Autor
Geovani Borges (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/AP)
Data
20/08/2008
Casa
Senado Federal 
Tipo
Para discursar 

O SR. GEOVANI BORGES (PMDB - AP. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Agradeço a generosidade de V. Exª “no mínimo”, porque pode ter “o máximo” também.

Sr. Presidente, Srªs Senadoras e Srs. Senadores, ouvintes e telespectadores da Rádio e TV Senado, hoje, diferentemente do que eu fiz ao longo desses quatro meses, não subo a esta tribuna para brigar por uma idéia, defender uma causa ou para expor um problema, Sr. Presidente.

Nesse período, por 7 vezes fui Presidente da Mesa e de uma reunião e tive o prazer de conduzir os trabalhos das sessões plenárias que V. Exª, como membro titular da Mesa, preside nesta data de hoje. Relatei 11 matérias e apresentei 5 na qualidade de autor. Em relação a pronunciamentos, demonstrei fôlego de nadador olímpico: foram 54 este ano, além de 7, em 2006, totalizando 62 pronunciamentos com este aqui, no qual começo a ganhar tempo e a procurar jeito de encerrar à altura a minha passagem por esta Casa.

Ainda ontem, eu confessava, aqui da tribuna, que a memória do meu pai é muito mais do que um retrato na estante. É uma saudade muito grande que anda comigo. Miguel Pinheiro Borges, meu pai, Sr. Presidente, passava a noite treinando e desenhando o meu nome numa papeleta, para poder votar em mim, pois era semi-analfabeto, apesar de sua biografia apresentá-lo como um estadista, de tão viva e participativa sua atuação empresarial e política no Estado do Amapá.

E a bênção à minha mãe, Dona Cícera Pinheiro Borges, é um ritual que repito diariamente, nem que seja ao telefone. Os conselhos dela ainda hoje confortam o menino que fui um dia.

Éramos 17 filhos; fomos 13; somos 10. Unidos e amigos. Geová, o fiel escudeiro; Geodeth, a primeira das irmãs; Gilvam, o nosso Senador querido líder político da família, ex-Deputado Federal e atualmente Senador da República; Ronaldo, primeiro Vice-Governador do Estado do Amapá; Reginaldo, grande jornalista e analista político; Geonith, empresária; Nilson, economista e artista; Dilson, nosso odontólogo; e Dalto, o caçula da família.

Nilda, Nete, Naldo e o papai já partiram, mas não sem deixar a energia, a paz, a segurança, a experiência, necessárias ao caminhar.

Pois bem, com meu pai aprendi logo cedo - eu, filho mais velho que sou - que não vim ao mundo a passeio. Vim a trabalho.

Ainda menino de calças curtas, havia em mim um componente de inquietação, uma resistência silenciosa aos paradoxos que se seguiam no meu Amapá: terra de um lado, água do outro; rico de um lado, tão pobre de outro - Macapá, a única cidade banhada pelo rio Amazonas.

A resistência desaguou na vida pública, como o rio que corre para o mar, e, assim, em 1976, há 32 anos, eu me elegia Vereador por Macapá, capital do meu Amapá, na época Território Federal, vindo a ser Presidente da Câmara Municipal.

Em 1982, desembarquei em Brasília, onde cumpri o meu primeiro mandato de Deputado Federal.

Em1986, repeti a dose. E tive o orgulho histórico, Sr. Presidente, de ser Deputado Constituinte. Já disse aqui que, agora, passadas duas décadas, pode até ser fácil, e não de todo injusto, apontarem erros e equívocos na Carta Magna do nosso País. Mas devo dizer a V. Exªs que a nossa Constituição representou para o Brasil um importante passo na caminhada que deixava para trás anos de ditadura militar e rumava na direção de um Estado democrático. Aliás, historiadores e cientistas sociais são unânimes em afirmar que um dos fatos mais significativos da recente história política de nosso País se deu durante o processo constituinte de 1987-1988, que resultou na promulgação da Constituição de 1988.

Ao longo daqueles anos de Câmara Federal, mesmo com o trabalho diuturno da Constituinte, apresentei 153 proposições de minha autoria e destaco, com especial carinho, o Projeto de Lei nº 907/83, que criou a Universidade Federal do Amapá.

Sabedor da importância do ensino, como um todo, e da graduação em particular, não me conformava com o fato de o que meu então Território não tivesse uma universidade federal. O Senador Sarney era o Presidente da República, e -vejam V. Exªs as voltas que o destino dá - e foi justamente ele, hoje representante do Amapá, quem sancionou e regulamentou a Lei nº 7.530, de 29 de agosto de 1986, que criou a Universidade Federal do Amapá, que hoje funciona a pleno vapor - projeto de nossa autoria.

Depois de oito anos, Sr. Presidente, em Brasília, como todo telúrico, que não se dissocia da sua terra natal, voltei para o Amapá. O Município de Santana, esta é a verdade, sempre foi a minha menina-dos-olhos. Com a generosidade de santanenses, elegi-me Prefeito em 1992. Ali arregacei as mangas e trabalhei como nunca. Lembro-me bem de que só de asfalto foram mais de 70 quilômetros onde o barro e a lama, típicos do clima tropical chuvoso, impediam a livre passagem.

Agora, chegou a hora de voltar. Sou novamente candidato a Prefeito de Santana. José Américo de Almeida tem uma máxima que me parece sob medida para o momento. Diz assim: “Volto. Voltar é uma forma de renascer. E ninguém se perde na volta.”

É hora de voltar, Srªs e Srs. Senadores. Estou diante de três momentos delicados: o da despedida, o do agradecimento e, logo ali na frente, o do julgamento. Despedir-se é fazer tiro ao alvo com o futuro e a imprecisão do amanhã. Agradecer é correr o risco de apequenar o sem-preço. E o julgamento do povo, ora, esta é uma Casa política por excelência, e todos que estão nela sabem que não existem exames seguros, para detectar, com antecipação, a gravidez das urnas. A sabedoria política aconselha a acompanhá-la, com atenção e respeito, até o nascimento - ou a apuração - do primeiro ao último voto.

No entanto, Sr. Presidente, por dever de justiça, voltando à despedida e ao agradecimento, lembro que assumi o mandato de Senador em 2006 e novamente agora, em 2008, e não tenho vergonha de dizer que, nas duas vezes, levo a forte impressão de que mais aprendi do que ensinei.

Esta Casa é uma ilha de competência. Não há indolência, não há depois, não há amanhã, não há hora do almoço. Não há nem fim de semana que justifique um dia de folga, se a necessidade ditar o contrário. Os funcionários são extremamente competentes. Na grande maioria das vezes, muito dedicados e, invariavelmente, muito corteses. Todos. Os seguranças, passando pelos recepcionistas, subindo ou descendo com os ascensoristas, e os assessores: de comissão, jurídicos, parlamentares...

Claro que vindo para ficar quatro meses, não mexeria na estrutura do gabinete. Mas esses quatro meses me serviu para eu ter certeza de que não mexeria mesmo nos funcionários do gabinete, senão para aumentar-lhes o salário, se possível fosse, a fim de que eles soubessem o quanto valorizo o profissionalismo e a amizade de cada um deles.

A todos vocês, por meio do nosso chefe de gabinete, Dr. Aquino, servidor de carreira desta Casa, o meu muito obrigado.

O meu muito obrigado especial à Dorinha e à Claudia, que neste momento nos prestigia com a sua presença aqui no plenário, na tribuna dos jornalistas. Muito obrigado, Claudia, pela atenção, pela cortesia, pela gentileza e, acima de tudo, pela dedicação. A Dorinha também foi uma fiel escudeira nos nossos objetivos e metas.

Aqui desta tribuna, quero ainda, Sr. Presidente, fazer uma homenagem especial aos funcionários desta Casa, na pessoa da secretária da Mesa, a doce e competente Drª Cláudia Lyra.

Quero, ainda, agradecer aos meus Pares, inclusive da Bancada do meu Estado, o Senador Sarney, o Senador Papaléo, pelo alto nível das discussões aqui travadas e pelo espírito lhano e democrático que os caracteriza. São lições que, com certeza, não esquecerei tão cedo.

Esta Casa, por fim, proporcionou-me um aprendizado fantástico pelo qual sou eternamente grato. Dentro das minhas sabidas limitações, porém, procurei fazer o meu melhor e honrar o mandato, o cargo e a oportunidade em que fui investido. Espero, sinceramente, não tê-los decepcionado.

Afinal, foi aqui neste Senado que pude entender a sutil diferença da paixão como ingrediente de juízo de valor histórico e a paixão como semente propulsora da ação histórica. E descobri que é mais importante agir movido pela paixão a uma causa do que julgar o que foi feito motivado pela paixão da vingança, da mágoa e do rancor. No meu dicionário político, não há mais espaço para sentimentos vis.

Por fim, Sr. Presidente, quero abrir um parênteses especial a Jucileide, Rafael e Geovani Júnior, minha mulher e meus dois filhos. Família que constituí, alicerce que me sustenta, amores que me acompanham, apoio que nunca me faltou.

Muito obrigado a todos.

Era o que eu tinha a dizer, Sr. Presidente. Era quase tudo o que eu tinha a dizer.

Muito obrigado pelo tempo e pela generosidade de V. Exª.