Autor
Francisco Dornelles (PP - Progressistas/RJ)
Data
08/08/2007
Casa
Senado Federal 
Tipo
Pronunciamento 

O SR. FRANCISCO DORNELLES (Bloco/PP - RJ. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Exmº Sr. Presidente Renan Calheiros, Dona Arlete, Srª Teresa Helena, meu caro Senador Antonio Carlos Júnior, meu caro ACM Neto, Srªs e Srs. Senadores, a quem cumprimento na pessoa do meu sempre querido Presidente José Sarney, senhoras e senhores, quando desaparece uma pessoa do nosso convívio, a primeira coisa que sentimos é o vazio da sua ausência. Uma cadeira vazia, ou ocupada por outra pessoa, a expectativa frustrada de ouvir sua voz quando de uma conversa ou, no caso de um Parlamentar, de um debate político marcado pela controvérsia de posições. Nesses primeiros momentos em que sempre experimentamos a sensação paradoxal da surpresa diante do inevitável, ainda não somos capazes de voltar nossa atenção para aquilo que, de fato, tanto importa: não o seu desaparecimento, mas a obra que deixou.

Quando é de um gigante que se trata, quer seja da área cultural, quer da política, a morte fecha um ciclo que confere à figura sua verdadeira dimensão histórica, permitindo-nos, e até nos obrigando, a um balanço mais equilibrado de sua trajetória e de sua significação.

Antonio Carlos Magalhães foi um desses gigantes - isso, nem seus maiores opositores são capazes de negar. Viveu para a política por mais de meio século, desde sua primeira candidatura a Deputado Estadual, em 1954, até 2007, quando deixa esta Casa, marcada por sua atividade, para integrar a História.

É possível discorrer longamente sobre sua carreira de administrador, desde a Prefeitura de Salvador, a partir de 1967, e dos períodos em que governou o Estado da Bahia. Sobre sua carreira parlamentar de Deputado Estadual, Deputado Federal e Senador podemos todos falar, e temos uma rica biografia para dela tomar conhecimento.

Mas todos esses fatos estão nas biografias oficiais, que podem ser compulsadas por qualquer pessoa interessada nos pormenores da História recente, que irá encontrando seus intérpretes com a passagem do tempo. Gostaria, entretanto, de destacar as impressões que me ficaram do convívio, tanto no tempo do Ministério do Presidente Sarney quanto nesses últimos meses, em que estivemos juntos nas atividades de Senador.

Pois bem: em todo esse tempo, sempre percebi em Antonio Carlos Magalhães um sentido agudo de interesse nacional e do bem maior para seu Estado da Bahia. O Senador Afonso Arinos dizia, com muita propriedade, que o regionalismo é a forma mais pura de patriotismo.

Aquele que não ama o seu Município, aquele que não ama o seu Estado não consegue ter o sentimento nacional. O amor de ACM pela Bahia é, pois, o marco do sentimento nacional desse grande brasileiro.

Os números confirmam: com Antonio Carlos Magalhães, nesse meio século, a Bahia ficou mais rica. E não foi para menos: em seu estilo de governar, ele sempre soube se cercar de quadros técnicos da maior qualidade, que reestruturaram a administração do Estado no sentido da racionalidade e da modernidade.

Acredito, entretanto, que o depoimento de quem conviveu com um gigante como Antonio Carlos precisa incluir uma nota pessoal que contribua para uma medida humana daquele que tende a se tornar um mito. E aí quero mencionar o sentimento de família de Antonio Carlos, muito profundo, que vi exteriorizado na presença competente de seu filho Antonio Carlos Magalhães Júnior, na sua suplência como Senador - e que agora vai mais uma vez honrar o Senado Federal; na tristeza do pai pela perda do seu querido Luís Eduardo; e no orgulho por ver o neto, com seu nome, preparado para enfrentar os novos desafios da política nacional.

Duas características que também sempre notei em Antonio Carlos foi a sua coragem e a sua capacidade de dar dimensão e grandeza em todos os cargos ocupou.

Lembro-me, Presidente Sarney, do primeiro grande comício, em Goiânia, da campanha de Tancredo e Sarney.

O Presidente Tancredo, sempre com grande cuidado, temia que a reação das pessoas presentes ao comício fossem hostis ao Senador Antonio Carlos. De uma maneira indireta, fez a ele chegar que talvez não fosse conveniente a sua presença no comício de Goiânia.

Ele disse: “Faço questão de ir ao comício de Goiânia e de ser o primeiro orador”. E lá foi. Foi um comício tumultuado. O Presidente Sarney lembra-se da grande quantidade de soldados que foram para lá com a camisa do PCdoB e a bandeira vermelha para tumultuar o ambiente. E ele foi o primeiro orador. Falou com tal veemência, com tanta coragem, que foi o orador mais aplaudido do comício de Goiânia.

Quero demonstrar também a capacidade que ele tinha de dar dimensão e grandeza aos cargos que ocupava. Ele participou da campanha Tancredo-Sarney sempre na condição de dissidente do PDS. Era importante demonstrar que a candidatura Tancredo-Sarney tinha o apoio do PMDB, do PFL e também de uma dissidência do PDS.

E, como sempre ocorre na montagem de todos os Ministérios, ACM achava que talvez fosse convidado para ocupar o Ministério dos Transportes ou o Ministério do Interior. Em determinado momento, foi ele informado de que ocuparia o Ministério das Comunicações e disse: “Mas isso é uma aposentadoria”. Ficou decepcionado. A primeira reação foi de depressão: “O que vou fazer nesse Ministério? Eu nunca ouvi falar nesse Ministério das Comunicações”. Quarenta e oito horas depois, ele dizia ao Presidente Tancredo Neves: “Aceito o Ministério das Comunicações, e esse Ministério será o mais importante do Governo de V. Exª”.

Tancredo não governou. Governou o nosso grande Presidente Sarney. E realmente o Ministério das Comunicações passou, a partir daquele momento, a ser um dos grandes Ministérios da administração pública brasileira.

Sr. Presidente, Antonio Carlos Magalhães marcou sua vida política neste meio século. Sua atuação suscitou polêmica, como ocorre aos que se movem pela paixão. Mas toda análise desapaixonada, a partir de agora, terá de reconhecer a melhor parte de seu legado: uma Bahia economicamente mais desenvolvida e com maior peso político no quadro da Federação. Não se trata de obra pequena para um homem. Trata-se, ao contrário, de uma grande obra, que apenas um grande homem como Antonio Carlos Magalhães poderia realizar!

Muito obrigado, Sr. Presidente. (Palmas.)

<