Autor
Mozarildo Cavalcanti (PTB - Partido Trabalhista Brasileiro/RR)
Data
20/08/2009
Casa
Senado Federal 
Tipo
Pronunciamento 

                          SENADO FEDERAL SF -

            SECRETARIA-GERAL DA MESA

            SUBSECRETARIA DE TAQUIGRAFIA 


            O SR. MOZARILDO CAVALCANTI (PTB - RR. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Senador Mão Santa, que preside esta sessão histórica do Senado, que, pela 10ª vez, faz uma reunião anual no Dia do Maçom, para homenagear a Maçonaria brasileira, aqui compreendida pelo Grande Oriente do Brasil, pela Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil e pela Confederação da Maçonaria Brasileira, a qual já tem como tradição uma reflexão sobre a importância da nossa ordem para o mundo e para o Brasil, em particular.

            Quero começar, cumprimentando o nosso Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, o representante da Comab, o Grão-Mestre do Distrito Federal, que, neste ato, estando à Mesa, representa os Grão-Mestres de todos os Grandes Orientes do Brasil, já que não poderíamos colocá-los todos aqui.

            Cumprimento os Veneráveis, os irmãos em geral, as cunhadas, os jovens DeMolays, que aqui representam, justamente, uma instituição criada pela Maçonaria, igualmente como foi a Associação Paramaçônica Juvenil, as Filhas de Jó, a Associação do Arco-Íris. Também cumprimento aqui a nossa cunhada, Presidente da Fraternidade Feminina Cruzeiro do Sul, que é a instituição feminina da Maçonaria.

            Muita gente acha que a Maçonaria é uma espécie de clube do bolinha, onde só homem entra, só homem tem vez. Isso não é verdade. Nós sabemos que, primeiro, para uma pessoa ingressar na Maçonaria, é preciso que se diga, precisa, ele sendo casado, que a esposa concorde.

            Eu não conheço uma outra instituição em que um homem queira entrar e que exija essa precondição. Não conheço. A Maçonaria exige, e por quê? Porque ela prima, prioritariamente, pela família. Ela reconhece que é a família justamente a grande célula da sociedade.

            Queria, Sr. Presidente, fazer aqui uma interrupção no meu pronunciamento, para convidar o Deputado Marchezelli, 4º Secretário da Câmara e que aqui está representando o Presidente da Câmara, nosso irmão também, para fazer parte da Mesa. (Pausa.)

            Então, também quero aqui fazer uma homenagem às mulheres.

            Aqui está presente, na primeira fila, a nossa cunhada Carmen Carneiro, esposa do nosso ex-Senador e irmão Nelson Carneiro, que foi um exemplo de maçom, como cidadão e político. Ela sempre vem para as nossas reuniões, e quero dizer, cunhada, que é uma honra muito grande, uma demonstração muito forte de que as esposas compreendem, sim, o papel importante que a Maçonaria tem para este País.

            E, antes de passar propriamente para o meu pronunciamento, Sr. Presidente, queria também dizer a todos que nos assistem aqui neste plenário, mas também aos que nos assistem pela TV Senado, que nos ouvem pela Rádio Senado que o Presidente da Soberana Assembléia Legislativa Federal, que é o órgão do Poder Legislativo da Maçonaria, do Grande Oriente do Brasil, houve por bem, por gentileza, nomear-me seu representante. Já que hoje sou Deputado Federal na Maçonaria, estou então, aqui também tendo a honra de representar o Presidente da Soberana Assembléia Federal Legislativa do Grande Oriente do Brasil.

            Quero, portanto, mandar um abraço para o irmão Carlos Marcassa, que não pôde estar presente hoje aqui e que fez essa gentileza, designando este irmão como seu representante.

            Mas, Sr. Presidente, Srs. Senadores, Srªs. Senadoras, irmãos aqui presentes, cunhadas, esta é a décima oportunidade que o Senado faz, homenageando a Maçonaria, numa sessão especial, inclusive. Não é uma sessão dentro da sessão do Senado, mas uma sessão especial do Senado para homenagear a Maçonaria.

            É sempre com muita satisfação, com muita alegria - e, evidentemente, com muito orgulho da minha condição de membro da Maçonaria brasileira -, que venho render homenagens, no Dia do Maçom, a essa notável e respeitável instituição.

            O dia 20 de agosto, Sr. Presidente, é aquele dia em que a sociedade brasileira pode fazer uma reflexão um pouco mais demorada sobre o papel desempenhado pela Maçonaria em todo o mundo e, de maneira muito especial, em nosso próprio País.

            E o que acontece, senhoras e senhores, quando nos reunimos em um evento dessa natureza, um evento como esta sessão especial que aqui se realiza? Normalmente - e com muita justiça, diga-se a bem da verdade -, acabamos dando destaque a tudo aquilo que a Maçonaria tem feito ao longo da história.

            Afinal, com sua atuação milenar, com suas contribuições à humanidade que se espraiam pelos séculos, a Maçonaria tem um passado glorioso a exibir.

            Sabemos, Sr. Presidente, de registros que apontam a existência de maçons desde os tempos mais remotos da civilização. Entre os egípcios, por exemplo. Também são apontados como maçons, ao lado de muitos nomes da antiguidade, Ninrode, o fundador da Babilônia, e Salomão, o mais sábio dos reis.

            De qualquer modo, há um consenso entre os historiadores de que, após esse período antigo, também chamado de lendário, alicerces mais sólidos foram forjados na época medieval, com as associações de artífices ou pedreiros de uma mesma profissão e, especialmente, com as guildas de operários.

            É o período da Maçonaria que se conhece como medieval, ou também operativo, porque, na verdade, era fazendo a obra da construção - e se diz, desde a época das pirâmides do Egito, passando pelas catedrais e palácios de toda a Idade Antiga e Média, até os tempos mais modernos.

            O problema, Srªs e Srs. Senadores, meus irmãos, cunhadas, telespectadores da TV Senado e ouvintes da Rádio Senado, é que, embora se dedicassem ao bem comum e desenvolvessem atividades perfeitamente lícitas - lícitas -, já naquela época os maçons foram vítimas de uma intolerância desmedida que levou milhares às fogueiras da Inquisição.

            E é bom a gente nunca esquecer esse episódio, porque naquela época uma associação entre os imperadores, os monarcas e a igreja dominante tachava quem queria de impróprio, inconveniente, herege, espúrio, bruxo. Com essa acusação, sem direito de defesa, sem o devido processo legal, faziam-se os autos de fé, para proclamar para a população que ali tinha uma pessoa nociva, e essa pessoa ia para a fogueira. É bom que nós nos lembremos disso, porque nos tempos modernos existem métodos de inquisição moderna e nós temos de combatê-los sempre.

            De forma que somente no final do séc. XVI e início do séc. XVII, quando as doutrinas filosóficas mais humanistas e liberais começaram a ganhar corpo na Europa, é que um número expressivo de filósofos, artistas e cientistas ousou aproximar-se da instituição.

            Nesse momento, nasce a Maçonaria moderna, e a instituição começa a se estruturar de maneira mais sistêmica.

            Em 1717 - portanto, já no início do século XVIII -, é fundada em Londres a primeira Grande Loja Maçônica do mundo. Seis anos depois, em 1723, portanto ainda no século XVIII, promulga-se a primeira Constituição Maçônica, elaborada pelo reverendo anglicano James Anderson e eivada de um espírito tolerante, humanista e deísta, isto é, tendo como princípio um ser superior que nós chamamos de Grande Arquiteto do Universo, porque respeitamos todas as religiões que têm nomes diferentes para designar esse ser superior que nós chamamos de Deus.

            Ainda assim, Sr. Presidente, a intolerância e as perseguições continuaram, o que explica o caráter reservado, sigiloso, privado dos encontros que eram mantidos pelos maçons, e que são mantidos até hoje. Não são encontros secretos; são encontros privados, como aliás acontece em outras instituições, de cuja reuniões só participam quem é membro da instituição. Na Maçonaria não é diferente: só participa das reuniões da Maçonaria quem é filiado à Maçonaria e quem está em dia com a Maçonaria. Se a pessoa for maçom, mas não estiver em dia com as suas obrigações para com a Maçonaria, em termos de frequência, de pagamentos das suas obrigações financeiras, não pode também participar das reuniões privadas da Maçonaria.

            Nesses encontros, nessas reuniões realizadas, praticamente, para o grande povo, como se fosse secretamente, difundiam-se, desde aquele tempo, os ideais da liberdade, da igualdade e da fraternidade que, ainda no século XVIII, viriam a inspirar alguns dos momentos mais marcantes da história, como a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos da América.

            É de feitos como esses, Srªs e Srs. Senadores, meus irmãos e cunhadas, e meus jovens DeMolays aqui presentes, de toda essa contribuição decisiva da maçonaria à humanidade é que costumamos falar nos eventos como o de hoje.

            Também falamos, é claro, do papel marcante desempenhado pela Maçonaria na História do Brasil no século XIX. Falamos da atuação decisiva dos maçons ilustres nas articulações que nos garantiram a Independência. Falamos de D. Pedro, de José Bonifácio e de Gonçalves Ledo, todos eles maçons. Falamos da participação importantíssima de membros da instituição nos episódios que culminaram com a abolição da escravatura. E aqui temos que falar de Joaquim Nabuco, de José do Patrocínio, de Eusébio de Queirós, do Visconde do Rio Branco e do Barão de Cotegipe, todos eles maçons.

            Falamos ainda da liderança dos maçons nos movimentos que nos levaram à proclamação da República. E aí temos que ressaltar Benjamin Constant, Rui Barbosa, cujo busto está aqui presente neste plenário, porque foi maçom, Senador e Presidente deste Senado; Quintino Bocaiúva, Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, e, aqui repito, todos eles maçons.

            Falamos, enfim, da firme posição sempre assumida pela Maçonaria em defesa da liberdade e da democracia, em todos os momentos da nossa história em que tais valores sofreram ameaças ou constrangimentos.

            E se temos orgulho de nosso passado, também nos conforta o presente da instituição.

            Permanecemos atentos àqueles valores que expressam nossa crença absoluta no Grande Arquiteto do Universo: a liberdade, que nos faz lembrar o fato de termos sido criados à imagem e semelhança de Deus; a igualdade, que reflete a condição de todos nós, seres humanos, perante esse mesmo Deus; e a fraternidade, que devemos exercitar em relação aos demais filhos de Deus.

            Seguimos desenvolvendo um trabalho social e filantrópico de grande envergadura, nas Lojas espraiadas por todo o País.

            E aqui quero fazer um comentário. É lamentável, no sentido de que isso não chega ao conhecimento do grande público, que a Maçonaria, até obedecendo a um princípio - diríamos - bíblico, tenha por norma dar com uma mão sem que a outra perceba, mas eu acho que isso tem de mudar. No século XXI, na era da comunicação, nós temos que dizer o que fazemos pela sociedade não para nos vangloriar, mas para fazer uma prestação de contas para essa sociedade. É verdade que, ao longo dos tempos, todas as lutas que tínhamos, digamos assim, passaram a ser exercidas por outras instituições que não existiam - os sindicatos, as organizações de classe, os partidos políticos. Hoje, portanto, as bandeiras que só existiam na Maçonaria se espraiaram para o bem da sociedade.

            Seguimos desenvolvendo ações importantíssimas nas áreas de educação, saúde, atenção ao idoso, ao menor, ao jovem.

            Seguimos, enfim, desempenhando uma função que, sem dúvida alguma, é inestimável para o progresso da Nação.

            De qualquer maneira, Sr. Presidente, meus caríssimos companheiros da Maçonaria, também parece inegável que o momento atual nos surpreende numa posição de menor protagonismo que aquela em que já estivemos em outras épocas. Na verdade, se olharmos a história, veremos que, até o século XIX, estávamos muito presentes, mas, no século XX, deixamos de atuar de maneira mais pró-ativa na cena política e na cena social e nos voltamos muito mais para a ação social, para a ação de forjar bons cidadãos - só isso já é uma grande missão para a sociedade moderna, mas nós podemos e devemos fazer muito mais do que isso.

            E é exatamente por isso que, mais até que falar da importância da Maçonaria ao longo da história, eu gostaria de fazer, neste momento, algumas considerações sobre a necessidade de passarmos de uma atitude discursiva para uma atitude mais pró-ativa. Em especial, eu gostaria de destacar um aspecto que me parece muito interessante e que nos mostra quão essencial pode ser o papel dessa instituição em nossa sociedade atual.

            Refiro-me à perfeita sintonia que podemos identificar entre os princípios que regem a atuação da Maçonaria e aqueles que começam a se impor como prevalentes neste século XXI.

            Tomemos, meu prezado Grão-Mestre Marcos José, meu irmão Presidente da Comab, um dos lemas da nossa instituição, “ciência, justiça e trabalho”: ciência para que os espíritos sejam esclarecidos, para que as mentes sejam esclarecidas e elevadas; justiça para que as relações humanas sejam equilibradas, enaltecidas e praticadas dentro da lei; trabalho para que os homens sejam dignificados e se tornem economicamente independentes.

            Ora, que valores têm se mostrado tão cruciais neste início de século como esses três, apregoados há tanto tempo pela Maçonaria?

            Vivemos, Sr. Presidente, a era da informação, a era da Internet. Uma era em que sobrará cada vez menos espaço para o obscurantismo que a Maçonaria sempre combateu. Infelizmente ainda vemos no mundo todo muitas lutas, inclusive fratricidas, por causa do obscurantismo e, de maneira falsa, até com alegações em nome da fé. A época, portanto, é propícia ao desenvolvimento da ciência, ao florescimento das atividades intelectuais.

            De outra parte, e até porque os avanços dos meios de comunicação têm permitido que as iniquidades do mundo se tornem mais amplamente conhecidas, também vem crescendo a sede de justiça. Já não se admite um mundo dolorosamente dividido entre ricos e miseráveis, entre aqueles que tudo podem e os que nada têm. E contra isso a Maçonaria sempre lutou, justamente naquele princípio da igualdade, que todos têm de ter igualdade no sentido amplo, igualdade de oportunidades, igualdade de tratamento, igualdade de oportunidade de acesso a tudo, à justiça, à saúde, à educação.

            Por fim, ao deparar com crises econômicas extremamente ameaçadoras, os seres humanos em geral, e os governantes em particular, têm percebido que só existe uma maneira de enfrentá-las com sucesso: enfatizar o valor social do trabalho.

         De forma, Sr. Presidente, que a conclusão é inevitável: o lema da Maçonaria tem um componente intelectual, um componente moral e um componente social perfeitamente coadunados com a época em que vivemos neste início do século XXI.

            Ademais, existem outros dois valores igualmente caríssimos à Maçonaria, que também se mostram decisivos no momento atual, visto que imprescindíveis à resolução dos graves conflitos que surgem no seio da sociedade. Falo, senhoras e senhores, da verdade e da tolerância.

            Quanto ao primeiro desses valores, penso que não cabem muitas divagações. Afinal, nosso mundo é tão cheio de contradições, tão cheio de desencontros, que já não parece mais possível vislumbrar soluções que não passem, necessariamente, pela verdade e pela sinceridade nas relações entre os seres humanos.

            Pois não, Senador Tuma.

            O Sr. Romeu Tuma (PTB - SP. Sem som.) - V. Exª me daria um aparte? Peço-lhe desculpas pela interrupção, mas gostaria de dizer algumas palavras a V. Exª, grande líder maçônico que luta nesta Casa - já mostrou isso em várias manifestações nesta Casa.

            O SR. MOZARILDO CAVALCANTI (PTB - RR) - Som aqui no plenário para o Senador Tuma.

            O Sr. Romeu Tuma (PTB - SP) - Peço desculpas a V. Exª por interrompê-lo, mas é bem rápido. Cumprimento todos os presentes e a Mesa Diretora. Eu queria, se V. Exª permitisse, prestar uma homenagem a meu pai, que era maçom e fundou várias lojas no Estado de São Paulo. Além dele, meu tio mais velho foi presidente do tribunal maçônico. Tiveram uma vida dedicada à parte social importante que a Maçonaria dirige em São Paulo. Meu pai cuidava de uma clínica que atendia a população mais carente, principalmente os filhos e as famílias dos maçons. Sabemos que a Maçonaria tem várias linhas de princípios de atendimento aos interesses sociais e republicanos nos países onde milita. Eu, a caminho daqui, já ouvia V. Exª registrar toda a passagem histórica que a Maçonaria teve no Brasil e a sua participação ativa nos momentos mais difíceis. Então, eu pediria, se V. Exª permitisse, para não só homenagear a Maçonaria nacional - hoje é o dia que V. Exª conseguiu marcar para esta justa homenagem -, mas para homenagear e lembrar o meu pai, que tinha a Maçonaria permanentemente no coração. Minha mãe, às vezes, ficava reclamando, porque todas as quintas-feiras havia reunião e, depois da reunião na loja, eles iam comer uma pizza - uma pizza da boa, que era para discutir o que resolveram e para indicar as coisas sadias! Então, não se come pizza só para comemorar qualquer fato negativo que possa trazer intranqüilidade à sociedade brasileira. Quando ele comia pizza, ele contava alguns fatos que podiam ser revelados. Tivemos oportunidade de ir a várias festas públicas da Maçonaria com ele, de usar o aventalzinho e de participar ativamente. Fiz várias palestras na Maçonaria a convite, aqui em Brasília, em vários Estados e nas cidades do Estado de São Paulo, onde meu pai teve oportunidade de participar da fundação de lojas. Então, agradeço a V. Exª e espero que ele esteja nos ouvindo e sorrindo neste momento.

            O SR. MOZARILDO CAVALCANTI (PTB - RR) - Eu agradeço, Senador Tuma, o aparte emocionado de V. Exª e incluo no meu pronunciamento a homenagem a seu pai. Ao mesmo tempo, formulo um convite a V. Exª para seguir os passos de seu pai e adentrar a nossa ordem. Nunca é tarde!

            O Sr. Romeu Tuma (PTB - SP) - Eu também fui convidado a fundar uma loja maçônica de advogados lá, mas aí meu pai disse assim: “Você tem de se dedicar; se você for lá para dormir, nem entre!”.

            O SR. MOZARILDO CAVALCANTI (PTB - RR) - Mas tenho certeza de que, se V. Exª entrar agora, não vai dormir, vai colaborar.

            Mas, Sr. Presidente, depois do honroso aparte do Senador Romeu Tuma, eu quero dizer - já partindo para o final de meu pronunciamento - que o problema é que, embora se dedicassem ao bem comum, os maçons sempre foram incompreendidos.

            Eu estava falando de valores caros à Maçonaria. Falei sobre a verdade anteriormente. No que diz respeito ao segundo dos valores apontados, a tolerância, bastaria citar conhecida frase de Fernando Pessoa. A segunda virtude é, justamente, a tolerância, a tolerância com as diferenças, a tolerância principalmente com as diferenças de opinião, a tolerância com aquele que nos acusa, a tolerância com o respeito aos mais idosos, às senhoras, aos jovens.

            Volto ao texto e cito conhecida frase de Fernando Pessoa, talvez aquele que soube melhor articular palavras na língua portuguesa: “Toda a Maçonaria gira em torno de uma só idéia - a tolerância; isto é, o não impor a alguém dogma nenhum, deixando-o pensar como entender”.

         Isso, na verdade, Deus deu ao homem quando lhe deu o livre arbítrio, mas infelizmente o homem, depois, ao assumir cargos de comando, resolveu tirar de seus comandados o direito do livre arbítrio. Hoje, a nossa democracia precisa ser muito mais permeada por essa tolerância; não se pode dividir a sociedade entre esquerda, direita e centro, entre brancos, negros e índios. Nós temos de ter, realmente, tolerância e saber que todos somos iguais.

            É essa mensagem, Sr. Presidente - uma mensagem de valorização da ciência, da justiça e do trabalho; uma mensagem também de exaltação da verdade e do espírito de tolerância - , que quero trazer à consideração desta Casa no Dia do Maçom.

         E quero finalizar prestando uma homenagem, diria assim, ao futuro da Maçonaria, que é a juventude, a juventude que está aqui presente, representada pelos jovens DeMolays. Esse nome, DeMolay, para aqueles que estão nos assistindo e que não são maçons, é uma homenagem a um grande maçom que foi vítima da intolerância de um monarca, quer dizer, de um rei, e de um papa e que foi para a fogueira: Jacques de Molay.

         A Maçonaria criou essa ordem, que nós chamamos paramaçônica, de jovens, mas ela é composta não só de filhos de maçons não: dela pode participar qualquer jovem que tenha interesse em entrar para a ordem. É uma ordem mais antiga do que outras, mas temos também de citar aqui a Associação Paramaçônica Juvenil, que pertence ao Grande Oriente do Brasil; as Filhas de Jô, composta por jovens - não só jovens homens, mas meninas e moças também - que captam desde cedo a mensagem que a Maçonaria tem no seu seio.

            Quero, então, dizer para os meus sobrinhos DeMolays - eles nos chamam de 'tios - que a Ordem DeMolay é a maior construção da Maçonaria. Começou nos Estados Unidos, mas é uma das maiores construções da Maçonaria brasileira, responsável pela iniciação de várias centenas de milhares de jovens no Brasil e que se estabeleceu graças aos esforços de vários maçons.

            A visão no futuro, os grandes exemplos, a busca constante na evolução espiritual sobre a matéria trazem a grandeza de nossas decisões e atos, no sentido de reunificarmos os atuais Supremos Conselhos no Brasil. E aqui vai apenas uma mensagem, com todo o respeito ao livro arbítrio dos irmãos: devemos trabalhar pela reunificação dos atuais Supremos Conselhos do Brasil - o Supremo Conselho da Ordem DeMolay para o Brasil e o Supremo Conselho da Ordem DeMolay para a República Federativa do Brasil. A vontade de seus membros e dirigentes deve ser apoiada por todos nós e, por meio do amor e da união, deve-se buscar alcançar o fortalecimento e o engrandecimento da nossa juventude e da nossa Pátria.

            De qualquer forma - eu estava aqui conversando com o dirigente de um dos Supremos Conselhos -, independentemente de se reunificarem ou não, o importante é que já são fraternos: entendem-se, visitam-se e participam, portanto, do mesmo ideal.

            Para concluir, Sr. Presidente, queria chamar a atenção para a forma como a Maçonaria é vista por historiadores. O que estou falando aqui pode estar um pouco comprometido pela suspeição, porque eu sou um maçom, porque eu gosto da Maçonaria. Eu tinha um pai maçom, eu sou maçom, o meu filho é maçom e o meu neto é DeMolay, portanto, posso ser considerado suspeito por estar falando bem da Maçonaria. Recomendaria, por isso, que lessem a revista História - o número é antigo, é de novembro de 2008. A matéria de capa é justamente sobre a Maçonaria e traz o seguinte: “A poderosa sociedade secreta [o único equívoco] que influenciou líderes inacreditáveis e definiu momentos cruciais na história”. Na capa temos D. Pedro I, Winston Churchill, grande líder da Inglaterra, e George Washington, praticamente o fundador da Maçonaria nos Estados Unidos junto com inúmeros maçons. Internamente, a matéria tem o título “O compasso do mundo”, e é escrita por não-maçons, por historiadores, por pesquisadores. Existem muitas publicações a respeito dessa matéria, mas esta é simples, direta e muito esclarecedora.

            Ao encerrar, Sr. Presidente, agradeço a tolerância e o tempo que me foi concedido e digo que, para mim, é uma honra e até um dever encabeçar todos os anos esta sessão de homenagem à Maçonaria, porque é uma oportunidade que temos para dizer a milhões de telespectadores que nos assistem e a milhões de ouvintes que nos ouvem pela Rádio Senado que a Maçonaria está presente nos dias atuais, que a Maçonaria quer e está participando do importante trabalho de construção do edifício social.

            Para finalizar, gostaria de dizer a todos os irmãos que não adianta, como eu disse, ficarmos no discurso, temos de adotar uma ação mais pró-ativa. Não adianta, por exemplo, dizermos que a política não é correta ou que os políticos não são corretos. O que fazemos na época das eleições para evitar que aqueles que não são corretos se elejam? É uma pergunta que deixo para a cabeça de cada um. O que fazemos? Se nós temos nos nossos quadros pessoas importantes, por que não são candidatos? Ou, se não temos candidatos dentro da Maçonaria por alguma razão, por que não apoiamos pessoas que, não sendo maçons, são maçons na prática, são maçons sem avental, porque têm uma vida pautada pelos princípios da Maçonaria?

            No ano que vem, teremos uma eleição na qual serão escolhidos deputados estaduais, governadores de todos os Estados, deputados federais e distritais e 2/3 do Senado. Portanto, comecemos agora um trabalho de esclarecimento dos eleitores. Já será muito se cada um fizer um trabalho somente ao seu redor, na sua família, no seu círculo de amigos, pedindo que cada um multiplique a idéia de chamar atenção para o fato de que ninguém que está em cargo eletivo foi nomeado, mas foi eleito pelo voto do cidadão. Pensem que os cidadãos que exercem as funções de vereadores e até de Presidente da República, se são despreparados ou mal preparados, não foram nomeados, foram eleitos.

            Então, nós precisamos fazer a limpeza justamente com a ação do voto. É a isso que eu queria concitar os milhões de componentes da família maçônica, porque aí quero incluir os maçons, as cunhadas e os jovens nesse trabalho que, podemos dizer, é a revolução que precisamos fazer agora, no momento atual, na nossa vida pública. Não tem mais república para proclamar, não tem mais escravo para libertar - no sentido da escravização por correntes; há escravos sim, mas escravos da falta de inteligência, escravos das ideologias. Precisamos fazer mais ainda esse combate.

            Portanto, quero agradecer ao Grão-Mestre, ao Presidente da Comab, aos companheiros DeMolays, aos veneráveis aqui presentes, ao representante do Grande Comendador, a todas as autoridades maçônicas, inclusive do Poder Judiciário - o irmão Caruso está presente. A todos o meu abraço e o meu agradecimento ao dizer que me sinto honrado e feliz com a homenagem de hoje.

            Muito obrigado. (Palmas.)


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