Pronunciamento de Flávio Torres em 09/09/2009
Discurso durante a 152ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal
Relatório de visita feita, no desempenho de missão parlamentar, à Central Nuclear de Angra dos Reis. Proposta para que se inicie um movimento internacional para desarmar as bombas atômicas.
- Autor
- Flávio Torres (PDT - Partido Democrático Trabalhista/CE)
- Nome completo: Flávio Torres
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
POLITICA ENERGETICA.:
- Relatório de visita feita, no desempenho de missão parlamentar, à Central Nuclear de Angra dos Reis. Proposta para que se inicie um movimento internacional para desarmar as bombas atômicas.
- Aparteantes
- Mozarildo Cavalcanti.
- Publicação
- Publicação no DSF de 10/09/2009 - Página 42688
- Assunto
- Outros > POLITICA ENERGETICA.
- Indexação
-
- RELATORIO, MISSÃO, ORADOR, JOÃO PEDRO, SENADOR, VISITA, CENTRAL NUCLEAR ALMIRANTE ALVARO ALBERTO (CNAAA), USINA NUCLEAR, ESTADO DO RIO DE JANEIRO (RJ), COMPROVAÇÃO, IMPORTANCIA, TECNOLOGIA, BRASIL, DESENVOLVIMENTO, PROCESSAMENTO, ENRIQUECIMENTO, URANIO, GARANTIA, AUTONOMIA, VIABILIDADE, APLICAÇÃO, MEDICINA.
- SUGESTÃO, INICIO, MOVIMENTAÇÃO, AMBITO NACIONAL, AMBITO INTERNACIONAL, COMBATE, ARMAMENTO, BOMBA, ENERGIA NUCLEAR, IMPEDIMENTO, AMEAÇA, MUNDO.
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O SR. FLÁVIO TORRES (PDT - CE. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Obrigado.
Presidente Mão Santa, o senhor estava presidindo a sessão e, quando fui aqui chamado pela primeira vez, viu que eu me dirigi ao outro lado do plenário, porque queria falar olhando para minha mulher, Lana, para minha filha Gabriela e para minha chefe de gabinete, Gláucia. Mas fui repreendido, e elas disseram que querem que eu fale daqui mesmo.
A gente tem falado muito em pré-sal. Hoje, vamos falar em reforma; e eu pediria licença ao Plenário para falar sobre outra forma de energia, que deve orgulhar o Brasil: a energia nuclear. Quero fazer uma prestação de contas e um relatório, porque o Senado me mandou visitar a central nuclear em Angra dos Reis, juntamente com o Senador João Pedro, que aqui já falou sobre isso, e com o Senador Augusto Botelho. Quero fazer um relatório, porque é assim que a gente faz na academia: prestando contas de viagens.
Em Angra dos Reis, temos a Central Nuclear Almirante Alberto, onde funciona a Usina Nuclear Angra I, a Usina Nuclear Angra II, que é uma usina alemã, e a Usina Nuclear Angra III, que começa o processo de montagem. Angra III foi comprada juntamente com Angra II. Portanto, há 24 anos, a Usina Angra III está encaixotada em Angra dos Reis. São 13.600 toneladas, 13 milhões de quilos armazenados de uma forma que merece registro, porque esse material está armazenado há 24 anos e não tem uma ponta de ferrugem, porque cada peça de metal é embrulhada em papel alumínio, feito vácuo, e com controle de umidade em cada envelope que é armazenado.
A energia nuclear nasceu, para os físicos, com o pecado mortal da bomba atômica. Então, ela tem uma mancha, que é uma mancha da humanidade, porque ali foi cometida uma verdadeira chacina, em que pessoas inocentes foram mortas, assassinadas, e gerações e gerações tiveram a saúde comprometida por conta da radiação nuclear, mas ela, no mundo atual, é uma energia limpa, porque queima e não polui a atmosfera com CO².
Mas deixa aquilo em que temos que pensar, e é preciso que esclareçamos a população do Brasil: os brasileiros têm obrigação de dizer se querem isso, porque deixa um resíduo que tem que ser guardado, na tecnologia atual, até por 150 mil anos.
Sr. Presidente, nós perdemos cidades e palácios com três, quatro mil anos. Das sete maravilhas do mundo, só sabemos onde estão as pirâmides. O Colosso de Rhodes, o Farol de Alexandria, não sabemos mais nem onde eram. De Tróia, de cidades que são da literatura antiga, nós perdemos a localização.
Então, a humanidade tem que estar preparada e sabendo que nós vamos guardar esses resíduos, por enquanto, por mais de cem mil anos, o que é uma coisa grave e da qual temos que ter essa consciência.
A energia nuclear jamais será importante na matriz energética brasileira, porque felizmente nós temos as hidrelétricas e, agora com o pré-sal, o petróleo. Mas a energia nuclear serve e vai participar aí com um percentual menor do que 10, mesmo com a planta que querem fazer no Nordeste.
Querem fazer no Nordeste uma outra central nuclear, com até seis usinas, e quando se faz uma central com várias usinas, otimizam-se os gastos tanto da linha elétrica que se interliga com a rede no País, quanto com a água que refrigera os reatores. Então, pensa-se em fazer uma planta no Nordeste.
Eu era físico e sempre fui da Sociedade Brasileira de Física, que combateu muito o acordo Brasil-Alemanha. O Senador Sarney se lembra - já era líder político importante - quando o Brasil fez um acordo com a Alemanha para comprar reatores, e nós criticamos bastante. Criticamos porque o Brasil comprava uma tecnologia em que seríamos meramente apertadores de botões. Até os gerentes seriam alemães porque não tínhamos a competência desenvolvida na área.
Então é com prazer, com orgulho que a gente vê que Angra I e II funcionam com operação totalmente brasileira, com uma tecnologia que o Brasil incorpora. Nós desenvolvemos processamento e enriquecimento do urânio, o que é uma coisa importante. O Brasil é um país que não depende dos outros. O estudo dessa tecnologia permite que tenhamos aplicações distintas na área da Medicina, na fabricação de radioisótopos. Como em todo trabalho científico, nada serve só para aquilo que se está fazendo, mas se contamina lateralmente, melhorando o País em uma tecnologia que é paralela àquilo que está sendo desenvolvido.
De forma que eu queria dizer que voltamos muito satisfeitos. O Senador João Pedro já falou sobre isso.
Com relação aos riscos de um acidente em Angra, os riscos sempre existem, mas aquilo funciona regido por acordos internacionais e tem inspeções permanentes.
O Brasil participa de inspeções em outros países, nós somos inspecionados, de forma que os cuidados são grandes e suficientes para que nos tranquilizemos e tenhamos orgulho de operar essas centrais de energia nuclear.
Sr. Presidente, antes de terminar, lembrei-me de uma notícia que quero comentar, aproveitando que o Plenário não está sob muita pressão. É que nesta semana, nos jornais, foi tratada a velha questão da bomba atômica. Aparentemente, um físico do Instituto Militar de Engenharia fez um trabalho de simulação numérica e houve esta discussão: se o Brasil seria capaz de fazer uma bomba atômica.
Estive conversando com uns colegas. Acho que seria uma bela oportunidade...
O mundo se dividiu entre os países que possuem a bomba atômica e os que não a possuem. Semanalmente, a gente vê que países que têm a bomba atômica impedem os países que não a possuem de fazê-la. É correto. Mas o Brasil deveria aproveitar essa oportunidade porque está claro: o nosso País, se quiser, pode fazer a bomba atômica. Felizmente, o Brasil tem juízo e não vai fazer uma bomba atômica. Então, deveríamos liderar um novo clube: o daqueles que não têm a bomba atômica, saberiam fazê-la, mas não querem fazê-la; na verdade, querem formar um clube para que aqueles que possuem a bomba atômica a desarmem. É uma situação muito hipócrita querermos que os países não façam a bomba atômica sendo que o mundo está sentado em cima de mais de mil ogivas nucleares, que têm capacidade de destruir o mundo muitas vezes, embora basta destruir uma vez.
Então, temos que iniciar um movimento internacional para fazer com que as bombas atômicas sejam desarmadas. A Agência Internacional de Energia Atômica não tem o direito de chegar aqui no Brasil exigindo que se faça “a”, “b” ou “c”, se ela não vai para os países que têm, que fabricam - estão instaladas em foguetes -, que se ameaçam uns aos outros. É claro que a guerra fria já passou, este não é o assunto do dia, mas é a oportunidade de dizer que nos sentiríamos mais felizes e mais tranquilos se a energia nuclear fosse usada para fins pacíficos e não fosse uma ameaça para a humanidade.
O Sr. Mozarildo Cavalcanti (PTB - RR) - Senador Flávio Torres, um aparte, por favor.
O SR. FLÁVIO TORRES (PDT - CE) - Pois não, Senador Mozarildo.
O Sr. Mozarildo Cavalcanti (PTB - RR) - Eu quero louvar o pronunciamento de V. Exª que, como físico, faz um alerta humanístico muito importante, principalmente quando analisa a questão, como V. Exª mesmo classificou, hipócrita das grandes potências que têm a bomba e querem impedir que os outros a tenham. Como V. Exª colocou, o Brasil não tem e não quer fazer, mas não pode ficar na condição de nem sequer ter a possibilidade de fazer. A proposta de V. Exª de que todos se desarmem de fato é a grande meta porque, senão, fica aquela história do ditado popular: façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço. As potências atômicas têm - se considerarmos verdadeiras todas as informações - um arsenal, como V. Exª colocou, capaz de acabar várias vezes com o mundo. Então, nós não podemos deixar de liderar esse novo clube, como V. Exª disse, com uma proposta inteligente, altiva e, sobretudo, soberana.
O SR. FLÁVIO TORRES (PDT - CE) - Muito obrigado pelo seu aparte, Senador Mozarildo.
Sr. Presidente, era isso que eu tinha a dizer.
O SR. PRESIDENTE (José Sarney. PMDB - AP) - Muito obrigado a V. Exª, que fez uma precisa e concisa exposição a respeito do assunto, muito esclarecedora para o Plenário.
Concedo a palavra ao Senador Antonio Carlos Valadares.
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