Autor
Paulo Paim (PT - Partido dos Trabalhadores/RS)
Data
10/06/2008
Casa
Senado Federal 
Tipo
Para discursar 

O SR. PAULO PAIM (Bloco/PT - RS. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Senador Geovani Borges, antes de tudo, agradeço ao Senador Cristovam, que permutou comigo, já que S. Exª é o primeiro signatário do requerimento, que também assinei, para realização desta homenagem ao nosso querido e sempre líder - seus ideais continuam a iluminar nossos caminhos -, o engenheiro, ex-Governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, Leonel de Moura Brizola.

Eu começaria dizendo que até hoje não entendo, Senadores Geovani e Mesquita Júnior, como é que o nosso querido Governador, Senador Cristovam, não chegou à Presidência da República. E, ao tempo em que penso isso, vejo um momento muito difícil para o nosso Estado, e, na oportunidade, homenagear o Governador Leonel Brizola, infelizmente numa data que lembra a sua morte, faz com que todo o povo gaúcho fique com muita esperança de que novos líderes com a mesma estirpe, com a mesma raça, com a mesma fibra, com o mesmo caráter de Leonel Brizola iluminem os caminhos do Rio Grande.

Sr. Presidente, os gaúchos que se acostumaram a sorver um chimarrão bem cevado, nas tardes de um dia qualquer, carregam a sina da solidão dos Pampas, lá onde o meu querido Brizola cavalgou inúmeras vezes. Conversam consigo nesse ritual e observam a vida num transbordar de pensamentos e sentimentos.

Ontem, não cevei nenhum mate, mas, desta tribuna, refleti sobre a situação do Rio Grande e me pus a pensar, depois, qual seria a melhor maneira de homenagear um homem que eu admirava tanto, Leonel de Moura Brizola, cujo quarto ano de falecimento é marcado nesta sessão.

Estas paredes do Senado, Senador Mesquita Júnior, já me ouviram - não só a mim, mas a diversos Senadores - falar de Leonel Brizola. As paredes e o teto do Senado já sabem de tudo; são testemunhas dessa bonita história que precisa ser contada para as novas gerações - e, para mim, a história de Leonel Brizola deveria ser contada de geração em geração.

Hoje, Sr. Presidente, gostaria de me dirigir não somente ao Plenário, mas gostaria de me dirigir a ti, Leonel Brizola. Como que em um réquiem, eu quero fazer esta homenagem.

Nós nos acostumamos, querido Brizola, a te ver usando um lenço encarnado no pescoço como se fosse uma bandeira, uma bandeira da liberdade tremulando campo afora. Para nós, gaúchos, isso tem um valor estóico e atávico.

Deus deu a Brizola a sina de emparelhar horizontes de ideais nas mais destemidas missões que um patriota poderia receber de seu povo e de sua gente.

Deputado Vieira da Cunha, é uma satisfação vê-lo aqui. Na minha fala, citarei algo que vi em seu gabinete. Registro sua presença. Falarei sobre isso aqui.

Eu dizia, do Brizola, que isso só pode ser coisa da tal genética. O pai de Brizola, guerreiro federalista da Revolução de 1893, esteve ao lado dos maragatos de Gaspar Silveira Martins.

Se eu pudesse aqui falar, já que estou fazendo uma homenagem direta, como um réquiem, a Brizola, buscaria uma canção do nosso inesquecível Passarinho. E o pai do Brizola diria a ele neste momento: “Este guri saiu igualzito ao pai”.

Na de 23, o seu “tata”, como falamos lá no Sul, meu querido Vieira, tomba peleando nas tropas do comandante Leonel Rocha. A tua mãe, meu querido Leonel, Dona Onívia, também foi uma guerreira daquelas que se levantavam a tempo de acordar o sol para limpar o pátio e depois ir semear aquilo que estava no rumo do seu caminho. Aprendeste com ela, meu querido Brizola, as tuas primeiras letras.

Senador Cristovam Buarque, V. Exª é o autor desta sessão. Eu dizia, aqui, que só estava falando por permuta com V. Exª, que me permitiu iniciar esta sessão.

O tempo amigo foi passando e quando chegaram os anos 30, tu, Brizola, já guri de calças curtas, empunhavas uma espada de taquara, montado num cavalo de sonhos, e gritavas aos quatro cantos do Rio Grande: Eu sou o capitão Leonel!”

É, meu querido Brizola, como são as coisas neste mundo! Uma vez eu disse aqui mesmo, neste plenário, que a infância de quem perde o pai muito cedo, como foi o teu caso, por muitas vezes é triste, ou na maioria das vezes o é. Mas a infância de um menino que um dia entrará para a história e fará com que homens, mulheres, velhos, jovens, negros, pessoas com deficiência, índios, minorias discriminadas chorem e tenham orgulho do seu País, da nossa Pátria maior, é a coisa mais linda que o destino poderia propiciar a cada um de nós.

Brizola velho de guerra, que um dia foi palanque fincado nas planuras da América Latina, estás ao lado de Tupac Amaru, Simon Bolívar, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Sepé Tiarajú, e por que não lembrar de Getúlio Vargas e tantos outros, meu Líder do PDT, companheiro Deputado Vieira.

Em cada canto deste País, onde existe um diretório do PDT, onde existe uma trincheira do PDT, como é seu gabinete, Deputado Vieira, lá estão os versos do poeta chileno Pablo Neruda, e que eu já li aqui uma vez, mas hoje quis repetir, em homenagem ao Brizola e ao Rio Grande, que está num momento muito difícil, e o Deputado Vieira está acompanhando.

Diz Pablo Neruda a Brizola, num poema escrito para o Brizola:

Novas ilhas, Novos rios, Novos vulcões fazem de nosso continente, Uma nova geografia. Queremos nova agricultura, Outras forças juvenis, Uma sociedade mais pura, Novos protagonistas da história que está nascendo, E que temos o dever de construir. Quem pode estar contra a vida? [Aí diz o Pablo, numa parte que considero das mais bonitas] Celebremos a chegada de Leonel Brizola, No Cenário da América, Como uma deslumbrante encarnação, De nossas esperanças. Estamos cansados da rotina da miséria, Da ignorância, de injustiça econômica. Abramos o caminho àquele que encarna hoje, A possível construção do futuro.

Palavras do Neruda para o nosso querido Brizola. Vieira, isso eu disse um outro dia e fiz questão de dizer hoje, nesse momento tão difícil para o nosso Rio Grande.

Eu te considero. Brizola, se há importância no que falo, o maior político da minha geração. Sem dúvida alguma, foi você o mais importante e determinado homem público da República desde Getúlio Vargas.

Quando eu tinha 10 anos, ouvi pela primeira vez a tua voz. Tu falavas na Rede da Legalidade pelos microfones da Rádio Guaíba de Porto Alegre e pedias para que o povo brasileiro resistisse pela manutenção constitucional e que dessem posse a João Goulart na Presidência da República. Naqueles dias frios de 1961, muitas vezes eu, ainda moleque, parei de jogar bolita e soltar pandorga para, junto do meu velho pai e minha mãe, já falecidos, todos brizolistas, escutar os teus recados na Rádio da Legalidade, recados que enfeitiçavam a todos num patriotismo enlouquecido, como os poetas assim definem.

Senador Cristovam Buarque, certa feita, encontramo-nos no Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro, em 1984, tu eras o Governador, Brizola. Estávamos numa comissão de sindicalistas. Os mais experientes já me lembravam: “Olha, Paim, seja rápido na conversa, pois o Brizola encanta a todos e ainda temos que ir para Minas Gerais”. Dito, mas não feito. Brizola seduziu a todos nós com aquela sua fala mansa e tranqüila, lembrando, em cada frase, um pouco da tradição do nosso povo do Rio Grande. Essa conversa, lembro aqui, foi regada ao chimarrão; e fomos terminá-la no apartamento dele em Copacabana.

Minas Gerais ficou para trás; acabamos chegando lá quase que dois dias depois. Esse era o Brizola que encantava a todos.

Assim tu foste Leonel, ou melhor, assim tu continuas a ser para nós outros. As tuas idéias estão cada vez mais vivas. O teu sonho de um Brasil livre e soberano é o que todos nós perseguimos.

Ontem, antes de dormir, Senador Cristovam Buarque, mais uma vez recordei Santo Agostinho:

Na eternidade nada passa, tudo é presente, o passado vem empurrado por um futuro, e o futuro vem atrás de um passado. Quem prenderá o coração do homem para que pare e veja como, estando imóvel, a eternidade governa os tempos futuros e passados, sem ser nem futuro nem passado.

Assim eu te considero, Brizola, meu querido Brizola velho de guerra.

Pode ter certeza, Leonel Brizola, e fiz minha fala desde o início como um réquiem a ele, que aqui, no fundo do coração deste Senador negro do Rio Grande, as tuas idéias haverão de me acompanhar sempre, sendo diretrizes para caminhada de todos homens de bem.

Neste momento tão difícil do meu Rio Grande, espero que a figura de Leonel Brizola ilumine os caminhos de toda a nossa gente.

Viva sempre presente Leonel de Moura Brizola!

Viva o nosso Rio Grande!

Viva o nosso Brasil!

Muito obrigado a todos. (Palmas.)