Discurso durante a 31ª Sessão Especial, no Senado Federal

Homenagem à memória intelectual e à carreira política de Ronaldo Cunha Lima, falecido em 7 de julho de 2012.

Autor
Félix Araújo Filho
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
HOMENAGEM.:
  • Homenagem à memória intelectual e à carreira política de Ronaldo Cunha Lima, falecido em 7 de julho de 2012.
Publicação
Publicação no DSF de 19/03/2013 - Página 10843
Assunto
Outros > HOMENAGEM.
Indexação
  • HOMENAGEM POSTUMA, RONALDO CUNHA LIMA, EX SENADOR, ESTADO DA PARAIBA (PB), ELOGIO, VIDA PUBLICA, ATUAÇÃO, ESCRITOR, SOLICITAÇÃO, ORADOR, PUBLICAÇÃO, GRAFICA, SENADO, OBRA ARTISTICA, AUTORIA, EX-CONGRESSISTA.

            O SR. FÉLIX ARAÚJO FILHO - Sr. Presidente, Cícero Lucena; eminente Ministro Herman Benjamin; Srs. Senadores; Ivandro Cunha Lima; meu velho amigo querido Vital do Rêgo Filho; Vice-Governador Rômulo Gouveia; Prefeito de Campina Grande, Romero Rodrigues; Senador Cássio, duplamente devedor a V. Exª, primeiro, pelo prestígio e a honra do convite para falar em nome dos amigos de Ronaldo Cunha Lima em Campina Grande, na Paraíba. Mas devedor também, Cássio, porque, para falar em nome dos amigos de Ronaldo, da Paraíba, não conseguirei lhe trazer este discurso. É impossível. Cada amigo de Ronaldo, cada filho de Campina Grande, cada paraibano tem a sua própria biografia de Ronaldo Cunha Lima. Isso porque Ronaldo é interminável na sua genialidade. Mas procurarei recolher algumas lembranças, de forma muito breve - já advertido das virtudes da brevidade -, para que se registrem aqui em nome daquela terra, daquele povo que Ronaldo amou incondicionalmente.

            Saúdo a toda a Paraíba, aos que estão aqui, na pessoa de D. Glória Cunha Lima, irmã das mães e filhos pobres da Paraíba, eles sempre abraçados pela ternura da sua solidariedade.

            Filhos, netos de Ronaldo, amigos, meus amigos, minhas senhoras, meus senhores, um dia jornaleiro, garçom, presidente do Centro Estudantil Augusto dos Anjos, líder político da adolescência conterrânea, advogado, Vereador, Deputado Estadual, Deputado Federal, Senador, Governador, Prefeito: Ronaldo foi tanto e, em tudo o que foi, foi tão intensamente, que o que se indaga nesta hora, o que se pergunta é quem foi Ronaldo Cunha Lima, na dimensão de todas as suas grandezas e da enormidade de seu talento.

            A vida pública debulhada, tratada, por exemplo, sob o aspecto não só do parlamentar, mas do administrador: o rigor com o trato honesto da coisa pública. Costumava Ronaldo dizer que não fazia política como negócio, fazia política por sacerdócio. E, como amigo que fui, como amiga de Ronaldo a Paraíba que foi, que é, sabe que, para estar com ele, teria também que se ordenar nesse mesmo sacerdócio, fazendo um voto de absoluta fidelidade ao interesse do povo.

            Ora, Cássio, a pergunta persiste: mas como pode ser tanto tendo sido assim tão intensamente? Para mim, a interpretação, meus amigos, é única: é que Ronaldo, em verdade, foi vida-poesia. Todas as dimensões da sua vida eram postas na dimensão do poeta. Ronaldo foi poeta integralmente. Foi poeta sem pregões de licenciamento, 24 horas por dia, e todos os dias da sua vida, em toda a sua vida, que se faz eterna. Tão poeta que, à porta da sua casa… Morávamos na mesma rua, na mesma calçada, e não digo separados por duas quadras, mas unidos por “duas quadras e dois tercetos”. E, quando cruzávamos a nossa Agamenon Magalhães, as multidões se apinhavam, desde cedo, para abraçá-lo, ouvir a sua voz, pedir a sua ajuda e esperar o seu socorro.

            Prefeito de Campina Grande, Ronaldo Cunha Lima reservava um dia na semana em que dispensava todas as audiências e os contatos com quem quer que fosse, para que as portas do Palácio do Bispo fossem abertas, e os pobres, os tristes, os angustiados, os sofredores fossem ao seu gabinete com ele sentarem-se, sem qualquer espécie de protocolo, tão certo esse contato, tão íntimo e tão vivo.

            Certa feita, Ministro, uma senhora do povo aguardava o momento de conversar com Ronaldo. Tinha o seu IPTU à mão, embrulhado, e, dentro dele, o valor correspondente ao pagamento do tributo. Divisou Ronaldo aquela senhora de cabelos brancos, faces socadas pelo tempo e pela dor. Disse ao assessor: “Não pode aquela senhora estar ali, esperando tanto tempo; traga-me.” Aproximou-se de Ronaldo e disse: “Ronaldo, coisa linda” - como assim o chamavam as suas milhares e milhares de adoradoras cívicas - “aqui está, Ronaldo, o dinheiro do meu IPTU; me fez falta, eu sei; mas trouxe para pagar em suas mãos, porque em você eu confio; eu sei que esse meu dinheirinho tão suado e tão sofrido vai servir para servir a mim e ao povo da minha cidade.” Não precisa, amigos, que eu lhes diga o tamanho da emoção que esse fato causou à alma de Ronaldo.

            Já disse esse amor incondicional por Campina Grande, pelo seu povo, pela sua história, a terra que ciumentamente o acolheu, até para depositá-lo para sempre no seu ventre. Todos esses fatos podem ser retratados a cada poema e a cada verso.

            Mas, Sr. Presidente, para encerrar, tenho um pedido a fazer, e o faço humildemente. Faço em nome dos artistas de Campina Grande, da Paraíba, faço em nome dos seus seresteiros, dos seus boêmios, dos seus poetas, dos seus estudantes, dos seus operários. Faço um pedido, e gostariam comigo Campina Grande e a Paraíba tivessem a sua subscrição, a do Senador Vital Filho, a do Senador Cássio Cunha Lima, para que publicássemos a obra poética de Ronaldo aqui nas gráficas do Senado. (Palmas.)

            Sabe por que, Presidente? Porque Ronaldo, quando 1º Secretário desta Casa, publicou a Constituição Federal em braile, para que os que não veem pudessem conhecer a Lei Maior.

            Publiquemos, pois, Presidente, a obra maior de Ronaldo Cunha Lima, para que possam ver os pósteros, como vimos nós, a história, a poesia de quem agora é uma constelação iluminada no grande soneto da eternidade.

            Muito obrigado. (Palmas.)


Este texto não substitui o publicado no DSF de 19/03/2013 - Página 10843