Pronunciamento de Mão Santa em 25/01/2006
Discurso durante a 7ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal
Questionamentos e críticas com relação à política social do governo do Presidente Lula
- Autor
- Mão Santa (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/PI)
- Nome completo: Francisco de Assis de Moraes Souza
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
PRESIDENTE DA REPUBLICA, ATUAÇÃO.
POLITICA SOCIAL.:
- Questionamentos e críticas com relação à política social do governo do Presidente Lula
- Aparteantes
- Eduardo Suplicy, Jefferson Peres, José Jorge.
- Publicação
- Publicação no DSF de 26/01/2006 - Página 1870
- Assunto
- Outros > PRESIDENTE DA REPUBLICA, ATUAÇÃO. POLITICA SOCIAL.
- Indexação
-
- ELOGIO, DIGNIDADE, PRESIDENTE DE REPUBLICA ESTRANGEIRA, PAIS ESTRANGEIRO, CHILE, COMPARAÇÃO, CRITICA, PRESIDENTE DA REPUBLICA, ESPECIFICAÇÃO, MANIPULAÇÃO, OPINIÃO PUBLICA, ESTADO DO PIAUI (PI), PROGRAMA, COMBATE, FOME, INSUCESSO, POLITICA SOCIAL.
- REPUDIO, GASTOS PUBLICOS, BUROCRACIA, ADMINISTRAÇÃO FEDERAL, COMPARAÇÃO, INFERIORIDADE, INVESTIMENTO, POLITICA SOCIAL.
O SR. MÃO SANTA (PMDB - PI. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Senador Tião Viana, Senadoras, Senadores, brasileiras e brasileiros aqui presentes que nos assistem pelo sistema de comunicação do Senado.
Senador Antonio Carlos Magalhães, Bachelet Presidente. Atentai bem: essa mulher chegou à Presidência. Eu aprendi do meu consultor, Senador Jefferson Péres, que sabe tudo: essa mulher, que foi presa, exilada e torturada, hoje governa o Chile. Quando voltou, quiseram lhe dar uma pensão, mas ela, com a dignidade, a coragem e a bravura da mulher, recusou-a e foi trabalhar. Foi Ministra do Presidente Lagos e venceu as eleições.
O nosso Lula Paz e Amor trabalhou muito pouco. Eu, que sou médico, cirurgião de urgência, sei que ele perdeu um dedo em acidente de trabalho, Senador Antero Paes de Barros, e se aposentou logo. Dizem que ele esteve por uns dias - não chegou a um mês - no período revolucionário e tem uma pensão. Ela recusou - seis anos exilada, presa e torturada -, ô, mulher de vergonha! Ah, se pudéssemos trocar essa mulher pelo Lula!
Eu não entendo a política social do PT, Senador Jefferson Peres; eu não a entendo. Sei que no começo do nosso Governo foi um homem do Fome Zero - atentai bem, Heráclito - lá à Serra das Confusões, Guariba, terra de povo decente e trabalhador. Veja o nome: Serra das Confusões, Guariba - sei das dificuldades da região porque governei o Estado. Povo humilde, trabalhador, da serra, do cristalino, onde há dificuldade de água - é o Semi-árido, o cristalino do Nordeste.
O Sr. José Jorge (PFL - PE) - Permite-me V. Exª um aparte?
O SR. MÃO SANTA (PMDB - PI) - Atentai bem: levaram esse Fome Zero para Guariba.
Senador Antonio Carlos Magalhães, Rui Barbosa ganhou no Piauí, pode ver os mapas eleitorais, por isso é que tenho orgulho de ser piauiense. A propósito, comemoramos ontem, 24 de janeiro, o dia em que tomamos o Palácio dos Portugueses em Oeiras.
Escolheram Guariba. Fomos propaganda nacional desse Governo do Fome Zero, Senador Heráclito Fortes, e o pior é que ele não nos pagou cachê! Utilizou Guariba e o Piauí para fazer propaganda do Fome zero, mas o povo do Piauí deu seu primeiro ensinamento.
Aqui eu bati naquela primeira reforma desastrosa que tirou o benefício, o direito adquirido dos velhinhos, dos aposentados, dos professores. Há três coisas que a gente só faz uma vez na vida, Antonio Carlos Magalhães: nascer, morrer e votar no PT.
E o povo de Guariba ouviu a humilhação, a propaganda. O Goebbels-Mendonça, o Holocausto, tudo tem o mesmo sentido. O Holocausto aconteceu por causa de Goebbels - “Repita uma mentira mil vezes, e ela se tornará uma verdade”. Aqui, é o Duda Mendonça. Aliás, foi mais forte, mais rico e mais poderoso o império da mentira no Brasil. Pois lá no Piauí nós demos a primeira lapada: Guariba derrotou o PT. Senador Antonio Carlos Magalhães, no Piauí lá de Guariba, o PMDB ganhou do PT.
Como o povo de Guariba, eu não entendo essa política social. Atentai bem: Lula e a política social. Senador Jefferson Péres, vamos raciocinar. A política social do Presidente Lula é um mistério para todos nós. Eu, durante esses três anos e 25 dias em que aqui estamos, não havia conseguido encontrar nenhuma lógica na política social federal, mas agora eu a entendi. Senador Leonel Pavan, atentai bem. Senador Arthur Virgílio, o Governo Lula gastou, no triênio 2003-2004-2005, R$282 milhões somente com xerox e fotocópia. Atentai bem, Senador José Jorge: R$282 milhões divididos por três - V. Exª é matemático e professor -, o que dá 94 milhões por ano. Para efeito de comparação, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, responsável pelos principais programas sociais do Governo Federal, investiu R$87,4 milhões em 2005. Nos Ministérios, o Governo Lula gasta, em xerox e fotocópia, muito mais do que gasta no problema social que pretende combater, a fome. Essa é a verdade. Atentai bem: R$94 milhões por ano em xerox e fotocópias. Daí se conclui que o Governo Lula está gastando mais com fotocópia do que com o social. Que tristeza, Presidente!
A política social do Lula se faz de maneira indireta e aí é que está o segredo. Atentai bem, José Jorge!
Quem está ganhando com isso são os catadores de lixo do Distrito Federal. Ah, bom... Agora entendi, essa é a fórmula de o governo petista investir no social. Segundo o presidente da Cooperativa de Reciclagem Trabalho e Produção (Cortrap), Jamilson Andrade, “a Esplanada dos Ministérios acaba sendo um dos locais mais lucrativos para os catadores de lixo”. Isso é o que se chama de transferência de renda: o governo desperdiça em xerox e os catadores de lixo se apropriam desse benefício. Deve ser esse o modelo petista de governar...
O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - V. Exª me permite um aparte?
O SR. MÃO SANTA (PMDB - PI) - Deve ser esse o modelo petista de governar.
O Sr. José Jorge (PFL - PE) - V. Exª me permite um aparte?
O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - V. Exª me permite um aparte?
O SR. MÃO SANTA (PMDB - PI) - Primeiro ao engenheiro José Jorge, que nos salvou do apagão. Agora quero que ele dê uma explicação para essa confusão de gastar mais em xerox e fotocópia do que em comida - a demagogia do Fome Zero reprovada em Guariba, Piauí.
O Sr. José Jorge (PFL - PE) - Sr. Senador Mão Santa, V. Exª tem razão. Na verdade, esse Governo...
(Interrupção no som.)
O SR. PRESIDENTE (Tião Viana. Bloco/PT - AC) - Peço aos aparteantes que tenham a justa objetividade em razão de o tempo do orador estar esgotado.
Senador José Jorge, V. Exª tem a palavra.
O SR. MÃO SANTA (PMDB - PI) - José Jorge está de gravata vermelha?
O Sr. José Jorge (PFL - PE) - É, isso é em homenagem ao Presidente Tião Viana! Senador Mão Santa, gostaria de lhe dizer que concordo com V. Exª nessa observação que faz: o aumento de despesas correntes desse governo é descontrolado, e não só em xerox, mas em salários, no aumento do número de cargos em comissão etc. Gostaria de aproveitar o discurso de V. Exª, já que V. Exª está falando sobre o Presidente Lula, para estranhar um discurso feito hoje aqui pela Senadora Ideli Salvatti, no qual lançou uma série de impropérios sobre o Relator da CPI dos Correios, o Deputado Osmar Serraglio, só porque ele disse que iria citar o Presidente Lula em seu relatório. Se o Presidente Lula nada sabe sobre o que aconteceu em seu governo, ele deve ser citado por não saber, nem que seja por isso. É pouco, mas ele tem de ser citado. A Senadora veio aqui e disse uma série de coisas. Como o Deputado não pode aqui se defender, gostaria de prestar a nossa solidariedade ao trabalho competente e responsável que S. Exª vem realizando. Muito obrigado.
O SR. MÃO SANTA (PMDB - PI) - Senador José Jorge, agradeço e incorporo o aparte de V. Exª. E lembraria Sócrates, que diz que só há um grande bem, o saber; e que só há um grande mal, a ignorância. É a do Lula. Ele ignora tudo. Não sabe nada. Não sabe nada!
Concedo o aparte ao Senador Eduardo Suplicy, para acabar esse suplício da fome no Brasil. Depois, concederei um aparte ao Senador Jefferson Péres.
O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - Senador Mão Santa, vou-me ater, sobretudo, às observações que V. Exª fez relativamente ao programa Fome Zero. Pode até haver exageros em gastos com certa burocracia, com xerox e outros, mas os números que V. Exª mencionou, mesmo que somem a casa de poucos mais de R$90 milhões, não se comparam efetivamente aos R$6,5 bilhões gastos durante 2005 e aos cerca de R$9 bilhões, de R$10 bilhões, que serão gastos este ano no programa Bolsa-Família. Vou mudar de microfone, porque é importante falar olhando nos olhos da pessoa com que se fala, se me permite V. Exª. Senador Mão Santa, sou testemunha de como se iniciou o Programa Fome Zero em Guaribas e em Acauã e também de como ele foi gradualmente aperfeiçoado com a unificação dos quatro programas: o Cartão-Alimentação, o Bolsa-Alimentação, o Bolsa-Escola e o Auxílio-Gás. No programa Bolsa-Família, neste último ano, 11,2 milhões de famílias serão atingidas, o que corresponde a 45 milhões de pessoas, o que representa um quarto dos 185 milhões de brasileiros que somos hoje. Esses dados do IBGE, do PNAD 2004, mostram que houve um avanço significativo do ponto de vista da erradicação da pobreza e da melhoria da eqüidade social. Quero, pelo menos, citar esses dados, que são objetivos, reconhecidos pela Fundação IBGE e por especialistas como Marcelo Neri, Ricardo Paes de Barros e José Alexandre Scheinkman, para citar alguns dos economistas que analisaram esses dados, reconhecendo ter havido progresso, o que constitui algo resultante não apenas do empenho do Governo Lula, mas uma evolução de algo iniciado no Governo Fernando Henrique Cardoso. Há de se reconhecer que ali se iniciaram as experiências do Bolsa-Escola e do Bolsa-Família, mas que estas foram aperfeiçoadas. No futuro, continuarão sendo aperfeiçoadas, com a instituição gradual, por etapas - porque não se poderia fazê-lo de um dia para o outro -, da renda básica de cidadania, sobre a qual já pude dialogar com V. Exª. Pode ter a certeza de que vamos avançar, inclusive com um esforço mútuo. Se V. Exª, que agora é candidato ao Governo do Estado do Piauí, ou quem for eleito quiser exemplarmente instituir no Piauí a renda básica de cidadania, disponho-me a ajudar nessa tarefa. Obrigado.
O SR. MÃO SANTA (PMDB - PI) - V. Exª é um homem de grandes virtudes, mas não precisamos buscar nem economistas nem técnicos de planejamento. Senador Eduardo Suplicy, basta buscar a aritmética de Trajano! A primeira aritmética elementar desse programa do PT, que V. Exª citou, foi uma somação dos programas do Governo passado: do Bolsa-Família, do Bolsa-Gás, do Bolsa-Transporte.
Eu continuaria com aquela minha tese oriunda do próprio Deus, quando disse: “Comerás o pão com o suor do teu rosto!”.
O SR. PRESIDENTE (Tião Viana. Bloco/PT - AC) - Peço a V. Exª que conclua seu pronunciamento em um minuto, Senador Mão Santa!
O SR. MÃO SANTA (PMDB - PI) - Deus diria a Lula e a todos os governantes que o mais importante é o trabalho. É como Rui Barbosa disse: “O trabalho é que tem de ter a primazia, o trabalho e o trabalhador!”. Ele é que vem antes, ele é que faz a riqueza, ele é que faz a dignidade. No Ceará, há uma música de Fagner que diz assim:
Um homem se humilha
Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E a vida é trabalho
E sem o seu trabalho
Um homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata
É isso o que falta no Brasil, o trabalho, que o Partido de V. Exª, o Partido dos Trabalhadores, roubou, para chegar ao poder.
O Sr. Jefferson Péres (PDT - AM) - Senador Mão Santa, V. Exª me concede um aparte?
O SR. MÃO SANTA (PMDB - PI) - Concedo o aparte ao Senador Jefferson Péres, com a permissão do extraordinário Sr. Presidente Tião Viana.
O SR. PRESIDENTE (Tião Viana. Bloco/PT - AC) - A Mesa vai permitir que V. Exª conceda o aparte ao Senador Jefferson Péres, na condição de este encerrar o pronunciamento do Senador Mão Santa.
O SR. MÃO SANTA (PMDB - PI) - E que eu possa lhe dar nota 10!
O SR. PRESIDENTE (Tião Viana. Bloco/PT - AC) - Agradeço a V. Exª.
Tem a palavra o Senador Jefferson Péres.
O Sr. Jefferson Péres (PDT - AM) - Senador Mão Santa, prefiro reportar-me ao início do seu discurso, quando V. Exª fez aquela comparação desprimorosa para o Presidente Lula, fez a comparação entre o gesto dele - Lula - e o da Presidente eleita do Chile, Michelle Bachelet. Como V. Exª bem disse, a Srª Bachelet, durante a ditadura militar, foi presa, torturada, cruelmente torturada, a ponto de ela nem revelar os detalhes da tortura que sofreu. Ela foi exilada, passou seis anos fora do Chile. Ao retornar, o Governo lhe ofereceu, já na democratização, uma pensão, que ela recusou. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi detido por 30 dias, não sofreu maus-tratos físicos, não foi exilado, recebia o salário do PT, como Presidente, e aceitou uma pensão, salvo engano, hoje, de R$3,9 mil. Olha, um gesto vale mais do que mil palavras. Tiro o meu chapéu, reverencio a Presidente do Chile e lamento que o Presidente Lula da Silva não tenha feito o mesmo.
O SR. MÃO SANTA (PMDB - PI) - Solicito sejam incorporadas as palavras do Senador Jefferson Péres ao meu pronunciamento.
No momento em que Lula recebe essa pensãozinha, porque passou vinte dias ali, depois de tumultuar o País, que ele se lembre de que o salário mínimo é só de R$300,00 e de que ele ganha mensalmente essa que é uma grande bolsa do PT!
Agradeço a generosidade do Senador Tião Viana.