Discurso durante a 52ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal

Manifestação sobre o andamento da crise no País e os erros que se acumulam na avaliação e na implantação das medidas do Governo Federal em relação ao enfrentamento dessa situação. (como Líder)

Autor
Tasso Jereissati (PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira/CE)
Nome completo: Tasso Ribeiro Jereissati
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
ECONOMIA NACIONAL. GOVERNO FEDERAL, ATUAÇÃO.:
  • Manifestação sobre o andamento da crise no País e os erros que se acumulam na avaliação e na implantação das medidas do Governo Federal em relação ao enfrentamento dessa situação. (como Líder)
Aparteantes
Antonio Carlos Júnior, Arthur Virgílio, Cristovam Buarque, Lúcia Vânia.
Publicação
Publicação no DSF de 16/04/2009 - Página 11344
Assunto
Outros > ECONOMIA NACIONAL. GOVERNO FEDERAL, ATUAÇÃO.
Indexação
  • ANALISE, SITUAÇÃO, ECONOMIA NACIONAL, DEMORA, GOVERNO FEDERAL, ADOÇÃO, PROVIDENCIA, COMBATE, EFEITO, CRISE, SISTEMA FINANCEIRO INTERNACIONAL, RESULTADO, ERRO, AVALIAÇÃO, DIAGNOSTICO, DESENVOLVIMENTO ECONOMICO, BRASIL, PERDA, CONTROLE, GASTOS PUBLICOS, FALTA, COMPETENCIA, ADMINISTRAÇÃO, INSUFICIENCIA, DESPESA, INVESTIMENTO, AMEAÇA, FUTURO, GOVERNO.

  SENADO FEDERAL SF -

SECRETARIA-GERAL DA MESA

SUBSECRETARIA DE TAQUIGRAFIA 


O SR. TASSO JEREISSATI (PSDB - CE. Pela Liderança. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente desta Casa Senador Marconi Perillo, Srªs Senadoras, Srs. Senadores, volto a esta tribuna para falar um pouco sobre o andamento da crise no País, sobre as nossas preocupações que se acumulam, sobre as crises e os erros que se acumulam na avaliação e na implantação das medidas do Governo Federal em relação ao enfrentamento dessa situação.

Lembro-me, Senador Perillo, de que, no segundo semestre do ano passado, estive aqui presente nesta tribuna para alertar o Governo que havia uma crise no mundo e que essa crise chegaria ao Brasil. Naquela época, o Governo Federal, não só por intermédio do Ministro da Fazenda, mas por intermédio do próprio Presidente da República, desdenhava essa crise e dizia que era uma crise que acontecia lá fora e que aqui não chegaria. Primeiro, dizia-se que era um problema do Bush, e o Bush que cuidasse dela e, depois, que ela não atravessaria o Atlântico. Quando as coisas começaram a evoluir, disseram que no Brasil seria apenas uma marolinha. Isso, a meu ver, Senador Marconi Perillo, foi o primeiro de uma série de erros grave que o Governo passou a cometer desde então.

É impressionante, Senador Arthur Virgílio, a quantidade de erros de avaliação, de diagnóstico e de implantação que se sucederam desde então. O primeiro grande erro começou nessa primeira avaliação.

Em seguida, ao ficar claro, principalmente com a notícia do PIB do terceiro trimestre, que o PIB tinha despencado drasticamente, o Governo foi obrigado a reconhecer que finalmente a crise chegara ao Brasil.

O que começou a acontecer foi uma avaliação e um diagnóstico errados dos fundamentos daquela crise. Dizia-se que veio do exterior. Mais tarde, o Presidente da República iria até confirmar essa sua avaliação, dizendo que tinha sido feita pelos homens de olhos azuis. Mas dizia que era do exterior, que era crise externa e que o Brasil era uma ilha diante daquilo que estava acontecendo.

Mais um erro grave de avaliação. Esquecia-se de dizer que a abundância que o Brasil tinha conseguido, que a época de prosperidade e de crescimento econômico que o Brasil tinha atravessado também tinha vindo do exterior. Esses mesmos mecanismos que levaram à crise foram os que levaram ao crescimento da economia mundial sem precedentes na história recente da economia.

Todo o crescimento do Brasil - que, aliás, é preciso ressaltar - foi um crescimento, apesar da abundância externa, menor do que o da maioria dos países emergentes ou do que de todos os países emergentes. Essas mesmas circunstâncias - alavancagens, sistema financeiro internacional, falta de regulação, euforia, crédito sem muito critério, aumento das commodities, aumento dos produtos agrícolas, grandes exportações brasileiras - trouxeram esse crescimento, grandes possibilidades de crescimento da nossa economia.

         Avaliou novamente errado, que isso era um grande erro e que esse erro levava também a outra grande conclusão equivocada, a de que se estava provando ali que o Estado é que devia conduzir a economia, que o Estado é que tinha o papel fundamental de elevar o nível de qualidade da vida da população e de levar o desenvolvimento econômico. E para comprovar, trouxe em todas essas deduções, a figura do velho Keynes, do grande Keynes, como o pai da verdade e o pai da interpretação, da importância do Estado na condução da economia e, portanto, dizendo que ali se iniciava o fim do sistema de livre iniciativa e começava o momento do Estado como elemento mais forte da economia.

Novo erro flagrante de avaliação, novo erro flagrante e grave de interpretação do que Keynes fez e da importância de Keynes para o capitalismo mundial. Foi Keynes quem provou e comprovou que o capitalismo e a livre iniciativa era, sim, um sistema viável porque, apesar de ser sujeito a crises, já se conhecia, através do Estado, por mecanismos formulados pelo próprio Keynes, mecanismo capaz de evitar que essas crises sucessivas do capitalismo viessem a levar ao colapso total da economia.

O que Keynes fez no fim da década de 30 foi o contrário: provar aos que queriam dizer que ali se acabava o capitalismo e a livre iniciativa e que a livre iniciativa era o grande sistema que levava ao crescimento econômico e que o Estado tinha mecanismos para evitar colapsos formulados ou as crises, consequências do próprio sistema capitalista, opondo-se, àquela época, Senador Arthur Virgílio, àqueles que defendiam a economia centralizada.

Hoje se fala em Keynes como o grande homem que trouxe a teoria de que o Estado deve ser fortificado, quando é o contrário. Há uma visão, também muito repetida, de que se está fazendo uma política anticíclica, quando é o contrário. Estamos fazendo aqui, Senador Marconi Perillo, uma política cíclica, porque justamente o que nós fizemos foi elevar os gastos de pessoal, gastos correntes, gastos que não têm retorno durante a época de bonança, deixando-nos agora sem saída e sem alternativas, no momento em que a bonança já não é mais a mesma e quando precisamos dos recursos do Estado para podermos investir.

E agora estamos evidenciando, talvez, de todos, o erro mais grave, que é confundir - dentre os ensinamentos de Keynes novamente - investir, Senador Arthur Virgílio, com gastar. Investir, que o velho Keynes nos ensinou como a grande saída para as crises de recessão, é uma coisa. Gastar em gastos correntes, que são jogados fora, custeio, pessoal, papel, propaganda, terceirizados etc - isso é um erro brutal porque deixa o País em crise fiscal e, ao mesmo tempo, não traz os benefícios do investimento. Isso ficou muito claro, muito bem comprovado nos últimos números que me trouxe a esta tribuna, pela grande preocupação que me traz.

No primeiro trimestre deste ano, Senador Marconi Perillo, o gasto público não financeiro do Governo aumentou em R$37 bilhões. O aumento do gasto público, no primeiro trimestre, foi de R$37 bilhões. E não estou falando de investimentos, Senador Marco Maciel. O aumento do gasto público, ou seja, Senadora Lúcia Vânia, que tanto gosta desses temas, política cíclica. No momento da crise o Governo gasta - e aí, sim, cabe a tão famosa e em moda a frase: nunca na história deste País o gasto público cresceu com tamanha violência e tamanha intensidade - R$37 bilhões no primeiro semestre. Isso significa, a meu ver, Senador Marco Maciel, perda do controle total dos gastos do Governo.

O Governo perdeu o controle, perdeu as rédeas e não tem mais como administrar, por falta de competência administrativa. É o que está acontecendo.

O Sr. Arthur Virgílio (PSDB - AM) - Senador, V. Exª me permite um aparte?

O SR. TASSO JEREISSATI (PSDB - CE) - Senador Arthur Virgílio, já vou lhe passar a palavra. Só queria fazer um adendo.

Ao mesmo tempo, Senador Marco Maciel, vivemos uma época de erros tão grandes e de uma farsa maior ainda que, pela televisão, pelos jornais, não ouvimos falar em gastos públicos. Nós ouvimos falar em PAC - não é verdade? - no grande investimento.

Muito bem, Senador Marco Maciel, enquanto as despesas correntes do Governo aumentaram em R$36 bilhões, sabe de quanto foi o aumento do investimento? Quatrocentos milhões. Vou repetir: as despesas públicas e gastos correntes foram de R$36 bilhões, e o investimento, Senador Marconi Perillo, o tão falado PAC, que está todos os dias nas televisões e nos anúncios, com a Ministra Dilma aparecendo, com seu rosto novo, enfim, tudo isso, quatrocentos milhões. Ou seja, nós não gastamos praticamente nada de aumento de investimento. Há uma grave confusão, há uma falta de controle, há uma falta de administração, e esses números demonstram que estamos nos preparando para fazer uma grande herança maldita para o próximo governo que vem aí.

Senador Arthur Virgílio.

O Sr. Arthur Virgílio (PSDB - AM) - Senador Tasso, eu acompanhei a preocupação de V. Exª, que redundaria neste discurso tão oportuno e tão denso que merece ser analisado pela Casa com o máximo de atenção e respeito, e tenho uma modéstia contribuição a emprestar a ele.

O que eu percebo é que está havendo uma mescla de saída keynesiana com saída liberal. Mas, jamais, nada que difira de mais uma crise que será superada pelo sistema capitalista de produção. Ao mesmo tempo, quando V. Exª se refere aos gastos correntes, que têm sido uma constante neste Governo, nós percebemos um dado muito singelo, que a série histórica deste Governo, na comparação com os prefeitos, com os governos de Estado, aponta que os governos de Estado e as prefeituras investiram - e V. Exª fez muito bem a diferença entre investir e gastar - mais que duas vezes do que foi investido pelo Governo Federal. Esse é o meu grande medo, quando o Presidente disse “é uma marolinha”, agora está dizendo que é uma tempestade, mas que já passou. Seria uma ex-tempestade. Quando não se encara a crise do jeito que ela tem de ser encarada, com fidelidade, com muita honestidade de propósitos, o diagnóstico errado leva a remédios equivocados ou insuficientes. Isso aí gera problemas mais adiante. Mas o meu grande medo - e V. Exª faz um alerta que me leva a essa conclusão - é que, após esta crise, se continuam os gastos desabridos, nós poderemos, depois de resolvida a crise dos outros, nós termos uma crise brasileira que, depois, complica os outros mais adiante. Eu vejo isso com muito medo, porque nós não temos como dar para trás. Eu quero aqui reconhecer o mérito do Presidente Lula. O primeiro Governo dele foi meritório, quando a gente fala em política fiscal, quando fala em política monetária. Pegou um País em crise, crise causada pela própria imagem que ele transmitia nas suas passeatas, nas suas caminhadas, mas deu conta do recado. O segundo governo foi de lassidão, de frouxidão fiscal. Agora, começa a perder o controle. Eu sempre confiei muito no Presidente Lula achando assim que o bom senso dele e sua inteligência, que considero invulgar, vão saber proteger o País na hora certa. Mas eu vejo que ele parece que está entregando os pontos. Outro dado é que o Ministro Mantega disse que o Brasil ia crescer 4%, e sabíamos que não ia crescer 1%. Depois ele reduz tolamente para 2%, e nós sabemos que não vai crescer nada. O Brasil vai ter de melhorar muito a sua performance para ficar abaixo de zero um pouco, tem de melhorar muito para ficar menos 0,3%, menos 0,5%. Vai ter de melhorar e muito, até o final deste ano, para, na média, dar esse crescimento negativo de zero ponto alguma coisa. Nós percebemos que o Presidente Lula, entregando os pontos, ou seja, caindo na idéia de que pode gastar laissez-faire, laissez-passer, me surpreendendo ainda com uma figura que tenho, como V. Exª também, prestigiado muito aqui. Falo do Presidente do nosso Banco Central, Henrique Meirelles. Sinceramente, não esperava do Presidente Meirelles que ainda ficasse com essa balela de que o Brasil vai crescer, Presidente Perillo, 1,2%; não poderia esperar isso dele. A essa altura, o Presidente Meirelles está careca de saber que o Brasil vai ter um crescimento negativo. Ele não tem o direito de dizer que acha que o Brasil vai crescer 1,2%. Teimei sobre isso hoje com o ilustre economista que almoçou com V. Exª e comigo. Ele disse: “Mas ele me pareceu sincero.” Disse-lhe: não pode ter sido. Uma pessoa preparada, competente, um homem que domina economia muito bem, que domina administração financeira muito bem, que conhece o jogo das bolsas, que sabe muito bem o que é o mundo lá fora, não tem o direito de achar que o Brasil vai crescer 1,2% este ano. Apenas ele, politicamente, não quer chegar à verdade, porque recebeu, talvez, uma ordem de que não se pode dizer a verdade de uma vez, quando De Gaulle diria a verdade, Winston Churchill diria a verdade, John Kennedy diria a verdade, o Barão do Rio Branco diria a verdade, D. Pedro II diria a verdade, Getúlio Vargas diria a verdade, Juscelino Kubitschek diria a verdade... Não podemos, Senador Tasso Jereissati, imaginar que, depois desta crise, vem outra crise, mas que as bases estão sendo plantadas, estão. Eu gostaria muito de até me dar o trabalho de recolher pronunciamentos meus próprios, modestos pronunciamentos, pronunciamentos de V. Exª e de mais alguns aqui, quando nós, há muito tempo, antes desta crise, advertíamos que as bases da crise fiscal estavam sendo montadas, e a popularidade lá em cima, e tome não darem bola para o que a gente dizia, brincadeirinha para cá e números recitados como se fossem mantras... E, agora, estamos começando a perceber que o Governo não tem como reagir, porque não tem como investir. Gastou, não investiu e não tem como investir. Quando fala em política contracíclica, não tem mesmo o que oferecer de contracíclico, porque o próprio Fundo Soberano não é poupança, é dívida que foi criada - e houve aqui uma polêmica que durou a madrugada inteira. Então é dívida. O Brasil se endividou, para fingir que tem um Fundo Soberano e não tem. E, ao Fundo Soberano, não se aplicam as características dos fundos soberanos que a gente conhece lá fora. Mas o fato é que o discurso de V. Exª, denso como sempre, vem fazer um alerta. É um discurso importante e que nos remete a algumas conclusões. Eu queria, até para quebrar um pouco da sisudez com que estamos falando, lembrar que esse bilhão... A ideia seria de que os prefeitos, no ritmo em que iam, teriam todos eles um prejuízo de R$3,5 bilhões até o final do ano. O Governo repôs, mais ou menos, a perda dos três primeiros meses: R$1 bilhão. Um bilhão dividido por todas as prefeituras - e sem muito critério, porque eu iria para ajuda às prefeituras que realmente vivem e dependem do FPM -, V. Exª e eu já fizemos a conta, isso divido por aquelas prefeituras dá R$15 mil por mês por prefeitura. Ou seja, os prefeitos agora têm que imaginar o que eles fariam com R$15 mil, qual seria a grande obra que eles fariam aplicando este recurso por mês. Talvez juntando dois ou três meses, façam uma pequena calçada numa rua, enfim. O Presidente incentivou com o IPI, e o IPI caiu 8,9% de um mês para o outro, mas incentivou com o IPI a indústria automobilística de São Paulo, a indústria de tintas, de material de pintura, enfim... Quanto às contribuições federais, uma delas cresceu 8,9%. Por quê? Porque ele não partilhou, ele fez a marretada, com um chapéu que não era só dele. O chapéu que era só dele ele guardou para ele. No fundo ficam como pedintes os prefeitos. Então o fato é que ele deu, numa expectativa de perda de R$3,5 bilhões, R$2,5 bilhões de incentivos fiscais para a base do IPI, que é fundamental para os Municípios e para o FPM - ele manda isso, isso vai para a indústria automobilística - e apenas R$1 bilhão para os prefeitos; e ele já havia feito um certo aceno para a classe média, mexendo no Imposto de Renda, o que enfraquece mais ainda a renda dos Municípios. Eu hoje li um artigo, como sempre muito brilhante, de uma figura que a gente respeita muito, que é a colunista de economia Miriam Leitão, mas eu faço um reparo ao artigo dela, porque parece que ela joga no clube da gastança até as pequenas prefeituras que estão com os seus munícipes passando fome. Isso é uma coisa grave. É preciso um pouco mais de campo, porque a visão de longe talvez não dê o detalhe que V. Exª conhece e que eu conheço, porque somos de dois Estados muito desprivilegiados quando se trata do interior dos nossos dois Estados: Ceará o seu e Amazonas o meu. O problema - e eu digo isso para a Miriam com o maior respeito, porque me guio muito por ela, eu a respeito muito, tenho por ela muita admiração intelectual -, mas o problema está em Brasília, não está nos pequenos prefeitos; o problema está aqui. É daqui que sai a gastança; é daqui que sai a farra fiscal; é aqui que estão plantando a crise para complicar, quem sabe, a próxima gestão. É daqui que está saindo algo que pode significar o retrocesso de todos esses anos de estabilidade econômica, dos quais participou brilhantemente o Presidente Lula no seu primeiro mandato, quando era Ministro Antonio Palocci. Aquela mudança já foi uma coisa meio complicada. Temos tanta coisa para discutir. Estamos vendo explodirem escândalos na ANP, vendo explodirem escândalos na Petrobras. Estamos em dúvida. Estou recebendo denúncias de que a Petrobras não estaria recolhendo os seus impostos. Meu Deus!, será que o saldo disso será entregarem uma Petrobras esbagaçada também? Estou extremamente preocupado com tudo isso. Já conversei com o Senador Casagrande. Vamos ter que fazer uma reunião na Comissão de Fiscalização e Controle para ver esses fatos todos. Não posso aceitar. Não posso aceitar que as revistas denunciem seguidas vezes esse escândalo da ANP e que aqui vire paisagem. É tipo outdoor. Coloca um outdoor. No primeiro dia, faz impacto; do quinto dia em diante, é paisagem. Não se sabe mais o que é propaganda de político, o que é anúncio de clínica odontológica - e aí vou exagerar - e o que é uma C&A com a Gisele Bündchen como modelo. Nesse último caso, a gente percebe, não vira paisagem nunca, mas o resto vira paisagem. Essa é a verdade. A corrupção está virando paisagem no País. O que estou estranhando é que pessoas tão ilustres, prezadas por mim durante a minha vida inteira, não se defendam, não tenham explicação nenhuma a dar. O Governo não cogita chamá-las. É como se as revistas estivessem perdendo o tempo delas. Não tem o que discutir. É um quadro que, no fundo, não colabora para nós termos uma boa política econômica. Eu não consigo conciliar política econômica com costumes morais dissolutos. Eu não consigo conciliar. Isso não dá certo. V. Exª está de parabéns pelo aviso que dá à Nação mais uma vez. Só que V. Exª, eu próprio e alguns outros fizemos isso há dois ou três anos atrás. Não sabíamos, nem de leve - só o Rubini sabia, não nós. Mas falávamos que estavam plantando as bases de uma crise fiscal. E a crise fiscal está aí e ata as mãos do Governo. Propaganda pode fazer, mas investimento, não! Isso porque se gastou no custeio aquilo que era para jogar para o investimento. Só um exemplo: pessoal, R$167 bilhões, e o tal programa das casas populares, que não tem prazo para acabar, R$34 bilhões. Um real de investimento, quatro para pessoal. Eu não consigo entender isso, em uma Nação que tem quase 200 milhões de habitantes, que essa seja uma lógica sequer democrática. Parabéns a V. Exª e eu agradeço, em nome da nossa Bancada, por termos um quadro do seu calibre, a servir de maneira tão convincente ao País.

O SR. TASSO JEREISSATI (PSDB - CE) - Muito obrigado, Senador Arthur Virgílio. A propósito do seu aparte que, como sempre, acrescenta muito a nossa palavra, eu gostaria de dar um número que muito tem a ver com uma das lembranças que V. Exª levantou.

Há uma reclamação, que dá para entender, em colunas como a de Miriam Leitão, em relação a R$1 bilhão para os prefeitos, preocupados com a gastança, preocupados com o desperdício. Com isso, evidentemente, não concordamos porque sabemos do dia a dia da situação das prefeituras. Mas, bem a exemplo disso, enquanto estamos nos referindo como sendo uma grande gastança R$1 bilhão para as prefeituras, vou dar-lhe um número aqui impressionante, Senador Arthur Virgílio, que eu já falei hoje de manhã, mas ele é impressionante. Somente em terceirizados, ou seja, consultorias, somente em consultorias... Lembre-se V. Exª de que, quando nós aqui reclamávamos do aumento de pessoal constante aqui, a grande argumentação, feita várias vezes por Líderes do Governo, que não estão aqui no momento, era de que estavam substituindo os terceirizados, que aquilo não era aumento de pessoal; era substituição dos terceirizados. V. Exª se lembra disso.

Pois a despesa dos terceirizados, no primeiro trimestre deste ano, só no primeiro trimestre, aumentou mais do que R$1 bilhão, mais do que essas despesas com os prefeitos. Só o aumento, Senadora Lúcia Vânia, foi de 50%. Aumentou a despesa com terceirizados, que vinha de R$2 bilhões, para R$3 bilhões, em um trimestre. E nós estamos discutindo aqui R$1 bilhão dividido por cinco mil Municípios, que dá, no final, R$15 mil por mês para cada um que paga escola, saúde, limpa a cidade, etc. Terceirizados, R$1 bilhão. Esse número é impressionante!

Eu queria lembrar também ao Senador Arthur Virgílio, principalmente à nossa Bancada, Senadora Lúcia Vânia - e estamos muito à vontade para dizer o que eu vou dizer agora: Que o próprio PT não aceitava a política do Ministro Palocci, que fez uma política correta, austera, ao seu momento, e nós viemos defendê-la aqui, a política do Ministro.

Portanto, não há nenhuma parcialidade nossa, nenhuma paixão, nenhum desejo de fazer oposição por oposição quando vou afirmar aqui uma convicção que hoje eu tenho.

Infelizmente, Presidente Marconi Perillo, o Governo, na área econômica, começou a meter os pés pelas mãos, está perdido. V. Exª tem razão. Até o Presidente Meirelles, que tive oportunidade de defender aqui várias vezes, parece estar perdido neste momento. Há uma falta total de controle sobre a Administração Pública. Os números mostram isso. Durante tanto tempo, o aparelhamento da máquina pública, com pessoas não preparadas, indicadas por políticos, por motivos puramente eleitorais, sem nenhum critério de merecimento, está levando a esse descontrole e o Governo, para fazer frente a uma crise que aparece, está metendo completamente os pés pelas mãos, está completamente perdido e se perdendo.

É hora de a sociedade brasileira prestar atenção ao que está acontecendo, porque nós corremos o risco de, aí sim, enquanto todo o mundo está saindo de uma crise, estarmos entrando numa grande crise fiscal, às vezes sem retorno, porque não há como baixar todos esses aumentos no futuro, e, ao mesmo tempo, estarmos iniciando um novo ciclo inflacionário neste País e, o pior, com uma queda sensível da qualidade dos serviços públicos, porque eles estão sendo desmantelados em nome de um aparelhamento, de uma partidarização das instituições públicas mais importantes deste País.

Concedo um aparte ao Senador Cristovam.

O Sr. Cristovam Buarque (PDT - DF) - Senador Tasso, apenas quero dizer que comparto plenamente de sua preocupação, a preocupação do déficit fiscal, para o qual a gente está caminhando, e, obviamente, da inflação, que pode chegar, e depois vai ser muito difícil se livrar dela. Nós esperamos trinta anos para ter um Plano Real, que foi, talvez, a maior obra de engenharia financeira, fiscal, juntando com o Proer, que se viu não só no Brasil e que é o que está segurando hoje. E aí o mérito do Presidente Lula de ter tido a responsabilidade de mantê-lo. Mas isso pode se perder. E depois que se perde, para recuperar é muito difícil. Agrego também que, quando o senhor fala de ciclo, eu temo que a gente esteja perdendo outro ciclo, o novo ciclo que está surgindo no mundo, da economia, do conhecimento, da produção de inteligência, dos bens de alto conteúdo de inteligência dentro deles. Nós podemos estar perdendo esse ciclo por falta de investimentos corretos no setor específico. E todos sabem que uma maneira de sair da crise é investir naquilo que virá depois, como fez Getúlio, investindo na indústria para sair da crise em que a gente vivia com o preço do café lá embaixo. A saída foi manter os pés de café e investir em novos setores. Devo, inclusive, ter visto no seu gabinete, uma vez, um livro, que comprei depois, que todos neste País deveriam ler. O livro fala da maneira como os Estados Unidos saíram da crise de 29. Não foi apenas porque houve medidas keynesianas, mas porque essas medidas keynesianas estiveram sintonizadas com o novo ciclo que deu a riqueza à economia americana. O que a gente não está fazendo hoje está nos levando a perder a chance do novo ciclo e, além disso, nos deixando com o risco de déficit na balança comercial, déficit fiscal, e aí, não há dúvida, pode de repente subir e a inflação voltar.

O SR. TASSO JEREISSATI (PSDB - CE) - Sem dúvida, Senador Cristovam. E reforçando o que V. Exª acaba de dizer, chamou-me muito a atenção o discurso do Presidente americano, Barack Obama, em relação aos investimentos que vão ser feitos para enfrentar a crise. E, justamente, ele concilia os investimentos necessários para realavancar a economia com um plano estratégico, de longo prazo, da construção do novo ciclo da nova América.

O Sr. Cristovam Buarque (PDT - DF) - Exatamente. Pelo menos 25% estão indo para educação, ciência e tecnologia.

O SR. TASSO JEREISSATI (PSDB - CE) - Reforma do ensino fundamental, ciência e tecnologia, criação de pesquisa em energias alternativas. Ali, ele usa o investimento, como Roosevelt fez, no sentido de já plantar o futuro. Aqui o pior... Senador Cristovam Buarque, eu pensava que estávamos sem projeto, que estávamos gastando à toa. Mas o mais grave são esses resultados do primeiro trimestre, que mostram que não estamos gastando à toa, mas que estamos jogando dinheiro fora. Vou repetir: foram 36 bilhões de aumento de custeio. Foram 36 bilhões de aumento de custeio a razão dos nossos problemas. Não foi investimento em nada; foram 36 bilhões de aumento de custeio. E isso, para mim, é uma coisa desastrosa. É momento de esta Casa, de a sociedade brasileira ficar alerta para o que está acontecendo, atrás dessa propaganda que me parece altamente ilusória, perigosa para o País.

Senador Antonio Carlos, com muito prazer.

O Sr. Antonio Carlos Júnior (DEM - BA) - Senador Tasso Jereissati, seu pronunciamento é de extrema importância, um pronunciamento que merece a audição de nós todos. Essa questão da piora das contas públicas é um sintoma terrível, porque nós, a duras penas, nos últimos quinze anos, conseguimos vitórias imensas, como o controle da inflação, a Lei de Responsabilidade Fiscal, uma política monetária com metas de inflação. Chegamos a ter contas públicas não absolutamente adequadas, mas num padrão muito melhor do que tínhamos no passado. Agora, esses números assustam muito. O custeio cresce 24%, a folha de pessoal cresce 27% e o investimento cresce 11%! Se estivéssemos reduzindo o superávit primário para investir, isso teria uma razão de ser. Dentro da manutenção de uma relação dívida/PIB adequada, isso teria uma razão de ser, porque, com o Governo investindo em infraestrutura, ele estaria incentivando a iniciativa privada a investir e a, consequentemente, fazer o País crescer. Mas gastos de custeio? O Governo, irresponsavelmente, ao longo dos últimos anos, tem possibilitado aumentos brutais do funcionalismo público, com um descontrole completo da máquina. Isso pode nos causar, como falou o Senador Cristovam, um dano fatal. Se perdermos a nossa condição de controle fiscal, se voltarmos ao passado em quinze anos, colocaremos o País em risco e condenaremos o País a passar mais dez ou quinze anos sem crescer. Então, é muito lúcida a colocação de V. Exª no seu discurso como um todo, mas eu queria ressaltar esse ponto, porque é da nossa responsabilidade também cobrar isso do Governo.

O SR. TASSO JEREISSATI (PSDB - CE) - Senador Antonio Carlos, muito obrigado pelo seu aparte.

A Srª Lúcia Vânia (PSDB - GO) - Senador Tasso Jereissati, V. Exª me concede um aparte?

O SR. TASSO JEREISSATI (PSDB - CE) - Senadora Lúcia Vânia.

A Srª Lúcia Vânia (PSDB - GO) - Senador Tasso, quero cumprimentá-lo pelo discurso, reflexivo, que precisa ser analisado por todos os membros desta Casa. V. Exª faz um balanço muito sério da situação econômica do País. Ao lado desse balanço que faz hoje, V. Exª tem feito um trabalho ímpar no acompanhamento da crise, um trabalho sério, um trabalho honesto, um trabalho. Se o Governo quisesse aproveitar esse trabalho, já teria um amplo campo levantado por V. Exª, com audiências públicas sérias, como foi a desta semana, em que tivemos aqui o Dr. Gerdau também externando a mesma preocupação que V. Exª externa neste momento. V. Exª também teve o prazer de ouvir, naquela audiência pública, dos empresários, das pessoas que ali estavam, a importância do projeto de reforma tributária capitaneado por V. Exª e pelo Senador Francisco Dornelles. Então, nós temos aqui um instrumental importante que poderia servir de base de reflexão do Governo. Cumprimento V. Exª pela seriedade do trabalho e pela colaboração que dá ao País neste momento, alertando para o desequilíbrio das contas públicas, que poderá resultar, futuramente, numa herança, uma verdadeira herança maldita, que foi tão cantada pelo Governo no início da sua gestão. Portanto, meus cumprimentos. Sem dúvida alguma, V. Exª orgulha o nosso Partido, quando levanta, num momento como este, o contraditório, porque, se abrirmos o jornal todos os dias, veremos escândalos, veremos o Governo fazendo apologia do seu trabalho, mas não veremos um espaço em que se faz a análise do que está acontecendo neste País. Portanto, cumprimento V. Exª e quero aqui dizer que o PSDB se sente honrado de tê-lo sem seus quadros.

O SR. TASSO JEREISSATI (PSDB - CE) - Muito obrigado, Senadora Lúcia Vânia. Sou do partido de V. Exª, que é, sem dúvida alguma, entre os Senadores desta Casa, um dos que mais entendem, que se aprofundam e se aplicam nas questões econômicas.

Ela tem realmente uma relevância muito especial. Suas observações e seu trabalho nessa área são dos mais respeitados por mim nesta Casa.

Vou encerrando - já estou sendo cobrado pelo Presidente Marconi Perillo, que já foi bastante generoso - e queria deixar esse alerta a esta Casa e à Nação.


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Este texto não substitui o publicado no DSF de 16/04/2009 - Página 11344