004 - Página 3893