Discurso durante a 3ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal

Transcurso do Dia do Esporte no último dia 19.

Autor
Paulo Paim (PT - Partido dos Trabalhadores/RS)
Nome completo: Paulo Renato Paim
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
ESPORTE. DROGA.:
  • Transcurso do Dia do Esporte no último dia 19.
Aparteantes
Cristovam Buarque, Maguito Vilela, Mão Santa.
Publicação
Publicação no DSF de 22/02/2005 - Página 1713
Assunto
Outros > ESPORTE. DROGA.
Indexação
  • COMEMORAÇÃO, DIA, ESPORTE, IMPORTANCIA, DEBATE, PREVENÇÃO, COMBATE, DROGA, GRAVIDADE, AUMENTO, VICIADO EM DROGAS, JUVENTUDE, BRASIL.
  • REGISTRO, CONFERENCIA NACIONAL, ESPORTE, OCORRENCIA, CAMPANHA, COMBATE, DROGA, CONCLAMAÇÃO, MOBILIZAÇÃO, SOCIEDADE, AUTORIDADE.

O SR. PAULO PAIM (Bloco/PT - RS. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, no último dia 19, sábado, foi comemorado o Dia do Esporte. Trago hoje este tema à tribuna não para falar somente do esporte, mas para falar do esporte como instrumento de vida, de lazer e de combate às drogas.

Trago este tema, Senadores Mão Santa e Cristovam, porque, durante o recesso parlamentar, visitei alguns amigos e, infelizmente, percebi o quanto a droga está destruindo a nossa juventude, as famílias. Este meu pronunciamento é resultado de quase um pedido dessas famílias para que eu falasse um pouco do quanto a droga está destruindo a nossa juventude, as famílias.

Eu poderia resumir assim todo este meu discurso: a droga é contra a vida. Este discurso é contra a droga e o traficante e é a favor da vida.

Não é em vão, Sr. Presidente, que o esporte está associado diretamente à vida. Viver inclui, respeitando, claro, as nossas limitações, cuidar do nosso corpo e da nossa mente, se alimentar, se afastar das drogas e desfrutar o bom convívio daqueles que praticam esporte. O esporte, como conjunto de exercícios praticados em equipe ou individualmente, possibilita que o ser humano interaja, trazendo uma série de benefícios, como um maior equilíbrio emocional, por exemplo, ou ainda aumentando o desempenho físico e mental, estimulando o raciocínio e reduzindo a ansiedade e o estresse.

A medicina nos mostra que exercícios simples feitos regularmente, como andar de bicicleta e caminhar, melhoram a eficiência do coração, dos pulmões, do sistema circulatório, trazem melhorias na qualidade do sono e no controle do colesterol, além de ajudar o indivíduo a perder peso e a eliminar o excesso de gordura no corpo. Isso tudo é defender a vida.

A 1ª Conferência Nacional do Esporte, que aponta para a construção do Sistema Nacional do Esporte e do Lazer, tem como um de seus princípios o projeto histórico de sociedade comprometida com a reversão do quadro de injustiça, exclusão, na busca de uma sociedade igualitária e justa.

O ponto central, Senador Mão Santa, ao qual desejo chegar com essas ponderações que trago ao plenário, é que considero o esporte um grande aliado no combate às drogas. O esporte pode ser o grande aliado no enfrentamento de chagas sociais que atribulam as famílias, as escolas, os indivíduos, enfim, a sociedade como um todo. O esporte é nosso parceiro.

Todos sabemos que o uso de drogas não é um problema individual. Ele converge como uma catástrofe social sobre crianças, adolescentes, jovens e adultos. Infelizmente, percebemos que as drogas estão nas casas, nas ruas, nos guetos, nas favelas, embaixo dos viadutos e, também, na chamada classe “a”. O uso de drogas lícitas e ilícitas não se restringe mais, como alguns diziam, àqueles que não têm conhecimento dos fatos, pois alcançou um grande contingente de pessoas com alto nível de instrução e bom poder aquisitivo. Falo de pessoas cientes da armadilha do uso de drogas que acabam nelas caindo.

Toda a sorte de violência praticada nas ruas, nos lares, infelizmente, é protagonizada pelos jovens que, quando presos, confessam que são viciados em drogas. Roubam e até matam sob a ação de drogas. Agem assim para obter recursos para comprar esse veneno.

É importante que consideremos que a atividade esportiva, sob o aspecto de formação social, serve de preparação para uma vida livre de vícios como o fumo, o álcool e as drogas.

O “Esporte como Ferramenta na Prevenção ao Consumo de Drogas” já havia sido tema do 7º Fórum Nacional Antidrogas, que objetivou mostrar que a prevenção é o melhor caminho e que a prática esportiva é uma poderosa ferramenta contra a dependência química.

Boas medidas no sentido de mobilizar a sociedade para a problemática do uso de drogas e estimular a prática esportiva têm sido empreendidas, tais como a IV Corrida pela Vida, evento que ocorreu em junho de 2004 simultaneamente em todo o Brasil e que integra a programação da Semana Antidrogas do Governo. Ao final do evento foi realizada uma passeata ciclística denominada “Pedalada pela Vida”.

Antes de conceder aos Senadores Mão Santa e Maguito o aparte, só quero resgatar esse pequeno pedaço do meu pronunciamento.

O Ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, General Jorge Armando Félix, por ocasião da III Corrida pela Vida, mencionou que o interesse dos jovens pelos esportes, está comprovado, afasta-os do consumo de drogas. E S. Exª enfatizou que “o esporte é um instrumento poderoso no combate às drogas, conscientiza o jovem de que é possível resistir e ter uma vida saudável”.

Senador Mão Santa, faço questão que V. Exª, que é médico, enriqueça este meu pronunciamento a respeito de um tema que choca todos os lares. É uma violência o que a droga tem feito com a nossa gente.

O Sr. Mão Santa (PMDB - PI) - Senador Paulo Paim, eu estava olhando Rui Barbosa, e parece que ele passou 31 anos no Parlamento. V. Exª tem a metade, mas vai chegar a isso e vai ficar na História, como Rui Barbosa. V. Exª traz um tema muito palpitante. Professor Cristovam Buarque, lá na velha Roma, Cícero, num plenário como este, disse: mens sana in corpore sano - mente sã em corpo são. Entendo, Senador, que é uma advertência para V. Exª. Quis Deus estar ao nosso lado aqui presente o lado sábio do PT, que é sintetizado no Professor Cristovam Buarque. A grande falácia do combate às drogas foi a falta de apoio da nossa educação ao esporte. Senadores Paulo Paim e Sibá Machado, quando, como Governador do Piauí, eu inaugurava uma quadra de esporte, eu dizia que aquilo era mais importante, Senador Papaléo Paes, do que uma sala de aula, porque mens sana in corpore sano. A maior riqueza que temos é o corpo que Deus nos deu. É mais importante do que a casa, do que o carro, do que o relógio. O corpo. E, praticando esporte, aperfeiçoa-se o corpo, desenvolve-se o corpo, praticando esporte. E mais ainda, Senador Paulo Paim, ali é uma escola da vida. Ali vemos o ensinamento “a união faz a força”. Aprende-se a trabalhar em equipe, pois não se vence sozinho. Há regras, leis, juízes, como na sociedade. Assim, penso que as drogas estão vencendo e tomando a mocidade pela falta de apoio do nosso Governo ao esporte. Principalmente, na educação escolar. Vou citar um quadro, vale por dez mil palavras: talvez o Presidente da República não esteja atento e retirou o bom conselheiro que ele teria: Cristovam Buarque. Não sei se S. Exª é esportista. Sei tratar-se de um engenheiro e de um sábio. Mas vou dar um exemplo do que eu tenho a ensinar, pois o meu PMDB deve ensinar o PT. Lembro-me de que quando eu terminava o ginásio em Parnaíba, em 1957, eu tinha 14 ou 15 anos, e o colégio Ginásio São Luiz Gonzaga foi à cidade de São Benedito, no Ceará, perto de Ubajara, para uma disputa esportiva. Depois, estudando no Ceará, no colégio São João, no segundo ano do curso Científico, fui disputar, representando aquela escola, com a seleção da cidade de Nova Russas. Havia a participação do esporte na educação. Eu penso que ser esta a grande contribuição. Daí faço minha as palavras de V. Exª, que revive em seu discurso aquilo que ficou para o estudo e reflexão da humanidade: mens sana in corpore sano. Penso que uma das melhores maneiras de combater as drogas é nos aproximarmos e levarmos a nossa juventude à prática do esporte.

O SR. PAULO PAIM (Bloco/PT - RS) - Obrigado, Senador Mão Santa.

Vou conceder o aparte ao Senador Maguito Vilela. Em seguida, com muita alegria, ouvirei também o Senador Cristovam Buarque, que, sem sombra de dúvida, é um estudioso que muito orgulha todo o povo brasileiro, não somente na área da Educação, mas também na do Esporte.

Com a palavra o Senador Maguito Vilela.

O Sr. Maguito Vilela (PMDB - GO) - Senador Paulo Paim, desejo cumprimentá-lo pelo oportuno pronunciamento. Realmente, drogas e esporte não caminham juntos. Quem mexe com drogas não pratica esporte e quem pratica esporte não mexe com drogas. Eu tenho experiência nessa área. Fui jogador de futebol profissional e tenho um filho que joga profissionalmente. Também fui dirigente de clube e vice-presidente da CBF. Acompanho pari passu o caminho do esporte e o das drogas; eles não se entrelaçam. Por isso, V. Exª demonstra sabedoria quando recomenda investir no esporte, dar-lhe cobertura. Assim tiramos as crianças, os adolescentes e os jovens do caminho das drogas, dos botecos, dos vícios, da bebida alcoólica, do cigarro e principalmente da maconha e da cocaína. Todo governo, seja municipal, seja estadual, seja Federal, quando apóia o esporte, presta relevante serviço à sua cidade, ao seu Estado, ao seu País, principalmente porque tira essas pessoas do caminho das drogas. Para praticar esportes, o indivíduo deve estar bem preparado fisicamente; se ele mexe com drogas, nunca tem preparo físico suficiente. O Brasil assistiu, estarrecido, aos crimes mais bárbaros e hediondos: pais matando filhos; filhos matando pais; irmãos matando irmãos, tudo por causa de drogas, para se obter recurso para comprar drogas, ou por estar drogado e não ter consciência do que está fazendo. Além disso, há os estupros e todo tipo de violência praticados por pessoas drogadas. Portanto, temos de combater sistematicamente o tráfico de drogas em nosso País, punindo especialmente os traficantes, que são perniciosos à sociedade. Enfim, acredito que o País tem de dar tratamento especial à questão. A prática do esporte é a forma mais barata e mais adequada para tirar o jovem do vício de qualquer tipo de droga. Meus cumprimentos a V. Exª pelo pronunciamento perfeito, oportuno e momentoso. V. Exª, Senador brilhante e atuante, sem dúvida nenhuma, muito vai colaborar no sentido de os Governos darem mais apoio ao esporte. Assim, automaticamente estarão combatendo o tráfico e o uso de drogas. Muito obrigado.

O SR. PAULO PAIM (Bloco/PT - RS) - Agradeço o aparte de V. Exª, Senador Maguito Vilela.

Ouço, com alegria, o aparte do Senador Cristovam Buarque e depois responderei às três questões.

O Sr. Cristovam Buarque (Bloco/PT - DF) - Senador Paulo Paim, fico muito contente de ouvir o discurso de V. Exª, em primeiro lugar, porque V. Exª tem sido um firme batalhador de um tema: o trabalhador, aposentado e ativo, e o salário. Alegra-me que V. Exª traga à baila assunto tão importante quanto esse. Só queria lembrar que não é possível separar o esporte, com a juventude, da escola. A prática do esporte profissional pode ocorrer fora da escola. O Senador Mão Santa abordou esse aspecto, quando disse que jogava no time da escola. São 180 mil escolas! São 40 mil jovens em idade escolar, mas nem todos a freqüentam. Se, em cada escola, fizéssemos uma quadra e conferíssemos importância à Educação Física com profissionais, não tenha dúvida de que o que V. Exª defende hoje seria possível e o Brasil seria outro. Teria uma juventude muito mais saudável, não só física, como também intelectualmente, e com mais facilidade de militar na vida.

Ao parabenizar V. Exª, quero lembrar que ou vinculamos o esporte à educação, ou ele continuará sendo praticado apenas por poucos.

O SR. PAULO PAIM (Bloco/PT - RS) - Cumprimento o Senador Maguito Vilela, homem que sempre praticou esporte e deu aqui um exemplo de vida. Quero dizer, façamos justiça, que o Ministro Agnelo Queiroz tem feito um trabalho muito bom nessa área.

Cumprimento também o Senador Mão Santa, médico, conhecedor do assunto, que mostrou caminhos a serem seguidos, e naturalmente o Senador Cristovam Buarque, nosso mestre em Educação, que demonstra que o esporte está ligado diretamente a essa área.

Com muita tristeza, percebo que estamos perdendo a batalha contra as drogas. É preciso um movimento muito grande de todos os Poderes constituídos e da iniciativa privada inclusive - já que se fala tanto em PPPs, eu me reporto a elas, às parecerias público-privadas -, no sentido de fazer uma grande campanha nacional antidroga. Testemunhei isso que os Senadores disseram. É difícil encontrar neste País - ouçam bem o que estou dizendo - uma família em que, por extensão, não tenha alguém drogado. Não vou dizer que na família de Pedro Paulo, seja o filho; pode ser o tio, o sobrinho. Na cadeia da árvore genealógica da família é difícil não haver alguém que já tenha usado droga. E todos sabem que para quem enfrenta isso essa é uma luta desigual. Trava-se uma batalha contra um fantasma, pois o drogado sai da realidade e pensa que tem razão, enquanto está se destruindo e causando um prejuízo enorme não só à família, mas também a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, têm contato com ele.

Essa batalha tem de ser enfrentada. É o apelo que, mais uma vez, faço aqui. Sei da vontade do Governo Federal de enfrentar esse debate. Algo tem de ser feito. Recentemente, um prefeito, cujo nome não cito porque ele não me autorizou a fazê-lo, me disse: “Se eu não tivesse lutado com o meu filho, ele tinha matado a mãe dele”. Isso ocorreu em São Paulo, recentemente. Vejam a que ponto chegamos. Nem estou falando da realidade de outros contatos que mantive. Visitei, inclusive, centros de recuperação de drogados, que considero possível. Para isso são importantes o carinho, o amor, a dedicação e a força de vontade.

Por isso, hoje faço esse pronunciamento. Na verdade, não estou apenas fazendo uma leitura, mas transmitindo o grito de desespero dos pais, das mães e dos jovens, pois sei que eles gostariam de sair dessa, mas não conseguem devido à facilidade de obter drogas, à influência de outras pessoas e até à pressão para que acabem andando por essa via equivocada, atrasada, burra. Para mim, o drogado é burro e incompetente e tem de mostrar-nos que não merece essa qualificação, saindo das drogas. No mais, o caminho é esse e é preciso muita força de vontade para segui-lo. Outro dia, conversei com um menino que queria provar por “a” mais “b” que ele estava certo.

Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, quero deixar aqui esse brado, esse grito. É necessária a conjugação de esforços de todos os setores da sociedade para enfrentarmos essa batalha desleal. A batalha é boa quando se enxerga o inimigo e o enfrenta. Nesse caso, podemos até perder, mas caímos de cabeça erguida. A batalha contra o traficante é muito difícil, porque ele é como um fantasma. Sabe-se que a droga chegou àquela família, mas não se sabe como enfrentar o problema.

Preocupo-me com essas crianças de 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12 e 13 anos, que estão desamparadas, porque, se continuarem assim, serão drogados em potencial. Quem de nós, do mais simples operário da fábrica ao maior intelectual do nosso País, está livre de enfrentar uma situação como essa?

Sr. Presidente, esse é o nosso grito de alerta em nome dos pais, da mães e dos próprios jovens, que, tenho certeza, gostariam de livrar-se da droga.

Era o que eu tinha a dizer.

Obrigado, Sr. Presidente.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 22/02/2005 - Página 1713