Discurso durante a 4ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Transcurso do sexagésimo aniversário da tomada de Monte Castelo pela Força Expedicionária Brasileira - FEB, durante a Segunda Guerra Mundial. (como Líder)

Autor
Romeu Tuma (PFL - Partido da Frente Liberal/SP)
Nome completo: Romeu Tuma
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
HOMENAGEM.:
  • Transcurso do sexagésimo aniversário da tomada de Monte Castelo pela Força Expedicionária Brasileira - FEB, durante a Segunda Guerra Mundial. (como Líder)
Aparteantes
Marco Maciel.
Publicação
Publicação no DSF de 23/02/2005 - Página 1901
Assunto
Outros > HOMENAGEM.
Indexação
  • HOMENAGEM, ANIVERSARIO, VITORIA, OPERAÇÃO DE GUERRA, FORÇA EXPEDICIONARIA BRASILEIRA (FEB), SEGUNDA GUERRA MUNDIAL, REGISTRO, SOLENIDADE, ESTADO DO RIO DE JANEIRO (RJ), PRESENÇA, EX-COMBATENTE, DETALHAMENTO, HISTORIA, MEMORIA NACIONAL, BRAVURA, BRASILEIROS, DEFESA, PAZ, DEMOCRACIA.

O SR. ROMEU TUMA (PFL - SP. Pela Liderança do PFL. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, eu não poderia deixar de assinalar o transcurso 60º aniversário da tomada de Monte Castelo pela Força Expedicionária Brasileira - FEB durante a Segunda Guerra Mundial.

Emoção indescritível apoderou-se dos veteranos da FEB que acorreram, no último domingo, ao monumento dos mortos da II Guerra Mundial no Rio de Janeiro. Também contagiou as demais cinco mil pessoas que presenciavam a teatralização do maior feito do Exército brasileiro na campanha da Itália: a tomada do Monte Castelo.

Foram apenas 56 os ex-pracinhas que puderam assistir à encenação comemorativa do 60º aniversário daquela batalha. Entre eles, estavam o Marechal Waldemar Levy Cardoso, de 104 anos de idade, em cadeira de rodas, e o General Ventura, de 91, todos orgulhosos das condecorações exibidas no peito.

Encenar as duas últimas das quatro investidas da FEB contra o Monte, que dominava os acessos ao Vale de Bolonha, envolveu 150 soldados do Exército e dois aviões de caça da Força Aérea Brasileira (FAB). Impedir a movimentação germânica naquele Vale era fundamental aos aliados, pois através dele o inimigo se reabastecia. Munição de festim, explosões simuladas e bombas de fumaça emprestaram realismo às cenas ali apresentadas. “Alemães” encastelados no monumento atiravam para baixo, varrendo as “encostas” com nutrido fogo.

Dizia-se no Brasil, à época, que conquistar o Monte Castelo seria mais difícil do que fazer uma cobra fumar, tanta era a fama dos soldados alemães. “E a cobra fumou” transformou-se na expressão popular moldada pela vitória de 21 de fevereiro de 1945.

Transcorreram sessenta anos, portanto, desde que o heroísmo do soldado brasileiro obteve unânime reconhecimento dos comandantes aliados. Entretanto, foi muito alto o preço em vidas ela captura da posição inimiga que era mantida a qualquer custo.

A simples chegada ao sopé do Monte Castelo já seria suficiente como demonstração de heroísmo e competência. Somar-se-ia a sucessivas vitórias dos pracinhas, como a ocupação dos montes Belvedere, Della Castellana e Castelnuovo, que permitiu o controle pelos aliados do tráfego por meio da estrada Porreta Terme-Morano. Nossos soldados conquistaram, ainda, Montese, Montello e Zocca.

Graças a tais feitos, ainda em 1945, uma divisão alemã inteira - a 148ª de Infantaria - rendeu-se aos nossos expedicionários. De uma só vez, capturaram 14.779 soldados nazistas. Também renderam-se à FEB o General Joseph Von Pimsel e o seu 75º Corpo do Exército Alemão. Com isso, ultrapassou a 20 mil o número de prisioneiros, quase um para cada combatente brasileiro.

Mas, a tomada do Monte Castelo - local inexpugnável aos olhos alemães - é realmente símbolo máximo da bravura e do desprendimento daqueles brasileiros. Em 24 de novembro de 1944, tentaram o primeiro assalto. Bem municiadas e abastecidas na mais privilegiada posição, as tropas inimigas rechaçaram o ataque. As duas investidas seguintes - uma cinco dias depois, outra no dia 12 do mês posterior - também fracassaram, em meio ao frio e à mata cerrada. Tomar aquele monte transformou-se em ponto de honra.

O amanhecer do dia 21 de fevereiro de 1945 encontra a batalha decisiva em plena marcha. A vitória nos sorri ao anoitecer, 12 horas depois. Mas, do primeiro ao último ataque, entre oficiais e praças, custara a vida de mais de quatrocentos jovens brasileiros.

Ao todo, na Itália de Mussolini, o Brasil perdeu 443 dos seus 25.334 valorosos expedicionários. Mais de 1.145 sofreram ferimentos, 35 foram capturados pelo inimigo e 23 desapareceram em combate.

Porque o Brasil honrara seus compromissos de solidariedade aos Estados Unidos da América, alvos da agressão japonesa em Pearl Harbor, a marinha nazifascista veio ceifar traiçoeiramente em nossas águas, sem declaração de guerra, a vida de 742 homens, mulheres e crianças, passageiros e tripulantes de navios mercantes brasileiros torpedeados. Forçou-nos à guerra contra o Eixo.

Em apenas dois dias, 18 e 19 de agosto de 1942, tinham sido afundados cinco navios mercantes brasileiros - Araraquara, Aníbal Benévolo, Baependi, Itagiba e Arara - à vista das parias de Sergipe e Alagoas.

De janeiro a agosto, mais de 14 navios brasileiros indefesos foram postos a pique covardemente. Além dos já mencionados, eram eles o Bagé, Cabedelo, Buarque, Olinda, Arabutã, Cairu, Parnaíba, Comandante Lira, Gonçalves Dias, Alegrete, Pedrinhas, Tamandaré, Piave e Jacira. Ao clamor popular, seguiu-se a declaração de guerra pelo Brasil, a 22 de agosto de 1942, e nosso engajamento nas fileiras aliadas. Outros países sul-americanos também tiveram o mesmo destino.

Sr. Presidente, encerrarei, pois meu tempo se esgotou. Contudo...

O Sr. Marco Maciel (PFL - PE) - Senador Romeu Tuma, V. Exª me concede um aparte?

O SR. ROMEU TUMA (PFL - SP) - Pois não, Senador.

O SR. PRESIDENTE (Tião Viana. Bloco/PT - AC. Fazendo soar a campainha.) - A Mesa faz um apelo ao nobre Senador Marco Maciel. Tendo em conta que três Srs. Senadores inscritos para uma breve comunicação foram prejudicados, pois os Lideres utilizaram o tempo da prorrogação da Hora do Expediente, e como temos de dar início à Ordem do Dia, solicito a V. Exª que não seja feito aparte ao Senador Romeu Tuma, uma vez que já se esgotou o tempo de S. Exª.

A seguir, o Senador José Agripino usará da palavra. V. Exª poderá aparteá-lo no prazo regimental.

O Sr. Marco Maciel (PFL - PE) - Apenas gostaria de me associar às manifestações do Senador Romeu Tuma. Destaco o fato de que o Brasil, durante a Segunda Grande Guerra, contribuiu para o estabelecimento da democracia no mundo e, conseqüentemente, para a restauração da paz. Daí por que não podemos deixar de render homenagens aos nossos pracinhas.

O SR. ROMEU TUMA (PFL - SP) - Sr. Presidente, solicito que meu discurso seja publicado na íntegra. Aproveito para relembrar que, antes de os alemães encerrarem a guerra, exterminaram mais de 27 milhões de pessoas.

Venho a esta tribuna - e agradeço ao Senador Marco Maciel pelo apoio - para que não nos esqueçamos disso, para que as ditaduras não voltem a se formar e a ceifar vidas com o princípio não muito correto dos ditadores, que pensam que podem dominar o mundo.

Queremos que nossos heróis febianos sejam honrados com esta justa homenagem que o Senado presta.

Obrigado, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Tião Viana. Bloco/PT - AC) - Agradeço a V. Exª, eminente Senador Romeu Tuma.

 

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SEGUE, NA ÍNTEGRA, PRONUNCIAMENTO DO SR. SENADOR ROMEU TUMA.

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O SR. ROMEU TUMA (PFL - SP. Sem apanhamento taquigráfico.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, emoção indescritível apoderou-se dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que acorreram no último domingo ao Monumento dos Mortos da II Guerra Mundial, no Rio de Janeiro. Também contagiou as demais cinco mil pessoas que presenciavam a teatralização do maior feito do Exército Brasileiro na campanha da Itália: a tomada do Monte Castelo.

Foram apenas 56 os ex-pracinhas que puderam assistir á encenação comemorativa do 60º aniversário daquela batalha. Entre eles, estavam o Marechal Waldemar Levy Cardoso, de 104 anos de idade, em cadeira de rodas, e o General Ventura, de 91, todos orgulhosos das condecorações exibidas no peito.

Encenar as duas últimas das quatro investidas da FEB contra o monte, que dominava os acessos ao Vale de Bolonha, envolveu 150 soldados do Exército e dois aviões de caça da Força Aérea Brasileira (FAB). Impedir a movimentação germânica naquele vale era fundamental aos aliados, pois através dele o inimigo se reabastecia. Munição de festim, explosões simuladas e bombas de fumaça emprestaram realismo às cenas. “Alemães” encastelados no Monumento atiravam para baixo, varrendo as “encostas” com nutrido fogo.

Dizia-se no Brasil, à época, que conquistar o Monte Castelo seria mais difícil do que fazer uma cobra fumar, tanta era a fama dos soldados alemães. Mas, “E a cobra fumou” transformou-se na expressão popular moldada pela vitória de 21 de fevereiro de 1945.

Transcorreram 60 anos, portanto, desde que o heroísmo do soldado brasileiro obteve unânime reconhecimento dos comandantes aliados. Entretanto, foi muito alto o preço em vidas pela captura da posição inimiga que era mantida a qualquer custo.

A simples chegada ao sopé do Monte Castelo já seria suficiente como demonstração de heroísmo e competência. Somar-se-ia a sucessivas vitórias dos pracinhas, como a ocupação dos montes Belvedere, Della Castellana e Castelnuovo, que permitiu o controle pelos aliados do tráfego através da estrada Porreta Terme-Morano. Nossos soldados conquistaram, ainda, Montese, Montello e Zocca.

Graças a tais feitos, ainda em 1945, uma divisão alemã inteira - a 148ª (centésima quadragésima oitava) de Infantaria - rendeu-se aos nossos expedicionários. De uma só vez, capturaram 14.779 (quatorze mil, setecentos e setenta e nove) soldados nazistas. Também renderam-se à FEB o General Joseph Von Pimsel e o seu 75º Corpo do Exército Alemão. Com isso, ultrapassou a 20 mil o número de prisioneiros, quase um para cada combatente brasileiro.

Mas a tomada do Monte Castelo - local inexpugnável aos olhos alemães - é realmente símbolo máximo da bravura e do desprendimento daqueles brasileiros. Em 24 de novembro de 1944, tentaram o primeiro assalto. Bem municiadas e abastecidas na mais privilegiada posição, as tropas inimigas rechaçaram o ataque. As duas investidas seguintes - uma cinco dias depois, outra no dia 12 do mês posterior - também fracassaram, em meio ao frio e à mata cerrada. Tomar aquele monte transformou-se em ponto de honra.

O amanhecer do dia 21 de fevereiro de 1945 encontra a batalha decisiva em plena marcha. A vitória nos sorri ao anoitecer, 12 horas depois. Mas, do primeiro ao último ataque, entre oficiais e praças, custara a vida de mais de 400 jovens brasileiros.

Ao todo, na Itália de Mussolini, o Brasil perdeu 443 dos seus 25.334 valorosos expedicionários. Mais de 1.145 sofreram ferimentos, 35 foram capturados pelo inimigo e 23 desapareceram em combate.

Porque o Brasil honrara seus compromissos de solidariedade aos Estados Unidos da América, alvos da agressão japonesa em Pearl Harbor, a marinha nazi-fascista veio ceifar traiçoeiramente em nossas águas, sem declaração de guerra, a vida de 742 homens, mulheres e crianças, passageiros e tripulantes de navios mercantes brasileiros torpedeados. Forçou-nos à guerra contra o Eixo.

Em apenas dois dias, 18 e 19 de agosto de 1942, tinham sido afundados cinco navios mercantes brasileiros - Araraquara, Aníbal Benévolo, Baependi, Itagiba e Arara - à vista das praias de Sergipe e Alagoas.

De janeiro a agosto, mais 14 navios brasileiros indefesos foram postos a pique covardemente. Além dos já mencionados, eram eles o Bagé, Cabedelo, Buarque, Olinda, Arabuta, Cairu, Parnaíba, Comandante Lira, Gonçalves Dias, Alegrete, Pedrinhas, Tamandaré, Piave e Jacira. Ao clamor popular, seguiu-se a declaração de guerra pelo Brasil, a 22 de agosto de 1942, e nosso engajamento nas fileiras aliadas. Outros países sul-americanos tiveram navios afundados e também declararam guerra ao Eixo. Mas, entre eles, somente o Brasil esteve presente no conflito com suas três Armas e contribuiu, de fato, para a vitória final.

Sr. Presidente, Srªs. e Srs. Senadores, em meu primeiro discurso nesta Casa, dia 8 de maio de 1995, fiz profissão de fé nos valores de liberdade e justiça que norteiam e continuarão a nortear minha vida como cidadão e Senador da República. Comemorávamos o 50º aniversário da Vitória Aliada na II Guerra Mundial. Inspirei-me no exemplo de patriotismo dos heróis da FEB para deixar patente que o nazi-fascismo foi das maiores insanidades a acometer o gênero humano.

O que os nossos pracinhas da FEB fizeram, sob o comando dos generais João Baptista Mascarenhas de Morais e Zenóbio da Costa, foi derrotar tropas que executavam o liberticídio engendrado por Adolf Hitler e seus acólitos em terras longínquas. Portanto, face a face, o Exército Brasileiro ajudou a demolir a maior monstruosidade histórica do século passado.

Repito o que disse naquela sessão solene: como a água que bebemos e o ar que respiramos, liberdade é vida. Não há como conter esse sentimento, pois renasce em cada ser humano, ressurge sempre na herança genética. Negá-la, como qualidade intrínseca de nossa existência, constitui uma demonstração de suprema insanidade. É ela um instinto e chega a sobrepor-se à auto-preservação.

Como multiplicador natural dos valores humanos, a liberdade representa padrão de medida da evolução social, política e econômica dos povos. Mesmo a opressão mais cruel, aquela baseada no extermínio em massa, consegue ocultá-la apenas momentaneamente. Suas sementes imperecíveis renascem em cada ser humano: ficam preservadas até entre as próprias hostes liberticidas e no íntimo de quem as comanda. Tentar eliminá-las implica, portanto, no absurdo de buscar autodestruição como ato final ratificador de vitória, ou seja, o suicídio. E assim foi com Hitler e seus sequazes. Antes, porém, promoveram o extermínio de 27.261.400 pessoas, contadas oficialmente em ambos os lados, apenas nos teatros de guerra. E é disso que não podemos esquecer jamais, sob pena de permitir que ressurjam das próprias cinzas o totalitarismo e o opróbrio.

Fiquemos alertas e honremos os nossos heróis febianos, a quem rendemos justa homenagem.

Muito obrigado.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 23/02/2005 - Página 1901