Autor
Arthur Virgílio (PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira/AM)
Data
18/04/2008
Casa
Senado Federal 
Tipo
Pronunciamento 

O SR. ARTHUR VIRGÍLIO (PSDB - AM. Como Líder. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, eu trato de alguns assuntos, nesta fala como Líder, registrando o prazer imenso que tive de participar ontem, em Cuiabá, revendo inclusive meu querido amigo e companheiro Senador Antero de Barros, do seminário Direito e Desenvolvimento Econômico - meu tema foi meio ambiente -, sediado na Ordem dos Advogados de Mato Grosso. Foi realmente um evento muito importante pelo nível do debate que lá se processou.

Estou seguindo, agora, para Manaus para a abertura do I Encontro Estadual de Lideranças Tucanas, que contará com a presença do Presidente Sérgio Guerra e do Secretário-Geral, Rodrigo de Castro. Lá, empossaremos o secretariado da juventude, do partido, e o secretariado da mulher tucana.

Sr. Presidente, tenho ainda pronunciamento em que revelo preocupação com as populações do Amazonas que sofrem com as cheias dos rios Madeira e Juruá. O quadro é desolador. E é preciso que o governo providencie com urgência medidas para levar assistência às cinqüenta mil pessoas atingidas.

Estou viajando, antes do meio-dia, para Manaus, para ver de perto o drama dos amazonenses. Muitos perderam tudo, inclusive suas residências. Os Municípios mais atingidos são Ipixuna, Guajará, Itamarati, Eirunepé, Borba, Nova Olinda do Norte, Manicoré e Humaitá. Em todos eles foi decretado estado de calamidade pública. Não é suficiente. Medidas de socorro são necessárias e espero que o governo do Estado, sempre tão omisso, volte suas atenções para as populações que sofrem com as cheias.

Há informações de que alguma coisa estaria sendo feita pela Defesa Civil do Amazonas. Garantem seus dirigentes, a começar pelo Coronel Roberto Rocha, que alimentos e remédios serão comprados. Que essas providências andem a jato. Afinal, são cinqüenta mil amazonenses à mingua de assistência. Além dos problemas de moradia, as populações de nove Municípios perderam praticamente suas lavouras, as pastagens estão cobertas pela água e o gado está ameaçado.

Faço essa advertência porque a previsão é de piora nesse quadro, já dramático. Em Humaitá, o Coordenador da Defesa Civil, Herivaldo Breves, informa que o chamado período de descida das águas só está começando. Ali, diz Herivaldo, pelo menos 30% da população foram atingidos pelas cheias do rio Madeira.

Lembro que a situação sugere que também o Governo da União promova ações para socorrer os cinqüenta mil brasileiros que sofrem com as cheias do Amazonas.

Sr. Presidente, situações como essa não podem ficar à espera indefinidamente. São brasileiros que sofrem na mais distante Região do País.

Tenho ainda, no tempo que V. Exª me concede, Sr. Presidente, de dar uma explicação que deixe bem nítida a minha posição, até porque recebi alguns e-mails de pessoas... Conhecemos aqueles e-mails que são típicos de petistas profissionais, aqueles que são especializados em mandar carta para jornal. Conhecemos isso e não dou a menor importância. Mas há e-mails, Senador Mão Santa, de pessoas sérias, que, às vezes, interpretam de maneira equivocada o que foi dito aqui nesta tribuna, e esses eu levo a sério e os respeito muito.

Ontem, de maneira muito rápida, na sessão de homenagem a Assis Chateaubriand, mencionei a crise militar. Trata-se de uma crise militar essa que levou o Presidente - a notícia está nas primeiras páginas de O Globo, Senador Geraldo Mesquita - a supostamente repreender o General Augusto Heleno, Comandante Militar da Amazônia, uma figura que eu prezo, que eu respeito, e que, a meu ver, estava com a razão. O Presidente Fernando Henrique fez a demarcação descontínua das terras indígenas em Roraima. O Presidente Lula exagerou. Fez a demarcação contínua, em extensas terras, criando um quadro de insustentabilidade na relação entre arrozeiros e índios - já concedo o aparte a V. Exª - naquele Estado. O General Heleno fez algumas afirmações, e ele tem razão. Eu quero que todos os missivistas de boa-fé que me mandaram suas mensagens de crítica ouçam isto com clareza: o General Heleno tem razão, porque a política indigenista do Presidente Lula é caótica. Crianças indígenas morrem de fome todos os dias, porque a Funasa parou de funcionar nesse campo.

No entanto, embora o General Heleno tenha razão, eu não acho que ele devesse ter falado, porque não é o papel dele falar. Isso tem de ficar bem claro. Eu lutei muito por democracia no País e não considero justo que agora nós voltemos ao tempo dos pronunciamentos militares de caráter político. Se está na reserva, tem toda liberdade de fazer isso; se está no serviço ativo, não.

Eu quis ressaltar aqui não a crítica ao General Heleno, a não ser quanto ao fato de ele ter se pronunciado politicamente, não a crítica às idéias dele, mas a tibieza do Governo Lula, a fragilidade do Governo Lula. Um governo que é autoritário com o Congresso, que é autoritário com o Judiciário e se péla de medo das casernas, como o fez quando o Ministro Paulo Bernardo, de maneira infantil, dialogou com os controladores como se eles fossem líderes sindicais. A alta hierarquia militar não gostou, e o Governo pôs o rabo entre as pernas e recuou. Mas, a seguir, o Ministro Jobim tomou uma atitude, da qual deve ter se arrependido - tenho muito carinho pelo Jobim -, de fazer o inoportuno lançamento de um livro sobre torturas e torturados no Palácio do Planalto. Podia ter sido em qualquer livraria do País, era um direito, era até um dever se fazer um livro sobre aqueles tempos tão tenebrosos, mas fazer no Palácio, com a presença do Presidente da República, foi uma demasia. E ele disse: se alguém se insurgir, vou fazer, vou acontecer. A alta hierarquia militar se insurgiu, o Governo meteu de novo o rabo entre as pernas e ninguém fez, e ninguém aconteceu no Governo. Ninguém foi punido pelo ato de rebeldia demonstrado pelos militares naquele momento.

Nós tivemos outros episódios, e em todos eles o Governo recuou quando há resistência da base militar, ou seja, é um Governo frágil. Apesar de autoritário, é um Governo em que falece o princípio da autoridade. É isso o que eu quis dizer com clareza. O General Heleno está completamente coberto de razão - eu assinaria um artigo com as palavras dele -, mas não considero saudável para a democracia que um militar prestigioso e da ativa se manifeste sobre a questão política, porque isso não é a prática da democracia que nós cultivamos. Essa é a minha posição.

Por outro lado, eu ressaltei ontem, também, outro dado da fraqueza do Governo: o Governo está entregue nas mãos do MST. O MST invade a Vale do Rio Doce, seqüestra - isso é crime hediondo -, torna refém um maquinista e não acontece nada, absolutamente nada. Não acontece nada nem com o dinheiro que malversa o MST - dinheiro público que o MST malversa sistematicamente. Não acontece nada. O MST invadiu a Caixa Econômica Federal. Não respeita uma só, Senador Cristovam, das leis brasileiras. Não respeita a Constituição, não respeita as leis infraconstitucionais brasileiras. Foi esse o tom da fala muito curta que, tendo eu que viajar para Cuiabá ontem, aproveitei para fazer, no intróito da homenagem que fiz à figura polêmica e fascinante de Assis Chateaubriand.

Recebi, Senador Geraldo, e já lhe concedo um aparte, muitos e-mails de pessoas que chegaram a entender que eu estava defendendo a posição do Presidente Lula e que eu estava condenando a posição do General Heleno.

Então, muito claramente: a favor do que disse o General Heleno; contra ele se pronunciar. Aí, podem mandar e-mails agora. Podem mandar 10 milhões de e-mails, porque eu sou contra militar da ativa se pronunciar. Sou contra!

Lutei contra uma ditadura e, nessa ditadura, o que mais me chocou a juventude foi o pronunciamento militar, foi o pronunciamento da caserna, foi a opinião política da caserna. Essa eu não quero, essa eu não tolero, essa eu não aceito na democracia brasileira! Entendo que este Governo é frágil e este Governo está trazendo de volta a questão militar para o País. Está trazendo de volta algo que estava sepultado pela prática democrática do governo Itamar, do governo Fernando Henrique. Está trazendo de volta o direito, que não é um direito, de militar da ativa se pronunciar. Tenho respeito pela carreira e pela integridade do General Heleno e, volto a dizer, concordo com tudo o que ele disse, mas prefiro que militar da ativa se abstenha disso.

Mais deprimente ainda é quando o Presidente finge que toma providências. Chama o Ministro da Defesa, chama o Comandante da Força Militar e diz que repreendeu o General Augusto Heleno. Na verdade, eu não sei que repreensão foi essa, porque o que caberia era ou ficar calado ou demitir o General da função comissionada de Comandante Militar da Amazônia. Não fez, não fez. Então, está o Presidente, sem dúvida alguma, demonstrando um caráter novo no seu Governo para quem o pensava forte. É fraco! É um Governo frágil, um Governo que é incapaz de zelar convenientemente pela democracia deste País.

Senador Geraldo Mesquita.

O Sr. Geraldo Mesquita Júnior (PMDB - AC) - Prezado amigo, Senador Arthur Virgílio, concordo em gênero, número e grau com o que V. Exª fala. Creio que a maioria de nós, ou todos nós, nos engajamos naquele período triste do nosso País contra um regime autoritário, duro, ditatorial, tendo à frente o conjunto das Forças Armadas, como se diz, os militares. Creio que as Forças Armadas, não de forma subserviente, devem se subordinar ao poder civil do nosso País. Isso é evidente, isso é claro. Agora, concordo com V. Exª, também, que o General Heleno não deveria ter, publicamente, expressado sua opinião, como o fez, com relação à reserva Raposa Serra do Sol, lá em Roraima. Agora, creio - e consulto V. Exª se não seria o caso - que, tendo em vista as declarações prestadas pelo General e tendo em vista a necessidade de esclarecermos profundamente esse assunto aqui, no Senado Federal, nós, que somos amazônidas, deveríamos trazer o General para uma reunião, possivelmente até secreta, para que ele declinasse,...

O Sr. Heráclito Fortes (DEM - PI) - Na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional.

O Sr. Geraldo Mesquita Júnior (PMDB - AC) - ... na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, e esclarecesse, para os Senadores que constituem aquela Comissão, os fatos que transcorrem naquele Estado e que tanto nos preocupam hoje. Portanto, eu deixo, aqui, uma consulta a V. Exª. Se for o caso, assinaremos um requerimento para uma reunião - possivelmente até secreta -, porque concordo com V. Exª. O General, dentro da hierarquia do Exército, não pode vir a público para expressar a sua opinião. Ele não tem opinião, ele tem missão, tem tarefa a cumprir. Agora, como cidadão e como responsável por uma região militar tão vasta e tão grande como aquela da Amazônia, eu consulto V. Exª se não seria o caso de convocarmos, convidarmos o General para vir aqui, numa reunião secreta, falar sobre o que está ocorrendo naquela região que tanto nos preocupa.

O SR. ARTHUR VIRGÍLIO (PSDB - AM) - Concordo, Senador - e já concedo um aparte ao Senador Cristovam. Concordo plenamente e creio, Senador Geraldo, que deveríamos fazer - V. Exª, o Senador Heráclito, eu e o Senador Cristovam -, se for essa a decisão, a convocação para uma reunião reservada. Creio que seria essa a conotação, porque tem uma frase extremamente grave. O General Heleno disse alguma coisa do tipo: “Eu e o Comando do Exército prestamos serviços ao Estado brasileiro e não ao Governo”. É uma declaração grave.

Os e-mails que recebi dizem: “Está prestando serviço ao Lula”. Ao contrário, estou dizendo que o Lula é frágil. Volto a dizer: estou-me referindo às pessoas que, de boa-fé, se ofenderam com a declaração de uma frase, porque demorei dois minutos para dizer isso e não tive nem tempo de me explicar. Estou respondendo aos e-mails das pessoas sérias, que acharam que eu estava tomando uma posição subserviente em relação ao Presidente. Estão ouvindo, agora, eu dizer que o Presidente é servil, que o Presidente é frágil, que o Presidente se agacha diante dos militares. Respeito os militares e os quero bem armados, bem reciclados, bem pagos, mas não os quero determinando os rumos da política brasileira. Esse é um fato.

Então, volto a dizer: estou respondendo aos e-mails das pessoas sérias, não dos petistas profissionais, que são pagos, na máquina, para ficar mandando cartinha para jornal. Eu até os prefiro mandando cartinha para jornal, pelo menos não estão roubando. Prefiro isso, até prefiro isso, mas a gente conhece de longe quando vêm babando, quando vêm com ódio. A gente conhece de longe quando é aquela coisa industriada, ou seja, você dá uma entrevista e, aí, tem aquelas cartas desqualificadoras, enfim, que a maioria dos jornais nem dá bola para publicar porque já os conhece também. E, quando quer publicar, é porque quer, de alguma forma, tocar fogo no paiol, mas a gente já conhece essa gente. Estou-me referindo às outras, às normais, às pessoas adequadas, àquelas que pertencem à sociedade brasileira e que têm o direito de expender suas opiniões e de a nós nos criticar.

Se me criticaram por ter tentado livrar a face do Presidente Lula, estavam erradas. Se acharem que eu tenho que achar que o militar da ativa deve se pronunciar sobre questões políticas e isso mereça, por parte de mim, receber críticas via e-mails, podem entupir de e-mails minhas caixas, porque eu não abro mão! Tive um pai cassado, lutei contra a ditadura, fui espancado na rua, passei por prisão, eu não aceito pronunciamento militar político. Ponto final. Não aceito. E lamento que haja um Governo frágil, fraco, tíbio, de um Presidente que fica no palanque feito... Parece o Gugu Liberato, no palanque o tempo inteiro, animador de auditório, e não é capaz de impor disciplina e hierarquia neste País. E tomou uma atitude errada, equivocada, festiva no episódio de Raposa Serra do Sol, trazendo graves conseqüências sociais e grave fricção, inclusive militar, para aquela região.

Senador Cristovam Buarque.

O Sr. Cristovam Buarque (PDT - DF) - Senador, em primeiro lugar, eu quero dizer que sou solidário à proposta do Senador Geraldo. Acho que o Brasil precisa que nós analisemos esse caso. A figura do, chamemos com todo o respeito, Sr. Heleno pode ser vista em três posições: ele é um general, ele é um cidadão, ele é um técnico em defesa nacional. Como general, nós todos estamos de acordo: ele não tinha de falar isso de público, e, sim, comunicar aos seus superiores. Como cidadão, ele tem obrigação de alertar o Brasil de qualquer risco, de qualquer decisão que tomemos em relação às nossas fronteiras. E, como técnico, ele sabe das coisas. Eu, pessoalmente, tendo a ficar do lado da posição de defesa dos interesses indigenistas, cujo território é a floresta, e não a fronteira que separa o Brasil de outros países, conforme nós decidimos, e não eles, os indígenas, que já estão aqui há milhares de anos. Não há dúvida nenhuma. Mas, além disso, desse lado humanista de defesa do território e da nação - chamo de nação mesmo - indígena, em cada uma das nossas fronteiras, eu sou brasileiro, e, como brasileiro e Senador, tenho uma responsabilidade com as futuras gerações pela fronteira traçada entre os países, mesmo que sejam fronteiras artificiais do ponto de vista humano, do ponto de vista do humanismo. Essa fronteira não existe. A fronteira do Brasil com a Venezuela, do ponto de vista humanista, não existe; mas, do ponto de vista político, existe. E, como tal, tenho que tomar uma posição levando em conta o sentimento humanista e a política nacionalista, que eu tenho, não vou negar, e penso que é uma coisa positiva. Por isso, nesse sentido, eu terei o maior prazer e necessidade de ouvir. Não chamemos o lado general, mas o lado cidadão e o lado técnico do General Heleno. A gente tem a obrigação de ouvi-lo, em situação secreta, para tomarmos posição. Eu tenho uma posição, mas estou disposto a revê-la se, diante de uma figura como ele, eu for convencido de que os interesses nacionais podem ser casados com os interesses humanistas, e a gente defender a fronteira política do Brasil com outros países e, ao mesmo tempo, respeitar as fronteiras naturais de que as tribos ou nações indígenas precisam para sobreviver. Por isso, meu apoio à vinda do General Heleno ao Senado.

O SR. ARTHUR VIRGÍLIO (PSDB - AM) - Obrigado, Senador Cristovam Buarque, e respondo a V. Exª - encerrando a minha fala, Sr. Presidente - dizendo que V. Exª foi candidato a Presidente da República pelo seu partido, pelo PDT, nas últimas eleições. Se tivesse vencido as eleições, estaria a braços com uma questão que dificilmente poderia ser tratada meramente com a visão que V. Exª acabou de aqui idealizar. Estaria diante de uma situação de fato, levando em conta, inclusive, o fato militar; levando em conta, inclusive, a posição do País diante de ameaças à soberania nacional sobre a Amazônia e, sem dúvida alguma, preocupado - porque V. Exª não se elegeria por outra razão - com a integridade cultural e física das etnias indígenas que habitam aquelas fronteiras.

Descurar das fronteiras, permitindo que se estabelecessem nações independentes ali, nós não faríamos; nem V. Exª nem eu. O fato é que a minha preocupação com as etnias indígenas é enorme. Tenho compromisso muito claro com essa causa. Há o limite, que, para mim, é o limite do realismo. E é aí que vejo que o General tem razão, porque foi feita a demarcação no governo passado. Era uma demarcação descontínua, terras extensas. Agora, tivemos uma demarcação que me pareceu exagerada: terras contínuas e extensas também, extensíssimas, que, a meu ver, longe de resolver o problema, Senador Heráclito, expõe os índios. Isso porque, se é uma decisão que não pode ser sustentada porque a sociedade envolvente não aceita, termina por expor, essa decisão, os índios a perigos, porque, se eles não têm como sustentar aquilo, terminam expostos a perigos, e o bom idealismo, a boa intenção se esboroa, cai por terra.

Vejo, ainda, em relação ao General Heleno... E volto a dizer que para mim é muito constrangedor ter que voltar a falar sobre esse assunto, porque pensei que nunca mais ia ter que discutir questão militar no País. Pensei que isso era coisa mesmo do tempo já vencido pela transição democrática, pela Constituinte de 88 e por tudo o que já fizemos para consolidar uma democracia neste País. Era preciso um Governo frágil e fraco como este, tíbio como este, para estarmos aqui discutindo a questão militar.

O General Heleno, que tem o direito de ter toda sua opinião de cidadão, e pode manifestá-la nas urnas, inclusive, poderia também se dirigir ao seu chefe, o Comandante do Exército, que poderia se dirigir, por sua vez, ao Ministro da Defesa, Nelson Jobim. Não vejo é que ele, que é tão cioso da hierarquia e que reclamou, com razão, junto com os demais chefes militares, Senador Paim, quando a hierarquia foi quebrada no episódio do tratamento sindical que deram à questão dos controladores... O Governo errou de novo redondamente, foi infantil, foi ingênuo, foi tolo, tratou como se fosse o Sindicato dos Metalúrgicos, quando, na verdade, havia militares em jogo. Então, a quebra da hierarquia, naquele momento, obrigou o Governo a um recuo vergonhoso. E, naquele momento, eu sei que o General Heleno ficou triste com a quebra da hierarquia.

Eu pergunto se não é uma quebra da hierarquia ele desafiar, como desafiou, o Comandante-Chefe das Forças Armadas, eleito pelo povo - contra o meu voto; espero que contra o dele também -, que é o Presidente Lula. O Presidente Lula é que não está cumprindo com o seu papel de Comandante-Chefe das Forças Armadas, porque não é chefia, porque recua delas, porque as teme, porque não as enfrenta, porque nas as disciplina e, por outro lado, não resolve os problemas básicos. Já ouvimos muito conversa. Dinheiro para isso, dinheiro para aquilo. E não vi nada que melhorasse as condições de trabalho dos militares.

Então, volto a dizer: eu assinaria, com modificações para o meu estilo, em artigo para o jornal, as preocupações do General Heleno com a questão. Mas, sinceramente, prefiro um país onde tenhamos os ministros militares nos limites que a democracia lhes impõe.

Democracia tranqüila neste País, momento democrático tranqüilo neste País é aquele em que nós temos paz nas casernas, em que temos as casernas silenciosas, em que temos as casernas cumprindo seu dever constitucional de cuidar das fronteiras, de zelar pela segurança da Pátria e, eventualmente, intervir sobre a questão da segurança pública, quando convocadas. Eu vejo que é por aí. Temos problemas graves, temos análises a fazer, temos fronteiras nevrálgicas, mas política, eu não sinto que seja o foco.

Senador Mão Santa.

O Sr. Mão Santa (PMDB - PI) - Senador Arthur Virgílio, eu sou oficial da reserva. Entendo, e disse ontem, que foi um dos melhores momentos da minha vida fazer o CPOR. Aprendi a obedecer, a mandar e ter noções de disciplina, hierarquia e amor à Pátria. Ontem, houve uma sessão aqui, em que o Senado se manifestou em apreço ao Exército brasileiro. Atentai bem! Está certo, nós devemos chamar o General. Ele não é qualquer um, não. É um general com uma das vidas mais brilhantes da história do Exército.

O SR. ARTHUR VIRGÍLIO (PSDB - AM) - Tem toda razão V. Exª.

O Sr. Mão Santa (PMDB - PI) - Esse General Heleno.

O SR. ARTHUR VIRGÍLIO (PSDB - AM) - Tenho profunda admiração por ele.

O Sr. Mão Santa (PMDB - PI) - E está certo o que ele disse: “A política indígena é caótica e lamentável”. E é mesmo. Aqui já foi dito. Caótica e lamentável. Mas, ao lado dele, nós temos que chamar aqueles dois que nos atacaram e ofenderam. E tire logo da classificação de seus amigos aquele Ministro Paulo Bernardo, que o chamou de irresponsável e de sem juízo porque votou na emenda de Paulo Paim, salvaguardando direitos. E o Luiz Marinho, que também iria quebrar a hierarquia. V. Exª foi Ministro, e nunca ousou ofender o Senado. Então, vamos chamar logo essa trinca. Aliás, na conjuntura, há uma atenuante para o brilhante General, que está preocupado com a nossa defesa - está aí o Heráclito, que é da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional e que, com muito brilho e com muita competência, a dirige -, e chamar esses dois que agrediram o Senado da República. E tire de V. Exª aquilo que outro dia ouvi, V. Exª dizer que era amigo desse Paulo... Como é o nome do homem? É Paulo... Bernardo. Porque ele atingiu V. Exª. E V. Exª simboliza o que há melhor no Senado.

           O SR. ARTHUR VIRGÍLIO (PSDB - AM) - Obrigado. Encerro, Sr. Presidente, respondendo ao Senador Mão Santa e dizendo que, de fato, tenho relação pessoal muito boa com o Ministro Paulo Bernardo e não sei se ele se dirigiu a mim pessoalmente ou ao Senado como um todo, mas, em qualquer circunstância, ofende a todos nós, e começou ofendendo ao Presidente desta sessão, Senador Paulo Paim. O Ministro Paulo Bernardo sempre foi discreto, mas todas as irresponsabilidades patrocinadas pelo PT, o Ministro votou com elas. Nos bastidores, dizia que não concordava, que o partido era exagerado - ele era moderado mesmo -, mas, na hora do voto, votava, alegando que havia o tal centralismo democrático e que seria punido se não votasse. Votou. Todas as vezes.

           Agora, o Ministro Luiz Marinho, que é uma figura simpática, o Ministro Luiz Marinho, ele poderia dar aula de pós-doutoramento em irresponsabilidade. Esse eu vi agitando, com dinheiro do FAT, aqui na porta, todas as manifestações que visavam impedir que nós mudássemos as estruturas deste País. Contra todas as reformas. Contra todas as mudanças que inclusive garantem hoje uma certa tranqüilidade econômica para o País. Então, se o Ministro Marinho considera que nós somos irresponsáveis, eu começo a ficar preocupado, porque ele entende do assunto. Ele é pós-doutor em irresponsabilidades, inclusive com dinheiro do FAT gasto em hospedagens, em manutenção de carro de som, em gasolina, em passagem aérea, para vir falar tolices aqui na porta do Congresso, dizendo que era para manter, por exemplo, o monopólio do petróleo e das telecomunicações. Ele, que hoje tem seu celular bonitão, que deve ser dez vezes mais bonito que o meu, e que não o teria, se tivesse mantido aquele quadro de estatal falida, sem dinheiro para investir.

Em outras palavras, lamento o Ministro Paulo Bernardo sair da sua sobriedade, mas não me espanta o Ministro Marinho, que nunca a teve, dela se distanciar.

Era o que eu tinha a dizer.

Obrigado, Sr. Presidente.

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