Discurso durante a 35ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Transcurso do Bicentenário da Faculdade de Medicina da Bahia, da Universidade Federal da Bahia.

Autor
César Borges (PR - Partido Liberal/BA)
Nome completo: César Augusto Rabello Borges
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
HOMENAGEM.:
  • Transcurso do Bicentenário da Faculdade de Medicina da Bahia, da Universidade Federal da Bahia.
Aparteantes
Geraldo Mesquita Júnior.
Publicação
Publicação no DSF de 26/03/2008 - Página 6740
Assunto
Outros > HOMENAGEM.
Indexação
  • HOMENAGEM, CENTENARIO, CRIAÇÃO, FACULDADE, MEDICINA, UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA (UFBA), PIONEIRO, BRASIL, REGISTRO, PERIODO, IMPERIO, INICIO, REGULAMENTAÇÃO, EXERCICIO PROFISSIONAL, PESQUISA, DOENÇA TROPICAL, FORMAÇÃO, MEDICO, ESPECIALISTA, CONTRIBUIÇÃO, HISTORIA, PAIS, PARTICIPAÇÃO, CORPO DE SAUDE, EXERCITO.
  • EXPECTATIVA, RECUPERAÇÃO, PATRIMONIO HISTORICO, OBJETIVO, RETORNO, FACULDADE, MEDICINA, ESTADO DA BAHIA (BA), EDIFICIO SEDE.

            O SR. CÉSAR BORGES (Bloco/PR - BA. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Sr. Diretor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, Dr. José Tavares Neto, Sr. vice-Diretor, Dr. Modesto Jacobino, da mesma unidade da Universidade Federal da Bahia, Srªs e Srs. Senadores, lamento apenas não ter também cursado a faculdade de medicina; fui aluno da Universidade Federal da Bahia, que também tem tradição na cultura universitária brasileira em engenharia civil.

            Neste momento, estamos homenageando uma grande faculdade, uma grande unidade do ensino brasileiro pela qual sei que V. Exª guarda um grande apreço. Esteve presente nas comemorações dos 200 anos na Bahia, que sempre o recebe de braços abertos, pois V. Exª. é um médico de escol e, entre aqueles que amam a Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, um admirador permanente e colaborador daquela unidade.

            Esta sessão que foi inspiração de V. Exª, com total apoio dos Senadores da nossa querida Bahia, marca uma data muito importante, que é o bicentenário da fundação da Escola-Mater do Brasil, da Faculdade de Medicina da Bahia, instituída que foi em 18 de fevereiro de 1808, quando da passagem pela Bahia da Corte Portuguesa, que criou a Escola Cirúrgica da Bahia.

            Portanto, a Faculdade de Medicina é a primeira Escola Médico-Cirúrgica de todo o País. Em 1813, a escola se transformou em Academia Médico-Cirúrgica e, a partir de 1832, passou a ser chamada de Faculdade de Medicina da Bahia, denominação essa que perdura até os dias atuais.

            A Faculdade de Medicina da Bahia representa um marco para a Medicina Brasileira, que, antes de 1808, era realizada de forma improvisada pelos chamados práticos, em geral barbeiros, sem respaldo técnico-científico. Foi na Faculdade de Medicina da Bahia que se iniciaram as primeiras pesquisas tropicalistas, psiquiátricas e antropológicas. Foram descobertos novos protozoários e metazoários causadores de doenças que em outros países eram chamados de doenças exóticas ou tropicais. Com isso, criou-se uma cultura médica brasileira, genuinamente nacional voltada para as necessidades do País e do nosso povo.

            A Fameb, Faculdade de Medicina do Estado da Bahia, revelou expoentes para o País. Pelas suas cátedras passaram, entre outros que neste momento me penitencio por não revelar o nome, pois seria muito extenso, expoentes como: Manuel Vitorino, Afrânio Peixoto, Nina Rodrigues, Oscar Freire, Alfredo Britto, Juliano Moreira, Martagão Gesteira, Prado Valadares - que honra inclusive a minha cidade de origem, Jequié, cujo Hospital Regional tem o nome Prado Valadares -, Pirajá da Silva, Gonçalo Muniz, dentre tantos outros que projetaram nacional e internacionalmente o nome da Fameb, da Bahia e do Brasil pela excelência no ensino e na pesquisa.

            Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, cito alguns fatos históricos dessa Faculdade. 

            Em 1859, foi organizado o primeiro Museu de Anatomia Comparada do País, sob o comando do professor anglo-baiano Jonathas Abbott.

            Em 1887, ocorreu a primeira diplomação no Brasil de uma médica, a Drª Rita Lobato Velho Lopes.

            Em 1897, foi realizada, pelo Professor Alfredo Britto, a primeira radiografia no mundo com o objetivo de investigar ferimento por arma de fogo numa vítima da guerra de Canudos.

            Em 1900, foi criado, pelo Professor Nina Rodrigues, o primeiro Museu Médico-Legal e Antropológico do Brasil.

            Em 1965, foi efetuada, pelo Professor Carvalho Luz da Fameb, a primeira cirurgia mundial para extração de parasitos do sangue humano no Hospital das Clínicas.

            A Fameb, em decorrência da formação humanística dos seus mestres, participou ativamente dos principais momentos históricos da política da Bahia e do Brasil.

            O Presidente da Academia de Letras e Artes de Salvador e Presidente Emérito do Instituto Bahiano de História da Medicina e Ciências Afins, Dr. Lamartine de Andrade Lima, descreve com propriedade essa participação de vanguarda: “A Fameb aclamou, no dois de julho de 1823, no Terreiro de Jesus, o Exército Libertador. Foram seus professores que trataram e operaram os feridos e fizeram as perícias nos mortos da Revolta dos Malês e na Sabinada.

            Incorporou muitos de seus mestres e estudantes acadêmicos como oficiais do Corpo de Saúde do Exército Brasileiro, que marcharam para o sangrento Campo de Honra no Paraguai e os viu voltar com o dever cumprido e cobertos de condecorações.

         Durante a campanha abolicionista, o Professor Luis Anselmo da Fonseca, afro-descendente, profligou o escravismo, inclusive clerical. A Campanha Republicana teve como seu chefe e principal baluarte o Professor Virgílio Damásio, primeiro governador republicano da Bahia, e mais o Professor Manuel Victorino Pereira, que também foi governador e, pouco depois, em exercício, presidente da República, no impedimento do Presidente Prudente de Moraes.

            Na fratricida guerra civil que foi a Campanha de Canudos, os catedráticos e seus alunos abriram seis enfermarias para tratar os feridos, muitos deles operados pelo Professor Braz do Amaral.

            Nas Revoluções de 1930 e de 1964, o prédio da Faculdade, no Terreiro de Jesus, foi invadido. Contudo, durante a Segunda Guerra Mundial, sob a liderança do Professor Eduardo de Morais, foi formada, por mestres, médicos e estudantes, a Legião dos Médicos para a Vitória. E, no interior da sua Sala da Diretoria, foi fundada a Universidade Federal da Bahia, a Universidade da Bahia.

            A despeito da criação do Memorial da Medicina em 1982, que atualmente reúne rico acervo, incluindo mais de 5,3 milhões de páginas de documentos científicos e históricos, livros raros e a maior pinacoteca da Bahia, o histórico prédio da Fameb, localizado no Terreiro de Jesus, sofreu dois incêndios, em 1905 e em 1952. Ao longo dos anos, lamentavelmente, tem sido penalizado com um processo de deterioração e tentativas de ocupações e reconstruções por setores acadêmicos desvinculados da área de Medicina, incompatíveis com a herança de tão importante patrimônio histórico da Faculdade de Medicina.

            Entretanto, em 1974, a Fameb foi transferida da sua sede no Terreiro de Jesus para ocupar novas instalações no Campus Universitário do Vale do Canela. Trinta anos depois, ocorreu uma reação por parte dos dirigentes da Fameb, que iniciaram um processo de mudança da Faculdade para sua antiga sede, que atualmente abriga sua Diretoria e a Secretaria-Geral.

            Esse é um processo em curso, Sr. Presidente, que precisa do apoio de todos, de todas as autoridades deste País, do Congresso Nacional, do Senado Federal.

            Sei que V. Exª tem abraçado essa causa, como todos os baianos que amam a Bahia e sua tradição cultural, amam a Faculdade de Medicina e a Universidade Federal da Bahia. Temos que ir até o final, quando poderemos ter totalmente recuperado aquele patrimônio histórico, cultural e arquitetônico da Bahia.

        É uma necessidade premente mobilizar todo o apoio e recursos para restaurar esse patrimônio da Faculdade de Medicina da Bahia. O envolvimento deve contar com a participação da União, do Estado da Bahia, do Município de Salvador e inclusive do setor privado, com iniciativas concretas de revitalização da Fameb. Essa é uma dívida e também um anseio da sociedade baiana e da brasileira que precisam ser resgatados para fazer jus ao pioneirismo e aos serviços prestados pela Fameb.

        Parece-me, Sr. Presidente, que essa seria a melhor forma de homenagear a Faculdade de Medicina pelos seus duzentos anos, ou seja, deixar totalmente recuperado aquele prédio da Faculdade de Medicina que tantos serviços prestou à Bahia e ao Brasil.

            Era o que tinha a dizer.

            O Sr. Geraldo Mesquita Júnior (PMDB - AC) - Permita-me, Senador.

            O SR. CÉSAR BORGES (Bloco/PR - BA) - Pois não. Se o Presidente permitir.

            O Sr. Geraldo Mesquita Júnior (PMDB - AC) - Não há previsão em nosso Regimento, mas há precedentes. Dias atrás, quando homenageava o jornal O Povo, fui aparteado pelo Senador Sarney e por alguns outros Senadores e tomo a liberdade de fazer o mesmo por ocasião da sua fala.

            O SR. CÉSAR BORGES (Bloco/PR - BA) - É uma honra para mim, Senador Geraldo Mesquita Júnior.

            O Sr. Geraldo Mesquita Júnior (PMDB - AC) - Eu sou acreano, embora nascido em Fortaleza e impregnado pelo espírito da Bahia, e V. Exª sabe disso. Adoro sua terra e, sempre que posso, passo alguns dias lá, em períodos de férias. Não tenho intimidade nenhuma para falar sobre a Faculdade de Medicina da Bahia, porém tenho registro da importância que foi a presença e a participação da Faculdade de Medicina da Bahia no meu Estado, na pessoa do Professor Tavares, que saúdo e cumprimento - há tempos que não o revia -, e o fato se relaciona com a instalação da nossa Faculdade de Medicina no Estado do Acre. Justiça seja feita e o registro também seja feito: era meta e ponto do mandato do Senador Tião Viana - cumprido, inclusive. Hoje, o Acre, em nossa capital, dispõe de uma faculdade de medicina. Nesse curto depoimento, registro a importância da presença do Professor Tavares. Na ocasião, minha esposa era Secretária Executiva da Secretaria de Saúde do Estado e trabalhou, pari passu e de mãos dadas, com o Professor Tavares. Além de assessoria, prestou-lhe relevante serviço. Juntamente com o Governo do Estado e o Ministério da Saúde, conseguiu realizar o sonho não só do Senador Viana como de todos os acreanos: criar uma faculdade de Medicina para formar médicos no nosso Estado. Havia uma dificuldade extrema, muita dificuldade, para levar médicos para aquela região tão longínqua do nosso País. Hoje temos tranqüilidade. A partir do trabalho de pessoas como o Professor Tavares, de iniciativas como o mandato do Senador Tião Viana, temos hoje a Faculdade de Medicina instalada no nosso Estado. Podemos hoje dizer que a nossa dependência é bem menor, em termos de formação de pessoal qualificado na área de Medicina. Portanto, peço desculpas a V. Exª, mas eu não poderia deixar de fazer esse registro que para nós é histórico. Por meio deste registro, faço minha singela homenagem à Faculdade de Medicina pelos seus 200 anos de funcionamento. Esse fato deve ser registrado em qualquer lugar, principalmente aqui, no plenário da nossa Casa. É muita coisa. Talvez, em termos de faculdades do nosso País, seja o organismo que tenha prestado os mais relevantes serviços ao País, e não só à Bahia. Portanto, por intermédio de sua pessoa, de sua fala, associo-me à homenagem de V. Exª à Faculdade de Medicina da Bahia pelo seus 200 anos de funcionamento, cumprimentando efusivamente o Professor Tavares, o Vice-Reitor da Faculdade de Medicina, e fazendo votos para que essa parceria, firmada há tantos anos no Estado do Acre, permaneça para continuar dando frutos, que, aliás, já estão sendo colhidos, e esperamos que produza muito mais. Professor Tavares, cumprimento V. Exª e o Sr. Vice-Reitor. Querido amigo e vizinho, agradeço-lhe imensamente o aparte a mim concedido.

            O SR. CÉSAR BORGES (Bloco/PR - BA) - Senador Geraldo Mesquita, V. Exª enriquece o meu pronunciamento e lembra um fato muito importante, que é essa parceria existente entre o Acre e a Bahia, em especial, entre as Faculdades de Medicina. O fluxo é constante. O Senador Tião Viana sempre vai à Bahia.

            Recentemente, estava em Salvador e revi um prezado amigo meu, um brilhante pesquisador e mestre, Raimundo Paraná, e ele estava vindo do Acre, prestando serviços profissionais importantes exatamente nas doenças tropicais, na infectologia, em que ele é um especialista. Então, fico muito satisfeito em poder relembrar esse fato que enaltece e enobrece o trabalho da Faculdade de Medicina.

            Encerraria minhas palavras dizendo que, recentemente, lá estive e, muito emocionado, participei, no seu salão nobre, de uma homenagem a um prezado amigo, um grande mestre, que teve toda a sua vida dedicada à Universidade Federal, em especial à Faculdade de Medicina, e que estava ali recebendo a maior condecoração do Cremeb. Faço este registro porque ele honrou - e honra - a Faculdade de Medicina, que é o prezado Dr. Rodolfo Teixeira, também um médico com serviços prestado à Bahia, um especialista nas doenças tropicais e que me honra com a sua amizade.

            Fica aqui a palavra do amigo da Faculdade de Medicina, do Senador, e fica esta mensagem final: que todos nós possamos, unidos, trabalhar para ver totalmente recuperado o patrimônio histórico, arquitetônico e cultural que é prédio da Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus.

            Muito obrigado, Sr. Presidente.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 26/03/2008 - Página 6740