Autor
Pedro Simon (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/RS)
Data
26/11/2010
Casa
Senado Federal 
Tipo
Para discursar 

                          SENADO FEDERAL SF -

            SECRETARIA-GERAL DA MESA

            SUBSECRETARIA DE TAQUIGRAFIA 


            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Meu querido Presidente Mão Santa, nem quero pensar como vai ficar este Senado sem a presença de V. Exª! Não sei. Vai ficar muito chato, muito sem graça! V. Exª renovou, fazendo, inclusive, com que as sessões do Senado fossem até às 22h, às 22h30. A TV Senado, ao contrário do que muita gente pensa, é muito assistida. As pessoas, no Rio Grande, perguntam-me: o que vai ser do Senador Mão Santa?

            Como sua filha está lá, fazendo um curso de especialização em Medicina - as informações que tenho são as de que ela está de namorico com um médico gaúcho -, há um movimento para V. Exª se transferir para o Rio Grande do Sul, porque há um espaço enorme, muito grande, para V. Exª no nosso Estado. Eu lhe garanto que lá não acontecerão aquelas confusões que houve no Piauí, em que nosso Partido negou legenda a V. Exª para Governador, para Vice-Governador, para Senador, e ainda ficou no ar se lhe dariam legenda para Deputado. V. Exª seria eleito facilmente, mas nosso Presidente Lula, que fez muita coisa boa por este País, mas que também fez coisas ruins, na sua soberba, colocou como questão de honra que V. Exª não poderia ser eleito. Isso não soma para a biografia do Presidente Lula.

            Aproveitando a presença de V. Exª, pretendo vir, sempre que puder, a esta tribuna, pelo menos para olhar para V. Exª. No Rio Grande do Sul, a televisão foca V. Exª e eu, e o povo continua dizendo: “Vocês são muito amigos, Simon. O Senador gosta muito do senhor”. Eu digo: “Ele gosta muito menos de mim do que eu gosto dele”.

            Volto a esta tribuna com o mesmo assunto de ontem. Cheguei a casa, e minha mulher mandou-me assistir à televisão. Houve um momento em que os jornais da televisão, por dez minutos, só transmitiram, sem falar coisa alguma, os acontecimentos. É uma guerra! Não me lembro, nem no Oriente Médio, nas brigas que existem pelo Iraque, de uma agitação, uma luta tão intensa como a que está havendo no Rio de Janeiro.

            O Presidente Lula tinha um encontro muito importante na Guiana. Às vezes, a gente se pergunta: será que pode haver alguma reunião que seja muito importante na Guiana? Mas essa reunião é importante, pois se fazem representar os países da América do Sul, num empreendimento lançado pelo próprio Brasil. Além do mais, Lula vai receber uma comenda, mais uma daquelas que ele não recebeu durante o mandato. Ele, durante anos, vai ficar recebendo comendas e diplomas pelo mundo afora. Por isso, ele não pôde ir ao Rio de Janeiro, mas pediu, antes de viajar, que seu Governo desse atenção ao Rio de Janeiro.

            Eu não sei, não, Presidente Dilma, mas me atrevo a dizer que, já que a identificação de V. Exª com o Presidente Lula está sendo tão bonita e tão intensa e já que ele não pôde ir lá, V. Exª poderia ir ao Rio de Janeiro. Isso seria muito importante. Aliás, não se deve dizer que “agora, isso é com o Lula, não comigo”. Lula está se metendo tanto no seu Governo - indica o Chefe da Casa Civil, o Ministro da Fazenda, o Ministro do Planejamento, o Presidente do Banco Central, não sei mais quem, o que é normal, porque há uma identidade entre V. Exª e ele -, que V. Exª poderia ir ao Rio de Janeiro. Seria um gesto muito importante.

            Há uma diferença entre o que está acontecendo hoje, no Rio de Janeiro, e tudo que aconteceu até aqui. Tiroteio, no Rio de Janeiro, é rotina, quase não é notícia. É tiroteio na favela tal, troca de tiros em tal lugar! Mas não é isso que está acontecendo. O assunto, agora, adquiriu uma seriedade realmente muito grande.

            Sérgio Cabral e seu Governo, com o apoio do Prefeito Eduardo Paes - justiça seja feita, com o apoio de Lula, Presidente da República -, iniciaram um movimento novo nas favelas do Rio de Janeiro. É uma novidade realmente, e é para valer! É novidade sob dois ângulos, e o primeiro é o das realizações materiais. O que significa isso?

            Lembro-me de um fato emocionante: Lula e todo o seu Governo, se não me engano, no Morro do Alemão. De repente, o tal Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) marcou a realização de uma série de obras ao mesmo tempo, como, primeiro, o elevador para atender aquela gente que, para subir da beira da praia até lá em cima, leva não sei quanto tempo em centenas e centenas de degraus. O elevador leva aquelas pessoas lá de baixo, da beira da praia, até o morro. É fácil de imaginar o que isso significa para a região. Em segundo lugar, mandou fazer o colégio integral: desde o maternal, as crianças ficam no colégio de manhã, de tarde e de noite, o dia inteiro. É colégio de primeiro mundo, com esporte, com lazer, com parte técnica. É colégio onde as crianças vão ter ocupação o dia inteiro. Outra coisa é um centro médico, que é quase um hospital. Não vai haver essa de, na favela, não haver centros para atender a uma coisa mais grave. Pretendem fazer um serviço médico de primeira grandeza. Em quarto lugar, pretendem fazer um centro que seria de esporte e de lazer, que seria um clube da entidade. Ali haveria lugar para se fazer esporte, festa, lazer, política, reuniões de igreja, reuniões da comunidade; seria um amplo centro nesse sentido. Em quinto lugar, milhares de casas serão construídas, e outras serão reconstruídas. Na verdade, a favela vai se transformar num bairro de Classe C. Outra questão é o calçamento. Vai acabar aquela tristeza de pó quando é verão e quando está calor e de barro quando há chuva. Eles vão asfaltar as ruas. A sexta questão é a água encanada. Como dizia um querido Ministro da Saúde, grande médico do coração, o problema da saúde no Brasil não é fazer hospital, mas, sim, é canalizar o esgoto e dar água limpa para o cidadão. Esse é o problema. V. Exª, pelo amor de Deus, sabe melhor do que eu que o grande problema de saúde no Brasil é o lixo, é a sujeira, é a falta de saneamento básico e a falta de água potável para um percentual impressionante da população.

            Esses são os itens que o Presidente Lula lançou. Começou em treze favelas e pretende levar isso para outras favelas.

            O segundo aspecto é o problema da violência. Quanto a esse problema, até aqui, entra Governo, sai Governo, nunca se fez nada.

            Foi feita uma operação. Sobem o morro, e, quando sobem o morro, é tiro para tudo que é lado! E, geralmente, a população confia mais nos homens da droga, do jogo do bicho e do tráfico de armas do que na Polícia. Morrem não sei quantos por causa de balas perdidas! Para, apazigua, e a vida continua.

            O impressionante, nos últimos tempos, é o grande fator de agitação nas favelas: a luta pelo controle do tráfico. Diversas quadrilhas brigam para ver quem manda em tal favela. Brigam com a outra facção que manda em tal favela. É guerra de quadrilha contra quadrilha, e a Polícia entra para acalmar os ânimos na guerra de bandidos.

            Não vamos falar do lado doloroso. Ao lado disso, vem a corrupção num país em que as leis não são cumpridas. Por várias vezes, Fernandinho Beira Mar, até da cadeia, comandou várias rebeliões pelo celular. Isso era rotina.

            De um lado, entrou Lula, com essa operação realmente impressionante. Não se trata de colocar somente cinquenta casas aqui, de se asfaltar uma rua ali ou de se botar um bico ali. Não! Quer se fazer um movimento para mudar a fisionomia da favela, transformando-a em verdadeira cidade. Do outro lado, entra o Governador Sérgio, com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Essa é a revolução nova, tão importante quanto a outra.

            A Polícia, quando entra em uma favela, é considerada inimiga. Os moradores têm ódio disso, porque, muitas vezes, o homem da droga, o homem do tráfico e o homem da venda do armamento dão emprego. E a mãe, às vezes, fica muito contente: “Meu filho está empregado. Está bem! Veste-se com gravata e com sapato”. O trabalho dele é com telefone, num lugar determinado do morro, para vigiar quando vem fulano, quem está vindo, quem não está vindo: “Uma unidade da Polícia está chegando. Um cara de operação da outra gangue, do outro lado, está aparecendo por aí”. Esse é o trabalho dele. É um bolo de jovens, para os quais a esperança de crescer é essa. Afora isso, nada existe.

            Então, como é a operação da Polícia nas favelas do Rio? Vai lá para cima, faz uma operação, é tiroteio para cá e para lá, e volta. Fica ali uns dois dias, três dias. Aí vai para outro lado, para outro lado, para outro lado. O problema é não ter identidade alguma com essa gente e com a população.

            E veja que o Governador Sérgio Cabral muda completamente a filosofia, com a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Esse bloco vai lá e fica na favela por um mês, dois meses, três meses. Fica na favela e passa a ser o coordenador de referência da favela. Há algum erro, alguma violência? Há um problema de ensino, um problema na saúde? Há algum problema? Esse passa a ser o representante na favela, passa a ser o amigo, passa a ser o homem integrado à favela. É qualquer coisa de fantástico! Mudou! Mudou! De repente, esse cidadão é visto como amigo dos homens da vila. Ele conversa com a comunidade, ele a recebe, ele entra na casa das pessoas. Isso mudou.

            O que está acontecendo? Os números mostram que diminuiu o número de crimes, diminuiu o número de mortes, diminuiu a violência, diminuiu o uso de drogas, diminuiu o tráfico. Tudo isso diminuiu. A rigor, o Governo Sérgio Cabral se meteu na vida dos traficantes, meteu-se no negócio deles, atrapalhou o estágio deles. Eles eram os donos da favela, do território da favela, e dela foram expulsos, de lá saíram. E o Brasil estava festejando. As manchetes todas estavam festejando o caminho que estava sendo seguido. Mas eis que as gangues do tráfico resolveram dar o troco: “Ah é? O Sr. Sérgio pegou tudo que é polícia, tirou da cidade, tirou dali e levou para o morro?”. Sim! Eles desceram do morro, vieram para a cidade e fizeram uma guerra na cidade, fizeram uma guerra de tiroteio, incendiando quarenta carros e ônibus por dia.

            O Rio de Janeiro vive um estado de guerra. Se a Presidente Dilma fosse ao Rio de Janeiro, isso somaria muito para o seu Governo. Esse seria um gesto realmente importante, de significado profundo no seu resultado.

            O que está acontecendo? O Rio está em guerra. “Tragam os brigadianos da favela, para virem para a cidade, para acalmarem a cidade!” É o que querem os criminosos, para que eles voltem à favela. Aí é que entra o Governo Federal.

            Ontem, falei aqui que tinha conversado com o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, e, ontem mesmo, ele falou com o Governador do Rio de Janeiro, e, ontem mesmo, a Marinha interveio. A imprensa de hoje fala, no jornal O Globo, que é uma questão que o Exército ainda está discutindo. O Exército só pode entrar na operação se for para comandar. O Exército não pode ser comandado pela Polícia estadual. Pelo amor de Deus, estamos numa guerra! Esse assunto o Jobim vai resolver de brincadeira? Senta aqui, senta ali. No meio de uma guerra, não se pode discutir se “o comando é meu, se o comando é seu”, se “posso entrar nisso ou não”, se essa é uma questão é de hierarquia, se isso fica mal ou não. Esse assunto nem deveria ter ido para o jornal. Deveriam ter resolvido isso à margem do jornal.

            O Exército tem de entrar nessa operação. O problema é o Exército, a Marinha e a Aeronáutica entrarem na cidade, para as forças policiais do Estado ficarem na favela. Não sei se estou sendo claro. Se os tirarem da favela e se eles voltarem para o centro da cidade, o que vai acontecer é que os bandidos vão voltar para a favela, e todo o trabalho que o Sérgio Cabral está fazendo vai desaparecer. Lá adiante, ele vai ter de começar tudo de novo. A Polícia não pode sair das favelas, e a Marinha, o Exército e a Aeronáutica têm a obrigação de participar disso. É guerra!

            Olhem o que diz O Globo: “O Dia D da guerra ao tráfico”. Olhem as tropas, olhem os tanques! É uma guerra! Durante vinte minutos, a televisão mostrou isso ao vivo. Não me lembro de nada parecido com isso.

            Leve isso adiante, Ministro Jobim! Se eu tivesse alguma intimidade - o pessoal do PT não vem às sessões de sextas-feiras -, eu pediria para a Ministra Dilma ir ao Rio. Ela faria muito bem se fosse ao Rio de Janeiro. A intimidade dela com Lula é tão grande - e Lula teve de ir a uma reunião na Guiana -, que ela pode ir ao Rio de Janeiro, representando o atual e o futuro Governo. Leve o Jobim, reúnam-se, e vamos levar adiante essa operação!

            O normal no Rio é quando a Polícia entra e é vaiada. A vaia não vai para os homens da droga; a vaia, geralmente, é dada em cima da Polícia, porque ela entra ali, dando tiro, matando e tudo mais. Agora, está sendo o contrário: a Polícia está sendo aplaudida como heroína no Rio de Janeiro. E, quando eles entraram, quando a Marinha cercou a favela, quando o local em que os bandidos estavam concentrados foi cercado, eles tiveram de fugir. Foi uma cena de terror fantástica: centenas e centenas de pessoas correndo, entrando floresta adentro, porque não sabiam por onde ir. A sociedade aplaudiu. O povo batia palmas, gritava. Era dia de festa!

            Vamos aproveitar este momento. Esta é a hora de fazer uma grande operação. Deixem a Polícia Estadual na favela! Pelo amor de Deus, não a tirem de lá! E vamos enfrentar as gangues nas cidades!

            Concedo aparte...

            O Sr. Leomar Quintanilha (PMDB - TO. Fora do microfone.) - Senador, S. Exª pode falar, primeiro.

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - Pelo menos, na aparência ele é mais velho.

            Concedo o aparte ao Senador Mozarildo Cavalcanti.

            O Sr. Mozarildo Cavalcanti (PTB - RR) - Senador Simon, inicialmente, quero dizer a V. Exª que louvo a presença de V. Exª na tribuna - V. Exª é um Senador muito experiente, tendo sido Governador do Estado -, para abordar um tema que está assustando todos os brasileiros. Aqui, hoje, leio a notícia, na coluna do Cláudio Humberto, de que o Senador Crivella, do Rio de Janeiro, está recolhendo assinaturas, para criar uma CPI das fronteiras, porque acha que a criminalidade do Rio decorre da cocaína e das armas que entram, à vontade, no País. Penso que esse é um dos itens. Na verdade, se olharmos o mapa do Brasil, com essa longa costa marítima desguarnecida e com a extensa faixa de fronteira, que vai desde o Estado do Amapá, passando pelo meu Estado, até o Estado de V. Exª, vemos que as duas fronteiras do Brasil, a marítima e a terrestre, realmente deixam muito a desejar, mas, notadamente, a terrestre na Amazônia, que é imensa. Não há, realmente, policiamento nem da Polícia Federal, nem patrulhamento, na quantidade necessária, das Forças Armadas. Realmente, é uma porteira aberta para isso. Acho que se tem de pensar nesse item. Essa, talvez, seja a vertente principal, porque se estaria cortando a alimentação tanto de armas quanto de drogas, pelo menos em parte. E V. Exª também frisou muito bem, na explanação, que os moradores da favela são, na verdade, vítimas, ora de um lado, ora de outro. As ações que estão sendo tomadas e que foram muito bem ressaltadas por V. Exª são excelentes - tanto a urbanização quanto a localização de serviços nas favelas, aí incluídas as Unidades de Polícia Pacificadora. Mas realmente estranho - V. Exª frisou aí - esse prurido que existe, por exemplo, das Forças Armadas em colaborar em uma hora como essa. A Marinha entrou, e V. Exª colocou que o Exército está discutindo como pode entrar - só se comandar. Acho que tinha de haver um grande mutirão, envolvendo as Forças Armadas, a Polícia Federal, a PM, a Polícia Civil, todas as forças de segurança e de inteligência neste País, para realmente combater e prevenir essa ação. Como está colocado no jornal O Globo de hoje, chegou-se ao ponto de uma guerra; não são mais aquelas eventuais escaramuças, que existiam quando a Polícia tentava ir ao foco do tráfico. Será que os traficantes estão localizados nas favelas por acaso? Não. Estão lá porque o ponto é estratégico sob todos os aspectos. Então, acho importante discutir isso. Não é um problema só do Rio de Janeiro. Portanto, é um problema que envolve o interesse de toda a Nação. E quero dizer a V. Exª que, de início, apoio essa CPI do Senador Crivella. Nem sei se é verdade que ele está fazendo isso. Mas, se for, eu a apoio integralmente, até porque, como Presidente da Subcomissão Permanente da Amazônia e da Faixa de Fronteira, acho que esse tema é crucial. Nós estamos ouvindo lá, tanto das autoridades policiais como do Ministério das Relações Exteriores, para se fazer um diagnóstico dessa realidade. Se não fizermos um diagnóstico, vamos ficar fazendo tratamentos eventuais. Parabéns pela abordagem, que é muito importante para o debate e para a reflexão sobre o tema.

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - V. Exª traz ao tema um assunto da maior importância, em que eu nem ia tocar, porque é ampla a questão. Mas não há nenhuma dúvida de que V. Exª está absolutamente correto.

            Aliás, os três candidatos à Presidência da República debateram isto na campanha: o problema dessa nossa imensa fronteira, principalmente a fronteira terrestre, sem água, sem nada, com a qual, na verdade, a preocupação é zero.

            Não é fácil! Fui Ministro da Agricultura e andei por toda aquela região. Na época, a discussão que tínhamos era com relação à penetração... Não era nem mesmo com relação à penetração, mas era com os americanos que estavam querendo fazer algo como o que existe na Amazônia: pessoas para sobreviverem na floresta. Eles queriam fazer algo igual.

            O General Comandante do 4º Exército, uma pessoa muito nacionalista, muito bacana, debatia essa matéria. E aí ele mostrava que nós não temos chance de fazer essa defesa se não tivermos um mínimo de capacidade.

            Na época, ele discutia muito a questão dos ianomâmis. Ele dizia que era a favor dos ianomâmis: “Botem os ianomâmis onde quiserem”. Mas ele era contrário a botar na região da fronteira. Ele dizia: “Botem os ianomâmis, deem metade da Amazônia para os ianomâmis, mas lá no meio. Agora, área de fronteira é área de fronteira”.

            O que estava acontecendo, dizia ele: “Estão trazendo ianomâmi de tudo que é lugar para botar do lado de lá e do lado de cá. E daí a pouco já se está falando na nação ianomâmi. E daqui a pouco vão querer criar uma nação composta...” O que não é verdade. Porque ainda se existisse, na Venezuela, na Colômbia, no Equador, na Bolívia, um sem número de ianomâmis, e no Brasil, na fronteira, também, é uma coisa. Mas não é; é mentira.

            Ele também levantava essa questão da droga e dos armamentos. Isso é uma coisa que nós estamos sempre com essa interrogação. Sempre. Nós não sabemos para onde vai.

            O americano, em tese, não dá muita importância para a América Latina. Mas não dá muita importância, porque ele acha isso o quintal. Há tanta coisa para se movimentar, a Coréia, o Oriente Médio, não sei mais o quê! Vai se meter aqui?

            Aqui, quando tiverem que fazer uma coisa mais forte, fazem como fizeram no Cone Sul. Mas na hora que quiserem, o que pode acontecer?

            Ontem, perguntei ao Embaixador brasileiro que vai para a Colômbia, o que ele achava das bases que o americano colocou na Colômbia, a pretexto de combater o tóxico e as forças guerrilheiras de lá. E eu dizia a tese que o Brasil defende. Por que não, em vez de bases americanas na Colômbia, querer fazer no Haiti? Bases das organizações americanas na Colômbia! Então, quem coordenaria seria a Organização Panamericana. Não seriam bases americanas; seriam coisas da América.

            V. Exª levanta uma tese realmente muito importante.

            O candidato Serra discutiu muito e defendeu a tese de criar uma organização especial para cuidar dessa região.

            A Presidente Dilma debateu a matéria, falou inclusive - e o Serra debochou; acho que não é de debochar, é um assunto que ainda pode não ter importância, mas é importante - sobre os aviões sem tripulantes que podem fazer a investigação e que hoje no mundo já é uma coisa fantástica. Os americanos, nas guerras no Oriente Médio, eles só enviam esse tipo de avião: morte zero. Então, vemos, no resultado da guerra, americanos: cinco morreram; iraquianos: 10 mil, 30 mil, sei lá o quê.

            Mas, acho que V. Exª tem razão. Tudo isso que estou falando não resolve se não olharmos o problema das drogas e do armamento. Droga e armamento que entram, e entram de montão. É uma coisa muito séria hoje.

            Na época em que o Brizola não deixava a polícia subir o morro, acusaram muito o Brizola. Mas vamos fazer justiça. O Brizola não deixava a polícia subir o morro porque o problema do morro eram as escolas de samba e o jogo do bicho. “Não, porque as escolas de samba, o Castor de Andrade, não sei o quê”. Lembro-me inclusive o que era o desfile da escola de samba do Castor de Andrade: ele subia, e deliravam; parecia o Juscelino Kubitscheck aplaudido pelo povo. Mas hoje não é mais o jogo do bicho. E hoje não são mais as escolas de samba. Hoje, é o tráfico de arma e de droga. Essa é a verdade. E o Governo tem que intervir.

            E outra coisa: os chefes não são mais o Castor de Andrade e não sei mais quem. Hoje, nessas quadrilhas, há gente importante no comando. São organizações, inclusive, paramilitares que se organizam. E a burguesia está na Zona Sul.

            O Sr. Leomar Quintanilha (PMDB - TO) - Senador Pedro Simon, eu inicialmente gostaria de me associar a essa manifestação de solidariedade que V. Exª presta à valorosa gente do Rio de Janeiro, que está sofrendo muito com essa situação. Particularmente, há o Governador Sérgio Cabral, que conhecemos bem, cuja atitude corajosa louvamos, que foi nosso colega aqui e que tem contado com a parceria do também não menos corajoso Eduardo Paes, Prefeito daquela cidade. Por muito tempo, eu ficava sem entender como é que uma cidade referência do Brasil ficava com setores reféns do crime e ficava procurando entender por que é que nas favelas isso mais se acentuava. E chegava a imaginar que as favelas, por estarem colocadas no coração da cidade e não terem sido alvo, objeto dos governos, dos sucessivos governos, de um trabalho de urbanização, certamente aquele amontoado de moradias disformes, sem ruas definidas, de difícil acesso, era realmente um prato cheio para o crime. No coração da cidade, praticavam o crime e corriam para ali, para as favelas, onde haveria uma dificuldade muito grande para a polícia perseguir e buscar os criminosos. Acabaram também transformando em reféns os próprios moradores das favelas, que vivem nesse dilema, nessa intranqüilidade, e a televisão hoje mostra, de forma muito clara, de forma assustadora, a preocupar todo cidadão brasileiro. Como é que o operário vai para o seu trabalho, a criança para a escola, como é que as pessoas se movimentam naquela cidade com a preocupação de serem atingidas, de serem agredidas, de terem a sua integridade física praticamente destruída?

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - É verdade.

            O Sr. Leomar Quintanilha (PMDB - TO) - É algo assustador. Então, essa atitude do Governo Lula de procurar urbanizar a favela foi a mais correta e a mais adequada. Agora, quanto à atitude de se fazer mutirão - o Senador Mozarildo Cavalcanti tem razão -, isso tem que ser feito e, se precisar, recrutar novos militares, uma força nova para enfrentar o crime. Não é possível que o criminoso agrida o Estado brasileiro e fique impune. Não é possível que o criminoso agrida o Estado brasileiro e não haja reação! E eu estou gostando da reação. As consequências são tristes, pessoas inocentes estão tombando, mas a reação tem que existir, tem que haver. É preciso que se faça realmente esse mutirão para que acabe essa situação inexplicável de o crime manter setores de uma cidade tão importante quanto o Rio de Janeiro reféns. Isso não possível. Portanto, louvo V. Exª por suas atitudes, pelas sugestões que tem apresentado e por ter trazido insistentemente o debate para esta Casa, que pode também encontrar uma forma de contribuir para que a solução dessa situação, tão delicada e tão triste, do Rio de Janeiro seja encontrada. Parabéns, Senador!

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - Agradeço a interferência do meu mais do que colega, meu amigo - e como é bom poder dizer “amigo de família”. Fiquei feliz de saber que o colega do Pedrinho já está na faculdade. Vou chegar em casa e dizer: “Pedrinho, seu colega já está lá!”

            Mas V. Exª tem toda a razão, Senador. É uma questão nacional. O que menos me preocupa é a parte referente aos jogos da Copa do Mundo e ao problema referente às Olimpíadas. Isso não é problema. Vai acontecer o mesmo que aconteceu nos Jogos Pan-Americanos: os militares entram, pegam todos os mendigos que estão no Rio de Janeiro e levam para outro canto; eles ficam proibidos de aparecer. Há um entendimento até com o pessoal da droga, não sei o quê, param, e é um ambiente de paz. É um arrego, e vai acontecer. Então, não temos nem que nos preocupar sobre esse ângulo. “Ah! mas existe perigo de a Copa do Mundo não acontecer. Existe perigo para as Olimpíadas.” Não! Isso não existe. E não existe porque já fizeram um arrego nos Jogos Pan-Americanos, e fazem de novo. Mas o ideal seria que, ao invés de fazer arrego, resolvam a questão. Resolvam a questão!

            Eu acho, Governador Sérgio Cabral, que V. Exª podia convocar colegas seus Governadores para lhe darem uma integral colaboração - talvez haja até quem não diga “Por que não?”. É claro que nós, no Rio Grande do Sul, temos problemas muito sérios, mas cada Estado pode enviar um contingente, um percentual de policiais para ajudar no Rio de Janeiro. Só a repercussão positiva que isso teria! São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas, cada um envia um potencial para ajudar o Rio de Janeiro nessa operação.

            O Sr. Leomar Quintanilha (PMDB - TO) - Tocantins.

            O SR. PEDRO SIMON (PMDB - RS) - Tocantins, aí está o oferecimento feito. O significado disso seria imenso!

            Minha amiga Dilma, eu, se fosse você, iria para o Rio e ficaria uns dois dias lá. É claro que os caras que estão ao seu redor vão dizer: “Se o Simon está dizendo que ele iria para o Rio, então não vai, porque o Simon geralmente, em negócio de subir, termina caindo”. É verdade. A minha mania de querer achar as coisas na parte da ética, na parte do social, eu não sou muito orientador neste sentido. Mas seria muito bacana.

            Olha, Presidente Lula, para o final de seu Governo, que operação bonita se Vossa Excelência terminasse o Governo e a Presidente Dilma começasse o Governo numa questão ganha! O Brasil inteiro: policiais do Brasil inteiro, Aeronáutica, Marinha, Exército.

            E aí me perdoem, mas como é tranquilo ter um Ministro da Defesa como o Nelson Jobim. Embora ele não esteja na quota dos indicados pelo PMDB, eu acho que o Lula tem razão quando aconselha a Presidente Dilma a deixá-lo. É uma situação inédita e importante essa. É algo digno da política inglesa, de alta espiritualidade, profundidade.

            Está lá o Ministro Jobim. Foi indicado Ministro da Justiça por Fernando Henrique; Ministro do Supremo do Fernando Henrique, Presidente do Supremo. Um escritório de advocacia, onde podia estar ganhando uma montanha de dinheiro. Aliás, no escritório que era dele, os que ficaram no lugar dele estão ganhando uma montanha de dinheiro, e ele vive com o seu salário. Foi ao Lula e disse: “Olha, eu não posso entrar na campanha. Eu sou amigo do Serra. Houve um momento na minha vida que eu tive um problema conjugal e fui morar com o Serra. O Serra é meu padrinho de casamento”. A resposta do Lula: “O teu problema é a segurança. Tu és responsável pela defesa. Tu pretendes entrar na campanha?” “Não.” “Não entra na campanha, cuida da defesa e continua”.

            Olha que categoria do Lula! Pare para pensar: a categoria do Lula é qualquer coisa espetacular. “Sou amigo do Serra, não posso fazer campanha contra o Serra.” Com muita categoria, o Lula disse o seguinte: “Não te mete em campanha, vai cuidar da defesa e esquece”. Pronto, e ele foi cuidar da defesa. Nota dez!

            Uma hora como esta, uma operação que nem esta, e já estão as manchetes dizendo que a Marinha entrou não se sabe como na operação. O Exército não sabe se entra ou se não entra. Quem pode coordenar isso a não ser o Jobim?

            Fernando Henrique teve um papel muito importante: criou o Ministério da Defesa. Foi um ato de coragem! Extinguiu o Ministro-Chefe da Casa Militar, extinguiu o Ministro-Chefe do SNI, extinguiu o Ministro da Marinha, extinguiu o Ministro do Exército, extinguiu o Ministro da Aeronáutica e só criou um, o Ministro da Defesa.

            Mas o Fernando Henrique cometeu um equívoco. Grande amigo meu, eu era Líder do Governo Itamar e, no início do Governo do Fernando Henrique, eu era o Líder. Ele era meu Vice-Líder no Governo do Itamar, escolhido por mim, eu o indiquei a Vice-Líder no Governo Fernando Henrique junto comigo, e, quando eu saí, indiquei-o para ficar, a primeira pessoa. Mas perdeu a eleição para o Senado, e o Fernando Henrique nomeou-o como o primeiro Ministro da Defesa. Foi maldade do Fernando Henrique; quer dizer, irritou os militares. Tem que colocar alguém que tenha uma certa posição. Agora, terminou de perder uma eleição para o Senado e vai para Ministro da Defesa. Então, a coisa foi conturbada, foi complicada.

            O Jobim, nota dez!

            O que ele está fazendo, por exemplo, com relação às 200 milhas... Agora, nós estamos encontrando o pré-sal lá nas 350 milhas. Então, o grande debate, a grande discussão é levar isso adiante. E o Brasil é o primeiro País que já apresentou à ONU o mapa de como deve ficar.

            Mas eu estou falando isso para dizer apenas uma coisa: que bom que, neste momento, para fazer isso, esteja lá o Jobim, porque ele pode fazer essa coordenação como Ministro da Defesa e com a tranquilidade de que encontrará uma saída.

            Esta questão aqui... Mas isso aqui parece o Oriente Médio! “O Dia D da Guerra ao Tráfico!” Da guerra! “O Dia D da Guerra ao Tráfico!” É o que O Globo está dizendo. E é uma triste realidade. Eu faço um apelo: Presidente Dilma, dê uma chegadinha, neste fim de semana, ao Rio de Janeiro. Marque uma reunião de alto comando: Marinha, Exército, Aeronáutica, Polícia Federal e o Governo do Rio.

            Governador Sérgio Cabral, não tire a Polícia das favelas! Não abra mão do seu plano de humanização do trabalho da Polícia nas favelas! E o Brasil tem que te ajudar, para dar o troco na vida deles à cidade.

            Minha querida Governadora Yeda Crusius, meu querido e futuro Governador Tarso Genro, como eu gostaria - e vou telefonar para os dois: para o Tarso, eu vou ter que telefonar lá para Buenos Aires, porque ele está tirando as férias merecidas que ele não havia tirado desde a campanha - que o Rio Grande oferecesse, não sei o número, não sei a quantidade, mas que o Rio Grande oferecesse. Nós estamos num ambiente de paz e de tranquilidade no Rio Grande. Graças a Deus, vai tudo muito bem, obrigado. E que o meu querido Senador e irmão de Tocantins converse com o Governador para também fazer a sua oferta. Não falo de V. Exª, Senador Mão Santa, porque acho que a interferência de V. Exª ao Governador do Piauí não resolveria muito, e nem eu também, porque acho que a minha não resolveria muito. Mas que os Governadores façam isso. Que os Governadores ofereçam um grupo que, somando aos 27, dê um número importante para a cidade do Rio de Janeiro fazer um trabalho de não permitir que as Polícias que estão nas favelas voltem para cá, porque lá voltará tudo à estaca zero.

            O meu abraço ao Governador Sérgio Cabral, o meu apelo muito profundo à Presidente Dilma Rousseff e os meus cumprimentos ao Ministro Jobim pelo que fez. Eu falei com ele ontem e, meia hora depois, a imprensa já publicava que ele havia falado com o Governador do Rio. Talvez nós transformemos esse limão numa limonada, essa hora trágica e dolorosa num início da pacificação da dignidade da família brasileira.

            Obrigado, meu querido amigo Mão Santa.


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