Autor
Edison Lobão (PFL - Partido da Frente Liberal/MA)
Data
20/04/2004
Casa
Senado Federal 
Tipo
Para discursar 

O SR. EDISON LOBÃO (PFL - MA. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, a visita oficial que o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva empreenderá à República Popular da China em maio próximo deverá constituir marco dos mais relevantes nas relações entre os dois países, com o previsível e auspicioso incremento das trocas comerciais e da cooperação tecnológica e industrial sino-brasileira. Já se sabe que a Petrobras vai concluir uma joint-venture com a Sinopec, a estatal chinesa de petróleo, para exploração, refino e distribuição de combustíveis.

Por sua vez, empresas brasileiras como CSN, Marcopolo, Embraco, Varig, Banco Santos, Bolsa de Mercadorias e Futuros, entre outras, apostam, com seus projetos de investimento em território chinês, na expansão desse intercâmbio baseado em fatos que justificam amplamente o otimismo das projeções.

A verdade é que, nos dias atuais, já soa como lugar comum falar-se da importância estratégica da China na economia mundial. Não custa reiterar, contudo, que se trata do país com a maior população do globo, mais de 1,3 bilhão de habitantes, com o PIB se elevando a quase US$5 trilhões. As reservas cambiais do país somam, hoje, cerca de US$400 bilhões. A economia chinesa - que absorveu cerca de 30% de todo o aço produzido no mundo no ano passado - registra há tempos taxas invejáveis de crescimento, entre 8 e 10 por cento. É cada vez maior a integração da China à economia de mercado, graças à solução de compromisso a que chegou o regime socialista com a classe empresarial, surgida no país na esteira da abertura política. A partir de 1978, o comércio exterior da China registrou expansão anual de 15 por cento, o que explica o ímpeto empreendedor dos ocidentais e dos próprios países asiáticos em relação ao mercado chinês. Apesar do contencioso político com Pequim, Taiwan figura como um dos cinco maiores investidores na China continental.

“Vamos enriquecer juntos” é a divisa estampada pelos cursos de chinês, nas escolas de línguas dos países vizinhos, como a Coréia do Sul. Ante a ascensão econômica da China, o ensino do chinês na Ásia concorre seriamente, hoje, com o aprendizado do inglês.

O ímpeto empreendedor naquele país ganhou um novo alento diante das reformas substanciais realizadas pela China para poder ser admitida na Organização Mundial do Comércio. Com o ingresso na OMC, a economia chinesa deverá tornar-se bem mais permeável ainda ao processo de globalização.

Segundo os estudos da Câmara de Comércio e Indústria Sino-Brasileira, a China poderá ser em breve um dos maiores parceiros do Brasil. Pelos dados da Câmara, o gigante asiático, que era até há poucos anos o décimo segundo parceiro comercial do Brasil, ocupa agora o segundo lugar, tendo ultrapassado na pauta de nossas exportações parceiros tradicionais como Argentina e Alemanha. As previsões são de que, nos próximos cinco anos, a China será a maior compradora de produtos brasileiros, superando nesse registro os Estados Unidos. Para se ter uma idéia de tal evolução, basta dizer-se que o comércio entre o Brasil e a China em 2003 atingiu o montante de US$6,7 bilhões e deverá ultrapassar US$10 bilhões em 2005.

É dentro dessa perspectiva, que privilegia a expansão dos acordos comerciais, que se insere a implantação do pólo siderúrgico de São Luís, no Maranhão, graças ao consórcio reunindo investimentos brasileiros, chineses e europeus. Somente para a primeira fase do projeto maranhense, os investimentos previstos se elevarão para quase US$2 bilhões.

Sem dúvida, esse projeto terá importância transcendental para o desenvolvimento do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, devendo acelerar a industrialização dessas regiões, com repercussões inestimáveis para a política de inclusão social, geração de empregos e outras tantas iniciativas empresariais.

Concedo um aparte ao Senador Eduardo Siqueira Campos, do vizinho Tocantins.

O Sr. Eduardo Siqueira Campos (PSDB - TO) - Senador Edison Lobão, V. Exª, que traz à tribuna sempre a experiência do Jornalista e do Deputado competente, do Líder, do Senador e Governador tão querido por todos os maranhenses, tão conhecido de todos nós, brasileiros, aborda um assunto da maior importância. Comungo com V. Exª a opinião de que essa será a mais importante viagem que o Presidente Lula fará ao exterior. Não há outro mercado nem outro parceiro que não a China que possa satisfazer todas as vocações da nossa produção para exportação, um mercado tão ávido, tão necessitado que é o mercado consumidor da República Popular da China, que, sem dúvida nenhuma, será um grande parceiro do Brasil. Na missão à qual se refere V. Exª, os interesses do Maranhão e também do Tocantins estarão inseridos. Na condição de Presidente, interinamente substituindo o Presidente José Sarney, recebi missões de investidores chineses que estão centrando a atenção na produção de soja, carne e outros produtos brasileiros, como cita V. Exª o próprio pólo siderúrgico de São Luís. Nós, que estamos carentes de investimentos, necessitando de parcerias e de projetos e programas de desenvolvimento, teremos, sim, muitos interesses nessa visita que o Brasil fará, com o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua comitiva, à China. E tenho certeza de que ela ajudará a consolidar projetos mencionados por V. Exª de interesse do Maranhão, do Tocantins e do Brasil. Parabéns a V. Exª por abordar um tema tão importante para o nosso País.

O SR. EDISON LOBÃO (PFL - MA) - Agradeço, Senador Eduardo Siqueira Campos, a sua intervenção nesta fase do meu discurso. V. Exª é possuidor de uma aguda percepção das relações internacionais, notadamente no campo das relações comerciais.

Hoje será inútil imaginar-se parceiro melhor do que a China para o Brasil no que diz respeito ao relacionamento comercial. Nós não temos interesses conflitantes com a China; há complementaridade de interesses entre o Brasil e a China. Portanto, essa viagem do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva a que me refiro haverá de ser um marco nas relações brasileiras com o exterior, na expansão do nosso mercado e, por conseqüência, na geração de empregos.

O meu Estado, o Maranhão, assim como o irmão Estado de Tocantins, seguramente terá muito a ganhar desse entrelaçamento entre as duas grandes Nações modernas de hoje.

Na construção do pólo siderúrgico do Maranhão, a Companhia Vale do Rio Doce, quinta mineradora do mundo, com o apoio decisivo do Governo do Maranhão, representa os interesses nacionais, enquanto a China se faz presente no projeto por meio do seu poderoso complexo siderúrgico Baosteel. Entre os especialistas, a presunção é de que o pólo de São Luis será o maior investimento da Baosteel e da China, no exterior. Destaque-se que o volume de negócios da companhia chinesa atingiu em 2002 soma superior a US$9 bilhões, tendo a sua produção de aço totalizado vinte milhões de toneladas. Os europeus estarão representados pelo Grupo Arcelor, que possui usinas em diferentes países, empregando mais de cem mil pessoas. Esse grupo produziu, em 2003, um total de 44 milhões de toneladas de aço.

As obras do pólo siderúrgico de São Luís deverão estar concluídas entre 2006 e 2007. Calcula-se que sua produção inicial se elevará a 3,7 milhões de toneladas por ano, com suas exportações alcançando o montante anual de US$4 bilhões. Quando todas as suas unidades de transformação estiverem funcionando, no final da década, a produção anual do pólo deverá atingir o total de 20 milhões de toneladas de aço, tornando-se, pois, um dos maiores do mundo.

Sr. Presidente, eu desejaria ressaltar, a propósito, o empenho, a firmeza e o descortino com que o Governador do Maranhão, Dr. José Reinaldo Tavares, e seu secretariado vêm conduzindo as gestões para viabilizar o empreendimento. Foi determinante sua ação para a mais rápida conclusão dos acordos entre os investidores brasileiros, chineses e europeus. Daí os aplausos que recebeu ao comparecer à cerimônia durante a qual foi assinado o contrato para a implantação do pólo siderúrgico de São Luís, cerimônia realizada em Xangai no final de janeiro do ano passado.

Ao regressar da China, o Governador José Reinaldo reuniu e conclamou os líderes empresariais maranhenses a tomarem iniciativas, elaborarem projetos e imaginarem formas de parcerias capazes de assegurar a maior participação possível da iniciativa privada do Estado nas diversas modalidades de negociações que irão surgir em função do efeito de arrasto a ser suscitado pelo projeto.

Não é menor a preocupação do Governador com a formação de profissionais a serem recrutados para as diferentes atividades produtivas dentro e fora do pólo. A melhor ilustração desse cuidado é o acordo estabelecido entre investidores e o Governo do Maranhão, pelo qual, no treinamento e capacitação de técnicos e operários para o complexo siderúrgico, a prioridade será dada à mão-de-obra local.

Como era de se esperar, as classes produtoras maranhenses, tendo à frente dois importantes líderes, Luís Carlos Catanhede Fernandes e Jorge Mendes, reagiram com presteza às exortações do Governador José Reinaldo, acolhendo até mesmo sua sugestão para o envio de uma missão empresarial à China ainda neste primeiro semestre. A missão irá avaliar e prospectar as possibilidades de negócios e a constituição de joint ventures com empresas chinesas. A missão receberá o apoio da Companhia Vale do Rio Doce e terá em Xangai a base de suas articulações, uma vez que, naquele centro industrial, se encontra a sede da Baosteel, onde já atuam cerca de trezentos empresários brasileiros.

Sr. Presidente, não é de hoje a aposta que o Maranhão faz nessa cooperação econômica com a China, que, daqui a pouco, vai se traduzir em investimentos e em relações duradouras de trocas. A propósito, permito-me relembrar, com justificada satisfação, que, em 1994, antes de encerrar meu mandato de Governador do Maranhão, promovi a ida da primeira missão oficial de autoridades e empresários maranhenses à China. Essa missão contou com o valioso apoio da Vale do Rio Doce e teve como objetivo prospectar e avaliar as oportunidades de parcerias com os chineses.

Os contatos e as trocas de idéias e de informações entre os membros da missão maranhense e os responsáveis chineses em Pequim, Xangai, Hong Kong, Shenzen, Cantão e Macau “funcionaram” como um dos fermentos para ambiciosos projetos de cooperação, como esse do pólo siderúrgico que agora se implanta no meu Estado.

O Sr. Roberto Saturnino (Bloco/PT - RJ) - V. Exª me permite um aparte, Senador Edison Lobão?

O SR. EDISON LOBÃO (PFL - MA) - Ouvirei V. Exª com todo o prazer.

O Sr. Roberto Saturnino (Bloco/PT - RJ) - Senador Edison Lobão, naturalmente, V. Exª, recordando esse episódio do seu Governo, enche-se de justa satisfação e orgulho, porque teve a antevisão dessa grande perspectiva que se abre para o Brasil como um todo e para o seu Estado em particular, das negociações que se desenvolvem entre essas duas grandes Nações e economias, com possibilidades de crescimento gigantesco. Efetivamente, o pólo siderúrgico de São Luís constituir-se-á em uma das grandes alavancas de desenvolvimento não apenas da indústria siderúrgica, mas de todo o processo industrial que se forma a partir de matérias-primas conjugadas com esse pólo, como a indústria produtora de aço, que interessa muito à China e especialmente ao Brasil. As notícias nos informam a participação e o investimento da China na criação de infra-estrutura de transporte, ligando as Regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil ao Pacífico, o que também trará inestimável processo de crescimento e aumento das nossas trocas comerciais com toda a região do leste asiático, que hoje obriga qualquer corrente de comércio a enfrentar enorme distância no transporte, o que, muitas vezes, nos tira a capacidade de competição. Concordo com V. Exª ao afirmar a largueza de perspectiva existente nessas negociações e nessa intensificação de relações econômicas e comerciais do Brasil com a China, o que realmente trará enormes benefícios para o Estado de V. Exª e para o meu Estado. Senador Edison Lobão, cumprimento-o pelo pronunciamento de hoje e pela grande visão de V. Exª quando Governador do seu Estado.

O SR. EDISON LOBÃO (PFL - MA) - Agradeço a participação de V. Exª, Senador Roberto Saturnino, neste meu discurso.

Não há dúvida de que se abre uma fronteira nova com o ingresso da China nesse mercado globalizado. A China possui um quinto da população do mundo e está numa fase de crescimento como poucas vezes se viu ao longo da história em qualquer outro país.

Apresento um dado a V. Exª: a China encomendou à Companhia Vale do Rio Doce cinqüenta milhões de toneladas de minério de ferro por ano, mas a Vale do Rio Doce só está tendo condições de fornecer vinte milhões de toneladas - neste momento, realiza um esforço gigantesco para chegar aos trinta milhões de toneladas de minério de ferro. Sempre tivemos o interesse - e fizemos um esforço gigantesco - de ampliar nossa venda de minério de ferro no exterior. Agora, com o ingresso da China nesse mercado, não estamos sequer conseguindo atender as suas encomendas.

Temos, portanto, que tratar a China sem nenhum preconceito e, sim, como um país que se junta a nós neste desenvolvimento, que é da China, mas que também é nosso e haverá de ser do mundo.

A Srª Ideli Salvatti (Bloco/PT - SC) - V. Exª me concede um aparte?

O SR. EDISON LOBÃO (PFL - MA) - Ouço, com todo prazer, a eminente Líder Ideli Salvatti.

A Srª Ideli Salvatti (Bloco/PT - SC) - Agradeço a V. Exª, Senador Edison Lobão, e o parabenizo pelo seu discurso, pelas ações adotadas no seu Estado e pela visão que apresenta para as relações futuras e - podemos dizer - presentes, de forma muito forte, entre Brasil e China. Ontem, à tarde, tive a oportunidade de registrar a chegada do Vice-Primeiro Ministro da China, nessa preparação da ida do Presidente Lula à China no mês de maio. Quero ainda registrar a iniciativa do Governador de Santa Catarina, Luiz Henrique, na semana passada, quando teve uma importante reunião com representantes do Governo argentino, para possibilitar iniciativas em Santa Catarina assemelhadas à que V. Exª teve no Maranhão. Todos os esforços do País, dos Estados brasileiros, devem ser feitos no sentido de abrir esses canais, esses corredores, esses mecanismos de escoamento da nossa produção para o grande mercado chinês e para o mercado do Oriente de maneira geral. Assim, as tratativas do Governador Luiz Henrique visavam a concluir uma via de conexão e de escoamento da grande produção de grãos e de carne de Santa Catarina para a China. Falta muito pouco, menos de algumas dezenas de quilômetros, para concluirmos uma rodovia pela qual a produção vinda da beira do Oceano Atlântico chegará ao Oceano Pacífico, no Chile. Foram essas as tratativas. Isso ajuda sobremaneira a nossa exportação para a China e para todo o Oriente. Estou preparando alguns dados para esta semana ainda, mas já queria adiantar o que estamos coletando sobre as exportações da soja, apesar de V. Exª estar falando sobre o minério de ferro. A China, por exemplo, importou 10 milhões de toneladas de soja do Brasil, no ano de 2002; em 2003, pulou para 21,42 milhões de toneladas; portanto, muito mais do que o dobro em menos de um ano. E as exportações, de forma geral, do Brasil para China, pularam, em 2002, de US$2 bilhões e 500 mil dólares, para US$4 bilhões e meio, em 2003. Os estadistas têm essa visão, e o Presidente Lula teve essa visão quando sinalizou a abertura efetiva e a consolidação desse mercado. Da mesma forma aconteceu com V. Exª, quando foi Governador do Maranhão. Atualmente o nosso Governador, em Santa Catarina, teve de fazer essa abertura. Então, gostaria apenas de corroborar, parabenizando-o pelo seu pronunciamento. E digo que, indiscutivelmente, a vinda do vice-Primeiro Ministro, neste momento, ao nosso País, e todo o preparativo que está sendo desencadeado pela visita do Presidente Lula, agora no mês de maio, à China se devem a esses números fantásticos, que são a consolidação de uma parceria muito bem sucedida entre dois países que buscam, a seus modos, o seu lugar nesse mercado globalizado, representando e defendendo os interesses dos seus povos, das suas economias. Essa parceria trará benefícios mútuos, tendo em vista que não só as exportações, o comércio, mas também, para o Brasil, no caso da parceria com a China, significa investimentos da ordem de mais de dez bilhões em infra-estrutura, tanto para garantir a exportação do minério de ferro como para garantir a exportação da soja, dois elementos fundamentais neste momento para a economia chinesa e do maior interesse para a economia brasileira. Portanto, agradeço o aparte e parabenizo V. Exª, mais uma vez, pelo discurso.

O SR. EDISON LOBÃO (PFL - MA) - Senadora Ideli Salvatti, na verdade, aqui estou a exaltar a iniciativa do Presidente da República em iniciar, dentro de muito pouco tempo, uma viagem à China a fim de defender os interesses mais legítimos do povo brasileiro. Mas tem razão V. Exª: o dever não é apenas do Presidente da República. Os governadores devem também ingressar nessa luta em favor de seus Estados. É o que faz o Governador do Maranhão, e é o que faz o Governador de Santa Catarina, como registra V. Exª. Eu me referi ao minério de ferro, mas também exportamos soja para a China, e vamos fazê-lo cada vez mais intensamente porque o porto de São Luís é o mais próximo do mercado consumidor internacional no Brasil. Trata-se de um porto privilegiado, o segundo com maior movimento portuário do Brasil e que tende a ser o primeiro, dentro de muito pouco tempo.

Sr. Presidente, V. Exª já me alerta quanto ao tempo, e obediente aos dispositivos regimentais, peço a V. Exª que dê como lido o restante de meu discurso.

 

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SEGUE, NA ÍNTEGRA, DISCURSO DO SENADOR EDISON LOBÃO

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O SR. EDISON LOBÃO (PFL - MA. Sem apanhamento taquigráfico.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, a visita oficial que o Presidente Luiz Ignácio Lula da Silva empreenderá à Republica Popular da China, em maio próximo, deverá constituir marco dos mais relevantes nas relações entre os dois países, com o previsível e auspicioso incremento das trocas comerciais e da cooperação tecnológica e industrial sino-brasileira. Já se sabe que a Petrobrás vai concluir uma joint-venture com a Sinopec, a estatal chinesa de petróleo, para exploração, refino e distribuição de combustível.

Por sua vez, empresas brasileiras, como a CSN, Marcopolo, Embraco, Varig, Banco Santos, a Bolsa de Mercadorias e Futuros, entre outras, apostam, com seus projetos de investimentos em território chinês, na expansão desse intercâmbio baseado em fatos que justificam amplamente o otimismo das projeções.

A verdade é que, nos dias atuais, já soa como lugar comum falar-se da importância estratégica da China na economia mundial. Não custa reiterar, contudo, que se trata do país com a maior população do globo, mais de um bilhão e trezentos milhões de habitantes, com o PIB se elevando a quase cinco trilhões de dólares. As reservas cambiais do país somam, hoje, cerca de US$400 bilhões. A economia chinesa - que absorveu, no ano passado, 30% do aço produzido no mundo - registra há tempos taxas invejáveis de crescimento, entre 8 a 10 por cento. É cada vez maior a integração da China à economia de mercado, graças à solução de compromisso a que chegou o regime socialista com a classe empresarial, surgida no país na esteira da abertura política. A partir de 1978, o comércio exterior da China registrou expansão anual de 15%, o que explica o ímpeto empreendedor dos ocidentais e dos próprios países asiáticos em relação ao mercado chinês. Apesar do contencioso político com Pequim, Taiwan figura entre os cinco maiores investidores na China continental.

“Vamos enriquecer juntos”- é a divisa estampada pelos cursos de chinês, nas escolas de línguas dos paises vizinhos, como a Coréia do Sul. Ante a ascensão econômica da China, o ensino do chinês na Ásia concorre seriamente, hoje, com o aprendizado do inglês.

O ímpeto empreendedor naquele país ganhou novo alento diante das reformas substanciais realizadas pela China, para poder ser admitida na Organização Mundial do Comercio. Com o ingresso na OMC, a economia chinesa deverá tornar-se bem mais permeável ainda ao processo de globalização.

Segundo os estudos da Câmara de Comercio e Indústria Sino-Brasileira, a China poderá ser em breve um dos maiores parceiros do Brasil. Pelos dados da Câmara, o gigante asiático, que era até há poucos anos o décimo segundo parceiro comercial do Brasil, ocupa agora o segundo lugar, tendo ultrapassado na pauta de nossas exportações parceiros tradicionais como a Argentina e Alemanha. As previsões são de que, nos próximos cinco anos, a China será a maior compradora de produtos brasileiros, superando nesse registro os Estados Unidos. Para se ter uma idéia de tal evolução, basta dizer-se que o comercio entre a China e o Brasil em 2003 atingiu o montante de US$6,7 bilhões e deverá ultrapassar os US$10 bilhões até 2005.

É dentro dessa perspectiva, que privilegia a expansão dos acordos comerciais, que se insere a implantação do pólo siderúrgico de São Luis, no Maranhão, graças ao consórcio reunindo investimentos brasileiros, chineses e europeus. Somente para a primeira fase do projeto maranhense, os investimentos previstos se elevarão a quase US$2 bilhões.

Sem dúvida, esse projeto terá importância transcendental para o desenvolvimento do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, devendo acelerar a industrialização dessas regiões com repercussões inestimáveis para a política de inclusão social, geração de empregos e de outras tantas iniciativas empresariais.

Na construção do pólo, a Companhia Vale do Rio Doce, quinta mineradora do mundo, com o apoio decisivo do Governo do Maranhão representa os interesses nacionais, enquanto a China se faz presente no projeto através de seu poderoso complexo siderúrgico, a Baosteel. Entre os especialistas, a presunção é de que o pólo de São Luis será o maior investimento da Baosteel e da China no exterior. Destaque-se que o volume de negócios da companhia chinesa atingiu, em 2002, a soma superior a US$9 bilhões, tendo sua produção de aço totalizado 20 milhões de toneladas. Os europeus estarão representados pelo Grupo Arcelor, que possui usinas em diferentes paises empregando mais de cem mil pessoas. Esse Grupo produziu em 2003 um total de 44 milhões de toneladas de aço.

As obras do pólo siderúrgico de São Luis deverão estar concluídas entre 2006 e 2007. Calcula-se que sua produção inicial se elevará a 3,7 milhões de toneladas ano, com suas exportações alcançando o montante anual de US$4 bilhões. Quando todas as suas unidades de transformação estiverem funcionando no final da década, a produção anual do pólo deverá atingir o total de 20 milhões toneladas de aço, tornando-se, pois, um dos maiores do mundo.

Senhor Presidente.

Desejaria ressaltar, a propósito, o empenho, a firmeza e o descortino com que o Governador do Maranhão, Dr. José Reinaldo Tavares da Silva e seu secretariado vêm conduzindo as gestões para viabilizar o empreendimento. Foi determinante sua ação para a mais rápida conclusão dos acordos entre os investidores brasileiros, chineses e europeus. Daí os aplausos que recebeu ao comparecer à cerimônia durante a qual foi assinado o contrato para a implantação do pólo siderúrgico de São Luis, cerimônia realizada em Xangai no final de janeiro passado.

Ao regressar da China, o Governador José Reinaldo reuniu e conclamou os líderes empresariais maranhenses a tomarem iniciativas, elaborarem projetos e imaginarem formas de parcerias, capazes de assegurar a maior participação possível da iniciativa privada do Estado nas diversas modalidades de negócios que irão surgir em razão do efeito de arrasto a ser suscitado pelo projeto. Não é menor a preocupação do Governador com a formação de profissionais a serem recrutados para as diferentes atividades produtivas dentro e fora do pólo. A melhor ilustração desse cuidado é o acordo estabelecido entre os investidores e o Governo do Maranhão, pelo qual, no treinamento e capacitação de técnicos e operários para o complexo siderúrgico, a prioridade será dada à mão de obra local.

Como era de se esperar, as classes produtoras maranhenses, tendo à frente dois importantes líderes, Luis Carlos Cantanhede Fernandes e Jorge Mendes, reagiram com presteza às exortações do Governador José Reinaldo, acolhendo inclusive sua sugestão para o envio de uma missão empresarial à China, ainda neste primeiro semestre. A missão irá avaliar e prospectar as possibilidades de negócios e de constituição de joint-ventures com empresas chinesas. A missão receberá o apoio da Companhia Vale do Rio Doce e terá em Xangai a base de suas articulações, uma vez que, naquele centro industrial, se encontra a sede da Baosteel e onde já atuam cerca de 300 empresários brasileiros.

Senhor Presidente. não é de hoje a aposta que o Maranhão faz nessa cooperação econômica com a China e que vai daqui a pouco se traduzir em investimentos e em relações duradouras de trocas. A propósito, permito-me relembrar, com justificada satisfação, que, em 1994, antes de encerrar meu mandato de Governador do Maranhão, promovi a ida da primeira missão oficial de autoridades e empresários maranhenses à China. Missão que contou com o valioso apoio da Vale do Rio Doce e teve como objetivo prospectar e avaliar as oportunidades de parcerias com os chineses.

Os contatos, as trocas de idéias e de informações, entre os membros da missão maranhense e os responsáveis chineses em Pequim, Xangai, Hong Kong, Shenzen, Cantão e Macau “funcionaram” como um dos fermentos para ambiciosos projetos de cooperação, como esse do pólo siderúrgico.

Foi dentro do mesmo espírito que, na chefia do Governo do Maranhão, ofereci os incentivos necessários à efetivação de programas de colaboração com a Agência Japonesa de Cooperação Internacional (Jica), visando o desenvolvimento sustentável dos cerrados maranhenses, por meio do projeto Pólo Agroindustrial do Sul Maranhense (Polagris). E, ao final do meu Governo, assinamos, em Tóquio, o acordo com a Jica de aproveitamento de nossos cerrados. Hoje, a região destaca-se pela qualidade e abundância de sua produção de grãos. Tornou-se mais conhecida sob o nome de Pólo de Balsas, que abrange 19 municípios e está ligada, desde 1991, à malha rodoviária do Centro-Norte.

Senhor Presidente. diante das oportunidades que o Pólo Siderúrgico de São Luis abre para a economia nacional, vale sublinhar o papel pioneiro, fundador, de extraordinário alcance geopolítico exercido pelo Presidente José Sarney na concepção e execução da estratégia para essa nova etapa de desenvolvimento do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Como Governador do Maranhão, de 1965 e 1970, José Sarney ampliou e modernizou a infra-estrutura básica do Estado e, entre outros projetos estratégicos, implantou o Porto do Itaqui. A esta obra Sarney dedicou-se com redobrado vigor, antevendo os complexos industriais que viriam a se instalar no Maranhão, notadamente em virtude da descoberta, a partir de 1967, das gigantescas reservas de minérios da Serra de Carajás.

Não foram menores a determinação e o empenho do presidente Sarney na luta pela construção da ferrovia Norte-Sul, que assegura o escoamento do minério de Carajás para o porto do Itaqui, assim como de parte da safra do pólo agrícola de Balsas.

Sinto-me igualmente confortado por ter contribuído, com minha ação parlamentar, para que a ferrovia Norte-Sul fosse dotada do terminal de Porto Franco-Estreito, indispensável para a transferência de cargas do modal rodoviário para o modal ferroviário. Participei também dos esforços visando a obtenção de recursos para a construção do viaduto de Porto Franco, destinado a proteger a população de eventuais transtornos e acidentes com a intensificação na área do tráfego ferroviário e rodoviário. Direi, de passagem, que o viaduto foi inaugurado com a minha presença, o que muito me alegrou.

Apraz-me anunciar ainda que o Itaqui vai inaugurar em breve seu terceiro píer. Hoje, o porto já registra movimentação de carga superior a 60 milhões toneladas/ano, sendo considerado o segundo do país em tonelagem manejada. Recebe os maiores graneleiros da marinha mercante internacional. O projeto do pólo prevê, aliás, a construção de um supernavio, com capacidade recorde de carga de 500 mil toneladas.

Senhor Presidente, ao tentar resumir os elementos que informam a inserção gradual, mas segura, do Maranhão no projeto de desenvolvimento nacional integrado, gostaria de assinalar que ninguém consegue ficar indiferente ao sentimento de orgulho e de confiança no futuro do Brasil e do Maranhão. Sentimento esse gerado no seio da população de São Luís diante do espetáculo noturno daquela extensa formação de navios de grande calado, vindos de todos os horizontes, iluminando a Baia de São Marcos, à espera do carregamento no porto do Itaqui.

À beira-mar, nas noites suaves de São Luis, as crianças, jovens e idosos, todos contam e recontam o número de navios estacionados na baia iluminada, que o imaginário popular supõe com a precisão humorada e ufanista - de que “é uma avenida que vai até a China”.

Calderon de la Barca dizia, no seu célebre poema, que “a vida é um sonho”. Sonho que enternece também os maranhenses na canícula habitual dos dias, à vista dos numerosos navios carregados deixando a Baia de São Marcos em direção da Ásia, da Europa, e do Extremo Oriente. A cena, entre outras evocações históricas, pode nos remeter à epopéia dos grandes navegadores que, com suas descobertas marítimas, desenharam o mapa do Novo Mundo.

Ao finalizar este pronunciamento, ressalto que já hoje, dentro de uma ótica prospectiva, a cena dos navios carregados, rompendo os vagalhões da Baía de São Marcos, constitui, sem dúvida, uma das facetas da saga empreendedora do mundo globalizado do terceiro milênio. Faceta que se tornará ainda mais densa e abrangente com a implantação do pólo siderúrgico de São Luis.

Era o que eu tinha a dizer.

Obrigado.