Pronunciamento de Cristovam Buarque em 05/02/2014
Discurso durante a 3ª Sessão Deliberativa Ordinária, no Senado Federal
Relato de participação de S. Exª no lançamento das diretrizes de governo do presidenciável Eduardo Campos e comentários sobre o programa.
- Autor
- Cristovam Buarque (PDT - Partido Democrático Trabalhista/DF)
- Nome completo: Cristovam Ricardo Cavalcanti Buarque
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
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POLITICA PARTIDARIA, PROGRAMA DE GOVERNO, POLITICA DE DESENVOLVIMENTO.:
- Relato de participação de S. Exª no lançamento das diretrizes de governo do presidenciável Eduardo Campos e comentários sobre o programa.
- Aparteantes
- João Capiberibe, Lídice da Mata.
- Publicação
- Publicação no DSF de 06/02/2014 - Página 46
- Assunto
- Outros > POLITICA PARTIDARIA, PROGRAMA DE GOVERNO, POLITICA DE DESENVOLVIMENTO.
- Indexação
-
- REGISTRO, PARTICIPAÇÃO, ORADOR, LANÇAMENTO, DIRETRIZES GERAIS, PROGRAMA DE GOVERNO, AUTORIA, EDUARDO CAMPOS, GOVERNADOR, ESTADO DE PERNAMBUCO (PE), CANDIDATO, PRESIDENCIA DA REPUBLICA, ENFASE, DESENVOLVIMENTO REGIONAL, DESENVOLVIMENTO ECONOMICO, DESENVOLVIMENTO EDUCACIONAL, DESENVOLVIMENTO, ENERGIA.
O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco Apoio Governo/PDT - DF. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs Senadoras, Srs. Senadores, ontem, estive presente em uma atividade que eu creio pode vir a ser da maior repercussão no Brasil - o Senador Capiberibe estava presente também -, que foi o lançamento das diretrizes de governo, apresentadas pelo candidato Eduardo Campos à Presidência da República pelo PSB.
Eu quero dizer que saí, Senador Eduardo Suplicy, extremamente otimista, entusiasmado, eu até diria, por ver que, finalmente, nós temos um candidato a Presidente que apresenta diretrizes que nem parecem uma volta ao passado e nenhuma permanência no presente, que traz embutido no seu discurso o sentimento de mudança, de reorientação dos rumos do Brasil.
O Governador Eduardo Campos dividiu as suas diretrizes em cinco campos: o Estado e a democracia de alta intensidade, que é como ele chama, e que traz, com clareza, a necessidade de uma reorientação da maneira com nós fazemos política, que traz o compromisso com a aparência mais plena, com a separação do Estado e do partido e do Governo. Governo é uma coisa, partido é outra e Estado é outra mais difícil e diferente ainda.
O governador demonstra a intenção de ter um processo democrático e governar com a democracia, onde não seriam misturados os interesses partidários com os interesses do Governo e, desses, com os interesses do Estado brasileiro.
O segundo eixo trata da economia para o desenvolvimento sustentável e traz, realmente, nesse caso, algumas contribuições que permitem entendermos que haveria uma reorientação da economia, que nós sabemos - basta ler os jornais, basta ver o que está acontecendo -, e o discurso recente do Senador Cyro, que nós estamos caminhando para um apagão. E quando nós não estamos caminhando para um apagão, estamos caminhando para uma disputa entre consumo e poupança, que tem beneficiado o consumo, o que levará a um esgotamento rápido. Aliás, a ideia de esgotamento foi um dos temas centrais da sua fala.
Ele chegou a dizer que o atual modelo de coligações, de alianças, de propostas mofou - ele usou o verbo “mofar” -, dizendo que se esgotou o atual modelo em que nós estamos, o modelo de priorizar o consumo abandonando a poupança, de vender ilusões em vez de colocar os pés na realidade. Isso se esgotou. É aí que ele coloca a ideia de uma política industrial voltada à agregação de valor, o que é fundamental para que nós tenhamos não apenas uma economia voltada para a especulação, para o capital financeiro, para os rentistas, e sim para aqueles que produzem agregando valor.
Falou da ideia de economia do conhecimento e da inovação, e aqui é uma diferença do que a gente tem visto. O que nós temos visto são elogios e comemorações de economia baseada no agronegócio, na exportação de minerais. Nós não temos visto até aqui, nesses últimos anos, a ideia de que a verdadeira economia que o Brasil precisa ter é aquela baseada no conhecimento e na inovação, como ontem o governador propôs, defendeu, se comprometeu; a ideia de uma economia que seja baseada na inovação, que aumenta a produtividade, que aumenta a competitividade, mas, sobretudo, que nos permite estar na ponta na criação de novos produtos no cenário mundial, para que sejamos um país capaz de exportar mercadorias, produtos com uma quantidade de inteligência, em vez de exportarmos aquilo que não carrega inteligência, que sai quase que diretamente da natureza. Ele coloca que, para isso, é preciso ter inovação tecnológica, pesquisa pura de ciência, para que o Brasil tenha a sua economia dando um salto não de quantidade no PIB, mas de qualidade do PIB. Um PIB que não seja apenas maior, que seja mais bonito pela sua sintonia com o futuro.
Ele trata de algo muito interessante, que são os arranjos produtivos locais, que permitiriam uma economia não ser desenvolvida concentradamente, que seja possível ter uma economia que se distribua no Território nacional.
Falou da cadeia produtiva do turismo, dos negócios sociais e da economia solidária. Está aqui um setor, um nicho, como se diz por aí, para o qual o governo Lula até criou uma secretaria dentro do Ministério do Trabalho, para pensar a economia solidária. Mas não deu a ênfase necessária, que não fez com que esse setor aumentasse como parte do PIB substancial, ficando quase que uma coisa boazinha, mas não aproveitando a totalidade da ideia da economia solidária, uma coisa boazinha que ficou mais próxima do assistencialismo, da assistência, do que da dinâmica econômica.
Ele falou do desenvolvimento regional, que é uma coisa abandonada há décadas e que termina fazendo com que nós tenhamos uma economia que ainda se concentra regionalmente.
Falou da energia, e estamos sentindo as diversas formas de apagão que hoje tomam conta; falou do transporte e logística, da necessidade de o meio ambiente, Senador Suplicy, ser levado em conta na hora de formularmos a nossa política industrial. E aí, obviamente, essa chapa tem toda a credibilidade por ter a Senadora e Ministra Marina Silva como uma avalista da proposta.
Falou do incentivo às atividades sustentáveis, do estímulo à geração de empregos verdes, e aqui muito em sintonia, provavelmente, e por influência do Senador Capiberibe, que, no seu governo, no Amapá, deu tanta ênfase à ideia dos empregos casados com a natureza, e não contra a natureza: o emprego de aproveitar as frutas, e não de derrubar as árvores; o emprego da árvore, e não do carvão; aquele que não precisa queimar, que, ao contrário, vê a queima como a negação da riqueza. Falou da preservação da biodiversidade e dos recursos hídricos.
Para não dizer que eu só tenho elogios - eu acho que uma maneira de colaborar até é levantar pontos -, eu creio que ainda faltou uma preocupação com algumas bombas adiante: a preocupação com a inflação, como vai ser tratado esse problema; a preocupação com o câmbio, que, se a gente desvaloriza, vem a inflação, se a gente não desvaloriza, dá problemas na balança comercial; o problema da luta entre poupança e consumo, como fazer para que este País seja capaz de entender que tem que poupar mais, ainda que isso leve a uma redução no consumo de cada um de nós, mas em benefício das gerações futuras.
Faltou isso, mas, de qualquer maneira, o que foi falado, o que foi dito e o que está escrito permitem vislumbrar a esperança de uma virada no rumo da economia brasileira dos últimos anos.
E, antes de continuar, Senador Suplicy, eu gostaria de passar para dois apartes: da Senadora Lídice e do Senador Capiberibe.
O Sr. João Capiberibe (Bloco Apoio Governo/PSB - AP) - Senador Cristovam, eu estava presente, ontem, nesse encontro que considero histórico, que reuniu lideranças políticas de vários partidos, partidos diferentes, que aos poucos vão se agregando e construindo um programa e uma proposta política capaz de entusiasmar. Acho que para quem faz política pela emoção... Nós não defendemos interesses econômicos, não temos grupos a defender; nosso mandato aqui está a serviço das populações que não têm voz, dos indígenas, dos quilombolas, dos ribeirinhos, dos castanheiros, dos sem-terra, enfim, daqueles que estão ainda à margem do processo de desenvolvimento. E me entusiasma ver essa unidade do PSB com a Rede, do Eduardo com a Marina. No ano passado, no início do ano passado, em março, em uma entrevista no Valor Econômico, Senadora Lídice, eu falava que o encontro dessa enorme capacidade que o Governador Eduardo Campos desenvolveu na área da gestão com essa outra enorme capacidade de Marina de pensar o ecodesenvolvimento, o desenvolvimento em harmonia com a natureza, poderia formar uma chapa e compor, digamos, um projeto muito interessante para o Brasil. E é isso que estou sentido. A cada encontro do PSB e da Rede, sentimos uma unidade, algo que vai sendo construído: um sede de um lado, outro sede de outro, um soma de um lado, outro soma de outro, e os partidos que estão entrando agora, também. Tenho a impressão de que estamos diante da enorme possibilidade de trazer uma nova política para o Brasil. Faço política por emoção, faço política por paixão, faço política em defesa das causas mais difíceis, que são causas que me emociona defender. Quero me envolver nesse processo, de coração, e estou acompanhando de perto o PSB, meu Partido de sempre. A minha primeira eleição foi pelo PSB, estou no PSB até hoje; trabalhamos muito para transformar o PSB em um partido de massa, em um partido organizado na base. Ainda estamos um pouco distantes disso, mas essa união com a Rede pode nos levar a essa condução. E imagino que, uma vez no Governo, seja possível sacolejar esta Nação, balançar essa poeira e espantar este receio, o medo que a política ainda mete em algumas pessoas neste País.
O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco Apoio Governo/PDT - DF) - Limpou o mofo, como disse o Governador ontem, no seu discurso.
Senadora Lídice.
A Srª Lídice da Mata (Bloco Apoio Governo/PSB - BA) - Senador Cristovam, eu sou muito grata por este aparte. Como V. Exª, eu estive presente no evento ontem, assim como o Senador Capi, e tive oportunidade de também, no dia de ontem, registrar isso aqui, no plenário, agradecendo a presença de V. Exª e de tantos outros Senadores de outros partidos que estiveram naquele evento. Destaco esses cinco pontos que são cinco diretrizes gerais que vão receber e que já receberam a contribuição de milhares de pessoas de todo o Brasil, através da rede social, integrando-se a esse esforço de construção de um projeto político, de um programa de governo. Por isso, ele ainda é um projeto genérico, são diretrizes mais genéricas que vão se afunilando com esse processo de debate. Além disso, com a fala de V. Exª, o que eu quis destacar, na fala do Governador Eduardo Campos, Presidente do nosso Partido e pré-candidato a Presidente da República, é a ênfase dada à questão da educação, à necessidade de se radicalizar o nosso investimento e à mudança de paradigma na gestão da educação. Então, eu acho que isso foi muito importante e é muito importante como esperança para a juventude e para o povo brasileiro. Eu creio que V. Exª, que tem se destacado, ao longo de sua vida, na discussão dessa tese, dessa bandeira, desse sustentáculo do desenvolvimento da nossa Nação, deve ter visto o compromisso que o Governador Eduardo Campos está com essa questão, até na construção do programa, já incorporando elementos de participação popular, de inovação científica...
(Soa a campainha.)
A Srª Lídice da Mata (Bloco Apoio Governo/PSB - BA) - ... e de discussão pedagógica e educacional.
O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco Apoio Governo/PDT - DF) - Obrigado, Senadora Lídice.
De fato, esse é o segundo ponto que eu quero analisar. Eu não tenho tempo de analisar os cinco eixos e, além disso, eu quero me concentrar naquilo com que trabalho mais, como professor de economia há 40 anos: a área da economia e a área da educação, por um compromisso e pelo sentimento de que é aí que está o futuro, é aí que está o futuro da economia, é aí que está o futuro da paz, é aí que está o futuro da distribuição de renda, é aí que está o futuro da solução dos problemas que nós vivemos.
No que se refere à educação, Senadora Lídice, realmente me surpreendeu bastante. Surpreendeu-me frases como aquela em que ele diz que sonha o dia em que os executivos e outros pais da classe média alta buscarão vaga nas escolas públicas...
(Interrupção do som.)
O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco Apoio Governo/PDT - DF) - Esse é o grande sonho para um Brasil novo.
Eu vi um candidato a Governador explicitando isso e não posso deixar de dizer, Senador Capiberibe, da minha satisfação. Eu vi a ênfase com que ele trouxe o problema do analfabetismo, coisa que, desde João Goulart, desde o tempo em que nós tivemos aquele programa do João Goulart, a gente não viu, porque eu fui Ministro e fiz isso, buscar a alfabetização, sem apoio do Governo. Tanto é que, quando eu saí do Ministério, Senador Suplicy, a Secretaria para a Erradicação do Analfabetismo, que eu tinha criado, foi fechada; e o Programa Brasil Alfabetizado, que eu tinha criado, continuou, mas chocho, murcho. Não era algo que virasse uma prioridade do Governo a erradicação do analfabetismo - tanto não era que, no ano passado, aumentou o número de analfabetos. Obviamente, aumentou na margem de erro, que pode não ter acontecido de fato.
(Soa a campainha.)
O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco Apoio Governo/PDT - DF) - Eu vi ontem o Governador Eduardo Campos trazer o assunto analfabetismo como algo prioritário, mas também trazer o compromisso de resolver, de enfrentar as desigualdades educacionais. Não basta melhorar a qualidade da educação na média; é preciso fazer com que a média apareça como sendo um retrato do conjunto, o que exige a redução das desigualdades.
Eu o vi falar na universalização do acesso à educação de qualidade para todas as crianças de 4 a 17 anos; acelerar o debate na definição das bases curriculares; garantir o acesso mais democrático ao ensino superior; e a valorização dos profissionais da educação.
Eu vi isso e muito mais, Senador Suplicy. Não vai dar tempo de tratar disso agora, mas eu peço um minuto para dizer o que ainda me parece que não chegou...
(Soa a campainha.)
O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco Apoio Governo/PDT - DF) - ... embora se tratasse de diretrizes, e, portanto, não podemos exigir. Mas está faltando dizer como fazer isso, como transformar as intenções das prioridades na engenharia das soluções.
Eu creio que esse é um compromisso que qualquer um de nós, independente do Partido, deve oferecer tanto ao candidato Eduardo Campos como a qualquer outro, como a qualquer outro, em nome do Brasil.
É isso, Sr. Presidente.
Eu espero voltar aqui para falar disso. Estou pronto para fazer um comentário, quando os outros candidatos apresentarem as suas propostas; e tentarmos ter um candidato ou uma candidata que traga uma reorientação, que acabe naquilo que o Eduardo Campos chamou de mofo da atual posição do Brasil no mundo.