Autor
Marisa Serrano (PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira/MS)
Data
18/02/2009
Casa
Senado Federal 
Tipo
Pronunciamento 

  SENADO FEDERAL SF -

SECRETARIA-GERAL DA MESA

SUBSECRETARIA DE TAQUIGRAFIA 


A SRª MARISA SERRANO (PSDB - MS. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão da oradora.) - Obrigada, Sr. Presidente. Também tenho de participar da nossa comissão brasileira do Mercosul, que se reúne às 14h30 - portanto, já está em reunião -, para discutir, inclusive, a entrada da Venezuela no Mercosul. A Senadora Marina Silva, gentilmente, fez uma troca comigo, para que eu pudesse estar na reunião.

Todos os brasileiros ouviram agora as últimas palavras do Senador Mão Santa, falando dos problemas de saúde no Piauí, e as palavras do Senador Expedito Júnior, falando da violência em Rondônia. Mesmo que o crime tenha ocorrido há 20 anos, foram descobertos agora os autores ou o autor de uma barbárie. Mas há outras, e aqui eu queria trazer mais uma.

Olhando as recentes manchetes dos jornais de todo o País, pensando sobre essas notícias, ficamos preocupados com nossa juventude. O que será que está acontecendo com os jovens de hoje, com os jovens de classe média de hoje? Não basta terem escola - e escola geralmente particular - de boa qualidade ou mais ou menos boa, terem roupas de grife, terem carro, terem tudo isso? Mesmo com tudo isso, a juventude está insatisfeita. Os jovens têm acesso a todas as inovações tecnológicas, usam roupas de marca, querem participar de tudo o que há de novo, mas, mesmo assim, a juventude está seguindo uma trilha de valores que não são aqueles pelos quais temos lutado tanto para que a família brasileira incuta nos seus filhos. Até a ida a uma balada, como eles dizem, toda noite, é fundamental. E aí penso: o que será que leva 55 jovens a participar de uma quadrilha?

Na semana passada, no Rio de Janeiro, foi desbaratada uma quadrilha, com nomes esquisitos - agora, todos os trabalhos da Polícia Federal têm nomes estranhos; um é Nocaute; o outro é Trilha. Mas 55 jovens de classe média e de classe média alta foram pegos traficando drogas. E aí pergunto: mas de onde vieram esses jovens? Por que eles chegaram a isso? E temos esta idéia: os jovens brasileiros, que moram em bairros privilegiados, que usam a Internet para fazer suas vendas e compras de drogas, estão sem rumo ou precisam desesperadamente do dinheiro que usufruem com a venda das drogas? Mais de R$1 milhão por mês eles recebiam das drogas, dos cartéis. Vendiam a cocaína vinda da Bolívia, pelo Mato Grosso do Sul, meu Estado, e compravam drogas sintéticas. Essas duas quadrilhas foram desbaratadas pela Polícia Federal, e essas drogas, além de estarem no Rio de Janeiro, estavam também em Minas Gerais e em São Paulo, todas vindas de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul, na nossa fronteira com a Bolívia. Aí a gente vê o quanto é necessário cuidar das fronteiras, fazer com que as fronteiras sejam mais policiadas, fazer com que as fronteiras sejam ocupadas com ações que inibam o tráfico de drogas e de armas e tantos outros.

E me surpreendo: aqui, em Brasília, 40 jovens foram presos, também na semana passada, quando se envolveram em brigas de rua. Eles marcam o local pela Internet, Sr. Presidente, Senador Marconi Perillo, Senador Mão Santa, e vão ao encontro dos outros jovens, como se fosse um show. Filmam e colocam tudo no YouTube, na Internet. Nesse caso, mais de 100 adolescentes estavam lá, chamados pela Internet. E foram assistir a uma pancadaria, achando que isso era diversão.

A violência está também presente nas universidades há muito tempo. Quem aqui não viu e não acompanhou o que aconteceu com os trotes das universidades nas últimas semanas? São trotes extremamente agressivos, que humilham os estudantes, que machucam os estudantes. Um jovem, em Leme, interior de São Paulo, foi espancado e, depois, atendido em coma alcoólico. É uma coisa absurda o que está acontecendo! Há dez anos, na Universidade de São Paulo (USP), um jovem foi morto, afogado por um trote violento.

Hoje, Senadora Marina, o trote implica não só raspar o cabelo de quem passa no vestibular, não só pintar o cabelo das mulheres. O trote está se tornando tão violento, que alguns tiveram a cabeça enfiada em excrementos.

Pergunto: quem pode fazer alguma coisa? As universidades dizem que vão expulsar os alunos. Algumas entidades estão sugerindo trotes sociais, como apoio às crianças nos hospitais, leitura de livros para jovens, visitas aos idosos nas casas de recuperação. É o suficiente? E os pais?

A Srª Marina Silva (Bloco/PT - AC) - V. Exª me permite um aparte?

A SRª MARISA SERRANO (PSDB - MS) - Como não? Concedo-lhe o aparte, Senadora Marina.

A Srª Marina Silva (Bloco/PT - AC) - Primeiro, Senadora Marisa, considero oportuno o pronunciamento de V. Exª, que traz para este Plenário o fenômeno da violência praticada por jovens e por adolescentes dos mais diferentes segmentos da sociedade, de diferentes classes sociais. Esses episódios dos trotes que V. Exª está mencionando, inclusive, foram objeto de artigo que escrevi no Terra - o que faço todas as terças-feiras. Referi-me exatamente a dois casos que a mim me tocaram muito: esse do jovem que teve coma alcoólico e que ainda foi colocado dentro de excrementos de gado e o de uma jovem que estava grávida e na qual foi jogado um produto químico - a menina passou mal com uma crise alérgica, teve de ser socorrida e quase perdeu a criança. E há muitos outros que a gente poderia mencionar aqui e que, com certeza, são motivo de repulsa e de medo até por parte de todos nós, sobretudo daqueles pais e mães de família que veem seus filhos entrarem na universidade. Mas me chamou a atenção também um episódio que aconteceu recentemente, de um grupo de jovens que havia terminado o curso de Medicina e que foi comemorar o término do curso entrando em um hospital, embriagados, provocando constrangimentos e agredindo os pacientes que ali estavam. Como podemos encarar esse fenômeno, de pessoas que se estão formando para uma vida profissional, no caso, na Medicina - não estou aqui fazendo generalizações; obviamente, estamos nos atendo, eu e V. Exª, aos que praticam essas atrocidades, porque existem milhares e milhões que não as praticam -, que deveriam cuidar da vida, acolher a vida ou as pessoas, na sua fraqueza, na sua fragilidade, mas que, contraditoriamente, paradoxalmente, num determinado momento, põem para fora verdadeiros adoecimentos, verdadeiros monstros? No meu entendimento, essa é uma patologia social e tem de ser tratada como patologia social. Além dos trotes educativos e sociais, que é uma boa tentativa das instituições e das universidades, é fundamental que haja a identificação de quem pratica esses trotes, para que tracem uma espécie - não sei se é adequado o que vou falar - de perfil psicológico desses jovens. Há um adoecimento individual e um adoecimento coletivo que precisa ser tratado - e tratado como tal -, para que não façamos uma crítica puramente moral, pois aí está imbuído o aspecto ético, o aspecto moral. Se não dermos o tratamento adequado do ponto de vista social, do ponto de vista da falta de sentido e de significação a que esses jovens estão submetidos, não vamos conseguir enfrentar o problema. As instituições públicas, esta Casa, as universidades, todos nós temos de ser eticamente constrangidos a dar uma resposta para esse fenômeno, que prejudica a sociedade, mas que também prejudica essas pessoas, porque é uma contradição. Eles, que se estão preparando para oferecer um serviço à sociedade e à comunidade, manifestam-se como verdadeiros algozes dos que deveriam proteger e cuidar. Muito obrigada. Parabéns a V. Exª pela oportunidade desse pronunciamento!

A SRª MARISA SERRANO (PSDB - MS) - Obrigada, Senadora Marina. Eu queria dizer a V. Exª, inclusive, que, neste Congresso, mostrou-se outra faceta dessa questão. Há um projeto do Senador Casagrande que entra na parte jurídica, pois criminaliza o trote, mas que está parado na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) há muito tempo. É necessário que a gente atue em cada vertente, como diz V. Exª. E o Senador Casagrande, ontem, estava me dizendo que, há tempo, o projeto está parado na CCJ e de lá não sai. Falei: “Então, está na hora de todos nós lutarmos para que projetos nessa linha sejam votados e sejam colocados em prática”.

Esse caso, como V. Exª disse, é responsabilidade de todos. Pergunto: onde ficam os pais, nessa questão?

Tenho trabalhado muito, principalmente em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no sentido de fazer com que os pais participem mais da educação dos filhos. Não é só ir às escolas no dia de festa ou no dia de formatura, não é só ir às escolas para ver as notas dos filhos. O núcleo familiar é muito importante, é a base da sociedade. Não há como uma sociedade ser sadia se a família não for sadia.

Esta é uma luta que a gente tem de empreender: a de fazer com que nossos jovens tenham valores mais sólidos, calcados principalmente naquilo que a família lhes possa dar. Não é que eu esteja jogando para cima da família a responsabilidade de tudo o que está acontecendo, mas a família também tem de estar presente na escola, na vida dos filhos, acompanhando-os, para que não haja tantos problemas como esse que estamos vivenciando.

Mencionei esses três casos - o dos jovens no Rio de Janeiro que se tornam traficantes de drogas; o dos 40 jovens do Distrito Federal que formam gangues para espancar barbaramente seus iguais e o dos trotes universitários - para dizer que é necessário, como disse a Senadora Marina, que se tomem atitudes mais concretas. Não podemos deixar que o nosso País viva muito de, como se diz, pirotecnia. Que grandes eventos apareçam em todos os jornais, que nosso Presidente olhe um pouquinho mais para as nossas mazelas sociais! É em época de crise - geralmente, em época de crise - que as questões sociais afluem com muito mais nitidez, como a questão do desemprego, a questão de falta de perspectiva, a questão da baixa estima das pessoas. Quando falta dinheiro, quando falta emprego, quando falta perspectiva, falta qualidade de vida, e isso é ruim para toda a sociedade. E é nesse momento que o Governo tem de se voltar para ações afirmativas, efetivas, que mudem e que deem rumo à sociedade brasileira. Temos de agir preventivamente. Isso é importante para o País, em todas as áreas. É importante que o Governo se volte, efetivamente, para cada área social, que enxergue nossos jovens, que discuta os problemas das drogas, que veja como vamos tratar o traficante e o usuário. É uma questão sensível? É claro que é. É uma questão difícil? É claro que é.

Ontem, aqui, ouvi discurso do Senador Magno Malta falando sobre a questão das drogas. É uma questão que temos de debater, sim!

Acredito que muitas e muitas famílias brasileiras têm, no seu seio, jovens que fazem uso de droga - de droga sintética, de cocaína, de maconha. Não podemos ficar alheios a isso. Esta é uma Casa de ressonância da sociedade brasileira, e, como tal, temos a obrigação de discutir todos os problemas que afetam a sociedade. E esse é um problema que está afetando enormemente a juventude do País. Duvido que um pai aqui que tenha um jovem filho não se preocupe com as amizades que ele tem e com a possibilidade de ele entrar num mundo de que, depois, dificilmente, terá condições de sair.

Portanto, Sr. Presidente, quero agradecer-lhe muitíssimo o tempo que me deu, passando um pouquinho de tudo aquilo que falei, mas eu queria muito dizer que essas políticas sociais, temos de olhá-las com muito mais cuidado. Nesta Casa, há as Comissões que trabalham pela valorização do ser humano, para fazer com que o ser humano seja mais feliz e mais próspero e tenha mais confiança nas suas autoridades, nas políticas e no desiderato daqueles que governam o País. É por aí que temos de trabalhar. Espero que, nesta Casa, a gente consiga aprofundar questões como essas que levantei aqui.

Muito obrigada, Sr. Presidente.


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