Autor
José Agripino (DEM - Democratas/RN)
Data
23/02/2010
Casa
Senado Federal 
Tipo
Pronunciamento 

                          SENADO FEDERAL SF -

            SECRETARIA-GERAL DA MESA

            SUBSECRETARIA DE TAQUIGRAFIA 


            O SR. JOSÉ AGRIPINO (DEM - RN. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs Senadoras, Srs. Senadores, familiares dos falecidos, senhores militares, há menos de uma semana eu via, num blog, uma fotografia do Presidente Sarkozy, de paletó e gravata, num helicóptero. Era uma fotografia tomada por trás dele, que o mostrava observando os destroços de Porto Príncipe.

            As imagens que as televisões, os jornais e as revistas do mundo inteiro e as nossas do Brasil divulgaram da destruição de Porto Príncipe, no Haiti, foram uma coisa singular no mundo, absolutamente singular.

            O Haiti já era um dos mais pobres países das Américas, pobreza decorrente do processo de independência, do processo político de independência. Eu não sei se V. Exª conhece a República Dominicana, Presidente Paim. Eu estive lá, há poucos meses, são territórios contíguos. Eu estive, inclusive, com o Presidente da República, Dr. Fernández, que me causou muito boa impressão. Um país, de certa forma, arrumado, investindo no turismo, investindo na indústria, na agricultura e que teve um processo de desenvolvimento completamente diferente do processo do Haiti.

            Enquanto o Haiti tinha o François Duvalier, o Papa Doc, e, depois, o Baby Doc, eles tinham outros. Enquanto a República Dominicana tinha se emancipado de uma forma; a emancipação política do Haiti anterior tinha ocorrido de outra forma, gerando outros vícios e outros problemas que vitimaram o povo e o território do Haiti, produzindo, repito, uma das mais pobres nações das Américas.

            O Brasil foi chamado a transferir um contingente militar, sob a tutela da ONU, para garantir a ordem num momento de desordem política no Haiti. E para lá foram os nossos militares. Nós aqui votamos muitas vezes, e temos votado sempre, a aprovação de recursos financeiros para a manutenção das tropas brasileiras num país irmão, como é o Haiti, numa ação humanitária.

            Mas eu tenho a consciência, Senador Paulo Paim, de que só quem é capaz de modificar a realidade do Haiti são os haitianos. Fora isso, nada feito. Você pode, por uma intervenção, por uma presença, mudar circunstancialmente, mas se a essência, se o povo não se preparar para as mudanças, como o povo da vizinha República Dominicana se habituou ao longo do tempo, nada feito. Este era e é o papel que nós, brasileiros, pelos nossos contingentes militares, temos a desempenhar no Haiti: promover, com ações fraternas - até incluída aí a presença da Seleção Brasileira -, a consciência política, a cidadania no Haiti, pela introdução da busca à educação, da busca à saúde, aos hábitos sanitários, a objetivos de vida, a objetivos de industrialização, de implantação, de metas do campo agrícola.

            É preciso que se faça uma consciência nacional. Acho que muito dessa tarefa precisa estar entregue ao contingente militar que o Brasil para lá mandou. Por que razão? O haitiano, com certeza absoluta, deve ver no brasileiro um ser semelhante. Não vê em outros que foram seus dominadores...

            O SR. PRESIDENTE (Paulo Paim. Bloco/PT - RS) - Senador José Agripino, se V. Exª me permite, quero, com muita honra, passar a Presidência neste momento ao Senador Flávio Arns - este ato, inclusive, é uma homenagem -, como primeiro signatário.

            Senador Flávio Arns.

            O SR. JOSÉ AGRIPINO (DEM - RN) - Cumprimento o Senador Flávio Arns, a quem procurei cumprimentar na oportunidade em que recebi a notícia do falecimento da Dona Zilda Arns, sua parenta muito próxima.

            Mas eu dizia que a presença brasileira, mais do que apartar brigas, mais do que diminuir rebeliões, mais do que diminuir índices de violência, tem a obrigação de formar uma consciência nacional. E o brasileiro, diferentemente do francês, do americano, é visto pelo haitiano como irmão fraterno e tem a condição de estabelecer o bom diálogo, o que ficou claro no episódio do terremoto.

            A presença de Dona Zilda, Drª Zilda, é emblemática. Não se faz a mudança num país com grandes gestos, com grande investimentos - esses precisam ser feitos e até devem ser feitos -, mas as mudanças se fazem com gestos que podem ser pequenos, mas que têm que ser permanentes, de efeito e de consequências práticas.

            Drª Zilda Arns, com a sua beleza interior e com a sua singeleza de atitudes, fez uma coisa como essa a que me refiro no Brasil. Ela diminuiu a mortalidade infantil com a introdução de um hábito: o soro caseiro, uma coisa tão simples e que produziu, a um custo baixíssimo, compatível com o que o Haiti precisa - soluções desse tipo - a diminuição da perversa mortalidade infantil.

            A Drª Zilda Arns estava no Haiti. Curioso! O que ela estava fazendo no Haiti? Palestra. De quê? Cidadania. Onde? Numa igreja. Falando para um contingente de milhões? Não! De dezenas de pessoas, uma ação quase catequética de multiplicação de pequenos grupos, das pequenas ações que podem e devem ser permanentes, ao modelo dela.

            Se eu entendo que os militares brasileiros no Haiti... E é por isto que nós temos, permanentemente, destinado verbas para que o vai e vem de tropas aconteça e para que o nosso contingente esteja lá, mesmo discutindo que não mandam o dinheiro das enchentes do Rio Grande do Norte, de Santa Catarina, mas mandam o dinheiro para manter as tropas do Haiti. Está correto!

            É uma ação que eu entendo correta no plano internacional. Mas entendo que a ação não pode ser, repito, para apartar briga ou para eliminar rebeliões. A ação tem que ser para fazer aquilo que a Drª Zilda Arns se propunha a fazer e morreu dando o exemplo: a pequena ação de caráter permanente, a pequena palestra na igreja para um contingente pequeno, mas que muda hábito, muda postura, constrói cidadania.

            Eu quero, com esta palavra, manifestar o meu orgulho pelo fato de nós continuarmos a participar desse esforço, agora, mais do que nunca, de reconstrução do Haiti.

            Senador Flávio Arns, quando ocorreu o terremoto e me chegou a notícia do falecimento da Drª Zilda, eu estava no Município de Parelhas, na Festa de São Sebastião, que é o padroeiro de Parelhas, como é o padroeiro de Caraúbas, onde eu estive, no dia anterior, no dia seguinte. E eu falava na igreja, no púlpito da igreja para muitos milhares de pessoas. E, na minha fala - porque o padre me pediu para dirigir uma palavra - eu mencionei o exemplo da Drª Zilda. Foi muito aplauso. Como foi muito aplauso dentro da igreja de Caraúbas. A sua parenta era uma pessoa estimada pelo Brasil inteiro. Ela fez por onde. Ela era uma pessoa discreta, competente e que ajudou muito o Brasil e estava querendo ajudar muito o mundo.

            Eu quero, com isso, manifestar o meu aplauso ao esforço brasileiro de manutenção da ordem e de reconstrução do Haiti. Eu quero manifestar a minha solidariedade pela perda de 18 brasileiros militares e um diplomata. Quero, com a minha palavra, chegar a cada coração de cada parente pela ação que desenvolviam, que está sendo desenvolvida pelos que se seguiram. Quero trazer com a minha palavra o estímulo à solidariedade e à fraternidade internacional.

            Mas, mais do que isso, que sirva a minha palavra de relevo especial à figura de uma brasileira de quem, eu como brasileiro, tenho muito orgulho pelo que ela é pelo Brasil e pelo que é para o mundo, a Drª Zilda Arns, a quem eu peço que Deus a guarde e a mantenha em paz. (Palmas.)


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