Pronunciamento de Cristovam Buarque em 18/02/2013
Discurso durante a 9ª Sessão Não Deliberativa, no Senado Federal
Homenagem de pesar pelo falecimento do ex-Deputado Federal Fernando Lyra.
- Autor
- Cristovam Buarque (PDT - Partido Democrático Trabalhista/DF)
- Nome completo: Cristovam Ricardo Cavalcanti Buarque
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
HOMENAGEM.:
- Homenagem de pesar pelo falecimento do ex-Deputado Federal Fernando Lyra.
- Aparteantes
- Randolfe Rodrigues, Vital do Rêgo.
- Publicação
- Publicação no DSF de 19/02/2013 - Página 3631
- Assunto
- Outros > HOMENAGEM.
- Indexação
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- HOMENAGEM POSTUMA, FERNANDO LYRA, EX-DEPUTADO, ESTADO DE PERNAMBUCO (PE), CAMARA DOS DEPUTADOS, ELOGIO, VIDA PUBLICA, COMBATE, DITADURA, REGIME MILITAR, DEFESA, DEMOCRACIA, APRESENTAÇÃO, REQUERIMENTO, VOTO DE PESAR.
O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco/PDT - DF. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srs. Senadores, Srªs Senadoras, eu quero iniciar a minha fala, Sr. Presidente, apresentando um requerimento, nos termos do art. 218 do Regimento Interno e de acordo com as tradições da Casa, para que possamos reconhecer e fazer uma homenagem ao ex-Deputado Federal, por seis mandatos, Fernando Lyra, que faleceu no dia 14, na última semana. Eu quero então que fique inserido um ato de votos de profundo pesar na ata e que haja uma apresentação de condolências à família. Esse é um pedido que eu faço, Sr. Presidente.
E ao mesmo tempo Senador Collor, Senador Randolfe, falo um pouco desse pernambucano. O Fernando Lyra, na verdade a gente pode falar dele de muitas maneiras. Ele era mais de um Fernando. Mas, sobretudo, duas maneiras eu quero falar: o político e o humano. Como político, nós víamos em Fernando Lyra uma capacidade que nunca houve muita, mas neste momento, tão rara na política brasileira. Em primeiro lugar, eu queria dizer que foi um político de princípios, ele fazia política com objetivos, com propósitos, não com interesses menores. Ele fazia política sabendo aonde é que queria chegar, e a primeira coisa era a democracia, porque começou a fazer política lutando pelo fim do regime militar. E em nenhum momento ele transigiu com esse objetivo. Mas sabia articular. Não era um político apenas de princípios, que às vezes termina se transformando em um filósofo, por falta da habilidade necessária para se chegar aos objetivos a que se propõe. Ele sabia como fazer para chegar a um objetivo do qual ele não abria mão.
Terceiro, é a coragem que ele tinha de, quando fosse preciso, fazer um caminho com o qual pessoas ainda não estavam acostumadas. O melhor exemplo disso é quando, derrotada a reforma constitucional que criaria a eleição direta para Presidente, todos aqueles que faziam parte do grupo dos autênticos ficaram perplexos, ou esperando um outro momento para lutar pelas diretas. Fernando, com a coragem que tinha, enfrentou os que estavam próximos; com a imaginação que tinha, imediatamente viu que a saída era a eleição indireta, com Tancredo Neves. E eu lembro, pela minha convivência com ele, que já em 1983 ele foi à posse de Tancredo Neves, quando todos os outros autênticos foram à posse do governador de São Paulo, porque ele viu que o caminho era aquele, sem abrir mão de nenhum princípio, que era o fim do regime militar. E, com a sua capacidade de articulação, por conta da coragem e da imaginação política, ele foi, sem dúvida alguma, um dos grandes responsáveis pela obtenção dos votos necessários para que, naquele 15 de janeiro, Tancredo Neves fosse eleito. Fernando tinha na mesa dele uma lista de todos os nomes do colégio eleitoral, Senador Taques, e ali acompanhava um por um, para ver como chegaria ao número mágico que permitiria a eleição de Tancredo Neves.
Essa coragem, essa imaginação, essa capacidade de articulação são raras; mas é ainda mais raro ter tudo isso com princípios firmes, em que a política é feita para obter um resultado. Esse resultado era o fim do regime militar.
Mas não parou aí. Fernando Lyra foi um político que teve a oportunidade e soube aproveitar a oportunidade de fazer os gestos necessários para eliminar a censura no Brasil, para regulamentar os partidos no Brasil. Obviamente, e não se pode esquecer, sob a Presidência do Senador José Sarney. Fernando Lyra foi escolhido por Tancredo Neves, mas foi mantido por José Sarney, que o manteve e lhe deu total possibilidade de, ali sentado com o Ministro da Justiça, fazer rapidamente o cumprimento de tudo que era preciso para que este País saísse de um regime autoritário -- embora, nos últimos anos, já não fosse tão autoritário -- para um regime democrático e civil.
Deve-se a ele, sob a Presidência de José Sarney, um ato, assinado pelo Presidente da República, que simplesmente acabou com a censura no Brasil. Outro permitiu que todos os partidos fossem possíveis, neste País, inclusive partido comunista, que, naquela época, era visto como inimigo geral do regime anterior.
Fernando foi o Ministro que mudou o Brasil, naquele exato momento em que, ao sentar ali, não esqueceu os compromissos nem os princípios, mas levou adiante os compromissos e os princípios, que, naquele momento, era fazer as reformas políticas, e essa reforma passava, sobretudo, por uma Constituinte e uma nova Constituição. E aí ele cumpriu também o seu papel. Aí, junto com o Presidente da República, convocou uma Constituinte que talvez tenha sido a mais livre que este País já teve.
O Poder Executivo, durante o funcionamento da Constituinte, não se intrometeu para tentar impor sua vontade. Foi uma Constituinte livre, soberana, que tinha um Presidente, Ulysses Guimarães, que, às vezes, tinha até mais poder do que simplesmente o líder de uma nova Constituição.
Além dessas qualidades que eu falei, eu quero lembrar uma mais que também é rara, hoje em dia, na política. Fernando Lyra, apesar de ser um pernambucano, caruaruense, foi sempre um político nacional.
Fernando Lyra não colocou os interesses locais de seu eleitorado na frente dos interesses nacionais, Senador Rêgo. Hoje está ficando raro isso. A maior parte de nós fala o que o eleitor local quer ouvir, fala o que vai prometer ao eleitor: o máximo de vantagens imediatas. Fernando Lyra nunca se comprometeu em falar o que o local precisava porque ele colocava o nacional na frente do local.
Essas qualidades, a meu ver, estão faltando. E no momento em que falta Fernando, Senador José Agripino, talvez seja a maneira de lembrar que nós precisamos estar mais próximos do discurso nacional; nós precisamos estar preparados para executar aquilo que defendemos porque nós precisamos ter coragem de adaptar, quando for preciso, a maneira de lutar, mesmo sem abrir mão de por que lutar. Essa capacidade de articulação e esse amarra-princípios são pontos que Fernando Lyra vai nos deixar faltando.
Quanto ao humano, eu quero dizer três coisas que caracterizaram Fernando Lyra -- e, aqui, alguns conheceram, provavelmente muito bem. Primeiro, a capacidade de ser amigo. Eu conheço, talvez, dezenas de pessoas que dizem: “Fernando Lyra é um dos meus maiores amigos.” E conheço um bom número que diz: “Fernando Lyra foi o meu melhor amigo.” Porque ele tinha uma capacidade de empatia. Ele tinha uma empatia que fazia com que você imediatamente se aproximasse e gostasse. Isso é muito raro.
Ele tinha a capacidade de criar uma intimidade entre as pessoas com ele, o que é muito raro. Para isso, ele precisava ter a segunda qualidade humana, que eu coloco: uma imensa generosidade. Fernando em nenhum momento colocava seu interesse pessoal na frente do interesse do grupo ao qual ele pertencia, fosse um partido político, fosse o grupo dos seus amigos.
E, finalmente, a capacidade maravilhosa de conversar, de falar, de ouvir, de rir e de fazer com que nós fôssemos estimulados, cada um de nós, a falar com ele.
Eu perguntava, há pouco, ao Senador Pedro Taques qual é a palavra que se pode dizer para representar a pessoa que é bom papo, porque eu queria uma palavra mais correta, porque, no português, a gente não pode usar “conversador”, porque conversador passa a ideia daquele que quer levar todo mundo na conversa. Então, não se pode chamar de conversador porque haveria um mal-entendido.
Mas é isto o que o Fernando era, um homem de conversa, tanto da política, que ele respirava de maneira tão intensa a cada minuto, mas também de tudo mais que fosse preciso falar, e ele era capaz de ouvir, e tudo mais que quiséssemos falar com ele, porque ele era capaz de ouvir.
Por tudo isso, manifesto aqui minha profunda tristeza pelo falecimento desse grande amigo, amigo meu, a quem devo politicamente, porque meu primeiro cargo político foi o de Chefe de Gabinete dele no Ministério da Justiça, no Governo José Sarney. Depois, fui eleito Reitor e comecei a fazer uma carreira política. Mas, em todo momento dessa carreira política que eu tive depois, nunca deixei de ter Fernando Lyra como uma daquelas pessoas para quem eu ligava para saber como fazer, que eu conversava para dizer o que eu queria fazer e para ouvir dele o que ele achava que estava certo, nesse cenário nacional, que ele era tão capaz de captar, de entender, de formular e de trazer uma proposta para nós, proposta essa que ele sabia articular muito bem.
Por tudo isso, o Fernando fica. Perdemos Fernandos, mas eles ficam, porque ficam como exemplo de um político que eu gostaria muito de seguir.
Era isso, Sr. Presidente.
O SR. PRESIDENTE (Pedro Taques. Bloco/PDT - MT) - Senador Cristovam, em nome da Mesa, associamo-nos a V. Exª, e o seu requerimento será atendido na forma regimental.
O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco/PDT - DF) - Sr. Presidente, há um pedido de aparte.
O Sr. Vital do Rêgo (Bloco/PMDB - PB) - Senador Cristovam, antes que V. Exª deixe essa tribuna, eu não poderia, na condição de paraibano que viu de tão perto o pernambucano, o homem de profunda verve oratória como V. Exª chegou a comentar em uma de suas recentes entrevistas, um dos maiores palanqueiros que V. Exª já viu na sua vida pública, deixar de me somar não a esse discurso, mas a essa despedida saudosa que V. Exª está fazendo da tribuna a um dos maiores democratas deste País. É muito fácil, Sr. Senador, sentado aqui ou falando aí, expressar-se sobre democracia, mas praticá-la na essência dos seus conceitos… Fernando Lyra assim o fez em toda plenitude, ousando em momentos difíceis, angustiantes, de profunda instabilidade pelos quais passamos num passado recente, cujo retrato V. Exª tão bem fez agora, há pouco, quando se somou às inteligências que construíram a saída de Tancredo Neves. Mas, acima de tudo, a voz de Fernando Lyra, nos seus momentos finais, quando escrevia sobre tudo neste País, marcava fortemente a sua vida e a sua história. O Brasil perde muito, o Nordeste especialmente, quando perde a voz daquele homem forte, corajoso, de grande coragem cívica, que é e que deve ser exemplo para todos os jovens políticos de hoje. Parabéns pelo pronunciamento saudoso em memória de um dos homens públicos deste País que devemos honrar.
O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco/PDT - DF) - Obrigado, Senador Vital do Rêgo. Fico muito feliz por ter o seu aparte incluído no meu discurso.
Senador Randolfe.
O Sr. Randolfe Rodrigues (PSOL - AP) - Senador Cristovam, eu quero me associar à homenagem que V. Exª faz ao ilustre pernambucano Fernando Lyra, que tem uma trajetória que faz falta aqui no Congresso. Fernando Lyra fundou o MDB, identificou-se com o grupo dos chamados autênticos. Figuras como ele -- Lysâneas Maciel, Ulysses Guimarães -- são perfis que deixaram contribuição indispensável para a democracia e, repito, fazem muita falta na construção da democracia brasileira. Quero só destacar, na vida de Fernando Lyra, em sua trajetória, sua flexibilidade nas ações táticas e sua firmeza de princípios. Foi seguindo essa máxima que ele, mesmo identificado com o MDB autêntico, apoiou a anticandidatura de Ulysses, em 1973. Na década seguinte, liderou, junto com tantos outros, a campanha por eleições diretas para Presidente. Derrotada a Emenda Dante de Oliveira aqui no Congresso Nacional, ele teve a humildade, com o mesmo engajamento e com o mesmo vigor, de buscar a alternativa negociada com a eleição de Tancredo Neves, mesmo sabendo que aquilo não era o que pensava a maioria do chamado grupo autêntico do MDB. Foi assim, com firmeza de princípio e flexibilidade na tática, para alcançar os objetivos e o objetivo de sua vida, que ele bem realizou. Ele terminou dizendo que sua grande obra, no Ministério da Justiça, foi ter acabado com a censura. Eu vou mais além: a grande obra de Fernando Lyra foi ter posto tijolos para sepultar a ditadura e para a abertura democrática em nosso País. Cumprimento V. Exª pela homenagem e invejo V. Exª por ter convivido com esse belíssimo brasileiro. E, se me permite, associo-me ao requerimento de V. Exª de pesar.
O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco/PDT - DF) - Obrigado, Senador Randolfe.
Só para concluir, Sr. Presidente, eu quero dizer que toda essa capacidade dele de se reciclar sem abrir mão dos princípios vinha junto de uma capacidade muito forte de articulação.
Talvez pouca gente se lembre hoje, por causa da idade até, que o Fernando Lyra -- e o Senador José Agripino é testemunha disto, provavelmente -- foi fundamental na vinda de Marco Maciel e do então PFL…
(Soa a campainha.)
O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco/PDT - DF) - … para apoiar Tancredo Neves. E, se não tivéssemos tido esse apoio, Senador José Agripino, era possível… Possível não, era certo que o Tancredo não teria ganho no colégio eleitoral. O Fernando Lyra foi quem fez os diálogos, até pela “pernambucalidade”, com esse grupo e, ao mesmo tempo, foi quem convenceu Miguel Arraes também a apoiar esse projeto; convenceu Miguel Arraes e, através daí, o PCdoB, que estava se formando. Lamentavelmente, eu creio, eu não trouxe o PT, porque o PT não veio para o lado de Tancredo Neves. Ele achava que ainda deveria continuar insistindo na ideia das Diretas, que a gente ia ter que esperar muito mais tempo do que 1989, Presidente Collor, quando o senhor foi eleito como o primeiro Presidente.
Era isso, Sr. Presidente.
Eu preferia estar falando de outro assunto, mas sinto-me não satisfeito; sinto-me orgulhoso de poder falar aqui de um grande brasileiro, de um grande pernambucano e de um grande político.