Discurso durante a 61ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Homenagem a Octavio Frias de Oliveira, recentemente falecido, e o que o mesmo representou na vida brasileira.

Autor
José Sarney (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/AP)
Nome completo: José Sarney
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
HOMENAGEM.:
  • Homenagem a Octavio Frias de Oliveira, recentemente falecido, e o que o mesmo representou na vida brasileira.
Aparteantes
Edison Lobão, Eduardo Suplicy.
Publicação
Publicação no DSF de 03/05/2007 - Página 12242
Assunto
Outros > HOMENAGEM.
Indexação
  • HOMENAGEM POSTUMA, OCTAVIO FRIAS DE OLIVEIRA, JORNALISTA, EMPRESARIO, JORNAL, FOLHA DE S.PAULO, ESTADO DE SÃO PAULO (SP), ELOGIO, VIDA PUBLICA, CONTRIBUIÇÃO, IMPRENSA, DEMOCRACIA, BRASIL, REGISTRO, INCORPORAÇÃO, TECNOLOGIA, INFORMATICA, TELECOMUNICAÇÃO.

            O SR. JOSÉ SARNEY (PMDB - AP. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs Senadores, eu também, por dever de consciência e, mais do que isso, por uma necessidade moral, desejo dar uma palavra neste momento em que ouço alguns colegas tratarem do falecimento de Octavio Frias e sobre o que ele representou na vida brasileira.

            O Senador Romeu Tuma referiu-se a uma fotografia na qual estavam personalidades das mais diferentes convicções. Eu diria que, se estivesse aqui no Brasil, estaria naquela fotografia. Infelizmente, eu me encontrava nos Estados Unidos, participando da Conferência das Nações Unidas dedicada ao clima e ao meio ambiente, e não pude, de maneira alguma, prestar a minha homenagem, talvez a minha despedida, a Octavio Frias de Oliveira.

            Confesso a V. Exªs que, quando fui avisado da morte de Octavio Frias, às seis horas da tarde - no Brasil, uma hora a mais, às 7 horas -, tentei embarcar num dos vôos noturnos, de modo a chegar na manhã de segunda-feira para assistir ao sepultamento dele. Houve uma profunda comoção, como uma tristeza que invade o domingo das grandes cidades, que é povoado de imensa solidão, pois as pessoas somem das ruas e a vida parece desaparecer. Foi em meio à solidão desse domingo que nessa noite recebi a notícia do falecimento de Octavio Frias.

            Por um motivo muito pessoal, há mais de quarenta anos tive a honra, a felicidade, de privar da amizade de Octavio Frias e de com ele estabelecer uma relação na qual havia divergências que não discutíamos e posições que não analisávamos, para manter o que há de mais profundo no ser humano: o prazer da convivência e o gosto da amizade.

            Nesses quarenta anos, com o fenômeno atual da comunicação em tempo real, há como que uma compressão do tempo. O tempo vai sendo comprimido, de tal maneira que não toma aquela elasticidade, aquela visão ampla que tínhamos do passado. Isso fez com que eu e Otávio Frias, que era de uma geração à frente da minha, nos tornássemos quase contemporâneos da mesma geração, chegando mesmo a ter a impressão de que éramos contemporâneos de infância, de juventude e até mesmo de velhice. Tínhamos sido testemunhas privilegiadas de todos os fatos da História do Brasil dos últimos 50 anos.

            Octavio Frias era um homem marcado profundamente por uma palavra na qual escondia todas as suas virtudes. Ressaltem-se a simplicidade e a austeridade com que ele soube consumir todos os seus dias. Era um homem totalmente despojado, de uma austeridade pessoal que se podia verificar no seu gabinete, no seu modo de vestir, no seu modo de falar. Nunca ele, que era dono de um império de comunicação, colocou um pedaço desse império a serviço da vaidade pessoal. Nunca alguém o viu colocar a Folha de S.Paulo ou seus órgãos de comunicação e de mídia, em nenhum momento, a serviço da sua vaidade pessoal, das suas virtudes, que eram muitas - e era necessário que fossem conhecidas, mas ele não utilizou para que elas fossem conhecidas ou divulgadas no Brasil inteiro.

            Ele tinha uma convicção, que era muito dele, do que era o jornal; e essa convicção, por mais longa que pareça a distância, era a mesma de Thomas Jefferson. Quando Jefferson colocou a emenda dando imunidade - pode-se dizer imunidade, liberdade de comunicação -, ele o fez porque, quando se criou o Congresso, o Congresso tinha de ser livre, os Deputados tinham de ter imunidade, porque eles tinham de falar contra os reis, tinham de falar contra os presidentes, que tinham o poder absoluto. E eles, então, precisavam não ser presos, precisavam não ser processados, precisavam não receber essa pressão, pois era impossível que começasse a florescer um regime, que o Lincoln formulou naquela frase: “do povo, pelo povo, e para o povo”.

            Pois, bem. Aí, o Jefferson disse: Nós temos de criar um instrumento no qual o povo também possa ter as mesmas imunidades. E então ele concebeu a liberdade de imprensa. Para quê? Para que ela fosse a voz desse povo, para que ele também tivesse as imunidades que tinham os homens que construíam e administravam a Nação, que era o Poder.

            Era o sistema dos checks and balances. Nesse ponto, pela sua própria concepção, a imprensa é uma visão crítica da sociedade, tem de ser crítica por sua própria existência, porque nasceu para isso. Foi por isso que a liberdade de imprensa nasceu. Frias tinha essa convicção. Se Jefferson concebeu a imprensa assim, Frias teve a oportunidade de fazer a imprensa assim.

            Às vezes, achávamos que o seu jornal podia ser julgado como ácido, muito rigoroso, sem qualquer tolerância, com tolerância zero a respeito das coisas. Mas Frias tinha a concepção filosófica da função da imprensa, de que ela tem o dever crítico, de que ela é feita para criticar. Às vezes, diz-se que os fatos bons não são elogiados, mas essa não é realmente a função da imprensa, como ela foi criada, como instrumento político. Como instrumento de divulgação, sim, mas como instrumento político, não. Como instrumento político, ela tem de ter essa visão. Devemos compreender.

            Como nós, homens públicos, sofremos com essa liberdade total da imprensa, muitas vezes, sem responsabilidade! Como nós sofremos! Mas é melhor ter uma imprensa livre que não ter imprensa nenhuma. Ela exerce essa função, e foi essa função que Frias concebeu. Foi por isso que ele fez um jornal de opinião. Como há pouco disse o Senador José Agripino, um jornal que diz “sim” e um jornal que diz “não”, um jornal que acolhe todos os pluralismos, um jornal que acolhe todas as divergências. Aquilo não era um elogio para o jornal, era uma concepção que participava do Seu Frias, como era chamado entre todos os seus empregados. Mas o Frias era, sobretudo, um homem que tinha uma longa história de vida. Ele veio de uma escala muito baixa, trabalhando desde menino, vendedor em estações rodoviárias. Ele, sem dúvida alguma, foi construindo sua vida com seu talento, de tal modo que falece deixando uma comoção nacional, como se fosse um jovem.

            Mas acredito que a longa vida não exime as pessoas de não aceitar o fenômeno transcendental que é a morte. Eu tive esse sentimento quando perdi a minha mãe aos 92 anos. Eu era um órfão aos 73 anos, tinha o mesmo sentimento de que os anos não dão a cada um de nós a conformação diante do desaparecimento de um ente.

            Frias deixa, como deixaria em qualquer momento da sua vida, uma obra extraordinária.

            Eu acredito na genialidade dos seus colaboradores, no talento que ele tinha para arregimentar as grandes figuras do pensamento brasileiro, para escolher essas equipes que fazem um jornal que foi pioneiro na feição gráfica, na modificação da linguagem. Por mais que essa equipe tivesse tamanho talento e genialidade, ela não teria acontecido se não fosse essa liderança discreta e despojada que exerceu Frias para construí-la.

            O Sr. Edison Lobão (PFL - MA) - Permite-me V. Exª uma interrupção em seu discurso?

            O SR. JOSÉ SARNEY (PMDB - AP) - Com muito prazer, Senador Lobão.

            O Sr. Edison Lobão (PFL - MA) - Senador José Sarney, eu não entendo democracia, que é o regime das liberdades, sem uma imprensa por igual livre. A imprensa é o balizador das liberdades. Nós poderíamos estar homenageando hoje aqui a Folha de S. Paulo, que é um grande jornal, um dos maiores do País. Ela merece todas as homenagens que se possam fazer. Mas, não. O que se está homenageando, de fato, é o Dr. Frias, que foi um pró-homem da imprensa brasileira, uma figura excepcional, sem dúvida. Todo esse talento que ele possuía empregou a serviço da sua empresa, do seu jornal. Rigoroso, como diz V. Exª, ele procurou ser no jornal. Mas ele era rigoroso com a própria Folha de S. Paulo, na medida em que instituiu o ombudsman para criticar a própria Folha.

            E isso dá o sentido que ele procurava empregar na orientação do jornal Folha de S.Paulo. Ao perdê-lo, nós todos perdemos, sem dúvida, um dos capitães da imprensa brasileira e um pilar extraordinário das liberdades em nosso País.

            O SR. JOSÉ SARNEY (PMDB - MA) - Muito obrigado, Senador Lobão, V. Exª compreende perfeitamente o sentido principal das nossas palavras, que não é realmente o de aqui elogiar a Folha de S.Paulo. Estamos falando da presença marcante do Frias não na Folha de S.Paulo, mas na vida da imprensa, da comunicação brasileira.

            Frias teve uma oportunidade extraordinária - perdoe o Senado eu falar com esta intimidade, Frias, mas era assim que eu o tratava -, porque ele teve oportunidade de ter um dos momentos da maior transformação, da maior revolução tecnológica do mundo, que foi a revolução da comunicação, a comunicação em tempo real. Você está aqui, está em qualquer lugar do mundo e, no mesmo momento, na mesma hora, todos sabem, todos têm as mesmas emoções, todos comungam das mesmas coisas.

            Ele, então, já um homem com uma certa idade, teve de enfrentar essas novas tecnologia. E, de repente, ele é um homem que, com o seu talento, com a sua capacidade, sabe compreender esse momento de tal modo que junta todo aquele acervo que tinha, a velha concepção da imprensa, ao longo de todos os seus tempos,

            E, a partir daí, ele incorpora essas novas tecnologias, ele sai para a mídia eletrônica, ele sai para os portais eletrônicos - com o UOL, hoje o maior provedor nacional da internet - com absoluto sucesso, liderando no mercado.

            Então isso tudo é porque ele tinha a consciência dessas coisas e teve essa oportunidade como um grande homem da imprensa. Ele é o último dessa grande geração de brasileiros que tiveram oportunidade de comandar esse processo, de estar presente no momento em que o processo da comunicação passava daquela fórmula antiga para transformar-se nessa revolução que não sabemos onde vai terminar tão profunda se exerce em todos os setores da vida pública.

            Já darei o aparte a V. Exª, Senador Eduardo Suplicy!

            Também quero registrar aqui no Senado que, como havia dito, eu estava nos Estados Unidos e abrimos a Conferência. E, na hora em que o presidente foi declarar aberta a reunião, tive a oportunidade de dizer que iria pedir um voto de silêncio, prestado ali a um grande brasileiro. Ali, naquele ambiente, talvez ninguém tivesse conhecimento da importância do Frias, mas sim de um grande brasileiro que o Brasil tinha perdido.

            E vi todos nós prestarmos essa homenagem em uma reunião de importância muito grande da qual participavam o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton, o ex-presidente George Bush, o Prêmio Nobel Weltzerde Economia que tinha descoberto o problema da camada de ozônio. Então, era realmente uma assembléia muito representativa e foi com grande satisfação que vi essa assembléia, durante um minuto, reverenciar um grande brasileiro - e eles talvez não soubessem da importância daquele gesto e daquele homem e o que representava para nós a figura de Octavio Frias.

            Os senhores hão de perguntar, meus colegas e colegas: “Mas, Senador Sarney, o senhor disse que o conhece há quantos anos? Há quarenta anos?”

            Sim, quarenta anos. Eu era Governador do Maranhão, um jovem Governador do Maranhão, tinha trinta e cinco anos. Eu estava executando um chamado projeto João de Barro, com o nome do passarinho que constrói a sua própria casa, nas comunidades rurais pequenas do interior. Era um projeto do qual a comunidade participava, a prefeitura participava, o Estado participava - cada um. De maneira que fizemos mil e quatrocentas salas de aula nesse sentido.

            Esse projeto, nessa época, que era uma época em que estávamos, de certo modo, com restrições de liberdade, parecia muito popular, muito avançado, vamos dizer assim, no tempo em que tínhamos o método do Paulo Freire e também o do Djalma Maranhão “De Pé no Chão Também se Aprende a Ler”. Frias interessou-se por esse projeto. E, então, conheci Octavio Frias nessa época.

            Fui a São Paulo e parece que os jornais publicaram essa fotografia minha com ele, dessa visita - a primeira vez foi lá. Ele estava interessado por esse projeto de educação. E conheci, então, o método socrático de como o Frias conversava. Ele conversava com alma de repórter: perguntando. Quem teve a oportunidade de muitas vezes estar com Octavio Frias sabia que a conversa com ele, do princípio ao fim, era do repórter, era perguntando, todo tempo perguntando: O que está acontecendo? O que é isso? O que é aquilo?

            E aprofundava-se nessas perguntas. Isso ele fez, Senador José Agripino, não somente até os 92 anos. Uns oito meses antes da sua segunda queda, eu estive na Folha, para vê-lo, para visitá-lo. Com ele, eu falava constantemente, durante os últimos meses. Eu sabia do seu estado de saúde. Na ocasião em que o visitei, ele fazia fisioterapia e estava no jornal com uma cama de fisioterapia, um aparelho, ali dentro da sua sala, também participando da vida do jornal, com uma grande lucidez, que manteve até o fim de sua vida, com uma visão dos problemas nacionais, com uma preocupação com os problemas nacionais. De tal modo que, assim, ele conseguiu granjear a confiança, o respeito de todos nós brasileiros e dos grandes políticos brasileiros.

            O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - V. Exª me permite um aparte?

            O SR. JOSÉ SARNEY (PMDB - AP) - Eu já darei o aparte ao Senador Suplicy.

            Essa fotografia que vimos era a própria maneira de pensar do Frias, com seu pluralismo, essa sua compreensão de todos os homens públicos. Amigo do Fernando Henrique Cardoso, muito amigo, amigo estreito. Amigo do Governador José Serra. Meu amigo. Amigo de todos. 

            Ele não perguntava às suas amizades onde elas começavam a ter posições partidárias ou não. Ele era o jornalista no sentido de ser o repórter até mesmo dessa maneira de conversar perguntando.

            Concedo o aparte ao Senador Eduardo Suplicy.

            O Sr. Eduardo Suplicy (Bloco/PT - SP) - Parabéns, Senador José Sarney, por aqui hoje trazer um retrato em uma homenagem tão merecida ao Sr. Octavio Frias de Oliveira, que também tive a oportunidade de conhecer. E quero confirmar que o meu testemunho guarda muita semelhança com o de V. Exª, quando, em 1975, Cláudio Abramo, que havia me conhecido certa vez na Universidade de Stanford, convidou-me para almoçar com ele, com Octavio Frias de Oliveira. E tive essa mesma impressão de como o Sr. Octavio Frias era uma pessoa que tinha uma extraordinária curiosidade de informação, perguntava as coisas e sabia muito bem o que faria para transformar a Folha num extraordinário jornal brasileiro. É importante ressaltar que não apenas a Folha e a UOL, conforme V. Exª destacou, como também os demais meios de comunicação do grupo têm tido uma influência e um papel tão importantes, inclusive para a democratização do Brasil, sendo um estimulo para que a qualidade dos meios de comunicação no Brasil se tornasse muito melhor.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 03/05/2007 - Página 12242