Pronunciamento de Pedro Simon em 26/02/2010
Discurso durante a 18ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal
Reflexão sobre a Campanha da Fraternidade 2010, promovida pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, e que neste ano será feita em conjunto com as igrejas que fazem parte do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs no Brasil: Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia.
- Autor
- Pedro Simon (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/RS)
- Nome completo: Pedro Jorge Simon
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
RELIGIÃO.
POLITICA SOCIO ECONOMICA.
REFORMA POLITICA.:
- Reflexão sobre a Campanha da Fraternidade 2010, promovida pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, e que neste ano será feita em conjunto com as igrejas que fazem parte do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs no Brasil: Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia.
- Aparteantes
- Cristovam Buarque.
- Publicação
- Publicação no DSF de 27/02/2010 - Página 4556
- Assunto
- Outros > RELIGIÃO. POLITICA SOCIO ECONOMICA. REFORMA POLITICA.
- Indexação
-
- IMPORTANCIA, CAMPANHA DA FRATERNIDADE, RESGATE, CONCEITO, SOLIDARIEDADE, ELOGIO, PARTICIPAÇÃO, DIVERSIDADE, IGREJA, PARCERIA, IGREJA CATOLICA, REGISTRO, HISTORIA, ESCOLHA, ASSUNTO, SUPERIORIDADE, VINCULAÇÃO, PROBLEMAS BRASILEIROS, SAUDAÇÃO, DEBATE, ATUALIDADE, ECONOMIA, VIDA, MOTIVO, ANALISE, ORIGEM, CONFLITO, EXCLUSÃO, EFEITO, GLOBALIZAÇÃO, FUNÇÃO, TELEVISÃO, EXCESSO, INCENTIVO, CONSUMO, DESVALORIZAÇÃO, EDUCAÇÃO, FAMILIA, VALOR, RELIGIÃO, LEITURA, TRECHO, DOCUMENTO.
- ANALISE, PENSAMENTO, ALBERTO PASQUALINI, EX-DEPUTADO, DEFESA, JUSTIÇA SOCIAL, DIREITOS, TRABALHO, REMUNERAÇÃO, GARANTIA, CIDADANIA, GRAVIDADE, POPULAÇÃO, MUNDO, VITIMA, MISERIA, EXPECTATIVA, ALTERAÇÃO, POLITICA, DISCUSSÃO, MODELO ECONOMICO, INCLUSÃO.
- PROPOSTA, CONVOCAÇÃO, ASSEMBLEIA CONSTITUINTE, EXCLUSIVIDADE, PROMOÇÃO, REFORMA POLITICA, DEFESA, FINANCIAMENTO, SETOR PUBLICO, CAMPANHA ELEITORAL, COMBATE, TROCA, FAVORECIMENTO, GRUPO ECONOMICO, BANCOS, EMPREITEIRO, POSTERIORIDADE, ELEIÇÕES, ESPECIFICAÇÃO, DEFINIÇÃO, ORÇAMENTO, REITERAÇÃO, NECESSIDADE, IMPEDIMENTO, CANDIDATURA, REU, PREVENÇÃO, CORRUPÇÃO.
- DEFESA, AMPLIAÇÃO, DEBATE, CAMPANHA DA FRATERNIDADE.
| SENADO FEDERAL SF -
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O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, faço um pronunciamento que não deveria ser feito hoje. Foi solicitada uma sessão especial para debater a Campanha da Fraternidade. Ela vai ser realizada daqui a alguns dias, mas, infelizmente, nesse dia, eu estarei em Montevidéu, como Deputado do Congresso do Mercosul, numa reunião que se realizará lá. Então, peço licença à Casa e a V. Exª para me antecipar e fazer hoje o pronunciamento que eu faria daqui a alguns dias sobre um tema que considero realmente muito importante e que já faz parte da tradição do nosso País: a Campanha da Fraternidade.
Sr. Presidente, a fé que me move me faz crer que somos todos filhos de Deus. Portanto, se temos o mesmo Pai, somos, por definição, irmãos, independente de cor, raça, credo, condições sociais e políticas, do lugar, da geografia ou do tempo da história.
É bem verdade que não tem sido fácil ser irmão nestes nossos dias, exatamente pela definição óbvia e redundante de que, para ser irmão, é preciso ser fraterno. É que a fraternidade tem sido substituída, cada vez mais, em nossos dias, no mundo inteiro, pela concorrência.
Podemos até ser irmãos. Podemos ser irmãos no discurso e até nas coisas da alma. Mas a vida nos tem levado, cada vez mais, a ver o nosso irmão como um concorrente e não mais como um semelhante. Um concorrente pelo mesmo lugar na universidade, no estacionamento, na vaga do emprego e mesmo na fila do hospital. Um lugar na vida, enfim. O meu irmão é meu concorrente. Quer dizer, somos irmãos e vivemos o todo tempo concorrendo por um espaço na “Casa do Pai”.
Eu acho que este é o maior e o melhor objetivo das Campanhas da Fraternidade da CNBB neste quase meio século: mais do que nos confirmar que somos irmãos, resgatar o verdadeiro sentido de fraternidade. O sentido e o sentimento.
A fraternidade é um discurso que comove. Mas não significa que o discurso da comoção tenha levado à prática e à ação. Fosse diferente, talvez nem tivéssemos necessidade de Campanhas da Fraternidade por tanto tempo.
Aí está, portanto, uma contradição: ao mesmo tempo que louvamos uma campanha, por ela já existir há 46 anos, por outro lado, quanto mais longeva ela fique, mais ainda nós concluímos que a falta de fraternidade persiste e que é uma realidade que está cada vez mais distante no tempo. Teremos, ainda, muitas Campanhas da Fraternidade para que sejamos efetivamente irmãos, irmãos verdadeiramente fraternos.
Por tudo isso, as Campanhas da Fraternidade têm sido muito mais campanhas pela fraternidade do que Campanhas da Fraternidade. Um apelo à fraternidade, muito mais do que um louvor.
A Campanha da Fraternidade deste ano tem, para mim, um aspecto essencial. A exemplo do que ocorreu em 2000 e 2005, ela é promovida não só pela Igreja Católica, mas por um conjunto de igrejas que fazem parte do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil. São elas, além da própria Igreja Católica Apostólica Romana, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e a Igreja Sirian Ortodoxa da Antioquia. Um sinal de fraternidade religiosa, portanto.
Eu já disse, e repito, que, se nós juntássemos todos os documentos, com todos os diagnósticos, prognósticos e propostas das Campanhas da Fraternidade ao longo do tempo, teríamos o melhor de todos os programas de governo para qualquer candidato e para qualquer partido. Quem sabe até tenhamos coincidência entre esses mesmos documentos e os discursos de campanha! Uma distância enorme, entretanto, com a prática dos eleitos. Talvez esteja aí a causa maior da necessidade de tantas Campanhas da Fraternidade.
Tivemos temas e lemas dos mais importantes neste quase meio século: drogas, povos indígenas, desempregados, paz, educação, encarcerados, moradia, saúde e tantos outros temas. Em todos eles, uma lista enorme de problemas ainda a serem resolvidos. E o tempo passou, e eles persistiram. É que um mero passar de olhos nesses mesmos temas é suficiente para a observação de que se tratam, na sua grande maioria, de conseqüências. Raramente são causas.
Eu creio que existem, entretanto, três temas de Campanhas da Fraternidade que podem resumir tanto as consequências como as causas de tamanha e insistente necessidade de celebrar e de relembrar aos irmãos a necessidade de viver a verdadeira fraternidade. O primeiro deles, o da Campanha de 1995, tema que considero sinônimo de todas as consequências: “A fraternidade e os excluídos”. O segundo e o terceiro, agora como causas: em 1996, “Fraternidade e política”; e o atual, de 2010, “Economia e vida”. Isto mesmo: política e economia como causas. Excluídos como consequência.
Quem são, afinal, os excluídos? Quem são aqueles que ainda tanto necessitam da educação, da saúde, da moradia e de outros tantos direitos reclamados em tantas Campanhas da Fraternidade? São exatamente os excluídos pela economia e pela política.
Acho que nunca como agora a economia e a política andaram de mãos dadas. Diria até que elas - a economia e a política - são fraternas.
Parece que tudo hoje obedece a uma única constituição internacional que o mercado chama de “globalização”. Surgiu até mesmo uma nova religião, o consumismo. Para o mercado são hereges aqueles que não seguem os dogmas dessa nova religião. O “dízimo” é o pagamento pelo consumo, e a “indulgência” virou mercadoria.
Para o mercado, portanto, os excluídos são hereges. Não praticam a religião do consumismo, não rezam na bíblia da globalização e não pagam o dízimo do consumo.
A Campanha da Fraternidade desse ano percebeu muito bem isso. E foi mais longe: “Na lógica do mercado, paga-se pela troca de bens e serviços. Entretanto, existem exigências humanas, coletivas e qualitativas, que não podem ser satisfeitas através desse mecanismo. Há valores que devido a sua natureza, não se podem e nem se devem vender.
Eu também tenho repetido ao longo dos anos, reiteradamente, que o tripé que construía os melhores valores humanos em outros tempos, família, escola, igreja, cada vez mais está sendo substituído pela televisão.
Ora, o que é hoje a televisão que não um instrumento de busca pela conversão ao consumismo? Que um instrumento de mercado? Que um veículo de promoção do dízimo do consumo, para a religião do consumismo que se fundamenta na “bíblia” da globalização?
Antes, era o círculo de debate de valores humanos. Mesmo que esses mesmos valores envolvessem também aspectos materiais. Esses mesmos aspectos materiais serviam muito mais para realizar o próprio ser humano em suas necessidades mais básicas. Mas a questão central, tanto na família, como na escola e na Igreja, eram os valores humanos: a ética, a solidariedade, a compaixão, o amor ao próximo, o amor à humanidade no seu melhor sentido. Valores que parecem não ser prioritários para o mercado. O lucro nem sempre tem pudor.
De repente, a televisão transformou o tal círculo de debate em um imenso semicírculo de monólogo. Ou de milhões de semicírculos porque podem ser diferentes as famílias, as escolas, as religiões, as geografias e as histórias, mas há um discurso único não mais do pai, do professor ou do pastor; agora, quem marca, quem marca o debate é o chamado marketing. Isso mesmo, palavra escrita e pronunciada na língua oficial da globalização. Talvez pudéssemos traduzi-la como marqueteiro, expressão utilizada tanto na política, como na economia. Cá entre nós, então, o que era sacerdócio virou negócio.
Sai de cena, portanto, o calor do debate e dá espaço à frieza do monólogo. Não o educador, mas o vendedor. E, como se sabe, o mercado nem sempre se pauta pelo pudor, pela ética; e, nem mesmo, muitas vezes, pelos valores humanos mais nobres.
A televisão é o grande profeta do consumismo, que prevê um futuro melhor somente para aqueles que têm condições de adquirir a grife. Para a Campanha da Fraternidade, o consumismo é fortemente induzido pela propaganda. Formou-se uma mentalidade de que, quanto mais se consome, mais se têm garantias de bem-estar, de prestígio, de valorização, já que na atualidade as pessoas são avaliadas pelo que possuem e não pelo que são. Repito: as pessoas são avaliadas pelo que possuem e não pelo que são. O que interessa é o que eu tenho e não o que eu sou. E pior: não vejo mudanças em um horizonte tão próximo. É que as crianças de hoje também são, cada vez mais, consumidoras precoces, cada vez mais, miniaturas dos adultos.
A família, até mesmo para sobreviver, teve que se lançar ao mercado. A escola, ela própria, virou mercado. A religião também, muitas vezes, transforma indulgências em mercado. As crianças, o nosso real horizonte, ficam à mercê dessa televisão. Elas são o tal mercado futuro cada vez mais presente. Os nossos filhos, pelas necessidades de sobrevivência impostas pelo mercado, passam mais tempo diante da TV do que na escola e, pior, do que na família. Cérebros que eram formados hoje são cérebros lavados, preparados para a grife. Sai da cena a formação, para que o foco das luzes se direcione para a simulação ou para a dissimulação. O ator no lugar do pai; o locutor no lugar do pastor ou do mestre.
É evidente que não me acode a ideia de revogar as leis de mercado. E essa também não é, obviamente, a proposta da Campanha da Fraternidade deste ano. Diz o documento base de 2010:
O problema não é o dinheiro em si, mas o uso que dele se faz. É útil como instrumento destinado a serviço e intercâmbio de bens de uso, mas não pode ser o supremo comandante dos nossos atos, não pode ser o critério absoluto das decisões dos indivíduos e dos governos. Deve ser usado para servir ao bem comum das pessoas na partilha e na solidariedade.
O dinheiro tem o poder de moldar valores antes consolidados, de orientar segundo seus interesses a escola, de fabricar novos deuses, de dissolver a família, de tolher sonhos. Quando invade a alma, torna-se uma espécie de feitiço e de fetiche.
Eu não me volto, como princípio, contra o supérfluo, apenas eu acho que o mais importante é a melhor distribuição do necessário, coisa que nem a economia nem a política têm sido capazes de fazer. Pior: têm todas as condições de fazê-lo, mas não o fazem. E não o fazem porque a política, no mesmo passo da economia, sua irmã fraterna, também não tem se pautado pelos melhores valores, também não tem se movido pelo pudor. Muito pelo contrário.
Volto o pensamento para o meu saudoso professor e mestre Alberto Pasqualini, um dos mais respeitados homens públicos da história deste País, que viveu à frente do seu tempo, e que, portanto, é atual.
Para ele, o mais importante é a justiça social. Todo cidadão tem o direito ao trabalho. Como consequência do seu suor, uma remuneração justa. Justa no sentido de lhe prover o sustento da família, e todas as condições necessárias para torná-lo um verdadeiro cidadão.
Pasqualini dizia que o comunismo pregava a igualdade, mas sacrificava a liberdade. O capitalismo, o contrário: defendia a liberdade, mas sacrificava a igualdade. Daí, a sua definição, e a sua pregação, pela justiça social. Daí, a sua doutrina do solidarismo social - muito antes que a Igreja adotasse essa definição, Pasqualini já pregava aquilo que hoje o mundo reconhece: o solidarismo social.
Uma das matérias mais importantes nos cursos de Economia trata da formação de preços. Nos últimos tempos, essa matéria parece, também, fazer parte das atribuições da Política.
O preço, na Política, tem sido a indicação para cargos públicos e a liberação das emendas orçamentárias. Ou a corrupção na execução de obras e serviços públicos.
A Política também tem se pautado, cada vez com maior intensidade, pela Economia, pelo mercado, pelos interesses de grupos, principalmente os mais fortes. Aí, o preço tem sido o financiamento de campanhas eleitorais.
Não descarto o mérito de que tenhamos caminhado, e muito, na distribuição do necessário. Mas não podemos também desconhecer que ainda há muito a percorrer. Volto ao documento da Campanha da Fraternidade: “... em 2007 existiam, no Brasil, 10,7 milhões de indigentes (ou seja, famintos), e 46,3 milhões de pobres (ou seja, sem acesso às necessidades básicas, alimentação, habitação, vestuário, higiene, saúde, educação, transporte, lazer, entre outras)...”
Continua o documento:
A população brasileira que vive em estado classificado tecnicamente como de extrema pobreza continuará a ser indigente. Pessoas nascidas economicamente indigentes correm o risco de assim continuar. Tais pessoas não conseguem, de modo geral, quebrar esse círculo vicioso, a não ser que a sociedade se organize de outro modo, colocando acima dos interesses do mercado o ser humano.
Para o mercado, o excluído está na conta do passivo. E essa conta já passa de um bilhão de seres humanos em todo o mundo. Um bilhão de irmãos, filhos do mesmo Pai, na dor da fome. Vivem separados por um muro da vergonha, sobre o qual são atirados, apenas, os restolhos do que não se consome do lado de cá. Como dádivas, como mecanismos compensatórios ou, simplesmente, como esmolas. Muitas vezes, como tentativas de expiação de pesos de consciência.
Eu não espero, Sr. Presidente, nos moldes atuais, mudanças na Política a partir da Economia. Infelizmente, nem na Economia a partir da Política. Ambas se complementam nestes nossos dias. E, parece, satisfazem-se mutuamente.
Tenho esperança, entretanto, de que sejam possíveis mudanças na Política e, a partir daí, possa-se provocar uma ampla discussão sobre as mudanças na Economia. Entretanto, as mudanças que eu imagino serem importantes na Política são de responsabilidade, hoje, exatamente de quem abomina qualquer alteração nas regras do jogo político. Não haverá, portanto, qualquer alteração na política a partir das decisões institucionais, de dentro para fora. Daí é que se reforçam algumas das minhas propostas.
Em primeiro lugar, assumindo que os políticos de hoje não farão as alterações políticas necessárias, proponho uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva para promover a chamada reforma política. Essa mesma Assembleia terá, obviamente, todas as prerrogativas legais para tornar a nossa representação política mais legítima, para que os chamados “excluídos” tenham, verdadeiramente, representação política no Congresso Nacional e nas demais representações de todos os níveis.
Enquanto essa Assembléia Constituinte não se materializa, ou na hipótese de ela ser rejeitada, algumas mudanças são imprescindíveis para que a nossa representação política seja verdadeiramente legítima.
Uma dessas mudanças que proponho é o financiamento público de campanha. Cortar o cordão umbilical entre os agentes econômicos e os representantes políticos. Basta um passar de olhos nos quadros dos maiores financiadores de campanha para ver que eles são, durante o mandato, atores privilegiados nas decisões políticas, principalmente na definição dos orçamentos. São bancos, empreiteiras e grandes conglomerados econômicos.
As campanhas eleitorais atingiram custos que afastaram qualquer possibilidade de promover a inclusão na representação política. Essa representação, para as camadas mais pobres, mais modestas, passou a ser insignificante. O financiamento público de campanhas democratiza a política, também em todos os níveis.
Existem vozes que argumentam ser esta proposta mais um gasto público desnecessário. São as mesmas vozes que se levantam contra qualquer mudança no quadro político.
O financiamento privado não se dá sem o devido retorno. Aliás, nos moldes atuais, talvez seja apropriado chamar o financiamento privado de campanhas eleitorais de investimento. E investimento de retorno garantido e sem riscos. Ele volta na forma de emendas orçamentárias. Aí sim, nem sempre necessário. Em muitos casos, corrupto.
A outra questão, que é complementar, é a necessidade de que os representantes políticos tenham, necessariamente, “ficha limpa”. A política não pode continuar sendo um agasalho para a corrupção, muito menos para a impunidade. O recurso público é sagrado. Sendo assim, a política tinha que se assemelhar a um verdadeiro sacerdócio, nunca a um negócio. Digo isso porque, apesar de pregar a necessidade da solidariedade, da compaixão, do amor ao próximo e da humanidade, a experiência tem mostrado que são sentimentos que passam ao largo da Política e da Economia. Sendo assim, corre-se o risco de sentimentos tão nobres permanecerem sempre no discurso, nunca na prática.
Poderemos ter, então, até mesmo dificuldade de encontrar, num horizonte próximo, outros temas de outras Campanhas da Fraternidade. Terão que ser repetidos, quase todos como consequências. Mas eu tenho certeza de que eles serão menos repetidos se, de fato, os temas da Política e da Economia atingirem os objetivos propostos pelas respectivas Campanhas da Fraternidade. Exatamente, repito, Presidente, porque tratam de temas que são a causa da exclusão social, que englobam praticamente todos os outros objetos das Campanhas.
Para se atingir, efetivamente, as causas e se alcançarem as consequências, as condições de vida dos excluídos, a verdadeira fraternidade, é preciso que as Campanhas da Fraternidade não se restrinjam às respectivas igrejas no seu sentido material. Elas têm que sair, necessariamente, às ruas.
Também não terá qualquer resultado positivo caso se circunscreva a cerimônias especiais. O lema deste ano é “você não pode servir a Deus e ao dinheiro.” Corre-se o risco de as Igrejas servirem a Deus, à política, à economia e ao dinheiro. As Igrejas têm papel imprescindível na mudança da política e da economia, porque podem, pelo seu poder agregador, principalmente dos excluídos pela política e pela economia, promover as mudanças de fora para dentro.
As Campanhas da Fraternidade não podem continuar sendo tão-somente pela fraternidade. O povo brasileiro é, por formação, fraterno. Há que se ter, de fato, as mudanças propostas, ao longo de quase meio século, para que elas sejam, de fato, da fraternidade; para que o apelo à fraternidade possa se transformar, o mais breve possível, verdadeiramente, em um louvor.
Encerro, Sr. Presidente, agradecendo a tolerância de V. Exª.
Mas acho que foi uma obrigação minha; uma obrigação minha, Sr. Presidente, trazer a esta Casa esta minha modesta contribuição.
Eu acho uma das coisas mais lindas essa Campanha da Fraternidade. Para nós, cristãos, ela lembra Cristo, que, completando trinta anos, antes de iniciar sua pregação pública, ficou quarenta dias no deserto. Quarenta dias sem comer, sofrendo as tentações do demônio e ....
(Interrupção do som.)
O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - ....chamada Quaresma.
Durante esses 40 dias, nós somos levados a debater, a discutir, a analisar, a fazer reflexões sobre a realidade.
Em muito boa hora, aqui no Brasil, aproveitou-se exatamente esse tempo, esses quarenta dias, que são a campanha da Quaresma, da meditação, da reflexão, e se iniciou a Campanha da Fraternidade. Sensacional! Nesses quarenta dias, em todos os púlpitos, em todas as igrejas, em todas as escolas cristãs, se debate, se discute e se orienta. Cada ano um tema.
A campanha é bonita, é bela, é comovente, mas infelizmente não sei até onde vão suas consequências.
Creio, com toda sinceridade, que esse é o momento positivo das igrejas. Essa é uma campanha positiva, mas eu não sei... Em meio a esse conjunto de fatos que acontecem, esse dia a dia da lavagem cerebral que a gente vive através das coisas que estão aí e que são levadas a nós através do subconsciente, eu não sei se alguma coisa a mais não deva ser feita.
Com o maior prazer, ouço V.Exª .
O Sr. Cristovam Buarque (PDT - DF) - Senador, honra-me muito mais estar aqui neste momento assistindo ao seu discurso, que é desses que ficam para a história e que não vão passar como parte de tudo o que a gente fala aqui, que é esquecido no outro dia. O senhor agarrou um tema sobre o que eu pessoalmente tinha pensado em falar também, que foi essa Campanha da Fraternidade, talvez a mais profunda - e olhe que tem havido todos anos campanhas muito bonitas -, com a ideia da crítica ao próprio sistema. Nós falamos muito da corrupção das pessoas e esquecemos que vivemos num sistema corrupto, que corrompe nossa cabeça, como o senhor explicou muito bem, pela perda do pudor que o sistema traz. O senhor ainda foi gentil quando disse que nem sempre o lucro é compatível com o pudor. Eu diria que é raro o lucro ser compatível com o pudor. Fazendo um parêntese, até nas propagandas com tantas cenas de nudez para dar mais lucro - e nenhum moralismo de minha parte quando a gente vê a nudez -, usando-se o corpo humano para vender mais produtos, há uma perda de pudor no sistema. É a perda do pudor também que faz com que se venda a ideia de que ter carro melhora o transporte, quando a gente sabe que, quanto mais carros, pior é o transporte; que quanto mais crescer, mais rico fica o país, quando a gente sabe que hoje o crescimento econômico leva ao empobrecimento. Empobrecimento pela perda do meio ambiente, empobrecimento pela escassez dos recursos e até o outro empobrecimento que estão esquecendo, o empobrecimento do direito ao uso, porque a gente, com a riqueza que está aí, aumenta a produção, mas não aumenta, não facilita o uso público. Hoje, as ruas não são mais acessíveis ao uso, seja pela quantidade de veículos, seja pela quantidade de violência. Perdemos o pudor e aumentamos o poder. Então, o senhor trouxe uma campanha, aqui para a tribuna, fundamental, nesses próximos dias, a partir da CNBB, da Igreja Católica, que nós temos que fazer repercutir ao máximo. Eu quero, ao mesmo tempo, dar todo apoio a essa sua ideia, que já fiz aqui, da assembléia exclusiva para a reforma constitucional - exclusiva tanto para cuidar disso como também para que os constituintes sejam apenas constituintes e façam uma Constituição de que eles não possam se beneficiar; que eles não só sejam apenas constituintes, como assumam o compromisso de não serem candidatos pelas próximas eleições. Eu quero apoiar isso, mas sobretudo eu queria apoiar a Campanha da Fraternidade, a ideia de que não está no consumo a razão de ser de um projeto civilizatório ou, pelo menos, um projeto civilizatório humanista. Não é humanista essa busca pelo consumismo, pelo aumento do consumo, e não apenas pelo bem-estar, pela alegria, pelo amor, pela paz. E hoje abandonamos todos esses valores, como o senhor disse no começo do discurso, em nome de um único valor, que é o valor do consumo, que é o valor do mercado. Esse valor do mercado a gente não pode deixar que continue dando o rumo da civilização. Não é esse o caminho de uma civilização mais pacífica, mais justa, mais fraterna. E, finalmente, muitos vão acusar o senhor de que, normalmente, no meio de tanta corrupção, vem trazer para aqui um tema mais nobre, mais sublime, mais fora do dia a dia. Eu quero dizer a esses que por acaso pensem assim - que eu imagino que são poucos - que o sistema é corrupto. Não apenas as pessoas são corruptas. Há um sistema corrupto.
(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)
O Sr. Cristovam Buarque (PDT - DF) - Há um sistema corrupto. Um sistema que tira dinheiro da água e do esgoto para colocar nos palácios que servem ao Poder Público - nem falo dos que servem ao poder privado - indica que há uma corrupção nas decisões, nas prioridades. Estamos muito ligados à corrupção no comportamento do político e pouco ligados à corrupção nas prioridades das políticas. Há uma corrupção no rumo que estamos seguindo do aquecimento global, da concentração da renda, do esvaziamento das pessoas diante da procura de apenas aumentar o consumo. Há uma preocupação tão grande no consumo de drogas e não há quase nenhuma na droga do consumo, que, às vezes, é até mais grave no longo prazo. Então, o senhor traz para cá uma preocupação com o dia a dia. Eu diria mais: uma pessoa que não é solidária, que não tem fraternidade é corrupta. É uma forma outra de corrupção. Há uma forma de corrupção de tirar dinheiro do bolso dos outros e pôr no seu próprio. Há uma outra: é não tirar dinheiro do seu bolso para dar para alguém que está necessitando naquele momento. Guardar dinheiro quando outros necessitam ao lado é uma forma de corrupção que as pessoas não vêem. Então, o seu discurso traz a profundidade nesses temas que a Campanha da Fraternidade está propondo. Espero que possamos debater mais aqui. Por que não fazermos uma audiência aqui, uma solenidade em homenagem à Campanha da Fraternidade? Passemos uma manhã aqui discutindo esse assunto, tragamos outros Senadores que queiram discutir isso, coloquemos na mídia, pela TV Senado, o tema da fraternidade que a CNBB nos trouxe. Parabéns ao senhor! É um privilégio ter assistido ao seu discurso.
(O Sr. Presidente faz soar a campainha.)
O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - Sr. Presidente, eu diria que o meu discurso vale pelo meu discurso, mas aumentou muito agora com o aparte. Se eu publicar o meu discurso, vou publicar em negrito o aparte. E quero dizer a V. Exª, aproveitando esta oportunidade, nesta hora tão difícil por que passa Brasília, quando as pessoas me telefonam e me falam, tenho dito: não se esqueçam de que existe o Cristovam. Não se esqueçam de que está lá o Cristovam. O Cristovam que foi lá na chefia de gabinete do Ministério da Justiça, indicado por Tancredo Neves, e, naquela fase importante do primeiro ano da consolidação, teve nota dez. E houve também o Cristovam que, lá na Universidade de Brasília, marcou passagem. Tantas coisas que aconteceram depois, e não houve uma vírgula no seu Governo. Que no Governo de Brasília é um exemplo de dignidade, de seriedade, de correção.
V. Exª é o maior exemplo de que o Lula não é infalível, como pensa que é. Na hora de tirar o Waldomiro, quando dissemos para ele “tire, porque é ladrão, porque apareceu na televisão pegando dinheiro “, ele não tirou. E tirou V. Exª do Ministério da Educação. A pessoa que, sem dúvida alguma, depois da morte de Darcy Ribeiro, é no Brasil o homem da educação.
É importante. Eu acho que se deveria fazer um movimento - e eu vou propugnar por isso - de homenagem a V. Exª. Não sei qual é o dia de São Cristovam, não sei quando é que V. Exª faz aniversário, mas o motivo não importa. Mas seria muito interessante - V. Exª não acha, Presidente? - que fizéssemos um jantar, uma homenagem, uma representação a V. Exª, com muita singeleza, apenas para que o Brasil entenda que pode existir tudo o mais, mas que há gente com a dignidade, com a seriedade, com a hombridade, com a pureza de espírito de V. Exª.
O aparte de V. Exª foi muito além do que eu falei. Eu falei escrito, em coisas reais, mas V. Exª, no improviso, falou na beleza da profundidade da alma humana, falou sobre aonde nós teremos de chegar, falou de cada um fazer a sua parte para nós realmente construirmos a sociedade.
Muito obrigado, Cristovam. Muito obrigado pela sua presença, muito obrigado pela sua existência, muito obrigado pelo seu trabalho, muito obrigado por Deus nos ter dado a alegria de ter V. Exª neste Congresso, nesta hora. Muito obrigado, pois V. Exª representa Brasília e mostra que Brasília tem milhões de pessoas com dignidade, pessoas de correção, de honra, e que V. Exª é o grande representante deles.
Obrigado.
Obrigado pela tolerância, Sr. Presidente.
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