Pronunciamento de Aloizio Mercadante em 10/02/2009
Discurso durante a 4ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal
Comemoração pelo transcurso dos vinte e nove anos de fundação do Partido dos Trabalhadores.
- Autor
- Aloizio Mercadante (PT - Partido dos Trabalhadores/SP)
- Nome completo: Aloizio Mercadante Oliva
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
HOMENAGEM.
POLITICA PARTIDARIA.:
- Comemoração pelo transcurso dos vinte e nove anos de fundação do Partido dos Trabalhadores.
- Aparteantes
- Arthur Virgílio, Cristovam Buarque, José Nery, João Pedro, Marcelo Crivella.
- Publicação
- Publicação no DSF de 11/02/2009 - Página 1196
- Assunto
- Outros > HOMENAGEM. POLITICA PARTIDARIA.
- Indexação
-
- HOMENAGEM, ANIVERSARIO DE FUNDAÇÃO, PARTIDO POLITICO, PARTIDO DOS TRABALHADORES (PT), REGISTRO, HISTORIA, COMPROMISSO, MEMBROS, IDEOLOGIA, UNIÃO, RESISTENCIA, DITADURA, REGIME MILITAR, LIDERANÇA, COMUNIDADE, ATUAÇÃO, IGREJA, SINDICATO, INTELECTUAL, JUVENTUDE, MOVIMENTO ESTUDANTIL, MOVIMENTO TRABALHISTA, LEITURA, TRECHO, MANIFESTO, DIRETRIZ, TRANSFORMAÇÃO, VALORIZAÇÃO, INCLUSÃO, REFORÇO, JUSTIÇA SOCIAL, DEMOCRACIA.
- DETALHAMENTO, HISTORIA, CRESCIMENTO, PARTIDO POLITICO, PARTIDO DOS TRABALHADORES (PT), AVALIAÇÃO, LUTA, ESPECIFICAÇÃO, VITORIA, DEMOCRACIA, ELEIÇÃO, LUIZ INACIO LULA DA SILVA, PRESIDENTE DA REPUBLICA, CONTRIBUIÇÃO, CONSTRUÇÃO, BRASIL, ESTADO DEMOCRATICO, CONCILIAÇÃO, CRESCIMENTO ECONOMICO, DISTRIBUIÇÃO DE RENDA, OPORTUNIDADE, COMEMORAÇÃO, REITERAÇÃO, COMPROMISSO.
- ANALISE, FUNÇÃO, PARTIDO POLITICO, PARTIDO DOS TRABALHADORES (PT), HISTORIA, BRASIL, AMERICA LATINA, DIRETRIZ, LUTA, DEMOCRACIA, TRANSFORMAÇÃO, SOCIEDADE, REPUDIO, VIOLENCIA, BALANÇO, APRENDIZAGEM, ATUAÇÃO.
| SENADO FEDERAL SF -
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O SR. ALOIZIO MERCADANTE (Bloco/PT - SP. Como Líder. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srs. Senadores, há exatos 29 anos eu participada de uma reunião histórica. Meu sentimento, já naquela época, era este, mas, por mais que nós pudéssemos tentar projetar o futuro, dificilmente nós conseguiríamos enxergar tanto tempo depois e assistir a tanta coisa que mudou no Brasil, e com a minha geração, por aquele compromisso de um punhado de militantes que se reuniram no Colégio Sion, em São Paulo, em 10 de fevereiro de 1980.
Ali estava parte da esquerda, que tinha resistido e sobrevivido à ditadura militar, uma militância heróica, sofrida. Muitos tinham sido presos, torturados, perseguidos, exilados e voltavam ao Brasil, lutando pela anistia, e com uma agenda de transformação e com muitos sonhos na cabeça.
Estavam ali também lideranças importantes das Comunidades de Base. As Comunidades de Base tinham sido uma dimensão relevante de resistência à ditadura militar, principalmente porque, no espaço intersecção entre a Igreja - as igrejas, eu diria - e os movimentos sociais, a resistência democrática se organizou. Não tínhamos, naquele época, o direito a sindicatos livres, a partidos, a entidades da sociedade civil. Portanto, as igrejas eram o espaço de acolhimento, de proteção e foram muito importantes na resistência democrática.
Estavam ali também intelectuais que resistiram na sua integridade, no seu pensamento, nos seus valores e que participaram daquele momento histórico. Lembro-me de Florestan Fernandes, que, muito mais tarde, seria Deputado comigo; de Paulo Freire, um educador da liberdade; de Perseu Abramo, que vinha de um trabalho e de uma família de longa tradição de esquerda, para citar alguns muito próximos, entre tantos que lá estavam.
Finalmente, estava ali uma parcela da juventude que tinha lutado no movimento estudantil, lutado pela democracia, lutado contra as injustiças, por uma sociedade diferente. Todos os esses segmentos, eu diria, eram liderados, já naquele tempo, por alguns trabalhadores, líderes sindicais que emergiram das grandes greves operárias do ABC, em especial a figura de Luiz Inácio Lula da Silva, que reunia, que agregava o novo sindicalismo, um sindicalismo de luta, um sindicalismo que rompia com o peleguismo, com aquelas reuniões oficiais e buscava um novo caminho, um caminho de transformação, um caminho de democracia, um caminho de luta.
Nascia ali, em 10 de fevereiro de 1980, nesta reunião de que participei, o Partido dos Trabalhadores. Começávamos nosso Manifesto de Fundação assim:
O Partido dos Trabalhadores surge da necessidade sentida por milhões de brasileiros de intervir na vida social e política do País para transformá-la. A mais importante lição que o trabalhador brasileiro aprendeu em suas lutas é a de que a democracia é uma conquista que, finalmente, ou se constrói pelas suas mãos ou não virá.
A grande maioria de nossa população trabalhadora, das cidades e dos campos, tem sido sempre relegada à condição de brasileiros de segunda classe. Agora, as vozes do povo começam a se fazer ouvir por meio de suas lutas. As grandes maiorias que constroem a riqueza da Nação querem falar por si próprias. Não esperam mais que a conquista de seus interesses econômicos, sociais e políticos venha das elites dominantes. Organizam-se elas mesmas para que a situação social e política seja a ferramenta da construção de uma sociedade que responda aos interesses dos trabalhadores e dos demais setores explorados (...).
Dizíamos também naquela época:
O PT quer atuar não apenas nos momentos das eleições, mas, principalmente, no dia-a-dia de todos os trabalhadores, pois só assim será possível construir uma nova forma de democracia, cujas raízes estejam nas organizações de base das sociedades cujas decisões sejam tomadas pelas maiorias.
Queremos, por isso mesmo, um partido amplo e aberto a todos aqueles comprometidos com a causa dos trabalhadores e com o seu programa. Em consequência, queremos construir uma estrutura interna democrática apoiada em decisões coletivas, cuja direção e programa sejam decididos em suas bases.
Portanto, já nesse manifesto apontávamos esse compromisso de transformação, de valorização e participação dos debaixo, dos trabalhadores, de fortalecer as lutas sociais e de construir um partido democrático. Foi assim a história do PT, um partido marcado por correntes de pensamento, por tendências, pelo direito às tendências. É um dos poucos partidos no Brasil cuja direção política, desde o pequeno diretório municipal até o diretório nacional, é eleita pelo voto secreto e direto de todos os filiados. Hoje temos quase um milhão e meio de filiados. O partido cresceu muito, transformou-se em um partido de massas, foi o partido mais votado na Câmara dos Deputados nas últimas eleições, reelegeu um Presidente, com mais de 20 milhões de votos de vantagem. E tem hoje um Presidente da República com o apoio de 84% da população
Esses 24 anos de luta não foram fáceis. Sofremos muitas perseguições, discriminações, cometemos muitos erros. Tivemos imensas dificuldades, no início, de buscar construir um caminho coerente, sólido, inspirado nos valores desse manifesto, de transformar a sociedade, de criar um Brasil mais justo, mais solidário, mais fraterno. Mas toda essa geração de militantes, a maioria anônimos, é de trabalhadores do campo que estão com a enxada na mão, trabalhadores de fábrica, que batem cartão e sujam o macacão de óleo todos os dias, intelectuais que usam (professores, docentes) sua caneta como instrumento de trabalho, o seu lápis, o seu giz, na sala de aula. Foi esse movimento social e histórico, que reuniu e agregou esse sentimento de mudança no Brasil, que conseguiu eleger um Presidente da República, cuja própria biografia e história são uma ruptura política, uma ruptura profunda. O Presidente Lula ser eleito Presidente da República não foi uma vitória qualquer...
O Sr. Arthur Virgílio (PSDB - AM) - Permite, Senador...
O SR. ALOIZIO MERCADANTE (Bloco/PT - SP) - Acho que mostra uma vitória da democracia, que é possível mudar, que nós podemos construir um País diferente.
Logo a seguir, já concederei os apartes.
Mas eu queria dizer, pessoalmente, eu que estive lá nesse primeiro dia, desde esse primeiro momento, 29 anos depois, fazendo o balanço e analisando de forma muito transparente tantas dificuldades, tantos erros, tantos sacrifícios que muitos de nós tiveram que superar, especialmente com as nossas famílias, porque construir um caminho como esse, lá na época da ditadura, e chegar até aqui... Eu diria que valeu a pena.
O que realizamos, especialmente nesses sete anos do Governo do Presidente Lula, mas também em muitos Municípios que governamos, em muitas entidades sindicais, em muitas lutas sociais, ajudou a mudar o Brasil para melhor, ajudou a aprofundar a democracia, a participação popular, a valorizar a diversidade, o debate, o pluralismo das ideias e, sobretudo, a construir um Brasil que olhe para o crescimento econômico sustentável, com distribuição de renda, com inclusão social, com participação política, com participação popular.
Eu diria que o Governo do Presidente Lula é uma síntese de tudo que a esquerda construiu neste País no passado, mas é também o início de tudo o que virá depois. Ele é um referência obrigatória para a nossa história política.
Por isso, hoje, dia 10 de fevereiro, como Líder da nossa bancada, faço questão de subir a esta tribuna para lembrar os sonhos que, há 29 anos, eu tinha na juventude, eu e tantos outros - está aqui o Senador Paim que participou de toda essa caminhada, o Senador Cristovam, que também ajudou muito nesse processo de construção -, e comemorar, celebrar e reafirmar os nossos valores, a disposição de corrigir nossos equívocos e também de continuar lutando, inspirado por esse manifesto, num Brasil mais justo, mais solidário, mais fraterno.
Ouço o Senador Cristovam Buarque.
O Sr. Cristovam Buarque (PDT - DF) - Senador Aloizio Mercadante, em primeiro lugar, quero dizer que eu estava estranhando que ainda não tivesse havido nenhum discurso hoje sobre essa data, sobre esse aniversário. Segundo, dizer que eu tenho inveja dos que estavam naquele dia; eu ainda estava fora do Brasil, cheguei pouco tempo depois. Se eu estivesse no Brasil, estaria naquela reunião. Mas quero falar como um estudioso de História e como militante que fui do PT. Como estudioso de História, não há dúvida de que o PT é uma marca que não se vê, provavelmente, em nenhum outro momento da história de outros países. Um partido que surge da base, ainda durante um regime militar, como o resultado de sonhos que pareciam absolutamente impossíveis, naquele momento, de virem a acontecer. Alem disso, um partido que junta como uma grande frente de esquerda, não como um grupo monolítico preso a uma única forma de ver o mundo e a um conjunto de propostas amarradas. O PT, portanto, no seu nascimento, já é algo diferente. E esta história é mais diferente ainda: ninguém imaginava que esse pequeno grupo de pessoas se transformaria no movimento em que se fez o PT, na organização em que se fez o PT e que levaria à Presidência da República um trabalhador nordestino, retirante, sem nenhuma das características da elite dirigente brasileira, que, na Presidência, se comportaria com dignidade e com competência, como os da elite se comportaram. Como militante, quero dizer que tenho orgulho de o meu primeiro partido ter sido o PT. Tenho orgulho de ter militado, de ter sido eleito pelo PT como Governador e como Senador. Eu não teria sido eleito, sinceramente, se não fosse a militância do PT no Distrito Federal. Também tenho, como militante, o reconhecimento de que, nesse período, o Governo Lula se comportou com responsabilidade na economia, como se esperava; foi generoso na política social; a meu ver, fez uma inflexão na política externa; e conseguiu aglutinar o País ao ponto de que quase não se vê oposição. Lamento apenas que tenha havido, nesse período, um retrocesso ideológico. O Presidente aglutinou tanto que deixou de haver nitidez ideológica nos diversos grupos que aí existem. Por um lado, é positivo, porque aglutina, ao contrário do que vemos em outros países da América Latina, que se dividiram. Por outro lado, quebrou o encanto das ideias e dos sonhos. Mas quero deixar claro aqui o lado positivo desse fenômeno histórico e político que é o PT e do que ele fez até aqui, que já justifica a sua história dos 29 anos. Concluo com uma palavra de esperança: espero que, nos próximos anos, o PT retome, além dessa mística, dessa formidável militância que tem, compromissos claros de opções por projetos bem claros e concretos. Que essa competência da aglutinação não desapareça com os próximos presidentes, quando forem do PT, mas que , ao lado da capacidade de aglutinar, venha também a firmeza de opções claras por alguns objetivos. E, nesses objetivos, V. Exª sabe, sempre ponho a revolução pela e na educação. Finalmente, um grande abraço a todos aqueles que considero até hoje meus companheiros, como V. Exª; meus companheiros de luta, meus companheiros de reflexão. Tenho o maior orgulho de ter sido um companheiro filiado ao mesmo partido e de continuar companheiro, mas filiado a outro partido, como estou hoje. Parabéns por ter trazido esta data para a tribuna!
O SR. ALOIZIO MERCADANTE (Bloco/PT - SP) - Agradeço, Senador Cristovam. V. Exª foi e continuará sendo um companheiro que ajudou a construir essa caminhada. Independentemente da opção partidária, que acho que é própria de uma conjuntura muito específica, acho que a militância do PT lhe vê como companheiro, como parte desse projeto, como um grande Senador da República e, sobretudo, como uma das vozes mais competentes e mais compromissadas com a educação. Acho que, nisso, seu mandato, sua história de vida e sua militância contribuíram decisivamente para nosso partido e para o Brasil.
Senador Arthur Virgílio.
O Sr. Arthur Virgílio (PSDB - AM) - Prezado Líder Mercadante, o PT completa hoje dezenove anos de idade.
O SR. ALOIZIO MERCADANTE (Bloco/PT - SP) - Vinte e nove.
O Sr. Arthur Virgílio (PSDB - AM) - Vinte e nove, perdão! O PSDB é que fez 21. Devo, antes de mais nada, recordar a V. Exª que fui modesto participante da célebre reunião de São Bernardo, aquela em que a chamada esquerda do PMDB fez tudo para o PT não nascer naquele momento, porque acreditávamos que o melhor era juntar as oposições todas para enfrentarmos o regime autoritário, que já demonstrava seus primeiros sinais de fraqueza. Não foi possível. Nasceu o PT. Tive a honra de acompanhar o atual Presidente Lula, quando ele era líder sindical, processado com base na Lei de Segurança Nacional por suposto falso delito cometido no Acre, julgado na Auditoria Militar de Manaus. É uma coisa estranha, porque, hoje, lidero um partido que faz oposição a ele; e ele é apoiado por muitas pessoas que disputam cargos no seu Governo e que, naquele momento, certamente, torciam fervorosamente para sua condenação. E o meu dever de democrata era defendê-lo naquele momento, solidarizar-me com ele. Também sou de um partido que tem uma história, ou seja, 21 anos de idade apenas e já foi por duas vezes Presidente deste País. O seu, com 29, por duas vezes é Presidente deste País. Temos uma relação de adversidade, que nasce, em boa medida, do fato de seu partido ser polo e do meu ser polo também. Em torno deles se agregam partidos que, por afinidades quaisquer, que não me cumpre aqui discuti-las, visam chegar ao poder através de um polo ou do outro polo. Senador Mercadante, em 1997, se não me engano...
(Interrupção do som.)
O Sr. Arthur Virgílio (PSDB - AM) - Obrigado, Presidente! ... fiz um discurso pelo meu partido durante o aniversário do PT. V. Exª, certamente, era meu colega. E eu disse que o PT chegaria ao poder. Esperava que não na eleição seguinte; e não chegou. Mas eu sabia que, mais horas, menos horas, chegaria ao poder. Estava escrito. Era da natureza. Vejo que seu partido tem contradições a resolver, como o meu tem contradições a resolver. O seu tem a contradição de uniformizar, pelo lado da democracia, todas as suas tendências. O meu haverá de ter seus defeitos, e não me cumpre aqui julgar esses defeitos. Cabe, talvez, a V. Exª fazê-lo. Mas eu gostaria de dizer que, quando líder do governo passado, eu dialogava para dentro do Governo e dizia que o PT tinha vários valores. Um deles era que o PT servia de anteparo a movimentos do tipo MST àquela altura. Eu dizia que, se não tivesse o PT, partido legal, a segurar essa coisa que toma força e que a gente não sabe como começa nem como acaba, talvez houvesse uma agitação muito maior e mais desorganizada contra o governo que eu representava como líder. Sempre fui contra tirar o PT da Mesa. As pessoas diziam: “Ah, o PT disputou com o candidato; então, quebrou a proporcionalidade”. Eu dizia: “Não, não. Prefiro o PT dentro da Mesa, partícipe das discussões, a vê-lo na guerrilha no plenário, aguerrido”, como aquela bancada de que V. Exª participava e que chegou a liderar. Em outras palavras, desejo que o PT resolva muito bem suas contradições e que continue sendo um adversário forte, uma alternativa de poder. E será. Não sei quando, não sou pitonisa, mas imagino que um partido forte como o seu é capaz de superar as vicissitudes por que passou. E, para mim, com quanto mais sinceridade observe para dentro das suas vagas internas as suas próprias vicissitudes, mais esse partido se credenciará a outros voos na vida pública. Por enquanto, acho que o seu e o meu, os dois, já fizeram muito. Seu partido chegou ao poder através de um operário do peso de Luiz Inácio Lula da Silva. O meu chegou ao poder com 37 Deputados Federais apenas, através da figura de um sociólogo de renome internacional, que veio para deixar uma obra, que foi a estabilidade econômica, a mudança para melhor da economia brasileira, a consolidação da democracia.
Em outras palavras, se alguém pensa que a adversidade que nos separa me leva a desmerecer o valor do seu partido, está muito enganado. Não preciso do sectarismo para reconhecer o mérito de quem governa o País há oito anos e de quem vem governando o País sem que transtornos maiores sobrevenham sobre as cabeças brasileiras. Portanto, se V. Exª me permite, eu gostaria também de participar dessa comemoração, por entender que temos que trazer para esta Casa um debate de nível elevado, em que saibamos repor nos verdadeiros lugares as situações brasileiras. Seu partido é um grande partido. Há quem diga: “O PMDB é o maior”. Não quero discutir isso. Outros dizem: “Não é o maior”. Não sei se o PSDB é maior que o PT. Se formos medir no computador quem tem mais prefeito, o PSDB; mais deputados federais é o partido de V. Exª; mais Senadores é o PSDB. Entretanto, digo que os dois são muito grandes e são rivais nisso, porque, para mim, são os dois maiores partidos brasileiros na medida em que os dois disputam sempre, inclusive um contra o outro, há cinco eleições, o poder. Há cinco eleições disputam o poder. Isso não é pouco, porque isso impõe aos nossos partidos bancadas menores: menos governadores, menos prefeitos, até pelo dever que temos de ter uma identidade. V. Exªs, para um lado; e nós, por outro lado, enfim. Portanto, hoje não tenho como deixar de render minhas homenagens e desejar vida longa, insistindo em que, se há uma contradição que observo, é a contradição de o PT unir suas correntes no mesmo fervor democrático, que sei que é o de V. Exª. Mas vida longa ao PT é o que desejo sinceramente.
O SR. ALOIZIO MERCADANTE (Bloco/PT - SP) - Senador Arthur Virgílio, a intervenção de V. Exª tem um significado muito especial nessa celebração dos 29 anos do nosso partido, o Partido dos Trabalhadores. Primeiro, porque concordo integralmente: o PT cumpriu o papel histórico - V. Exª destacou isso - de evitar que o Brasil caminhasse para a luta armada, para as radicalizações políticas que se espalharam ao longo desses 29 anos por vários países da América do Sul. E nosso êxito, como partido, nossa atitude de disputar na democracia ajudou a inspirar movimentos como os sandinistas, na Nicarágua, por exemplo, que chegaram ao poder pela primeira vez pelas armas, mas saíram do poder pelos votos e voltaram depois eleitos pelo povo. A ideia da alternância, a ideia do pluralismo, a ideia da democracia como valor universal e permanente, o Estado de direito democrático, a cidadania, esses valores que o Brasil hoje tem consolidado se devem a lideranças como V. Exª, que sempre estiveram ao lado da democracia. Outros serviram à ditadura, mas, em algum momento, optaram pela democracia. Outros ainda, desde a juventude, tiveram essa coerência na luta democrática. O nosso partido nasceu na luta democrática, nasceu para construir uma democracia participativa, ampla, como está no nosso manifesto, inclusive como concepção partidária.
Acho que tivemos um grande papel não apenas na história do Brasil, mas na América do Sul, na América Latina, por irradiarmos um caminho democrático de transformação da sociedade.
A segunda questão, muito importante, diz respeito ao que o Senador Cristovam havia dito. V. Exª tratou disso. Existem hoje - amanhã, seguramente, haverá mais - dois grandes eixos estruturantes na disputa pelo poder político no Brasil: PT e PSDB. Nascemos em circunstâncias distintas, mas de matriz semelhante: a luta democrática. É verdade que nascemos antes, numa teimosia histórica.
Eu, por exemplo, em 1977, participava da coordenação do então candidato ao Senado Federal pela sublegenda do MDB, Fernando Henrique Cardoso... Não; em 77 eu entrei na coordenação. A eleição era em 78, mas...
(Interrupção do som.)
O SR. ALOIZIO MERCADANTE (Bloco/PT - SP) - (...) nós começamos a construir em 77 a campanha.
E por que era Fernando Henrique Cardoso em São Paulo? Era contra o Montoro a disputa. Porque a plataforma democrática de Fernando Henrique Cardoso era a mais comprometida com a democracia, era a mais profunda na questão da anistia, na questão da Constituinte, na questão das Diretas. E nós fazíamos... O Lula estava comigo nessa opção, Dom Paulo Evaristo Arns, o movimento sindical à esquerda, em São Paulo. Nós sabíamos que não venceríamos aquela eleição, mas tinha um significado político profundo a candidatura ao Senado Federal.
Por isso, nós estivemos juntos em muitos momentos da história. Hoje, fazemos parte de dois polos estruturantes da alternância de poder, mas é muito importante que a gente restabeleça esse diálogo que estamos fazendo hoje, esse debate construtivo, a possibilidade de estarmos juntos em momentos importantes e de, sobretudo, reafirmarmos, quando o sentimento golpista aparece, quando aqueles que querem encurtar o poder, as manobras institucionais, os valores da democracia, do respeito à vontade do povo, da alternância no poder, da pluralidade da democracia, como valores fundamentais que PT e PSDB ajudaram tanto a construir.
E quero agradecer a V. Exª por ser um opositor tão combativo ao nosso Governo, como eu fui ao seu Governo. Tem um significado muito especial essa intervenção.
Ouço o Senador Marcelo Crivella, depois, o Senador João Pedro e eu concluo, Sr. Presidente.
Senador Crivella.
O Sr. Marcelo Crivella (Bloco/PRB - RJ) - Senador Mercadante, V. Exª traz aqui, à tribuna do Senado, uma retrospectiva histórica, que, certamente, encanta todos os brasileiros que acompanham a vida pública nacional. O PT, realmente, é uma página gloriosa da história brasileira. A eleição do Presidente Lula é um ponto alto na história do PT. Eu gostaria apenas, como Líder do PRB, de acrescentar ou de resgatar, nessa história do PT, a participação de José Alencar...
(Interrupção do som.)
O Sr. Marcelo Crivella (Bloco/PRB - RJ) - O Vice-Presidente José Alencar, que talvez, agora, esteja até nos assistindo no Hospital Sírio-Libanês, como grande empresário, como um capitão de indústria, na ocasião, Senador, não hesitou em aceitar o convite do Presidente Lula, que entendia, depois de várias tentativas, ser necessário ter um vice-presidente, na sua chapa que representasse bem a aliança que ele pretendia organizar para governar o Brasil com o êxito com que o fez. Nessa ocasião, José Alencar foi uma figura extraordinária. Na reeleição do Presidente Lula, também exerceu um papel extraordinário. V. Exª sabe: ele convalescia de uma doença que, agora, o faz se internar já pela quinta vez, sem, contudo, abandonar a campanha, o palanque, nem no primeiro, nem no segundo turno. Pelo contrário, ele foi um exemplo de militante aguerrido, de quem acredita nos seus ideais. Aliás, na índole e na vocação, com certeza, o PRB somou muito à campanha do PT que reelegeu o nosso Presidente Lula. Portanto, se estivemos juntos na luta, não poderíamos deixar de estar juntos nesta celebração tão importante que V. Exª traz ao Senado. Faço votos de que, nas manhãs ensolaradas do porvir, o PT possa, ainda, construir tantos objetivos que, eu diria, ainda não estão alcançados, mas já estão planejados no nosso coração e na nossa alma, para o enriquecimento e engrandecimento do nosso País. Parabéns a V. Exª e parabéns ao PT! E conte com o apoio, com certeza sempre...
(Interrupção do som.)
O Sr. Marcelo Crivella (Bloco/PRB - RJ) - (...) presente, do nosso partido, o PRB, e do Vice-Presidente José Alencar Gomes da Silva.
O SR. ALOIZIO MERCADANTE (Bloco/PT - SP) - Senador Crivella, essa é uma lembrança muito importante, porque as inquietações, as preocupações, a insegurança que setores empresariais do Brasil tinham, na eventualidade da vitória de um operário, metalúrgico e líder sindical para a Presidência, eram muito grandes há alguns anos. Eu fui candidato à Vice-Presidência da República com o Presidente Lula, em 1994, e vivi isso na carne. Em 89, a mesma coisa. Em 2002, a construção da candidatura do Vice-Presidente da República, José Alencar, ajudou decisivamente na nossa vitória, porque era um empresário bem-sucedido, era um homem líder num setor importante, o setor têxtil, era um homem que construiu a sua vida pela sua capacidade, mas que tinha uma coisa muito profunda para estar com o Lula: ele foi pobre, ele veio da pobreza, da miséria, da exclusão social, e ele via no Lula a trajetória de realização da sua própria experiência pessoal de se transformar num grande empresário: o Lula poderia ser um grande Presidente. E ele falou para esse setor da sociedade, deu segurança ao setor empresarial.
Por isso, todos nós... Acho que o Brasil inteiro o respeita pela sua autenticidade, pela sua combatividade, pelo seu compromisso, pela sua ousadia e deseja a sua saúde. Ele está mostrando, mais uma vez, a sua força, a sua energia, o seu compromisso com o Brasil.
Quero agradecer, de forma muito sincera, a intervenção de V. Exª, Senador Marcelo Crivella.
Senador João Pedro, para nós concluirmos a intervenção. Peço desculpas aos demais Senadores por ter extrapolado o tempo.
O Sr. João Pedro (Bloco/PT - AM) - Senador Mercadante, Líder da nossa bancada, quero compartilhar dessa alegria do registro do aniversário do Partido dos Trabalhadores. Parabéns pelo registro que V. Exª faz. Quero destacar a importância dessa organização da sociedade brasileira, de um partido que congrega projeto, ideias, proposituras, principalmente em defesa dos injustiçados, em defesa dos pobres. Eu quero, neste breve aparte, falar da importância que tiveram V. Exª e dezenas de brasileiros que estavam ali, no início, gestando o PT, em 78,79, porque eram poucos. Ali, vocês construíram não uma organização qualquer. O PT nasceu com um projeto de esquerda, popular e socialista. Então, ao parabenizá-lo, porque V. Exª fez parte de um núcleo pequeno, quero dizer que vocês, ali, eram poucos e, hoje, essa é uma organização de quase um milhão de afiliados, de militantes, por esse Brasil grande, esse Brasil regional, esse Brasil das estradas, esse Brasil das vicinais. Eu quero dizer da alegria de participar. Eu não estava ali no início do PT. Eu estava, na universidade, no PMDB - era MDB, à época -, militando no início do PC do B. Em 78, eu já estava nesta organização e só depois fui para o PT. Contudo, quero parabenizar esse núcleo inicial por organizar um partido socialista, um partido de esquerda, e parabenizar as centenas de milhares que, por esse Brasil, carregam essa bandeira vermelha e essa estrela, que têm utopia, luta, acerto, desacerto, mas que pensam não só no Brasil, pensam um mundo diferente, um mundo solidário. Parabéns pelo pronunciamento de V. Exª, mas parabéns por essa breve história tão rica do PT no nosso País. Muito obrigado.
O SR. ALOIZIO MERCADANTE (Bloco/PT - SP) - Agradeço, Senador João Pedro.
Eu queria dizer que, de fato, não foi fácil acreditar naquele sonho, em 1980. Mas, na realidade, o PT vinha sendo construído muito antes disso. Vinha sendo construído nas comunidades de base, na luta sindical, na luta estudantil, na luta do campo, na intelectualidade que resistiu, mas, sobretudo, entre os sindicalistas. A novidade do PT é que ele nasceu como um projeto de partido de massa, porque muitas tentativas a Esquerda havia feito a partir de núcleos ideológicos, intelectuais, estudantis, de um recorte mais de classe média, que tinha convicções, que tinha sonhos, que tinha compromissos, mas não tinha a representação social ampla da sociedade. Os sindicalistas, e particularmente a liderança de Lula, deram o salto de qualidade histórica na esquerda, para construir uma política de massa, e também quebraram uma visão em que a teoria tentava se impor, permanentemente, à realidade, o que é próprio de uma certa tradição de esquerda.
Nós aprendemos com a luta concreta, aprendemos com o processo histórico, quer dizer, os sindicalistas, exatamente por não terem tido uma formação ideológica, política, eu diria, mais acabada, sempre buscaram elaborar a partir da prática.
(Interrupção do som.)
O SR. ALOIZIO MERCADANTE (Bloco/PT - SP) - E essa capacidade de elaborar a partir da luta, a partir da prática concreta, com lideranças que tinham grande representação - e a primeira greve é ali em 12 de maio de 1978, com um novo sindicalismo, e as primeiras lutas estudantis eu comecei na retomada da luta democrática nos anos de 1972 e 1973 contra a ditadura, os pequenos atos -, a confluência de todo esse movimento deságua nessa construção partidária, cujo salto de qualidade - eu reafirmo - foram os sindicalistas, sobretudo a figura do Lula.
Senador José Nery.
O Sr. José Nery (PSOL - PA) - Senador Aloizio Mercadante, quero cumprimentá-lo pelo pronunciamento em que V. Exª retrata e comemora os 29 anos de existência do Partido dos Trabalhadores. Quero dizer que, para mim, que vivi grande parte da minha militância política no Partido dos Trabalhadores, somando-me às lutas populares do movimento sindical, às do movimento estudantil e às do movimento popular, procurando construir uma alternativa política para os trabalhadores brasileiros e para o povo explorado do nosso País, é inegável a contribuição do Partido dos Trabalhadores na luta por democracia e por participação popular. Tenho certeza de que milhares e milhares de ativistas, de lideranças, de militantes se orgulham de, em suas vidas, terem ajudado a construir e a projetar o programa político encarnado pelo Partido dos Trabalhadores.
(Interrupção do som.)
O Sr. José Nery (PSOL - PA) - Por razões de natureza política e ideológica, especialmente quando o Partido dos Trabalhadores, numa ampla aliança, chega ao Governo, no Brasil, e estabelece um pacto de governabilidade muito amplo, em que, muitas vezes, teve de abrir mão do programa partidário, das bandeiras históricas para poder garantir a governabilidade e a gestão frente ao Governo Federal... Aí são divergências do ponto de vista da política econômica adotada. Porém, é inegável, este o meu testemunho, que a história recente do Brasil jamais pode ser contada sem ter em conta a importância histórica da luta social, que se transformou em luta político-partidária, em um projeto para o Brasil. Embora tenhamos as nossas ressalvas, sem dúvida o Brasil não seria o que é mesmo com os avanços que conseguimos, e ainda temos noção das lacunas existentes em nossa realidade social, econômica e política. Quero me congratular com V. Exª e com todos os Parlamentares, dirigentes, militantes do Partido dos Trabalhadores que continuam fazendo a sua luta a partir daquilo em que acreditam. Porém, ao fazer uma opção de estar hoje construindo o P-SOL, não nego a minha história, a nossa trajetória no Partido dos Trabalhadores como parte importante para a nossa formação, para a luta política...
(Interrupção do som.)
O Sr. José Nery (PSOL - PA) - Ao ressaltar o papel do Partido dos Trabalhadores, queremos homenagear a todos os seus militantes pelos 29 anos de sua existência, de sua fundação, e desejar que o velho programa, as idéias sempre inovadoras que motivaram essa luta continuem a orientar a sua caminhada e os passos rumo à construção de um País mais justo, mais fraterno, mais igual. Os nossos cumprimentos a V. Exª e a todos os membros do Partidos dos Trabalhadores.
O SR. ALOIZIO MERCADANTE (Bloco/PT - SP) - Agradeço-lhe, Senador José Nery. Queria dizer que V. Exª sempre foi e continuará sendo um companheiro, coerente com os seus ideais, lutando pelos seus princípios e construindo o caminho que acha o mais correto para o Brasil. Mas, seguramente, ajudou a construir esse partido. E saberemos, eu diria, no futuro, superar essas diferenças e estarmos mais próximos para aprofundarmos as transformações.
Concluo, Sr. Presidente, dizendo aos milhões de militantes do nosso partido, dos eleitores, daqueles que confiaram nessa trajetória do Governo do Presidente Lula e na nossa caminhada, agradecendo àqueles que já se foram, como Paulo Freire, Florestan Fernandes, Chico Mendes, na luta ambiental, Perceu Abramo, Margarida Alves, na luta do campo, ainda na semana passada, o nosso querido Adão Pretto, dizendo que eles deixaram um exemplo de coerência, de dignidade, de compromisso, de construção da história. Dei mais da metade da minha vida a esse projeto, 29 anos da minha vida, e antes disso mesmo já militava por esse sonho, e valeu à pena. Acho que todos nós temos esse sentimento profundo de que valeu à pena ser petista, construir o PT, eleger o Presidente Lula e ajudar a mudar o Brasil.
Muito obrigado.
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