Discurso durante a 5ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal

Considerações sobre a recuperação das estradas brasileiras.

Autor
Alberto Silva (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/PI)
Nome completo: Alberto Tavares Silva
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
POLITICA DE TRANSPORTES.:
  • Considerações sobre a recuperação das estradas brasileiras.
Aparteantes
Mão Santa, Romeu Tuma.
Publicação
Publicação no DSF de 24/01/2006 - Página 1566
Assunto
Outros > POLITICA DE TRANSPORTES.
Indexação
  • REITERAÇÃO, DEBATE, TRANSPORTE RODOVIARIO, BRASIL, DETALHAMENTO, PROJETO, AUTORIA, ORADOR, RECUPERAÇÃO, RODOVIA, ECONOMIA, COMBUSTIVEL, TRANSPORTE DE CARGA.
  • COMENTARIO, MEDIDA DE EMERGENCIA, GOVERNO FEDERAL, RECUPERAÇÃO, RODOVIA, PREVISÃO, INEFICACIA, CURTO PRAZO, DEFESA, RESTAURAÇÃO, RENOVAÇÃO, TOTAL, ASFALTO.

O SR. ALBERTO SILVA (PMDB - PI. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, aproveito a tarde de hoje para trazer à baila, ao conhecimento dos nossos companheiros, algo que me preocupa: as estradas.

Já falei disso tantas vezes aqui que não me tornarei inoportuno se voltar ao tema. Já fiz um estudo sobre as estradas brasileiras e cheguei à conclusão de que, como o Brasil não foi colonizado a partir das ferrovias, como aconteceu nos Estados Unidos, temos uma malha rodoviária muito extensa, com cerca de 80 mil quilômetros, incluindo as estradas federais, estaduais e outras.

O assunto do nosso pronunciamento de hoje são as estradas federais. Há bem mais de cinco anos, apresentei uma proposta ao então Presidente Fernando Henrique. Sua Excelência ficou entusiasmado com a maneira com que eu encarava o problema, mas não foi avante. Nos dois mandatos, esse tema não foi discutido nem foi avante.

Quando entrou o atual Governo, novamente conversei com o Líder Mercadante e cheguei à seguinte conclusão, sobre a qual vou resumir os números, porque o Brasil que está me ouvindo sabe do que estou falando. Há dois milhões de carretas circulando no País, e, na malha federal, são cerca de 57 mil quilômetros. Algumas estradas, principalmente do Sul, foram terceirizadas, recebem o pagamento de pedágio e estão bem. No restante do Brasil, estamos vendo na televisão, nessa operação tapa-buraco.

Ao tempo do Presidente Fernando Henrique, o Ministério dos Transportes falou em tapa-buraco e botou placas no País inteiro: “Ministério dos Transportes - Departamento Nacional de Estradas e Rodagem - Operação Tapa-Buraco”. Foi um deboche nacional. Seguramente, ninguém entende tapa-buraco. Em São Paulo, lembro-me, acho que era Governador o Mário Covas, que disse: “Em São Paulo, não se tapa buraco. São Paulo faz estradas ou, quando tiver que consertar, conserta inteiro”.

Eu fiz esse projeto e o entreguei ao Presidente Lula, se não me engano, anteriormente ao tempo do José Dirceu e, depois, à Ministra Dilma. A minha proposta é a de que se atente para o fato de que o Ministério dos Transportes não tem, nunca teve, nem pode ter - pois não é o órgão para isso - uma estrutura para, de uma vez por todas, resolver o problema de trinta mil quilômetros de estradas destruídas. Mas a proposta que fiz é para, em um prazo relativamente curto, planeje-se a reparação dessas estradas - e, quando digo planejando, temos meios e modos de analisar se o estado das rodovias está bem ou mal -, utilizando equipamento eletrônico. Não precisa ir lá olhar, como estamos assistindo pela televisão diretores, assessores, engenheiros olhando a situação das estradas. A USP, há mais de cinco anos, projetou um carrinho que, andando em cima de uma estrada, diz se a base está bem ou não e diz também se o pavimento está bem ou não. E faz isso a uma velocidade de 40 ou 60km/h. Eu perguntei a eles naquela ocasião, há alguns anos, em quanto tempo poderíamos ter essa informação. Em 90 dias. Existem empresas brasileiras que seriam capazes de definir como estão as estradas e dar a informação em 90 dias. Com a informação na mão, planeja-se o que fazer. Mesmo a história do tapa-buraco: vamos admitir que a aceitemos como uma solução de emergência, para que as carretas não tenham que frear e acelerar a cada buraco. Significa colocar algo em cima do buraco, e aí a carreta passa.

Ora, já começou a operação. Vemos nos jornais que há um prazo de seis meses para se consertarem as rodovias federais que não estiverem terceirizadas; isto é, estarão com a sua plataforma em condições de tráfego - ruim, é evidente, porque cada vez que se tapa um buraco se deixa uma borda. É uma coisa interessante: dependendo de quem esteja fazendo, coloca-se um excesso de asfalto, tapa-se o buraco, mas fica uma pequena borda que provoca uma pancada no pneu. Eu ando em estrada, conheço o assunto e falo de cadeira. Bate. A estrada foi consertada. Aqueles que têm mais cuidado alisam o remendo; outros não, botam o asfalto em cima do buraco, batem um pouco e deixam aquela borda. Mas, em todo caso, a carreta não pára por causa do buraco.

A esta altura, já podemos fazer um pequeno cálculo aritmético. No estudo que fiz, que deixei no gabinete da Ministra Dilma, eu disse que 20 mil quilômetros de estrada poderiam ser inteiramente refeitos, desde que se planejasse o seguinte: 12 mil quilômetros já foram contratados e as empresas estão no campo; mais 8 mil estariam para ser contratados, mas já licitados, dentro da lei e tudo certo. Ora, o que caberia ao governo? Acelerar isso de que maneira? Prevenindo as empresas: aumentem as máquinas rapidamente, porque daqui a um mês, daqui a dois meses, vamos começar a operação de restauração; aprontem as máquinas, porque queremos que, em vez de 120 quilômetros de reparação por mês - porque o dinheiro é curto e os pagamentos também -, façam mil quilômetros por mês. E o empresariado nacional, as máquinas operadoras brasileiras, menos as que foram embora por falta de serviço, mas ainda há máquinas suficientes que poderiam atingir esse número - não estou exagerando - se houver uma determinação, um comando, poderiam acelerar o reparo, mas restauração. O Ministério dos Transportes poderia fazer isso, naturalmente apoiado pelo Palácio.

Mas como opinaram pelo tapa-buracos, vamos aos números que me vêm à mente agora. Vamos admitir que já tenham tapado buracos de 6 mil quilômetros, 6 mil é um terço de 20 mil. Com 20 mil quilômetros arrumados, temos economia de combustível, de diesel. Eu já fiz essas contas e vou repetir. Deu trabalho achar este número: 2 milhões de carretas percorrendo 20 mil quilômetros de estradas esburacadas. Resumindo, fiz o cálculo de quantas freadas, em cada 100 quilômetros, uma carreta de 50 toneladas teria que fazer. A freada desacelera, joga óleo fora; ao acelerar, joga de novo, porque o motor trabalha em plena potência; sai até fumaça preta no cano de descarga. É combustível jogado fora. Fiz aproximações sucessivas e cheguei a um resultado espantoso: 30% do combustível gasto pelas carretas para percorrer 20 mil quilômetros de estradas destruídas equivale, mais ou menos, a 4 bilhões de litros de diesel. Não sei qual é o custo para a Petrobras, mas, admitindo que isso seja equivalente, mais ou menos, ao que se vende na bomba - R$1,40 -, teríamos, para 4 bilhões de litros, 6 bilhões de reais de prejuízo; jogados fora. Se agora já temos 6 mil quilômetros, alisados ou não, sem freadas por causa de buraco, já estamos economizando nos números. E o pior é que ninguém se preocupa com isso. Isso é que é o mais interessante.

Falei aqui que há esse desperdício, e os transportadores confirmam Tenho um amigo que faz transporte de carga entre Rio e Bahia, e ele me disse que está gastando 30% a mais de combustível para fazer a mesma coisa. Ele confirma e vários outros confirmaram também.

Se eu gasto 6 bilhões em 20 mil quilômetros destruídos, em 6 mil quilômetros arrumados, tenho uma economia de um terço. Já estou economizando 2 bilhões. E com 2 bilhões economizados, eu faço a restauração da metade. Mas restauração assim: tira-se o asfalto velho, coloca-se o asfalto novo. Se a base não estiver bem, eu arranco a base e faço novamente. Isso, em uma operação organizada, com tudo determinado, dentro de um planejamento, é factível, absolutamente factível. Então, no momento, nós já temos, pelos meus cálculos, 2 bilhões de economia. Onde está esse dinheiro? Na Petrobras. Não tem dúvida nenhuma. A Petrobras recebe, importa diesel; entrega aos frentistas, pela BR Distribuidora. Os frentistas pagam e vendem. Quem paga o prejuízo mesmo é o povo; em última análise é o povo, porque a Petrobras já ganhou porque vendeu para o frentista. O frentista ganhou porque vendeu para os proprietários de veículos.

Presidente Lula, acorde para esse fato! Mande dar uma olhada se está havendo ou não a economia a que estou me referindo. Se já há 6 mil quilômetros, e as carretas não estão mais freando por causa dos buracos, está havendo uma economia de combustível. Pelos meus cálculos, em 20 mil quilômetros, se economizam 4 milhões de litros, se estiver tudo liso. Como o preço é 6 bilhões, um terço de 6 bilhões são 2 bilhões.

Ouço V. Exª, Senador Romeu Tuma, com muito prazer.

O Sr. Romeu Tuma (PFL - SP) - Senador Alberto Silva, eu estava ouvindo o início do discurso de V. Exª e corri para cá. Sinto até uma dose de emoção - se me permite V. Exª - quando o ouço falar sobre energia e sobre estradas, porque acredito eu que, dentro deste Plenário, não há ninguém que conheça tão profundamente o assunto como V. Exª.

O SR. ALBERTO SILVA (PMDI - PI) - Muito obrigado.

O Sr. Romeu Tuma (PFL - SP) - Desde o início da operação tapa-buraco eu, na minha ignorância, achei que seria uma coisa muito negativa para um futuro muito próximo, porque o Ministro disse que não duraria um ano. Então, era um processo, sob o ponto de vista do Ministro, eleitoral. Sou muito urbano e vou pouco para a estrada, mas acompanhei bem de perto quando fui Presidente da CPI do Roubo de Cargas. Vi o desespero dos transportadores com os buracos, principalmente pela facilidade que os bandidos encontram quando o motorista tem de diminuir a marcha, o que lhes facilita a ação. Então, não são apenas os 30% a que V. Exª referiu. Há mais um tanto referente ao roubo de carga, e o seguro que se tem de pagar é altíssimo...

O SR. ALBERTO SILVA (PMDI - PI) - E ainda temos o frete.

            O Sr. Romeu Tuma (PFL - SP) - Fora o frete, que aumenta. E é a população que paga. V. Exª tem razão. As estradas e rodovias são as veias por onde circula a economia do País; não há outras. Acabaram com os trens, a navegação é limitada; com isso só restaram as estradas. Eu vi empresários de transportes dizendo que quando construíram as estradas brasileiras os caminhões tinham dois ou quatro eixos; hoje, têm seis, oito, dez até quinze eixos. A tonelagem é muito maior. Tapa-se o buraco; uma freada em cima, e toda aquela camada será arrancada. Vejo isso na cidade. Em São Paulo, outro dia, passei por uma rua onde havia um buraco que foi tapado. Uma semana depois, passei pelo mesmo local, e estava sem o pneu. Comprovando o que V. Exª falou: bateu porque estava desgastada a borda do buraco, e facilmente ele se abriria. O interessante é que ele se abre em um espaço maior do que era antes. Pedi que o Ministro fosse convidado - espero que o convite seja aprovado amanhã - a comparecer à Comissão de Assuntos Econômico para explicar por que, com a verba que tinha, não promoveu a recuperação de determinadas estradas e por que não fez a recuperação escalonadamente. Eu me baseio em vários discursos que V. Exª fez aqui. Quando falei eu citei V. Exª mais uma vez, porque não tenho a base que V. Exª tem. Estou sensibilizado por ter chegado a tempo de ouvi-lo nessa tribuna. Quero cumprimentá-lo e também fazer um apelo para que o Presidente registre o discurso de V. Exª e que a Ministra Dilma Rousseff, que me parece ser uma pessoa de bem, analise as propostas de V. Exª. Provavelmente, o prejuízo será bem menor para o País, para a sociedade por inteiro. Há três anos não há conservação das estradas. De repente, o Ministro disse que ia recuperá-las porque é emergencial. Como pode ser emergencial se as empresas estavam contratadas, sem licitação, e entraram em ação no dia seguinte? Tem uma logística, não tem? V. Exª, que conhece isso mais do eu, sabe que para tudo é preciso haver uma logística. Vi os operários em cima do caminhão, jogando piche e pedra no buraco. Pelo amor de Deus, como é que se vai recuperar as estradas trabalhando desse jeito? Não entendo, mas não precisa ser um conhecedor do assunto, como V. Exª, para sentir que aquilo vai trazer rapidamente, sem dúvida nenhuma, uma angústia para o usuário das estradas. Desculpe-me incomodá-lo, mas é que a angústia estava me doendo e sou um entusiasta de V. Exª nessa área.

O SR. ALBERTO SILVA (PMDB - PI) - Muito obrigado, Senador Romeu Tuma. Fico sensibilizado com o aparte de V. Exª, principalmente porque sei qual é o seu pensamento, pois temos conversado, várias vezes, sobre isso. Essa é a realidade. Isso é Brasil.

Quando falo aqui, eu o faço tentando o melhor: consertar. Não sou daqueles que ficam malhando. Vamos encontrar uma solução. Se o Ministro tem dificuldade, vamos ver quais são elas. É preciso ter uma logística - V. Exª usou o termo correto, a palavra é essa mesma - do encaminhamento da solução...

(Interrupção do som.)

O Sr. Mão Santa (PMDB - PI) - Senador Alberto Silva.

O SR. ALBERTO SILVA (PMDB - PI) - Senador Mão Santa, com maior prazer, ouço V. Exª.

O Sr. Mão Santa (PMDB - PI) - Senador Alberto Silva, eu me entusiasmo quando V. Exª se apresenta e diz: eu sou um engenheiro político. Atentai bem, Demóstenes Torres! V. Exª é um jurista político, Alberto Silva é um engenheiro...

O Sr. Romeu Tuma (PFL - SP) - Hoje é aniversário dele.

O Sr. Mão Santa (PMDB - PI) - Hoje é o aniversário do Demóstenes. Este Demóstenes é tão extraordinário que essa festa não é só dele, da mulher, dos filhos, da família, de Goiás; é de todo o Brasil, pelo que representa. Mas, Senador Alberto Silva, Franklin Delano Roosevelt dizia que quando via uma pessoa superior a ele em determinado assunto, procurava aprender naquele particular. V. Exª é um engenheiro político igual a Aureliano Chaves, que é da sua Faculdade de Itajubá, igual a Mário Andreazza. Sou testemunha...

(Interrupção do som.)

O Sr. Mão Santa (PMDB - PI) - ... de que, nos primeiros dias deste mandato, V. Exª advertiu o Governo. Sabendo política também, Pedro II escreveu a sua filha Isabel numa das poucas viagens que fez - só fez três: “Isabel, minha filha, o maior bem que você pode dar de presente a um povo é uma estrada”. Washington Luiz dizia: “Governar é fazer estrada”. Juscelino: “Energia e transporte”. V. Exª, com o saber de engenheiro e de político, advertiu o Governo e disse que quando houve o apagão, foi criada uma câmara para combatê-lo, a qual Pedro Parente tão bem administrou. V. Exª advertiu e não foi ouvido. Não tiveram a humildade de ouvir V. Exª. Não aprenderam com Franklin Delano Roosevelt. V. Exª é superior em engenharia. Ó, Demóstenes, num comício no Piauí, ouvi o povo dizer: “Olha o rei das estradas!” Foi esse Alberto Silva que advertiu. Se ele tivesse sido ouvido, não estaríamos presenciando as operações tapa-buracos, debochadas nos jornais. Hoje, li que essas obras estão saindo quatro vezes mais caras do que se tivessem sido planejadas. Este Congresso, ouvindo o povo brasileiro, elegeu-o Conselheiro da República. Antes disso, V. Exª devia ter sido o grande conselheiro, como engenheiro político deste País.

O SR. ALBERTO SILVA (PMDB - PI) - Muito obrigado, Senador Mão Santa.

Sr. Presidente, concluo, agradecendo aos nobres companheiros os apartes. Voltaremos a esse assunto oportunamente.

Muito obrigado.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 24/01/2006 - Página 1566