Discurso durante a 6ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Críticas ao acordo entre o Governo e o Laboratório americano Abbott, que trata do preço de remédio anti-aids, conforme reportagem da revista Veja intitulada "Um Acordo sem Pé nem Cabeça".

Autor
Papaléo Paes (PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira/AP)
Nome completo: João Bosco Papaléo Paes
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
SAUDE. GOVERNO FEDERAL, ATUAÇÃO.:
  • Críticas ao acordo entre o Governo e o Laboratório americano Abbott, que trata do preço de remédio anti-aids, conforme reportagem da revista Veja intitulada "Um Acordo sem Pé nem Cabeça".
Aparteantes
Mão Santa.
Publicação
Publicação no DSF de 25/01/2006 - Página 1693
Assunto
Outros > SAUDE. GOVERNO FEDERAL, ATUAÇÃO.
Indexação
  • COMENTARIO, TRANSCRIÇÃO, ANAIS DO SENADO, ARTIGO DE IMPRENSA, PERIODICO, VEJA, ESTADO DE SÃO PAULO (SP), DENUNCIA, IRREGULARIDADE, ACORDO, MINISTERIO DA SAUDE (MS), LABORATORIO FARMACEUTICO, EMPRESA MULTINACIONAL, PRETENSÃO, REDUÇÃO, PREÇO, MEDICAMENTOS, TRATAMENTO, SINDROME DE IMUNODEFICIENCIA ADQUIRIDA (AIDS), PREJUIZO, TESOURO NACIONAL.
  • COMENTARIO, DECISÃO, LABORATORIO FARMACEUTICO, DOAÇÃO, MEDICAMENTOS, MINISTERIO DA SAUDE (MS), OBJETIVO, OBTENÇÃO, GOVERNO BRASILEIRO, ADIAMENTO, CANCELAMENTO, PATENTE DE REGISTRO, PRODUTO FARMACEUTICO, COMBATE, SINDROME DE IMUNODEFICIENCIA ADQUIRIDA (AIDS).
  • CONTESTAÇÃO, ALEGAÇÕES, GOVERNO BRASILEIRO, JUSTIFICAÇÃO, ACORDO, COMENTARIO, DADOS, ESTIMATIVA, IMPOSSIBILIDADE, MINISTERIO DA SAUDE (MS), MANUTENÇÃO, PREÇO, MEDICAMENTOS, TRATAMENTO, SINDROME DE IMUNODEFICIENCIA ADQUIRIDA (AIDS), FUTURO.
  • NECESSIDADE, TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO (TCU), CONGRESSO NACIONAL, SOCIEDADE, AVALIAÇÃO, REGULARIDADE, ATUAÇÃO, LUIZ INACIO LULA DA SILVA, PRESIDENTE DA REPUBLICA, MOTIVO, INCOMPETENCIA, NEGLIGENCIA, INTERESSE PUBLICO, MALVERSAÇÃO, FUNDOS PUBLICOS.

O SR. PAPALÉO PAES (PSDB - AP. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Muito obrigado, Sr. Presidente.

Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, a fotomontagem que ilustra a matéria “Um Acordo sem Pé nem Cabeça”, da revista Veja de 11 de janeiro, relatando acordo entre o Ministério da Saúde e o laboratório Abbott, evidencia mais uma vez a lógica que rege as ações do Governo Lula: o uso irresponsável dos recursos públicos. Recursos, como todos bem sabemos, extraídos à força, por uma compulsão inclemente de imposição tributária, do bolso depauperado do contribuinte brasileiro.

Depois de três anos, não chega a ser surpresa a maneira impudica como o Governo do PT, o dito Partido dos Trabalhadores, que introduziu no Brasil o conceito e a ação planificada do assalto ao Estado, trata os cofres públicos. Contudo, como detentor de mandato popular de Senador da República e profissional experimentado na área da saúde, é meu dever verberar à Nação mais essa impudência do esquema que tenta se adonar do patrimônio comum, e desgraça o País.

Segundo relato do mais influente semanário nacional, no último mês de outubro, o Ministro Saraiva Felipe, da Saúde, concedeu o caráter de histórico a um acordo assinado com o laboratório Abbott, cujo propósito seria reduzir o preço de um dos medicamentos do coquetel anti-Aids. Na iminência de ver uma de suas patentes quebrada, o laboratório farmacêutico norte-americano reduziu de US$1.17 para US$0.63 o custo de cada cápsula do Kaletra, droga que dificulta a replicação do vírus HIV no organismo humano.

Ademais, continua a revista, o laboratório comprometeu-se a doar, exclusivamente no ano de 2006, US$3 milhões em medicamentos de todo tipo ao Ministério da Saúde. E, agora vem o pulo do gato, como contrapartida, o Governo garantiu não quebrar a patente do Kaletra até 2011 e não alterar unilateralmente, nos próximos cinco anos, qualquer item do contrato.

A iniciativa seria meritória se não tivéssemos como ponderáveis as aceleradas mudanças que ocorrem no universo dos fármacos, com novas drogas sendo introduzidas cotidianamente e a conseqüente e previsível redução de preço das antigas. Não fosse esse o cenário que se confirma com britânica regularidade em todo o planeta, os rudimentos de álgebra utilizados por Saraiva Felipe - que estima poupar US$339,5 milhões com a decisão - teriam sentido para a economia do País. Mas, positivamente, não é esse o caso.

A obtusidade da decisão é reconhecida, segundo Veja, pela direção do programa anti-Aids do próprio Governo, pelos laboratórios concorrentes e pelas organizações não-governamentais especializadas em saúde, que teriam criticado fortemente os termos da negociação. Conforme a publicação, refeitas as contas, o Governo teria entregue “os anéis e os dedos”. É que o Ministério da Saúde projeta para o futuro a manutenção do preço do Kaletra.

Como poderá atestar qualquer calouro do curso de Farmácia, o preço dos medicamentos é reduzido, em termos reais, no horizonte de cinco ou seis anos, em percentuais que alcançam até 70%. Assim, estima-se que a cápsula do medicamento chegue, nos próximos três anos, a US$0.50, quando o Brasil, por decisão de seu Governo, continuará pagando US$0.63. Se essa reiterada tendência do mercado fosse pouca, verifique-se o preço praticado em outros países. Tome-se, então, o insuspeito testemunho de Pedro Chequer, Diretor do Programa Nacional DST/Aids, do Ministério da Saúde. De acordo com o funcionário, o preço praticado no Brasil é altíssimo, pois é sabido que o laboratório Abbott já vende o Kaletra a US$0.23 em outros países - lembrem que o Governo brasileiro pagará US$0.63. Aí, estamos diante de uma diferença, contra o Brasil, de US$0.40 por cápsula do Kaletra.

Quando se fala nesse acordo, Sr. Presidente, francamente lesivo ao interesse brasileiro, não é possível sequer ressuscitar o expediente, recorrente na gestão do Governo Lula da Silva, da chamada herança maldita. Esse acordo perdulário foi totalmente gestado e firmado no Governo atual.

Ressalte-se, também, que Governos anteriores, como salienta Veja, fixavam prazos bem mais curtos, em acordos dessa natureza, de até um ano, e não cinco, como concedeu o Ministério da Saúde de Lula. As explicações produzidas pela assessoria do Ministério da Saúde são absolutamente pueris. Os argumentos são incapazes de convencer mesmo o mais crédulo dos mortais.

Na tentativa de atenuar mais esse gesto de desperdício de dinheiro público, o Ministério da Saúde aponta como vantajosa a cláusula do acordo que prevê, já no corrente ano, a obsolescência do Kaletra. Explico: no caso de um medicamento tornar-se superado, o Governo pagará US$1.04, até 2011, para cada cápsula de uma nova versão do Kaletra, eventualmente mera maquiagem, denominada Meltrex. Ou seja: o Kaletra já é vendido em outros países por US$0.23. O Brasil fez um acordo de longa duração que manterá o pagamento de US$0.63 pelo Kaletra. No entanto, hoje, há uma tendência de se retirar o Kaletra do mercado e o substituir por um outro remédio, denominado Meltrex. Ou seja, trata-se do próprio Kaletra maquiado, apenas para ter o seu preço elevado de US$0.63 para US$1.04.

Contudo, como registra a reportagem da Veja, essa nova droga ainda terá de passar pelo crivo da vigilância sanitária brasileira. Em outras palavras, esmiúçam os repórteres Márcio Aith e Chrystiane Silva: “o Governo se comprometeu a pagar mais por um medicamento que ainda não existe no mercado brasileiro e que poderá ter concorrentes mais eficientes - e baratos”.

Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, as ações, todas as ações do Governo Luiz Inácio Lula da Silva, tornaram-se suspeitas e, sobretudo, por isso devem ser objeto de permanente e detido escrutínio do Parlamento, do Tribunal de Contas da União, do Ministério Público, dos meios de comunicação - aliados incontestes do interesse público -, além da própria sociedade organizada. O improviso e a incompetência, o descaso e a ladroagem não podem ser banalizados e admitidos como rotina na Administração Pública. É preciso estancar com urgência a gestão temerária, a incúria e a apropriação indevida dos recursos públicos. O Brasil e os brasileiros merecem respeito por parte do Governo e de seus funcionários mais graduados.

Concedo um aparte ao Senador Mão Santa.

O Sr. Mão Santa (PMDB - PI) - Senador Papaléo Paes, V. Exª chegou a esta Casa pela grandeza com que atuou na sua profissão, fazendo da Ciência médica a mais humana das Ciências. Como médico, V. Exª é um grande benfeitor da Humanidade. Resumindo: V. Exª chama a atenção do País para aquilo que Henri Fayol, há muito tempo, ensinou: administrar. O Governo tem de aprender. Segundo ele, administrar, em uma seqüência é planejar, ensinar, orientar, coordenar e fazer o controle, o qual permite a moralização e o respeito com a coisa pública. Dá certo, Presidente Lula! Vossa Excelência se comparou a Juscelino. Mas Juscelino foi um médico-cirurgião, e um médico-cirurgião tem, como vocação profissional e formação, esses princípios administrativos: o pré-operatório, que é o planejamento; o transoperatório é a obra, a realização, é Brasília, é a indústria automobilística, a aérea, é a Sudene; e o pós-operatório é o controle. Lula não tem a mínima formação de estadista e de médico-cirurgião como Juscelino, que foi o grande operador do desenvolvimento e do otimismo neste País.

O SR. PAPALÉO PAES (PSDB - AP) - Muito obrigado, Senador Mão Santa.

Sr. Presidente, peço mais um minuto para concluir o meu pronunciamento. Desde já, agradeço a V. Exª.

Estou certo de que o Congresso Nacional brasileiro, no exercício de suas funções constitucionais, continuará dando o devido combate aos atos e fatos que hoje inflamam e revoltam a cidadania, inconformada com o descalabro administrativo que emana do Palácio do Planalto e da Esplanada dos Ministérios.

Concedido o humanitário benefício da dúvida de que inexista algum objetivo escuso a orientá-lo, o acordo entre o Ministério da Saúde e o laboratório Abbott é, no mínimo, um erro, taludo e pernicioso. Por isso mesmo, mais do que explicações oficiais sofísticas que insultam o senso comum, esse negócio reclama imediata correção.

Muito obrigado.

 


Este texto não substitui o publicado no DSF de 25/01/2006 - Página 1693