Autor
Osvaldo Sobrinho (PTB - Partido Trabalhista Brasileiro/MT)
Data
20/11/2009
Casa
Senado Federal 
Tipo
Pronunciamento 

                          SENADO FEDERAL SF -

            SECRETARIA-GERAL DA MESA

            SUBSECRETARIA DE TAQUIGRAFIA 


            O SR. OSVALDO SOBRINHO (PTB - MT. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Muito obrigado, Senador Paim, que preside esta Casa, pela sua forma amiga e cortês de atender aos reclamos maiores desta Casa e, consequentemente, também aos seus companheiros, dando esta oportunidade para que eu viesse aqui falar neste momento.

            Mas, de todos os pronunciamentos que eu já fiz nesta Casa, hoje faço o pronunciamento mais triste. Quis Deus que o destino fizesse eu me encontrar aqui hoje para comunicar o falecimento do ex-Governador Garcia Neto, do Estado de Mato Grosso.

            Dr. Garcia Neto, uma das maiores figuras públicas do Estado de Mato Grosso, homem que conduziu a sua vida pela retidão, pela seriedade e pela responsabilidade.

            Dr. Garcia Neto era natural do Estado de Sergipe, nasceu no Município de Rosário do Catete, em 1º de junho de 1922. Foi um político brasileiro de nome maior e foi político em Mato Grosso durante muitos anos.

            Dr. Garcia Neto é filho de Antônio Garcia Sobrinho e Antônia Menezes Garcia. Ele é graduado em Engenharia Civil pela Universidade Politécnica da Bahia. Formou-se, em 1944, engenheiro civil.

            Em Sergipe, foi Diretor do Departamento de Estradas e Rodagem, DER, e também do Departamento de Saneamento. Foi funcionário do Ministério da Fazenda e aí migrou para Mato Grosso e estabeleceu-se como professor da Escola Técnica Federal de Mato Grosso, Cuiabá. Foi sócio de uma construtora, além de ter dirigido também o Departamento de Obras do Estado.

            Em 1954, foi eleito Prefeito de Cuiabá, pela UDN. Exercendo cumulativamente o cargo de Presidente da Associação dos Municípios da Amazônia Mato-Grossense. E, em 1960, foi eleito Vice-Governador do Estado, quando era Governador o udenista Fernando Correia da Costa. Foi eleito para o mandato de cinco anos.

            Filiado à Arena depois, foi eleito Deputado Federal em 1966 e em 1970.

            Em 1974, Dr. Garcia Neto foi indicado Governador do Estado de Mato Grosso. E, lá no Palácio Paiaguás, indicado pelo Presidente Ernesto Geisel, ele teve a oportunidade de fazer um grande governo para Mato Grosso.

            Durante a sua passagem, Garcia Neto, no Palácio Paiaguás conseguiu fazer um dos governos mais brilhantes do Estado do Mato Grosso. Foi o último Governador de Mato Grosso inteiro. Depois, veio o projeto de divisão, e Garcia Neto teve o desprazer de entregar o Estado dividido, o que lhe custou muito na sua carreira política.

            Foi candidato a Senador por duas vezes. E, lastimavelmente, não teve a oportunidade de ser Senador da República. Primeiro, perdeu para o Senador Benedito Canelas. Foi feita uma campanha difamante contra ele. E, lastimavelmente, não conseguiu chegar.

            Logo depois concorreu contra o Senador Roberto Campos, que era o homem querido do Palácio do Planalto, e Dr. Garcia não teve condições de competir, tendo em vista que ao Senador Roberto Campos foram dadas grandes oportunidades para concorrer àquela eleição. Mas Garcia Neto concorreu com bravura, com força, mas, lastimavelmente, não conseguiu êxito.

            Dr. Garcia Neto foi casado com Dona Maria Lígia Borges Garcia, uma senhora que fez um trabalho social em Mato Grosso dos mais belos possíveis. Dona Maria Lígia, como Primeira Dama, exerceu atividade social do Estado, dando um trabalho da melhor qualidade aos pobres, às populações mais sofridas do Estado de Mato Grosso.

            Dr. Garcia Neto deixou cinco filhos, dois já falecidos, o Sr. José Luís Borges Garcia e a Srª Gláucia Borges Garcia. Filhos que estão lá chorando pela morte do seu pai hoje: Fernando Robério Borges Garcia, Carlos Antônio Borges Garcia e a esposa do Deputado Rodrigues Palma, Maria Alice Garcia Palma. Todos eles pessoas que participaram da vida pública de Mato Grosso e que, de uma forma geral, são pessoas que ainda hoje ocupam posição de destaque na vida pública do Estado.

            O Dr. Garcia Neto foi um homem que sofreu com a separação do Estado, um homem que lutou contra ela e foi convidado pelo Presidente da República de então Ernesto Geisel para assumir o governo do Estado. Quando lá estava, o Presidente o comunicou que ia fazer a divisão do Estado, e ele ponderou, e o Presidente pediu que ele fizesse por escrito as ponderações. Ele voltou a Mato Grosso, reuniu seu secretariado e lá tirou a posição dizendo o porquê não deveria dividir o Estado de Mato Grosso. Não foi ouvido. Dr. Garcia Neto ficou triste. Dr. Garcia Neto voltou para o Estado e alguns sugeriram que ele renunciasse ao governo do Estado por ter sido dividido, e ele falou: eu não posso correr dessa luta agora, principalmente quando o meu Estado mais precisa de mim, quando está dividido. Mas pagou caro na sua vida pública por isso e, entristecido, voltou para casa, quando, na verdade, até hoje, como cidadão, tem sido exemplo de vida para todos nós.

            E eu falo do Dr. Garcia Neto com muita saudade, porque eu comecei a minha vida pública com Garcia Neto, quando, ainda jovem, 23 anos de idade, fui indicado por ele para ser o delegado de educação e cultura da capital. Depois do seu governo, logo em seguida, tive a oportunidade de ser Deputado Estadual, e lembro-me bem da resistência que ele fez, o Dr. Garcia Neto, quando oito Deputados foram pedir que ele me exonerasse porque eu estava sendo a sombra, porque eu teria condição de me eleger Deputado logo em seguida. Ele falou: não, eu não posso exonerar esse menino, porque ele está fazendo um grande trabalho pela educação de Mato Grosso. Isso marcou minha vida, marcou minha carreira, marcou a vida pública que eu tive.

            Logo, em 78, fui eleito o Deputado Estadual mais votado no Estado de Mato Grosso, e, ele, ainda Governador. Logo em seguida, fui eleito Deputado, por mais uma vez, e hoje me encontro aqui, neste momento triste, comunicando ao Brasil a morte do Dr. Garcia Neto. E faço isto aqui, este comunicado, em meu nome, em nome do Senador Jayme Campos, em nome do Senador Júlio Campos, em nome do Senador Márcio Lacerda, em nome do Senador Louremberg Nunes Rocha, em nome da Senadora Serys Slhessarenko e em nome do Senador Gilberto Goellner, que, hoje, não estão presentes nesta Casa, mas eu tenho certeza que estão também enlutados com esse passamento do Dr. Garcia Neto.

            Tombou um gigante, Sr. Presidente. Dr. Garcia Neto era uma das reservas morais de Mato Grosso, um homem que fez um trabalho muito grande pelo nosso Estado. Quando Governador, Garcia Neto teve a oportunidade de criar os Distritos Industriais do Estado de Mato Grosso. Ali começou, praticamente, a era de industrialização de nosso Estado. Dr. Garcia Neto fez um governo de norte a sul, deixando obras importantes. Naquela época, construir 800 km de estrada era praticamente uma coisa impossível. E ele deixou 700 km de estradas, 800 km de estradas construídas em Mato Grosso.

            Dr. Garcia Neto fez o maior plano de construção de escolas do Estado de Mato Grosso. Inclusive, eu tive a oportunidade de ser Delegado de Educação à época em que o Senador Louremberg era o Secretário de Educação do Estado. Participamos desse momento glorioso na vida do Dr. Garcia Neto.

            Ele criou o Pró-Sol, que era um programa, ou seja, uma secretaria que fazia promoção social no Estado. E Dona Maria Lígia, sua esposa, lá estava à frente. E ele exigiu que ela não tivesse remuneração nenhuma para exercer essa função, coisa inédita na vida pública do Brasil.

            E, lá, ela dirigiu, criando a Fundação Dom Aquino Correia, que dava assistência às pessoas que tinham deficiência física, deficiência mental. E, assim, um instituto que, na verdade, deu um grande serviço a Mato Grosso e ajudou tanta gente pobre, tanta gente que precisava.

            Portanto, Dr. Garcia Neto foi, acima de tudo, um homem público inigualável, um homem que dedicou sua vida à política de Mato Grosso; um homem que, quando foi Prefeito, em 1954, tomava postura, tinha razões para as brigas que ele travava. Teve um episódio até, em Cuiabá, que se chama “A Ponte da Confusão”, em que o adversário do PSD não queria deixar que ele inaugurasse a ponte. E lá foi toda a sua UDN para lutar, para fazer a ponte no Bairro do Baú. E, até hoje, há essa ponte lá, que é motivo, ainda, de folclore da política em Mato Grosso. Foi lá, lutou contra a polícia e contra todos, e Garcia Neto conseguiu implantar aquela ponte e construir em poucos dias.

            Aqui, no Congresso Nacional, ele foi Deputado Federal por duas vezes. E, quando aqui esteve, Garcia foi um dos criadores da Universidade Federal de Mato Grosso. Lutou para que a Universidade tivesse sede em Cuiabá. Foi uma das maiores lutas de Garcia Neto para ganharmos essa universidade. A juventude e toda a classe, hoje, de trabalhadores de Mato Grosso que fizeram curso superior na década de 1960 para cá devem a Garcia Neto essa luta de ter levado a Universidade Federal para Mato Grosso.

            E, aqui, como Vice-Líder da Arena, ele tomou posições contra a Revolução. Naquele fato em que Moreira Alves foi cassado, ele, como Líder do Governo, aqui, ele se colocou contra àquela punição a Moreira Alves.

Foi o único homem da Bancada do Governo que teve a coragem de peitar a Revolução. E isso quase lhe custou a cassação do seu mandato.

            Portanto, Garcia Neto foi um homem incomum, um homem acima da média, um homem que verdadeiramente dedicou sua vida às questões maiores do seu País. Como Diretor da Eletronorte, fez um grande trabalho para Mato Grosso.

            E se temos hoje a Usina de Manso foi porque ela começou quando Garcia Neto estava aqui, na Eletronorte. Homem de grandes lutas.

            Portanto, Mato Grosso chora a morte de Garcia Neto. Mato Grosso chora a perda desse grande homem público da história de Mato Grosso. E quase todos os atos dos últimos 50 anos de Mato Grosso têm o dedo de Garcia Neto, têm a luta de Garcia Neto, têm a inteligência de Garcia Neto, têm a vontade política de Garcia Neto.

            Mato Grosso perde um democrata, o Brasil perde mais um democrata, o mundo perde um democrata. Um homem de posições claras; um homem que, na verdade, a vida toda lutou pelas posições democráticas. Um homem que nunca tergiversou sobre as liberdades, um homem que dedicou sua vida à defesa da democracia, do Estado de direito; dedicou sua vida à defesa das questões maiores da população que ele sempre representou. Um homem de uma vida pública completa.

            A vida pública de Garcia Neto foi completa: uma vida de serviço, uma vida de luta, uma vida de coerência, uma vida de responsabilidade.

            Portanto, tenho certeza de que a população de Mato Grosso hoje chora pelo passamento de Garcia Neto, um homem que ficará na história; história linda, história gravada no coração de todos, porque foi um homem que, realmente, trabalhou com dedicação.

            E o que é o destino?! Coloco-me aqui hoje - eu que sou discípulo da sua vida pública, eu que comecei minha vida como professor no seu Governo - e agora para comunicar ao Brasil seu passamento.

            É triste, indiscutivelmente! É possível que, se não existisse Garcia Neto, eu não estaria aqui, hoje, na tribuna do Senado da República, porque ele foi o homem que me deu condições de estudar, de frequentar uma universidade, de ter o meu primeiro emprego, de ter oportunidade de servir ao meu Estado de Mato Grosso.

            Sr. Presidente Paim, há pessoas que, na verdade, não morrem; apenas passam para outro plano. Garcia Neto é essa pessoa. A cada dia vai ficar mais forte sua imagem, porque ele foi um homem que viveu para servir. Não foi um homem que viveu para ser servido, mas para servir. Viveu para se dedicar ao seu Estado, às causas maiores, ao seu Brasil, ao seu País como um todo.

            Portanto, choro aqui a morte de Garcia Neto, porque tenho certeza de que pessoas como ele demoram muito para nascer; pessoas como ele são difíceis de se encontrar na História do Brasil. Foi um homem que, realmente, orgulhou todos aqueles que fazem política neste País.

            Quero aqui, em nome de todos os mato-grossenses, em nome de todos os brasileiros que conheceram Garcia Neto, dizer à sua família que, na verdade, valeu a pena a luta dele, valeu a pena o trabalho dele, valeu a pena a dedicação que ele teve a este País, porque hoje todos nós somos seus discípulos e todos nós temos um exemplo a seguir. É um homem que, na verdade, marcou a História do Brasil, pela sua bravura, pela sua inteligência, pela sua competência, pela sua seriedade, pela forma com que tratava seus amigos, seus companheiros.

            Garcia Neto é da mesma escola de Oscar Soares, que foi Deputado Estadual, um dos homens mais honestos que conheci na minha vida. É da escola de Joaquim Nunes Rocha, que também já passou. Todos eles. Escola da ex-UDN, escola de homens que, na verdade, encaravam a vida pública com seriedade e com responsabilidade.

            Hoje, foi o dia de Garcia Neto. Ele está sendo velado na Capela Jardins, em Cuiabá. E tenho certeza de que todos os seus amigos estão lá, chorando, mas a certeza também de que tiveram sempre ao seu lado a figura de um homem que dedicou sua vida a causas maiores.

            Portanto, Sr. Presidente, é neste momento, com pesar, que eu, minha família e meus amigos transmitimos nossos pesares à família de Garcia Neto, à família mato-grossense, à família cuiabana, a que ele serviu durante mais de 50 anos.

            Garcia Neto chegou em Cuiabá ainda nos anos de 1940; chegou como simples jovem, engenheiro recém-formado e ali ficou até hoje. Sua família, hoje, goza de privilégio, de respeito naquela capital. Portanto, seu passamento entristece todos aqueles que o conheceram.

            Mato Grosso está de luto, e, durante três dias, vamos repensar a vida naquele Estado através do luto que foi decretado pelo Sr. Governador do Estado, Blairo Maggi, e pelo Prefeito da Capital, Wilson Santos.

            Portanto, quero dizer, mais uma vez, que tombou um gigante; que Garcia teve uma vida vivida em prol do povo, em prol da sua geração, em prol daqueles que verdadeiramente acreditam que dá para se fazer uma política diferente, uma política de seriedade, de responsabilidade e uma política que engrandeça aqueles que nos colocam no Parlamento e que nos outorgam mandatos populares.

            Temos, volto a repetir, menos um democrata no mundo; temos menos um homem público que verdadeiramente dedicou sua vida às questões maiores.

            Portanto, aqui quero dizer que eu não queria ter comunicado isso. Eu queria ter todos os privilégios, menos este de aqui falar sobre o passamento de um grande homem, de um grande amigo, de um grande pai, de um grande companheiro, que foi José Garcia Neto.

            Fica aqui registrado para a História do Brasil o passamento desse grande homem, que, na verdade, foi exemplo de luta, exemplo de vida para Mato Grosso.

            Sr. Presidente, agradeço a oportunidade que o senhor me deu para fazer esse comunicado; e agradeço a Deus por ter me dado a oportunidade de conviver com Garcia Neto, de viver no tempo em que ele viveu e de ter dele adquirido grandes ensinamentos, que ele deu para toda a minha geração.

            É um dos últimos dessa geração antiga que estava vivo em Mato Grosso. Resta, do seu tempo, o professor Aecim Tocantins, que é um ano mais novo que ele, mas todos os outros já se foram. E, agora, quero que essa turma nova, que essa geração nova siga o exemplo de Garcia Neto, porque vale a pena.

            Ele estava, inclusive, nos últimos dias, escrevendo um livro sobre a história de Mato Grosso, sobre aquilo que ele viveu, aquilo que ele fez e aquilo que ele presenciou. Acredito que não deu tempo de concluir o livro, mas sua biografia está escrita na História do Brasil.

            Muito obrigado, Sr. Presidente.


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