Discurso durante a 14ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal

Sugere melhor distribuição para as águas do Rio São Francisco, para solucionar problema das secas no nordeste.

Autor
Alberto Silva (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/PI)
Nome completo: Alberto Tavares Silva
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
CALAMIDADE PUBLICA. DESENVOLVIMENTO REGIONAL.:
  • Sugere melhor distribuição para as águas do Rio São Francisco, para solucionar problema das secas no nordeste.
Aparteantes
Mão Santa.
Publicação
Publicação no DSF de 08/03/2005 - Página 4333
Assunto
Outros > CALAMIDADE PUBLICA. DESENVOLVIMENTO REGIONAL.
Indexação
  • GRAVIDADE, CALAMIDADE PUBLICA, SECA, REGIÃO NORDESTE, PROTESTO, EXTINÇÃO, SUPERINTENDENCIA DO DESENVOLVIMENTO DO NORDESTE (SUDENE).
  • ANALISE, PROJETO, TRANSPOSIÇÃO, RIO SÃO FRANCISCO, PREVISÃO, SUPERIORIDADE, PERDA, AGUA, REGISTRO, DADOS, GASTOS PUBLICOS, SUGESTÃO, ALTERNATIVA, CONSTRUÇÃO, AÇUDE, ADUTORA, DISTRIBUIÇÃO, ESTADOS, SISTEMA INTEGRADO.

O SR. ALBERTO SILVA (PMDB - PI. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, eu iria falar sobre outro assunto, mas o discurso do nobre Senador Efraim Morais me levou a mudar o meu discurso para falar a respeito de nossa região e especialmente sobre o semi-árido na Paraíba, que está vendendo osso a R$0,05 para poder comer. Temos a informação de que plantam quando chove, há um intervalo sem chuvas, as plantas morrem, e eles tornam a plantar. Os nordestinos não são cabeçudos, mas uns heróis, porque plantam outra vez. Há um intervalo de vinte dias de uma chuva para outra e a última esperança é aguardar a passagem do equinócio, que ocorre justamente no dia de São José. Pela experiência nordestina, se desse dia em diante não chover, é seca total.

Com tantos ex-Governadores experientes nesta Casa, e me coloco no meio dos que também estiveram no Governo do Estado, poderíamos fazer, digamos assim, uma sugestão criativa. O que está acontecendo ali? Diz-se que o gado está morrendo de sede e aquelas famílias que plantaram perderam tudo. Não há outra ajuda, pois já não existe a Sudene, que tinha um fundo de proteção contra a seca, o qual era acionado para evitar o que está acontecendo agora. Os nordestinos estão totalmente desamparados, porque a Sudene ainda não voltou a ser o que deveria.

Antes disso, como estou vendo aí nos jornais, fala-se na criação de mais uma comissão para apresentar uma proposta de desenvolvimento do Norte e do Nordeste. Ora, a Sudene foi criada para resolver o problema do Nordeste; para o Norte, houve outra, a Sudam, lá pelo Amazonas. Quem cuidava dos problemas do Nordeste, repito, era a Sudene. E vamos criar uma nova comissão para buscar uma solução. Qual é a solução? É a transposição do São Francisco? Eu nunca quis falar disso aqui, porque muitos companheiros do Nordeste poderiam achar ruim. Seguramente, Exªs., qualquer que seja a transposição do São Francisco, o que se vai fazer é jogar as águas dentro de algum açude. Vou puxar o lado do Ceará; vai chegar ao Castanhão, açude que tem 5 bilhões de metros cúbicos de água, e o sol diz: um bilhão é meu. Um bilhão é a evaporação, Exªs! Então, jogo 20m³ por segundo ou 30m³ por segundo do São Francisco no Castanhão, e o sol leva os 400 milhões. Antes levava 600m³ de água, que não custou nada, porque era água de chuva. Então levo a água do São Francisco para ser evaporada. Não seria muito melhor... Vejamos os números finais: com 80 açudes, tenho 24 bilhões de metros cúbicos de água acumulada. E sabem quanto custam 300 milhões de metros cúbicos de água? Trinta milhões! O nosso Açude Petrônio Portella custou R$30 milhões e tem uma capacidade de mais de 300 milhões de metros cúbicos. Então, se vamos gastar R$2,5 bilhões para a transposição do São Francisco, para jogar a água no Castanhão e ser evaporada, nesse caso, vamos distribuir a água dos açudes. Então, com R$1 bilhão, faço 40 açudes de 300 milhões de metros cúbicos. Então, acúmulo R$12 bilhões em nove Estados. É muita água! Agora, distribuo esses açudes em cada Estado de tal maneira que posso interligá-los com canais e adutoras e, nesse caso, levo a água para todo o Estado, e não para um único lugar. Se verificarmos a geografia de qualquer um desses Estados e colocarmos esses açudes, vejam bem, são 40 açudes, distribuídos entre oito ou nove Estados, darão mais ou menos cinco açudes grandes de 300 milhões em cada Estado, colocados de tal maneira que, interligados, tenho água, e o gado não vai morrer. O gado não pode andar 30 quilômetros para ir beber água, porque morre mesmo. Mas, se tiver um canal passando perto dele, tem onde beber. É a interligação de bacias.

O Governador Tasso Jereissati montou um esquema desses no Ceará. E eu me coloco à disposição dessa comissão que foi criada. Não me avisaram, mas eu tenho uma lição a dar a essa comissão. E a lição é esta: distribuir a água entre os açudes é muito mais importante do que a transposição. E fazer 40 açudes novos nos nove Estados, estrategicamente situados, em lugar de fazer açude em todo canto, de 300 milhões de metros cúbicos cada um. A interligação garante que haverá água em todo lugar.

Vamos voltar para o Ceará, por exemplo. O Castanhão está no Jaguaribe, que está distante de Fortaleza mais de 100 quilômetros e do semi-árido, ali da área de Sobral, Irauçuba, e de outros lugares, está a mais de 100 quilômetros, está a 130, 140 quilômetros. Então, a água do São Francisco que vai para o Jaguaribe não serve para Sobral, não serve para Irauçuba, não serve para nenhum lugar.

Como vamos fazer? A água está no Jaguaribe e precisamos de água em outra região, em outro pedaço do Ceará. O importante é distribuir a água. Eu diria: dos dois bilhões e quatrocentos, gastemos um bilhão e duzentos em açudes de 300 milhões de metros cúbicos, e um bilhão e duzentos para distribuir a água, em canais ou adutoras, de maneira que ela seja levada a todos, em toda região espacial de cada Estado.

Senador Mão Santa, V. Exª disse que queria fazer um aparte. Eu agora estou consultando V. Exª.

Bem rápido. Parece que os minutos...

O Sr. Mão Santa (PMDB - PI) - Realmente, acho e entendo que a inteligência e a experiência de V. Exª deveriam ser mais aproveitadas pelo Governo. Uma coisa, Senador Alberto Silva, são palavras, como disse Shakespeare: “Palavras, palavras”. O Senador Alberto Silva, ao longo de sua vida pública, foi um homem que realizou, na qualidade de Prefeito, de Governador de Estado, na EBTU, no País todo. Então, nesta Comissão que está surgindo no Senado, é imprescindível a presença de S. Exª, com sua experiência, para minimizar o sofrimento no Nordeste.

O SR. ALBERTO SILVA (PMDB - PI) - Obrigado, Senador Mão Santa.

Quanto tempo tenho ainda, Sr. Presidente?

O SR. PRESIDENTE (Paulo Paim. Bloco/PT - RS) - V. Exª dispõe de três minutos, com uma tolerância de dois minutos, ou seja, cinco minutos.

O SR. ALBERTO SILVA (PMDB - PI) - Então, dá para fazer um discurso.

Assim, aproveito para lembrar que, se houvesse canais interligando as diferentes bacias, poderiam ser feitas mini-irrigações ao longo deles para trazer todo esse contingente de sofredores, que moram em diferentes lugares no semi-árido nordestino, para mais perto de onde a água fosse percorrer através dos canais. Aí, sim, não existiriam as dificuldades que hoje temos, porque, se as chuvas são irregulares, o canal tem água permanente. Nesse caso, a distribuição espacial da água é muito mais importante do que a transposição.

Eu lembraria ao Presidente que seria importante montar uma equipe para dar um parecer sobre isso, e eu me coloco bem na frente: são R$2 bilhões; R$1,2 bilhão para fazer água e R$1,2 bilhão para distribuir espacialmente como ligação entre as bacias em todos os Estados nordestinos. A partir daí, esse problema de seca já era, Senhores.

Muito obrigado.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 08/03/2005 - Página 4333