Pronunciamento de Marco Maciel em 16/01/2006
Discurso durante a 1ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal
Registro da posse do escritor Marcos Vinicius Rodrigues Vilaça, ministro do TCU, na presidência da Academia Brasileira de Letras, em 15 de dezembro último.
- Autor
- Marco Maciel (PFL - Partido da Frente Liberal/PE)
- Nome completo: Marco Antônio de Oliveira Maciel
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
HOMENAGEM.
POLITICA CULTURAL.:
- Registro da posse do escritor Marcos Vinicius Rodrigues Vilaça, ministro do TCU, na presidência da Academia Brasileira de Letras, em 15 de dezembro último.
- Aparteantes
- José Agripino.
- Publicação
- Publicação no DSF de 17/01/2006 - Página 180
- Assunto
- Outros > HOMENAGEM. POLITICA CULTURAL.
- Indexação
-
- HOMENAGEM, POSSE, MARCOS VINICIUS VILAÇA, MINISTRO, TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO (TCU), PRESIDENCIA, ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS (ABL).
- COMENTARIO, HISTORIA, CRIAÇÃO, ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS (ABL).
- TRANSCRIÇÃO, ANAIS DO SENADO, DISCURSO, AUTORIA, EX PRESIDENTE, ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS (ABL), RELATORIO, SECRETARIA GERAL, ATUAÇÃO, ACADEMIA.
O SR. MARCO MACIEL (PFL - PE. Pronuncia o seguinte discurso. Com revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores; faço o registro de fato que se reveste de grande importância para a cultura brasileira em particular, mas também de todos os países lusófonos - a posse do escritor Marcos Vinicios Rodrigues Vilaça na Presidência da Academia Brasileira de Letras em 15 de dezembro do ano passado.
Na sua fala de despedida, o ex-Presidente Ivan Junqueira observou que o ano de 2005 “emitiu claros sinais de que esta Casa prossegue em sua trajetória no sentido de lutar não apenas pela preservação e a divulgação da língua e da literatura nacionais, mas também pelo enriquecimento de uma cultura que é de todos nós e cuja identidade deve ser mantida para além das fantasmagorias e dos descaminhos que a todo instante a ameaçam no âmbito egoístico e excludente de uma sociedade globalizada em que se dissolvem, de forma preocupante, as raízes e a fisionomia dos povos e das nações. (...) Não me parece haver dúvida de que, durante os últimos cem anos desse percurso, foi grande e significativo o papel desempenhado pela Academia Brasileira de Letras para a consolidação de nossas mais caras tradições culturais e literárias, pois dela fazem - e já fizeram parte - alguns dos mais ilustres escritores, intelectuais e homens públicos do país.”
O poeta Ivan Junqueira afirmou deixar “a Casa em ordem, ‘com cada coisa em seu lugar’, como disse o poeta e acadêmico Manuel Bandeira, e ainda com ele eu poderia dizer que a deixo também ‘com seus livros, com seus quadros, intacta, suspensa no ar’, nessa condição de eternidade que de todo lhe cabe e que decerto não cabe a nós, que apenas aqui residimos durante nossa efêmera, caduca e contingente existência terrena.”
A Academia Brasileira de Letras nasceu, podemos dizer, com a República, esta - a República - é de 1889 e a Academia de 1897.
A primeira Academia surgiu há cerca de quatro séculos antes de Cristo e foi fundada pelo filósofo Platão e teve entre seus primeiros discípulos Aristóteles, na qual se processava um ensino informal através dos diálogos entre os mestres e seus alunos. A palavra academia vem de Academos, ateniense reputado como herói da Guerra de Tróia, a quem o jardim onde se reunia pertencera, segundo observa Diógenes Laércio.
No mundo e no Brasil, antes do surgimento da ABL, houve muitas instituições com objetivos semelhantes, como a Academia Brasileira dos Esquecidos (1724), na Bahia, e a Academia dos Felizes (1736), no Rio de Janeiro.
A idéia de criação da ABL teve entre os precursores Afonso Celso Júnior, no Império, e Medeiros e Albuquerque, meu conterrâneo, na República.
A nossa ABL tomou como modelo a Academia Francesa, fundada em 1635, sob a liderança do Cardeal Richelieu, após obter autorização do Rei Luís XIII.
A ABL transforma a coexistência em convivência entre aqueles que laboram nos mais variados territórios dos gêneros literários, inclusivamente, se não estiver sendo um heresiarca, o discurso parlamentar como manifestação que em muitos casos realiza a intersecção da forma literária com o conteúdo político.
O artigo 1º dos Estatutos da Academia afirma que ela “tem por fim a cultura da língua e da literatura nacional”.
Na sessão de instalação, as palavras de Machado de Assis, seu primeiro Presidente, mencionando as ações a serem desenvolvidas, dizem reclamar “pesquisa grande e compassada atenção” e fixam suas finalidades: “A Academia, trabalhando pelo conhecimento desses fenômenos, buscará ser, com o tempo a guarda da nossa língua. Caber-lhe-á então defendê-la daquilo que não venha das fontes legítimas, - o povo e os escritores, - não confundindo a moda, que perece, com o moderno, que vivifica. Guardar não é impor; nenhum de vós tem para si que a Academia decrete fórmulas. E depois, para guardar uma língua, é preciso que ela se guarde também a si mesma, e o melhor dos processos é ainda a composição e a conservação de obras clássicas.”
“Na Academia estamos certos de não encontrar a política”, disse Joaquim Nabuco então eleito seu Secretário-Geral. Mas á de se notar haver Nabuco defendido a opinião de que a Academia devia alojar pessoas que se destacassem nos mais diversos campos do País, mesmo porque consoante discurso na instalação da ABL: “A política, isto é, o sentimento do perigo e da glória, da grandeza ou da queda do país é uma fonte de inspiração de que se ressente em cada povo a literatura toda de uma época, mas para a política pertencer à literatura e entrar na Academia é preciso que ela não seja o seu próprio objeto; que desapareça na criação que produziu, como o mercúrio nos amálgamas de ouro e prata.” E concluiu Nabuco: “Nós não pretendemos matar o literato, no artista, o patriota, porque sem a pátria, sem a nação, não há escritor, e com ela há forçosamente o político”.
A ABL cumpre, malgrado poucos saibam, um notável papel na preservação da nossa memória, pois é fundamental, observa Nabuco, ligar-se “ao passado que ameaça ruína do que ao futuro que ainda não tem forma”.
Tradição e criação - características de um povo -, esta a renovar aquela marcam a ABL. Mercê do idealismo de seus sucessivos dirigentes e integrantes, a ABL desenvolve inúmeras ações na difusão do saber literário do País. Promove também o intercâmbio com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e povos de outras falas e culturas.
Getúlio Vargas ao ser admitido na Instituição, considerou-a “uma espécie de judicatura mental do País, preparando uma atmosfera de interesse e de respeito pelas criações intelectuais, estimulando as vocações e facilitando-lhes o acesso às fontes de revigoramento e renovação espiritual”.
Sr. Presidente,
O tempo é breve, ele é nosso inimigo, para discorrer sobre todas as atividades da ABL - no Brasil e no exterior. Citarei algumas, apenas com relação às duas gestões de Ivan Junqueira, período 2004-2005, desejo referir-me, a título de exemplo, o Relatório apresentado pelo lexicógrafo e professor Evanildo Bechara, então Secretário-Geral da ABL. Ele lembrou as atividades de publicações como a Revista Brasileira, os Discursos Acadêmicos, os Anais da Academia, reedições, lançamentos novos e a expansão de Coleções; os Ciclos de Palestras, destinados a universitários, estudiosos e ao público em geral; as Mesas Redondas, como extensão do programa dos Ciclos; o aparelhamento das Bibliotecas Lúcio de Mendonça e Rodolfo Garcia; participação no Ano Brasil-França; o Centro de Memória, para permitir o acesso ao acervo da ABL - discursos e mais de dois mil artigos de acadêmicos -, através da Internet; prêmios literários e concertos.
Ao assumir a Presidência, o Acadêmico Marcos Vilaça, eleito à unanimidade e que ocupa desde 1985 a cadeira nº 26, cujo último titular foi o cientista social e poeta Mauro Mota, salientou o desejo de “continuar sem os riscos do continuísmo, que isto é incompatível com a Casa. Vou tratar de prosseguir na obra dos meus antecessores. Estou comprometido em honrar a transitória ocupação da cadeira presidencial de Machado de Assis, inspirado na tradição e na modernidade.
Tenho o exemplo de Ivan Junqueira, que não poupou sacar da sua inteligência privilegiada idéia e energia para a gestão que nos deu. Ele tem de todos nós a mais categórica gratidão.
Não escondo que estarei a continuar os serviços dedicados de tantos outros presidentes. Digo logo, também de outros presidentes pernambucanos: Medeiros e Albuquerque, Antonio Austregésilo, Celso Vieira, Múcio Leão, Adelmar Tavares, Barbosa Lima Sobrinho. Menciono, em destaque, o conterrâneo Austregésilo de Athayde, sem necessidade de explicitar. Esses pernambucanos deram à Academia a prodigalidade daquilo de que somos feitos, o barro de Guararapes.”
Para Marcos Vilaça, este “será o século do conhecimento, seja como técnica, seja como informação. E o que dizer do conhecimento especulativo, da tête bien faite em lugar da tête bien pleine de que falou Montaigne? O que dizer da sabedoria?”
E acrescentou:
Há uma partição do conhecimento com o fosso a separar ciências e humanidades. Há uma cesura que a evolução do saber vem agravando, pelas crescentes incompreensões, resultando no risco de que se sabe mais e mais sobre menos e menos, quase tudo sobre quase nada.
A esse propósito o recentíssimo livro da professora madrilenha, Maria José Dulce -- Mercado sin ciudadanía -- adverte para uma das assimetrias da globalização, a da informação que desemboca em privatização do conhecimento.
Quem sabe não chegou a hora de uma nova ciência do homem, de que falou Edgar Morin? Ciência a contestar saberes segmentados, rompedora de fronteiras cristalizadas. Ciência que capte o homem nos seus viveres, interações, complementaridades, encontros e conflitos como registra Roberto Cavalcanti de Albuquerque, provocando explicações em seu admirável ensaio sobre Gilberto Freyre e a invenção do Brasil. (...)
À Academia de Letras compete participar do humanismo compatível com esse século do conhecimento, apta a interagir com uma ciência do homem que seja compreensiva e definidora de sínteses.
Seu papel será preservar e valorizar a memória nacional: a língua como instrumento do conhecimento e da convivência; as letras como reveladoras/formadoras da identidade nacional; a cultura preservada e habilmente inserida em processo civilizatório que seja também caracteristicamente brasileiro. Sem deixar de fora nada do que é humano: a ciência, que reside no espírito, que observa e explica; e a poesia, que habita a alma, que sente e compreende.”
Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores,
Desejo concluir este pronunciamento - e para torná-lo mais completo -, pedindo sejam publicados, nos Anais do Senado, os textos na íntegra dos discursos dos acadêmicos Ivan Junqueira e Marcos Vilaça, e o Relatório do Secretário-Geral Evanildo Bechara.
Cumprimento desta tribuna os dirigentes que ora findam seus mandatos: Secretário-Geral: Evanildo Bechara; Primeira-Secretária: Ana Maria Machado; Segundo-Secretário: Marcos Vinicios Vilaça e Tesoureiro: Cícero Sandroni.
Do mesmo modo à nova Diretoria, composta além do Presidente Marcos Vilaça, dos acadêmicos Cícero Sandroni, Secretário Geral; Ana Maria Machado, Primeira-Secretária; José Murilo de Carvalho, Segundo-Secretário e Antônio Carlos Secchin, Tesoureiro, com os votos de profícuos trabalhos.
O Sr. José Agripino (PFL - RN) - Permite-me V. Exª um aparte, Senador Marco Maciel?
O SR. MARCO MACIEL (PFL - PE) - Pois não. Ouço com prazer o nobre Líder, Senador José Agripino.
O Sr. José Agripino (PFL - RN) - Senador Marco Maciel, para mim é um privilégio apartear esse seu discurso, que é particular, proferido por um ex-Vice-Presidente da República, membro da Academia Brasileira de Letras, Senador e, para minha honra, companheiro de Partido.
O SR. MARCO MACIEL (PFL - PE) - A honra é toda minha.
O Sr. José Agripino (PFL - RN) - V. Exª faz um discurso de elogio à posse de um amigo comum, o Ministro Marcos Vilaça, pernambucano como V. Exª, e, na minha opinião, irrequieto por natureza. Acima de tudo, é um irrequieto, tem capacidade política inegável, capacidade administrativa inegável. No desempenho da ABL, Marcos Vilaça marcou sua passagem como ninguém e é um homem de letras, com passagem em algumas Academias de Letras, a terminar pela ABL. As posses de Marcos Vilaça são colossais. Lembro-me de que fui à posse dele como membro da Academia Brasileira de Letras. Não pude, infelizmente, ir à sua posse como Presidente da ABL, mas fui à encalourada posse - fazia um calor terrível naquele dia - como membro da ABL. Posse colossal pela quantidade de amigos que conseguiu reunir ao longo da vida, pela sua capacidade de aglutinar, pelo político competente que é, pela quantidade de serviços prestados que conseguiu, ao longo da vida, fazer pelo seu Estado e pelo País. Mas é, acima de tudo, como eu dizia, irrequieto. É talvez um dos mais jovens membros da Academia Brasileira de Letras e leva para a Presidência da honorável instituição a disposição de oxigenação. Não que os outros não tenham tido seus méritos. Tiveram-nos todos eles. São todos homens brilhantes e dignos da maior louvação. Mas Marcos Vilaça, a quem aplaudo, vai levar, pela sua irrequietude, a capacidade de oxigenação, de introdução de idéias novas, de práticas novas, de coisas que não vinham sendo feitas na Academia Brasileira de Letras. Lamentei não poder estar presente na posse do meu amigo Marcos Vilaça, mas, nesta oportunidade, quero louvar o discurso de V. Exª, que é seu colega e que, em muito boa hora, faz o elogio da posse de um pernambucano como novo Presidente da Academia Brasileira de Letras: o amigo comum Marcos Vilaça.
O SR. MARCO MACIEL (PFL - PE) - Nobre Líder Senador José Agripino, quero agradecer o substancioso aparte de V. Exª e dizer que V. Exª destaca dados muitos característicos da vida e da obra de Marcos Vilaça. E, como nordestinos, V. Exª e eu, sentimo-nos orgulhosos em vê-lo presidindo a Academia Brasileira de Letras.
Estou certo de que, sob a sua Presidência, a Academia continuará a cultuar a língua, como desejava Machado de Assis, a promover o seu engrandecimento e a buscar cada vez mais uma crescente integração com os países que integram a chamada Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Isso para nós é muito importante, porque acredito que a língua e a Literatura são fatores de integração, e isso ajuda a firmar o País nesses tempos de mundialização que vivemos, que caracterizaram o fim do século passado e marca sobretudo o Século XXI.
Sr. Presidente, Senador Eduardo Siqueira Campos, a ABL cumpre, malgrado poucos saibam, um notável papel na preservação da nossa memória, pois é fundamental, observa Nabuco, ligar-se “ao passado que ameaça ruína do que ao futuro que ainda não tem forma”.
Tradição e criação - características de um povo -, esta a renovar aquela marcam a ABL. Mercê do idealismo de seus sucessivos dirigentes e integrantes, a ABL desenvolve inúmeras ações na difusão do saber literário do País. Promove também o intercâmbio com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e povos de outras falas e culturas.
Getúlio Vargas ao ser admitido na Instituição, considerou-a “uma espécie de judicatura mental do País, preparando uma atmosfera de interesse e de respeito pelas criações intelectuais, estimulando as vocações e facilitando-lhes o acesso às fontes de revigoramento e renovação espiritual”.
Sr. Presidente, o tempo é breve, ele é nosso inimigo, para discorrer sobre todas as atividades da ABL - no Brasil e no exterior. Citarei algumas, apenas com relação às duas gestões de Ivan Junqueira, período 2004-2005, desejo referir-me, a título de exemplo, o Relatório apresentado pelo lexicógrafo e professor Evanildo Bechara, então Secretário-Geral da ABL. Ele lembrou as atividades de publicações como a Revista Brasileira, os Discursos Acadêmicos, os Anais da Academia, reedições, lançamentos novos e a expansão de Coleções; os Ciclos de Palestras, destinados a universitários, estudiosos e ao público em geral; as Mesas Redondas, como extensão do programa dos Ciclos; o aparelhamento das Bibliotecas Lúcio de Mendonça e Rodolfo Garcia; participação no Ano Brasil-França; o Centro de Memória, para permitir o acesso ao acervo da ABL - discursos e mais de dois mil artigos de acadêmicos -, através da Internet; prêmios literários e concertos.
Ao assumir a Presidência, o Acadêmico Marcos Vilaça, eleito à unanimidade e que ocupa desde 1985 a cadeira nº 26, cujo último titular foi o cientista social e poeta Mauro Mota, salientou o desejo de “continuar sem os riscos do continuísmo, que isto é incompatível com a Casa. Vou tratar de prosseguir na obra dos meus antecessores. Estou comprometido em honrar a transitória ocupação da cadeira presidencial de Machado de Assis, inspirado na tradição e na modernidade.
Tenho o exemplo de Ivan Junqueira, que não poupou sacar da sua inteligência privilegiada idéia e energia para a gestão que nos deu. Ele tem de todos nós a mais categórica gratidão.
Não escondo que estarei a continuar os serviços dedicados de tantos outros presidentes. Digo logo, também de outros presidentes pernambucanos: Medeiros e Albuquerque, Antonio Austregésilo, Celso Vieira, Múcio Leão, Adelmar Tavares, Barbosa Lima Sobrinho. Menciono, em destaque, o conterrâneo Austregésilo de Athayde, sem necessidade de explicitar. Esses pernambucanos deram à Academia a prodigalidade daquilo de que somos feitos, o barro de Guararapes.”
Para Marcos Vilaça, este “será o século do conhecimento, seja como técnica, seja como informação. E o que dizer do conhecimento especulativo, da tête bien faite em lugar da tête bien pleine de que falou Montaigne? O que dizer da sabedoria?”
E acrescentou:
“Há uma partição do conhecimento com o fosso a separar ciências e humanidades. Há uma cesura que a evolução do saber vem agravando, pelas crescentes incompreensões, resultando no risco de que se sabe mais e mais sobre menos e menos, quase tudo sobre quase nada.
A esse propósito o recentíssimo livro da professora madrilenha, Maria José Dulce -- Mercado sin ciudadanía -- adverte para uma das assimetrias da globalização, a da informação que desemboca em privatização do conhecimento.
Quem sabe não chegou a hora de uma nova ciência do homem, de que falou Edgar Morin? Ciência a contestar saberes segmentados, rompedora de fronteiras cristalizadas. Ciência que capte o homem nos seus viveres, interações, complementaridades, encontros e conflitos como registra Roberto Cavalcanti de Albuquerque, provocando explicações em seu admirável ensaio sobre Gilberto Freyre e a invenção do Brasil. (...)
À Academia de Letras compete participar do humanismo compatível com esse século do conhecimento, apta a interagir com uma ciência do homem que seja compreensiva e definidora de sínteses.
Seu papel será preservar e valorizar a memória nacional: a língua como instrumento do conhecimento e da convivência; as letras como reveladoras/formadoras da identidade nacional; a cultura preservada e habilmente inserida em processo civilizatório que seja também caracteristicamente brasileiro. Sem deixar de fora nada do que é humano: a ciência, que reside no espírito, que observa e explica; e a poesia, que habita a alma, que sente e compreende.”
Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, desejo concluir este pronunciamento - e para torná-lo mais completo -, pedindo sejam publicados, nos Anais do Senado, os textos na íntegra dos discursos dos acadêmicos Ivan Junqueira e Marcos Vilaça, e o Relatório do Secretário-Geral Evanildo Bechara.
Cumprimento desta tribuna os dirigentes que ora findam seus mandatos: Secretário-Geral: Evanildo Bechara; Primeira-Secretária: Ana Maria Machado; Segundo-Secretário: Marcos Vinicios Vilaça e Tesoureiro: Cícero Sandroni.
Do mesmo modo à nova Diretoria, composta além do Presidente Marcos Vilaça, dos acadêmicos Cícero Sandroni, Secretário Geral; Ana Maria Machado, Primeira-Secretária; José Murilo de Carvalho, Segundo-Secretário e Antônio Carlos Secchin, Tesoureiro, com os votos de profícuos trabalhos.
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DOCUMENTOS A QUE SE REFERE O SR. SENADOR MARCO MACIEL EM SEU PRONUNCIAMENTO.
(Inseridos nos termos do art. 210, inciso I e § 2º, do Regimento Interno.)
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Matérias referidas:
DISCURSO DO PRESIDENTE IVAN JUNQUEIRA
15 de dezembro de 2005
O ano que agora se finda emitiu claros sinais de que esta Casa prossegue em sua trajetória no sentido de lutar não apenas pela preservação e a divulgação da língua e da literatura nacionais, mas também pelo enriquecimento de uma cultura que é de todos nós e cuja identidade deve ser mantida para além das fantasmagorias e dos descaminhos que a todo instante a ameaçam no âmbito egoístico e excludente de uma sociedade globalizada em que se dissolvem, de forma preocupante, as raízes e a fisionomia dos povos e das nações. Não se trata aqui de nenhuma proclamação ufanística em favor da nacionalidade, mas de um alerta contra a diluição daquilo que é genuinamente nosso nas esferas da língua, da literatura, das artes ou, numa palavra, dos bens de cultura que herdamos de nossos ancestrais e das raças que nos formaram ao longo desse cinco séculos de tortuoso, mas pródigo, processo civilizatório. Não me parece haver dúvida de que, durante os últimos cem anos desse percurso, foi grande e significativo o papel desempenhado pela Academia Brasileira de Letras para a consolidação de nossas mais caras tradições culturais e literárias, pois dela fazem - e já fizeram parte - alguns dos mais ilustres escritores, intelectuais e homens públicos do país.
Temos, pois, uma responsabilidade da qual não podemos declinar, sob o risco de que, se o fizermos, estarmos contribuindo para a destruição daquela ponte que se estende entre a generosa tradição do passado e a multifária realidade do presente. E sem esta ponte não há também como concretizarmos as promessas do futuro. É na dinâmica desse processo que se inserem as múltiplas e diversificadas atividades da Academia Brasileira de Letras, que pode ser hoje definida como uma das mais opulentas e respeitadas casas de cultura do país. E tudo isto tem um custo, um custo talvez difícil de pagar e que, muitas vezes, não é corretamente avaliado por aqueles que ainda não entenderam o que devemos à sociedade e mesmo aos poderes públicos que, em certos momentos cruciais de nossa já centenária história, contribuíram para a conquista do espaço físico que hoje ocupamos e no qual erguemos nosso patrimônio cultural, que, se pertence estatutariamente a 40 acadêmicos, pertence também a mais de 180 milhões de brasileiros que nos privilegiam com seu respeito, seu reconhecimento e sua assídua freqüentação.
Quero aqui deixar muito claro que a Diretoria que agora se despede nada mais fez do que honrar esses compromissos e distender tudo aquilo que nos legaram as diretorias anteriores. Esta Casa deve ser entendida como um continuum, e claro está que, nesta condição, não foi feita da noite para o dia, como tampouco graças a um sortilégio deste ou daquele presidente, sendo antes o resultado do esforço de várias gerações de acadêmicos. Se hoje funcionam a plenos pulmões certos planetas mais jovens de nossa galáxia, como a Biblioteca Rodolfo Garcia, o Centro de Memória, o Setor de Publicações, a Comissão de Lexicologia e Lexicografia, o Arquivo, a Galeria Manuel Bandeira, o Espaço Machado de Assis ou o próprio Centro Cultural do Brasil, devemo-lo àqueles que nos precederam e que revelaram, no exercício de seus mandatos, a extraordinária antevisão do que hoje é a Academia. Foi por isso que, em meu discurso de posse como presidente desta Casa, há dois anos atrás, fiz questão de ressaltar que em nenhum momento alimentei a tola pretensão de reinventar a roda, mas apenas fazer com que ela girasse, da mesma forma como gira o mundo, sem que ninguém esteja obrigado a reinventá-lo a cada instante.
Deixo a Casa em ordem, “com cada coisa em seu lugar”, como disse o poeta e acadêmico Manuel Bandeira, e ainda com ele eu poderia dizer que a deixo também “com seus livros, com seus quadros, / intacta, suspensa no ar”, nessa condição de eternidade que de todo lhe cabe e que decerto não cabe a nós, que apenas aqui residimos durante nossa efêmera, caduca e contingente existência terrena. Enfrentamos em 2004 e boa parte de 2005 graves dificuldades financeiras e orçamentárias devido à queda de receitas do Palácio Austregésilo de Athayde, cuja taxa de ocupação caiu a níveis quase intoleráveis, comprometendo de modo flagrante o bom desempenho da Casa. Arrisquei à época considerar que se tratava de um problema sazonal. Quis o destino que nossa avaliação estivesse correta e que essa taxa voltasse, em novembro deste ano, a níveis excepcionais, garantindo assim, para 2006, um orçamento compatível com nossas atividades. Não escondo de ninguém que me portei amiúde de forma avarenta, cortando despesas e cancelando certos projetos que me pareciam, senão supérfluos, pelo menos adiáveis, o que nos permitiu, no decurso de dois anos, aumentar consideravelmente o montante de nossas aplicações financeiras. Mas que ninguém se iluda: em virtude do crescimento de nossas atividades nestes últimos cinco anos, a Academia está quase no limite de suas forças, e seriam de todo bem-vindas, a partir de agora, as parcerias de que se valem todas as instituições do mundo moderno.
Apesar de todos esses fatores adversos, não foi pouco o que, neste ano difícil, pôde a Academia oferecer àqueles que há muito estão habituados com as nossas realizações culturais e que fazem desta Casa um ponto obrigatório no itinerário de sua sede de conhecimento: conferências, palestras, seminários, mesas-redondas, exposições, concertos, atividades teatrais e de arte-educação, publicações, a abertura definitiva da Biblioteca Rodolfo Garcia ao público leitor, a informatização da Biblioteca Acadêmica Lúcio de Mendonça, que acaba de comemorar o seu centenário, a ampliação dos sites e portais acadêmicos, a crescente utilização da Sala de Videoconferência ou a intensificação das atividades lexicográficas com vistas à elaboração de um dicionário escolar e do Dicionário da Academia. Enfim - e não vejam os senhores nenhuma vanglória no que afirmo -, suponho que fizemos muito com muito pouco, e mais faríamos se fossem outras as condições com as quais tivemos de conviver.
E eis aqui chegado o instante de abordar um outro e crucial aspecto no que toca ao nosso esforço. Não é ao presidente que cabem as honras e os aplausos por haver tudo isto ter sido executado à risca. O presidente nunca esteve só e jamais comandou ou organizou sozinho toda essa operação. Ao seu lado estiveram sempre o Secretário-Geral Evanildo Bechara e o Diretor-Tesoureiro Cícero Sandroni, sem o concurso dos quais pouco ou nada teria sido feito. E nada teria também sido feito sem a diligente, contínua e dedicada assistência de meus colaboradores mais próximos, como as secretárias Maria Carmen de Oliveira, Maria Lúcia Duarte, Lúcia Cristina Moraes e Maria José de Abreu, as assessoras Leila Longo e Daniela Ferrari, as chefes do Centro de Memória, Irene Moutinho, e do Setor de Publicações, Nair Dametto, o administrador-geral Nilson Cândido de Souza, o museólogo Anselmo Maciel, os bibliotecários Luiz Antônio de Souza e Marília Amaral, os lexicógrafos Sérgio Pachá e Rita Moutinho ou o arquivista Paulino de Sousa Carvalho, além de todos os outros integrantes dessa tropa de elite que são os funcionários desta Casa. Isto sem falar, claro está, nos acadêmicos que participaram mais diretamente - seja como palestrantes, seja como coordenadores - de nossos ciclos temáticos de conferências e naqueles que respondem pelas duas bibliotecas da Academia, Murilo Melo Filho, pelos Arquivos, Sérgio Paulo Rouanet, pelos Anais, Eduardo Portella, pela Comissão de Publicações, Alberto Venancio Filho, Sábato Magaldi e Fernando Bastos de Ávila, pela Comissão de Lexicologia e Lexicografia, Eduardo Portella, Arnaldo Niskier e o saudoso Sergio Corrêa da Costa, e pela Revista Brasileira, João de Scantimburgo. Parodiando Gil Vicente, eu poderia concluir que o presidente é “todo mundo e ninguém”.
Disse um poeta que há em nós e em tudo o que fazemos um ar de despedida porque, ao contrário das espécies animais, estamos conscientes da morte. Da morte e dessa ilusória imortalidade que talvez um dia nos confira o pouco que deixamos de nós nas páginas que escrevemos. Gostaria de assegurar aos senhores que deixo esta presidência com a gratificante sensação do dever cumprido, não talvez como poderia tê-lo sido, mas como afinal pôde sê-lo. A rigor, estou e não estou indo embora, pois aqui permanecerei à disposição da próxima Diretoria para com ela colaborar sempre que meus parcos préstimos se fizerem úteis ou desejáveis. E tenho a certeza de que os que vierem depois de mim farão mais e melhor do que eu, que fui apenas - e se tanto - um guardião das mais altas tradições desta Casa e das palavras que desde sempre a imortalizaram. Esta é a segunda vez que ocupo a tribuna do Salão Nobre. Ocupei-a quando aqui tomei posse, em 7 de julho de 2000. Volto a ocupá-la agora, quando me despeço como presidente da Academia, na certeza de que sempre a servi e nunca me servi dela.
DISCURSO DE POSSE DE MARCOS VINICIOS VILAÇA
NA PRESIDÊNCIA DA ABL
15.12.2005
Sou um insistente na esperança e não sou um subalimentado de sonhos. Apresento- me com esperança e sonhos. Retreinados os olhos para enxergar esta hora, vejo-a, confesso, feliz da vida.
Aqui chego para continuar sem os riscos do continuísmo, que isto é incompatível com a Casa. Vou tratar de prosseguir na obra dos meus antecessores. Estou comprometido em honrar a transitória ocupação da cadeira presidencial de Machado de Assis, inspirado na tradição e na modernidade.
Tenho o exemplo de Ivan Junqueira, que não poupou sacar da sua inteligência privilegiada idéia e energia para a gestão que nos deu. Ele tem de todos nós a mais categórica gratidão.
Não escondo que estarei a continuar os serviços dedicados de tantos outros presidentes. Digo logo, também de outros presidentes pernambucanos: Medeiros e Albuquerque, Antonio Austregésilo, Celso Vieira, Múcio Leão, Adelmar Tavares, Barbosa Lima Sobrinho. Menciono, em destaque, o conterrâneo Austregésilo de Athayde, sem necessidade de explicitar. Esses pernambucanos deram à Academia a prodigalidade daquilo de que somos feitos, o barro de Guararapes.
Eles todos colaboraram para que a Academia Brasileira não fosse um eco, nem os sócios, fantasmas em sua história.
A gente sabe que a nossa terra não é limite mas fonte de civismo. A gente sabe que Pernambuco é terra do sim/sim, não/não.
Machado de Assis ensinou no discurso da fundação que a Academia precisa da constância de todos, que a tradição é o nosso primeiro voto; que ele deve perdurar, e que o passemos aos sucessores como o pensamento e a vontade iniciais. Em carta a Nabuco, chegou a dizer que o passado é a melhor parte do presente.
Constância é continuar.
Por isso, o objetivo não apenas meu, mas de toda a Diretoria, não é impor idéias mas conduzir a vontade de todos, claro que sem perda de um só milímetro do espaço das competências.
Aqueles que me acompanham na Diretoria -- todos exponenciais atores da vida cultural brasileira e sedutoras figuras humanas -- compreendem que o exercício dessa liderança temporária impõe-nos conduzir até a transformação e não apenas a mudança, se o tempo assim nos impuser. O tempo e as intensidades.
Nosso confrade José Sarney costuma lembrar que cada ser humano é um testemunho do tempo. Testemunho participante das transformações que ocorrem durante a vida, que vão do corpo ao ritual da morte, passando pelo cotidiano dos costumes, hábitos, modos e sedução. E eu acrescento, do reforço à fidelidade como resistência à traição dos infames.
Aqui ninguém se toma membro da Diretoria para ser do contra. Somos escolhidos para ser a favor, pois somos produto de consenso.
Recebo uma casa em ordem e me comprometo a entregá-la do mesmo jeito. Zelarei pelas finanças, mas declaro que não serei um miserabilista a prejudicar os objetivos da instituição.
Estarei atento aos nossos cânones, na necessidade de memória e critério, mas isto não é aderir à mitologia saudosista, ficar patinando no que Saramago chama de “nada de nada, pela palavra nada”.
Estarei muito atento a tudo que nesta fala exponho, até por ter aprendido com Guimarães Rosa “que por um distraído, um dividido de minuto a gente perde o tino por dez anos”.
Confrades:
Excelências:
Senhoras e Senhores:
Há percepção sedimentada do que significa o conhecimento para o progresso da humanidade. O que ainda não se proclama com a freqüência devida é que a rapidez do avanço da ciência e da técnica determinou grande aceleração da história.
O Banco Mundial tem afirmado que os países e as pessoas pobres diferem dos ricos não apenas pelo fato de que têm menos capital, mas porque têm menos conhecimento.
O novo olhar sobre os problemas do desenvolvimento parte da perspectiva do conhecimento.
Sob o ponto de vista do crescimento econômico e do desenvolvimento social é crucial o domínio do conhecimento técnico e do conhecimento sobre os atributos.
A gestão do conhecimento produz a aceleração na geração de novos saberes e sua incorporação sob a forma de inovações, com o deslocamento da fronteira dos valores.
No caso da transmissão e disseminação de informações, a teleinformática atua de forma exponencial, a ponto de preocupar o efeito decorrente da chamada exclusão digital.
Este será o século do conhecimento, seja como técnica, seja como informação. E o que dizer do conhecimento especulativo, da tête bien faite em lugar da tête bien pleine de que falou Montaigne? O que dizer da sabedoria?
Reflitamos com T. S. Eliot, na excepcional tradução de Ivan Junqueira:
O infinito ciclo da idéia e da ação,
Infinita invenção, experiência infinita,
Traz o conhecimento do vôo, mas não o do repouso;
O conhecimento da fala, mas não o do silêncio;
O conhecimento das palavras e a ignorância do Verbo.
Todo o nosso conhecimento nos aproxima da ignorância,
Toda a nossa ignorância nos avizinha da morte,
Mas a iminência da morte não nos acerca de DEUS.
Onde a vida que perdemos quando vivos?
Onde a sabedoria que perdemos no saber?
Onde o conhecimento que perdemos na informação?
Os ciclos do Céu em vinte séculos
Afastaram-nos de DEUS e do Pó nos acercaram.
Há uma partição do conhecimento com o fosso a separar ciências e humanidades. Há uma cesura que a evolução do saber vem agravando, pelas crescentes incompreensões, resultando no risco de que se sabe mais e mais sobre menos e menos, quase tudo sobre quase nada.
A esse propósito o recentíssimo livro da professora madrilenha, Maria José Dulce -- Mercado sin ciudadanía -- adverte para uma das assimetrias da globalização, a da informação que desemboca em privatização do conhecimento.
Quem sabe não chegou a hora de uma nova ciência do homem, de que falou Edgar Morin? Ciência a contestar saberes segmentados, rompedora de fronteiras cristalizadas. Ciência que capte o homem nos seus viveres, interações, complementaridades, encontros e conflitos como registra Roberto Cavalcanti de Albuquerque, provocando explicações em seu admirável ensaio sobre Gilberto Freyre e a invenção do Brasil.
A idéia de civilização refere-se aos valores reconhecidos, estendidos por toda a humanidade. Implica e contém a idéia de progresso. O homem civilizado opõe-se ao homem primitivo. Já a idéia de cultura revive no presente o “passado eterno”. Se a civilização tende a apagar diferenças pela pasteurização, a noção de cultura sublinha as diferenças para bem refletir a consciência de nação, de pátria como um pertence.
Essa antítese talvez corresponda à oposição entre as filosofias da vida e as filosofias do espírito.
A globalização, há quem o diga, pode fazer desaparecer a alma de uma cultura, pela massificação geradora de impotência e alienação, como se a sociedade existisse e não vivesse.
À Academia de Letras compete participar do humanismo compatível com esse século do conhecimento, apta a interagir com uma ciência do homem que seja compreensiva e definidora de sínteses.
Seu papel será preservar e valorizar a memória nacional: a língua como instrumento do conhecimento e da convivência; as letras como reveladoras/formadoras da identidade nacional; a cultura preservada e habilmente inserida em processo civilizatório que seja também caracteristicamente brasileiro. Sem deixar de fora nada do que é humano: a ciência, que reside no espírito, que observa e explica; e a poesia, que habita a alma, que sente e compreende.
Para tanto, creio, a Academia deve propor e liderar um sistema básico de referência para a compreensão e valorização da cultura brasileira. Fazê-lo não a partir de uma concepção restritiva de cultura, mas de um conceito dela amplamente antropológico: abarcando todo o pensar, o agir, o fazer humano, quando motivados por valores. E valores não apenas estéticos ou históricos; também os geradores das muitas habilidades, inclusive técnicas utilitárias, populares. Fazê-lo não a partir de uma visão da cultura como coisa “morta”, escrava ou apenas testemunha do passado, mas a partir de uma visão dinâmica da cultura, de uma cultura “viva”, libertadora, integrativa. Inserida em projeto nacional que se inspire em um novo e transformador humanismo.
Nesse contexto, o desenvolvimento deve ser visto como um processo dialético global, econômico-social, político-institucional, que resulta da própria evolução da cultura/civilização. Deve, sim, nutrir-se do passado, porém avançar criativamente para um novo futuro, fortalecendo a identidade nacional. Por meio dele pode produzir-se uma síntese harmoniosa de nossa diversidade -- de nossos contextos culturais específicos, até mesmo dos paradoxos de nossa cultura. Síntese da marca brasileira.
Nos países como o Brasil, esses paradigmas peculiares, embora frágeis, continuam resistindo, memória ainda viva, à globalização. Eles persistem como autênticas vertentes de autenticidade, constituindo patrimônio cultural identitário. E representam a possibilidade de afirmação brasileira, mas sem o risco de descambar para o particularismo que despreze a cultura alheia pelo mau costume de apenas estimular rivalidades.
Uma nova política cultural para o País, nela inserida uma política de valorização e uso da memória, deve contrapor-se à pressão homogeneizadora da globalização, mas sem os cacoetes do oposto tribalista. A globalização pode ameaçar a identidade nacional sempre em formação. Ameaçar a própria língua, veículo por excelência da construção social de uma realidade autenticamente brasileira e merecedora de uma eficiente cultura da língua. Mas, insisto, sem integrismos, com percepção de que há uma vida a cultivar e não uma morte iminente a prantear.
Alceu Amoroso Lima disse ao tomar posse, em 1935, que são complementares e de duas ordens as funções literárias da Academia: de tradição e de manutenção do que ficou de bom; de criação e de renovação da cultura nacional. É lição permanente e atual.
Se o futuro é um chamamento, estamos prontos para ele. Se o futuro é um sonho, é boa a sua fisionomia. Drummond já nos passou a lição: “Ó vida futura / nós te criaremos”.
Vamos acudir ao chamado da população de brasileiros internautas, a décima maior do mundo. Deram-nos ciência das propostas de portais que disponibilizarão dezoito mil títulos que caíram no domínio público. Sabemos de como convivem consagrados e estreantes, sem patamares hierárquicos na publicação on-line.
Dou este exemplo, que estimo seja emblemático, para situar de como esta é a Academia do tempo tríbio. A tradição é intocável para nós como razão de hoje construirmos o futuro.
Excelências:
Confrades:
Amigos:
“Meus amigos
quando me dão a mão
sempre deixam outra coisa
presença
olhar
lembrançacalor
meus amigos
quando me dão
deixam na minha
a sua mão”
Digo esses versos de Paulo Leminski para me curvar em agradecimentos. Gratidão aos confrades que me puseram nesta Presidência, gratidão a tantos que vieram aqui para o expressivo testemunho de prontidão no estímulo.
O que lhes peço é que não soltem as minhas mãos.
E o que lhes posso oferecer do eu profundo? Ofereço-lhes o que tenho de melhor: o amor que a minha família tem por mim. A mulher, Maria do Carmo, amor sem comparação, mistura de energia e de luar, baronesa de Limoeiro como dela disse Odylo Costa, filho; ela com toda a sua serenidade suporta as impaciências do marido e é minha Nossa Senhora da Paciência. Os filhos, todos dois, um alongamento superior ao alongado, ele e ela, Rodrigo Otaviano e Taciana Cecília, por sua vez espichados em Mendonça e Larissa. Dos netos, um avô precisa falar? Eu não preciso falar de José, Ilana, Vinícius, Otaviano, Enrico, da saudosa e linda Vytória.
Dessa gente e de mais gente, como da nonagenária e lúcida Evalda e da memória de Vilaça, o bom, recebo aconchego, carinho, todinho pra mim.
Nesta tarde, falta alguém que estava conosco a 2 de julho de 1985, quando vim suceder ao meu padrinho de casamento, meu compadre Mauro Mota. Está provado o que fala Flávio Tavares: “A morte com o seu rito consegue ter mais vida que a vida”. Saudade de Marcantonio. Muita saudade do filho.
Confrades:
Senhoras e Senhores:
Cheguei a uma idade em que não convém claudicar perante as emoções, nem subtrair esforços para manter em forma a plenitude dos desejos.
Sei que é difícil, muito difícil, a missão presidencial, ademais para quem não acredita na união hipostática na figura do Presidente. Sei da singularidade deste grupamento a que pertenço. Sei de tudo isto.
Em recente CD da Maria Rita canta-se que a alegria quem dá é Deus e que a tristeza é a gente quem faz. Deus deu-me a alegria desta hora, evitarei a outra parte, pois quero ter, nesta Presidência, sempre presente a lição de dom Helder Câmara:
“É graça divina começar bem. Graça maior, persistir na caminhada certa. Mas a graça das graças é não desistir nunca”.
Marcos Vinicios Vilaça
Discurso de posse na Presidência da ABL, em 15.12.2005
Relatório do Secretário-Geral 2005
INTRODUÇÃO
Como rezam os Estatutos desta Casa e seguindo a tradição dos anos anteriores, cabe ao Secretário-Geral dar conta do que nela ocorreu em 2005 e do que realizaram os seus membros dentro e fora do âmbito da instituição em viagens, conferências, prêmios e homenagens a eles consagrados. É, sem dúvida, um permanente diálogo cultural com literatos e especialistas nacionais e estrangeiros, além da interface que abre junto à sociedade brasileira. Tantas foram este ano as realizações da Casa e de seus Acadêmicos que, para não tornar demasiadamente fastidiosa uma tarde de alegria, acordou a Presidência que nos deteríamos nas atividades desenvolvidas mais diretamente no âmbito da Casa, deixando para registro no volume de Anais aquelas, que foram numerosas e importantes, ligadas aos Acadêmicos fora do espaço aqui demarcado.
ALEGRIA E SAUDADE
Iniciamos o ano acadêmico em março com a eleição do confrade Helio Jaguaribe, que tomou posse na Cadeira no 11 do Quadro dos Membros Efetivos, no dia 22 de julho, recebido pelo Acadêmico Candido Mendes de Almeida.
Quiseram os fados que chegássemos ao final do ano lamentando o desaparecimento dos Acadêmicos Sergio Corrêa da Costa, ocorrido em 27 de setembro, e de Oscar Dias Corrêa, no dia 30 de novembro.
A nossa débil contingência humana está sujeita a esses momentos em que se misturam as alegrias pela aquisição de um novo confrade e as tristezas pela perda de dois grandes amigos, que viverão em nossa dor e em nossa saudade.
Como diz Cícero, a natureza não nos permite conhecer o limite das coisas.
PUBLICAÇÕES
Uma das atividades em que mais se empenha nossa instituição é, sem dúvida, a de publicações, sob a competente direção do Acadêmico Alberto Venancio Filho, pela qual são postos ao alcance do público, especializado ou geral, obras antigas esgotadas ou recentes, de valor literário ou cultural. Em 2005, vieram à luz os volumes 41 e 42 da Revista Brasileira, sob a direção operosa do Acadêmico João de Scantimburgo; o tomo I dos Discursos Acadêmicos com reedições de discursos proferidos entre 1897 e 1919, Pelo Sertão, de Afonso Arinos; O Ocaso do Império, de Oliveira Vianna e à Margem da História, de Euclides da Cunha, além do volume XXIX dos Discursos Acadêmicos. Na coleção Afrânio Peixoto, os livros Franklin Távora e o seu Tempo, de Cláudio Aguiar, e Dante Milano: obra reunida, preparado por Sérgio Martagão Gesteira; Na Coleção Antonio de Morais Silva, Fatos da Linguagem, de Heráclito Graça e o tomo I de A Língua Portuguesa na Revista Brasileira (1897-1943).
Na Coleção Austregésilo de Athayde, o livro de memórias Na Província e na Corte, do saudoso Acadêmico Marcos Almir Madeira.
Sob a responsabilidade do Acadêmico Eduardo Portella, saíram os volumes 187 e 188 dos Anais da Academia Brasileira de Letras.
CICLO DE PALESTRAS
Com o ciclo de palestras que tem lugar às terças-feiras e que se desenvolve por todo o ano, a Academia oferece ao público universitário e às pessoas interessadas a discussão sobre os mais variados temas da história literária e cultural. Em 2005, compareceram às palestras 1700 assistentes. Foram oferecidos os seguintes ciclos temáticos, cada um dos quais integrado por quatro a cinco palestras a cargo de Acadêmicos e de especialistas vindos de variados estados: Fundadores da ABL, coordenação Cícero Sandroni com a participação de Antonio Olinto, Sábato Magaldi, Cícero Sandroni e Murilo Melo Filho; Duzentos anos de Hans Christian Andersen, coordenação Evanildo Bechara, com a participação de Ana Maria Machado, Arnaldo Niskier, Cecília Costa Junqueira, Isabel Maria Carvalho Vieira e Per Johns; Caminhos do crítico, coordenação de Antonio Carlos Secchin, e a participação de Alfredo Bosi e Eduardo Portella, Benedito Nunes e Leyla Perrone-Moysés; A literatura brasileira no cinema, coordenação Cícero Sandroni e a participação de José Carlos Avellar, Hugo Sukman, Muniz Sodré,Ivana Bentes; Intérpretes do Brasil, coordenação Cícero Sandroni, e a participação de José Murilo de Carvalho, Helio Jaguaribe, Sergio Paulo Rouanet, Marcelo Jasmin, Bárbara Freitag; Os estudos filológicos na Academia e no Brasil, coordenação Evanildo Bechara, participação Evanildo Bechara, Marina Baird Ferreira, Eneida do Rego Monteiro Bonfim e Carlos Eduardo Falcão Uchôa; Historiografia brasileira: balanço crítico de alguns temas, coordenação José Murilo de Carvalho, participação de Francisco Falcon, Ronaldo Vainfas, João José Reis e Mary Del Priore; O teatro brasileiro contemporâneo, coordenação Evanildo Bechara, e a participação de Sábato Magaldi, Ferreira Gullar, Aderbal Freire-Filho e Bárbara Heliodora. Centenário de Afonso Arinos de Melo Franco, coordenação Affonso Arinos de Mello Franco, participação de Alberto Venancio Filho, Eduardo Portella, Sergio Paulo Rouanet, Francisco Manoel de Mello Franco, Wilson Figueiredo e Marcos Sá Corrêa.
Na Sala José de Alencar, o Professor Rui de Oliveira proferiu palestra sobre Ilustração de Livros relativa à exposição feita na Galeria Manuel Bandeira.
MESAS REDONDAS
Uma extensão natural do ciclo de palestras das terças-feiras são as mesas-redondas relativas a efemérides que relembram personalidades e fatos culturais. Foram temas das mesas-redondas coordenadas pelo Presidente Ivan Junqueira: 300 anos de Antônio José da Silva, o judeu, com a participação do Acadêmico Arnaldo Niskier e dos convidados Bárbara Heliodora e Paulo Roberto Pereira; Sesquicentenário de Junqueira Freire, com a participação dos Acadêmicos Alberto Venancio Filho e Carlos Nejar e dos convidados Alexei Bueno e Fábio Lucas; Centenário de Jean-Paul Sartre, com a participação dos Acadêmicos Eduardo Portella e Sergio Paulo Rouanet e dos convidados Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder; 4o centenário da publicação de D. Quixote, com a participação dos Acadêmicos Nélida Piñon, Eduardo Portella, Antonio Olinto e do convidado Marco Lucchesi; A geração de 45: sessenta anos, com a participação dos Acadêmicos Lêdo Ivo e Carlos Nejar e dos convidados Adriano Espínola e Luciano Rosa; Cinqüentenário de falecimento de Don José Ortega y Gasset, com a participação dos Acadêmicos Eduardo Portella, Sergio Paulo Rouanet, Tarcísio Padilha e Helio Jaguaribe; Centenário de nascimento de Érico Veríssimo, com a participação dos Acadêmicos Carlos Nejar, Moacyr Scliar e do escritor Flávio Loureiro Chaves.
BIBLIOTECAS LÚCIO DE MENDONÇA E RODOLFO GARCIA
Outro ponto das atividades da Casa representaram os esforços para o aparelhamento do acervo bibliográfico da Biblioteca do Petit Trianon - que por decisão do Plenário passou a chamar-se Biblioteca Lúcio de Mendonça - e a inauguração da Biblioteca Rodolfo Garcia aos 22 de setembro, instalada no 2o andar do Palácio Austregésilo de Athayde, tendo por diretor o Acadêmico Murilo Melo Filho. Num espaço de 1300m2, abriga 50000 volumes. Dotada dos mais modernos recursos tecnológicos, com sala de multimídia articulada com a sala de vídeo conferência, é hoje a mais moderna biblioteca do Brasil, que a Academia põe à disposição dos pesquisadores e consulentes. Além do operoso corpo de bibliotecários, a BRG conta com a nova Comissão de Seleção de que fazem parte os Acadêmicos Alberto da Costa e Silva, Eduardo Portella, Evanildo Cavalcante Bechara, Sergio Corrêa da Costa - agora substituído por Tarcísio Padilha - e o Diretor Murilo Melo Filho.
ANO FRANÇA-BRASIL
Particular relevo das atividades acadêmicas de 2005 mereceram as comemorações do Ano França-Brasil para realçar os profundos laços de amizade e intercâmbio cultural entre os dois países e as duas academias. As atividades culminaram com a viagem a Paris adêmicos:Ivan Junqueira, Ana Maria Machado, Marcos Vinicios Vilaça, Sergio Paulo Rouanet, Eduardo Portella, Arnaldo Niskier, Antonio Carlos Secchin, Antonio Olinto, Candido Mendes de Almeida, Carlos Heitor Cony, Ivo Pitanguy, José Sarney, Lêdo Ivo, Paulo Coelho, Sábato Magaldi e Sergio Corrêa da Costa. Houve sessão conjunta das duas Academias, quando se efetivaram mútuas homenagens, entre as quais foram conferidas pela Academia Brasileira de Letras as Palmas Acadêmicas ao antropólogo francês Claude Lévi-Strauss.
CENTRO DE MEMÓRIA
A visibilidade da ABL ao grande público internauta é tarefa do Centro de Memória. A presença da instituição na Internet, de janeiro a novembro, registrou treze milhões seiscentas e trinta e seis mil setecentas e trinta e sete visitas, oferecendo a 4a edição integral do VOLP, discursos e mais de 2000 artigos de Acadêmicos, cujo Portal incorpora ainda os sites de Machado de Assis e Euclides da Cunha. O Arquivo Acadêmico já conta com 10000 documentos, enriquecidos com a doação dos arquivos e correspondências de Murilo Melo Filho, Alberto da Costa e Silva, Alberto Venancio Filho, Arnaldo Niskier, Lêdo Ivo, Nélida Piñon, Sergio Corrêa da Costa e Marcos Vinicios Vilaça.
Realizou ainda o Centro de Memória as exposições sobre Hans Christian Andersen, Afonso Arinos e Coronéis, Coronéis. São de lembrar ainda as gravações a cargo do Setor de Recursos Audiovisuais com os Acadêmicos Ivan Junqueira, Cícero Sandroni, Nélida Piñon, Helio Jaguaribe, Lygia Fagundes Telles, Murilo Melo Filho e José Murilo de Carvalho; bem como o depoimento do conhecido estudioso inglês de Machado de Assis, John Gledson, quando de sua recente visita ao Centro de Memória.
Na Galeria Manuel Bandeira houve a inauguração da mostra Fundadores e Patronos por Cássio Loredano, com uma série inédita de oitenta caricaturas.
Na Galeria Manuel Bandeira houve exposição de Ilustração de Livros, do Professor Rui de Oliveira.
LANÇAMENTO DE LIVROS
Ainda arrolando atividades da Casa relacionadas a publicações de obras, cabe registrar os seguintes lançamentos de livros nela ocorridos, de autoria de Acadêmicos ou com sua participação em prefácio ou estudo introdutório: o já referido Dante Milano - obra reunida; A alma de um Padre, do padre Fernando Bastos de Ávila; Dionísio crucificado, de Per Johns; Dialogando com Jürgen Habermas, de Bárbara Freitag; Tempo diferente, de Murilo Melo Filho; Viagem com Dante, de Oscar Dias Corrêa e Evaristo de Moraes Filho: um intelectual humanista.
VISITA GUIADA AO PETIT TRIANON E ESPAÇO MACHADO DE ASSIS E LEITURAS DRAMATIZADAS
Com carinho especial, mantém a Casa a tradição de visitas guiadas ao Petit Trianon e ao Espaço Machado Assis,cujo objetivo é oferecer a crianças e jovens do ensino fundamental e médio conhecimento minucioso da história da Academia mediante visita acompanhada de comentários artísticos e culturais. Este ano a instituição contou sua história a 2500 jovens, encantados com o legado que a Academia lhes desvendou nas dependências do Petit Trianon e do Espaço Machado de Assis.
Outra atividade endereçada a jovens do ensino fundamental e médio são as Leituras Dramatizadas, sob a direção da Professora Silvia Eleutério. Este ano entraram 1200 assistentes em contacto com o teatro de Martins Pena, de Arthur Azevedo e com as Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antonio de Almeida, em comemoração dos 150 anos da saída da obra.
PRÊMIOS LITERÁRIOS E MEDALHAS
A ABL, pela decisão de suas Comissões Julgadoras, outorgou em 2005 os seguintes prêmios literários: Prêmio ABL de Poesia a Neide Archanjo com o livro (Todas as horas e antes) e a Vera Lucia de Oliveira (A Chuva nos Ruídos); Prêmio ABL de Ficção, Romance, Teatro e Conto a Cristóvão Tezza (O Fotógrafo); Prêmio ABL de Literatura Infanto-Juvenil a Rogério Andrade Barbosa (Contos africanos para crianças brasileiras); Prêmio ABL de Tradução a Eduardo Brandão (O Espírito da Filosofia medieval) e Ivo Barroso (Teatro Completo de T.S. Eliot); e o Prêmio ABL de Ensaio, Crítica e História Literária a Mário Chamie, pelo livro A Palavra Escrita.
O Prêmio Senador José Ermírio de Moraes foi entregue a José Nêumanne Pinto, por seu livro O Silêncio do Delator.
O Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de obra, foi outorgado ao escritor Ferreira Gullar.
Foram ainda agraciados com a Medalha Machado de Assis o escritor Ferreira Gullar, e com a Medalha João Ribeiro Senhores Manuel Paulo Nunes, Tarso Genro, Gianni Ratto, Raul de Taunay e a Senhora Bárbara Heliodora.
CONCERTOS
Na sua atividade de Concertos de Literatura e de Música de Câmara, a ABL promoveu os seguintes concertos: Beethoven e Hans Christian Andersen; Robert Schumann e Marcel Proust; Quinteto de sopros da Orquestra Pró-Música; Quarto Centenário de Dom Quixote: Ravel, Poulenc e Franz Schubert; Villa-Lobos e a Música de Câmara.
AGRADECIMENTOS
Toda esta rica jornada não seria possível sem o decisivo apoio a sábias considerações do Plenário, bem como o trabalho de todo o corpo de funcionários da Casa de Machado de Assis, do mais alto escalão ao responsável pelas tarefas mais simples, sem deixar de lado o carinho e o permanente apreço do numeroso público que a ela comparecem para participar das múltiplas atividades que aqui se levaram a efeito. Mas tudo isto está intimamente ligado à figura e ao excelente desempenho e desprendimento do Presidente Acadêmico Ivan Junqueira, que chega ao final do mandato com o sincero agradecimento de todos nós pela maneira com que se houve no impulso do mais mínimo passo que deu nestes dois anos a nossa instituição, atravessando, como é natural numa Casa tão numerosa quanto complexa, momentos de decisões fáceis e difíceis.
Firme sem ser autoritário, justo e compreensivo, mas implacável na defesa e na aplicação dos Estatutos e do Regimento da Academia, o Presidente Ivan Junqueira demonstrou ser o administrador capaz de resolver os problemas da Casa sem ferir os sentimentos de seus pares ou, pelo poder que lhe foi entregue, tratar os funcionários de outra forma senão a da cordialidade e da justiça.
Na ABL o poeta Ivan Junqueira esqueceu-se das musas para entregar-se ao fazer, ao administrar com zelo e eficiência o patrimônio da instituição.
E para defini-lo de corpo inteiro, nenhum texto é melhor do que a carta que lhe foi enviada pelo nosso confrade Alfredo Bosi, que conseguimos subtrair de sua mesa de trabalho:
“São Paulo, 6 de dezembro de 2005
Meu caro Ivan:
No momento em que você está encerrando a sua gestão como Presidente de nossa Casa, sinto-me no grato dever de exprimir minha calorosa admiração pelo modo personalíssimo, ao mesmo tempo firme e generoso, com que você conduziu os trabalhos da instituição.
Só uma idéia (e com esta, um sentimento) cumpre-me externar ao poeta e intelectual da força de Ivan Junqueira ao cumprimentá-lo por mais esta missão tão bem levada a termo: Ivan Junqueira é um homem em quem é possível confiar.”
O abraço afetuoso do Alfredo Bosi