Discurso no Senado Federal

Reflexões sobre a necessidade de uma reorientação de rumos para o futuro do Brasil.

Autor
Cristovam Buarque (PDT - Partido Democrático Trabalhista/DF)
Nome completo: Cristovam Ricardo Cavalcanti Buarque
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
ATIVIDADE POLITICA:
  • Reflexões sobre a necessidade de uma reorientação de rumos para o futuro do Brasil.
Aparteantes
Telmário Mota.
Publicação
Publicação no DSF de 28/02/2015 - Página 90
Assunto
Outros > ATIVIDADE POLITICA
Indexação
  • REGISTRO, REALIZAÇÃO, REUNIÃO, PARTICIPAÇÃO, ORADOR, CIDADÃO, PROFESSOR, UNIVERSIDADE DE BRASILIA (UNB), LOCAL, SENADO, OBJETIVO, DEBATE, ASSUNTO, CRISE, ORGANIZAÇÃO POLITICA, BRASIL, COMENTARIO, NECESSIDADE, LIDERANÇA, POLITICA, MELHORIA, PAIS.

            O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco Apoio Governo/PDT - DF) - Obrigado.

            O SR. PRESIDENTE (Paulo Paim. Bloco Apoio Governo/PT - RS) - É uma satisfação estar presidindo os trabalhos para ouvir V. Exª.

            O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco Apoio Governo/PDT - DF. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Obrigado, Senador.

            Senador Telmário, Senador Paim, Srªs e Srs. Senadores, ontem, eu tive oportunidade de participar aqui, no Senado, à noite, Senador Paim, de um evento extremamente rico, positivo, criativo. Faz parte de um circuito que eu tenho feito pelo Distrito Federal, que eu chamo Roda de Conversa. Foi o nome que eu importei da campanha do Senador Rodrigo Rollemberg para Governador. Ele fazia reuniões na rua chamadas Roda de Conversa. Ontem, eu fiz uma, para discutir que crise é essa, para onde vamos, como podemos mudar o rumo, o que fazer. Devíamos ter 70 pessoas reunidas. Não há palestrante. Reunimo-nos em círculo. Cada um fala o que quer, e juntamos as ideias.

            Uma coisa interessante ali foi a discussão sobre se havia ou não crise, e um professor da Universidade de Brasília, chamado Marcel Bursztyn, definiu “crise”, Senador Paim. Ele a definiu com base no que dizem os psicólogos. Ele disse: “Crise é quando a gente não sente o chão.” E o Brasil não está sentindo o chão.

            É preciso dizer que nós melhoramos muito nos últimos 20 anos, 10 anos, mas nós estamos em crise.

            Por exemplo, é claro que melhorou o fato de que, hoje, as universidades têm mais alunos, mas está havendo corte de verbas. Nós melhoramos no sentido de que temos democracia, mas está faltando credibilidade. Nós crescemos bastante, nos últimos anos, o PIB aumentou, mas entramos numa situação grave de perda de crescimento e até, eu diria, nós sabemos, de recessão. Nós temos o bolsa-família, que trouxe, de qualquer maneira, comida para as pessoas, mas, hoje, com a inflação, essas pessoas não têm certeza de quanto vão poder comer, por causa da perda do poder aquisitivo.

            Nós temos o Fies, mas o Fies mudou de regra e, ao mudar de regra, nós estamos sem saber direito, os alunos, se eles vão poder ou não receber o necessário para continuar seus estudos. Nós temos, hoje, centros de pesquisas, mas os recursos estão sendo cortados por causa da crise fiscal.

            Nós temos eleição, voltando um pouco, mas a perda de credibilidade é tão grande, Senador Telmário, que, ontem, no debate - tínhamos três Senadores presentes: eu, Capiberibe e o Senador Elmano -, as pessoas presentes foram enfáticas em dizer: “Nós não confiamos em vocês, políticos.” Com toda franqueza e naturalidade, elas diziam isso.

            Nós temos, hoje, uma situação muito melhor, graças, inclusive, ao senhor, Senador Paim, no que se refere às relações trabalhistas, mas estamos fazendo mudanças nas leis que definem o seguro-desemprego.

            As pessoas, hoje, têm ônibus melhores do que tinham 20, 30 anos atrás, mas, em compensação, não sabem se o ônibus vai passar ou se foi queimado; não sabem, depois de tomar o ônibus, se vão chegar ao destino, porque não sabem se vai haver uma manifestação ou outra.

            As pessoas têm um pouco mais de dinheiro, mas não sabem se os supermercados vão ter comida, por causa da greve dos motoristas.

            Eu poderia continuar listando uma enorme quantidade de exemplos de coisas em que até melhoramos, mas que, hoje, deixam-nos com o chão tremendo. 

            Crise é sinônimo de terremoto, e nós estamos atravessando um terremoto neste País, um terremoto social, e temos que entender isso. Temos que entender e buscar um rumo, buscar um caminho.

            A primeira coisa para entender, a meu ver - Senador Telmário, eu lhe darei, com muito prazer, um aparte -, é saber que há uma crise imediata e uma crise mais estrutural e de longo prazo. A crise imediata vem do excesso de gastos nos últimos anos, que gerou um déficit fiscal extremamente grave; vem do fato de que o custo Brasil levou a uma perda de mercado externo, que faz com que a gente tenha um déficit na balança comercial. Essas são as crises imediatas que os economistas chamam de conjuntural. Mas há uma outra: é a crise de propósitos, de rumos. Onde é que nós queremos chegar? Aonde queremos levar 200 milhões de pessoas que vivem em um território de 8,7 milhões km2? Onde é que nós queremos chegar? Queremos chegar a um país onde o PIB vai ser muito maior ou onde as pessoas vão ser muito mais felizes? E aí vem a pergunta: essas duas coisas são o mesmo? Não são.

            Ontem, quando falavam tanto dos políticos, eu disse que há uma coisa que precede a nós próprios, políticos, para agirmos: está faltando filosofia neste País que nos defina o rumo. Os políticos se organizam a partir de bandeiras. Essas bandeiras não são criadas diretamente por eles; nós, que estamos envolvidos no dia a dia de conseguir o voto, de conseguir a base de apoio, de passar a mensagem de uma maneira simples. Estão em um conjunto de ideias que vão surgindo do mundo.

            O Socialismo não veio dos políticos. O Socialismo veio de filósofos, como Marx. Os políticos depois agarram isso. Nós estamos em uma crise filosófica do rumo que nós queremos para o Brasil.

            Nós queremos um país com mais automóveis na rua ou com melhor transporte público? Nós queremos um país mais rico na renda ou mais educado? Em algum tempo, essas duas coisas eram vistas como sinônimos. Não são sinônimos. São opções diferenciadas.

            A crise é o grande momento para a gente saltar para um outro tempo, mas, para isso, a gente precisa de algumas coisas: nós precisamos dos recursos, mas recursos nós temos. Nós precisamos de propósitos. Propósitos nós não definimos, e precisamos de vontade política.

            E aí é que acho que vem a nossa grande crise: a falta de uma vontade política para superar a própria história, não a crise apenas, para ir para outro tempo em nosso País, como fizemos quando saímos do regime militar para o regime democrático, quando saímos do Império para a República, quando saímos da escravidão para o trabalho livre. São mudanças de rumo, são viradas na história. Precisamos dessa virada, e essa virada precisa de duas coisas - recursos nós temos -: propósitos claros - como o trabalho livre, como a República, como a democracia - e vontade política - e, aí, passa por nós, políticos; os propósitos até passam pelos filósofos, mas a vontade política passa por nós.

            E fica uma pergunta no ar para nós que estamos aqui, Senador Telmário, o senhor, eu e Paim, que somos alguns dos líderes deste País - dou-lhe um aparte e depois volto a falar disso. Fica a pergunta: onde estão os Tancredos e os Ulysses de hoje, capazes de agarrarem propósitos novos para o Brasil e nos aglutinarem em torno deles, com as bandeiras que tragam em direção ao novo Brasil? Onde estão, entre nós - ou não estão aí e, então, vamos ter que esperar mais 10, 20 anos de terremoto e crise -, os Tancredos e os Ulysses de hoje, Senador Paim?

            Passo a palavra ao Senador Telmário.

            O Sr. Telmário Mota (Bloco Apoio Governo/PDT - RR. Sem revisão do orador.) - Obrigado pelo aparte, Senador Cristovam. Onde estão Leonel Brizola, Getúlio Vargas e Juscelino? Estão na nossa vontade de mudar. Mas como vamos conquistar, Senador Cristovam, a confiança da população se a Câmara acaba de tomar uma medida... O senhor falou agorinha que uma das primeiras crises está nos gastos. Gastos com quem? Com os pobres? E por que, para dar um exemplo de confiabilidade, vamos aumentar os gastos com os Parlamentares? Como a Câmara acaba de aprovar passagens para as esposas? E olha que estou bem à vontade para falar isso, porque moro no Estado mais distante de Brasília, que é o Estado de Roraima. Se eu quiser trazer minha esposa aqui - e quero várias vezes -, vou meter a mão no meu bolso e pagar a passagem dela. O povo não tem que pagar a passagem da minha esposa. Eu é que tenho que voltar lá para o meu Estado e andar com a população para ver a sua dor. Então, isso não pode conquistar... Não adianta termos aqui um Cristovam, com toda essa sua responsabilidade, com toda essa sua representatividade, com todo esse orgulho que V. Exª é para o Brasil, para Brasília e para este Parlamento, se ali, rapidamente, numa proposta imoral de campanha, incorporam-se aos vencimentos - porque acabam se incorporando aos vencimentos dos Parlamentares, que hoje já ganham muito - passagens para a esposa. Isso é descaracterizar, num momento tão sério como o que nós temos aí, quando temos para enfrentar duas medidas em que nós vamos avançar em alguns direitos já conquistados pelo trabalhador - eu sei que o Senador Paim fica constrangido até diante dessas coisas... Nós vamos pedir algum sacrifício do homem que amanhece o dia dentro de um ônibus, que vai para o trabalho, Senador Cristovam, se empurrando, para ganhar um salário mínimo, e a Câmara, o Congresso, libera passagem para as esposas de Parlamentares? Isso é imoral - isso é imoral! -, isso é ilegal, diante, principalmente, deste País, que tem o Parlamento mais caro do mundo dentro de suas proporcionalidades. Então, eu quero parabenizar a fala de V. Exª, muito a propósito neste momento, mas eu acho que é preciso darmos uma resposta, resposta com ações concretas, não com ações paliativas. Nós não podemos estar aqui, tomando decisões, porque as ruas gritam isso... “Então, eu vou já para a televisão, para todos os canais, e vou dizer isso”. Não. Esta é a hora, se colocou bem, Senador Paim, Senador Cristovam, este é o grande momento de o Brasil responder para a sociedade com uma nova direção, uma nova direção política, uma nova direção econômica, uma nova direção social, uma nova direção de desenvolvimento, de amadurecimento, com agendas positivas. Neste momento o Brasil precisa de reformas cortando na carne, reformas verdadeiras. Chega de tanta mordomia! Chega! Eu confesso, Senador Paim - um homem filho de uma empregada doméstica, nasceu numa comunidade indígena, viveu na escuridão do analfabetismo até os 11 anos -, que derrotar a oligarquia, a corrupção no meu Estado, para mim, era um grande desafio. Agora, quando eu recebi este bottom de Senador aqui e vi tanta mordomia - apartamento, carro, um aparato enorme a minha disposição -, me perguntei: o que vou fazer pelo meu povo, que paga essa conta tão cara? Então, vamos reformar! Vamos fazer reformas profundas! Há tantas aí agora! Nós podemos dar uma grande resposta, sem servir a poder econômico. Esta Casa está em um momento ímpar. As grandes empresas se envolveram, lamentavelmente, nessa monstruosa corrupção na Petrobras. É a hora em que nós estamos soltos. Eu já entrei aqui solto, eu só tenho um patrão aqui: o povo de Roraima. Não devo a empresários, não devo a grupos políticos, não devo a ninguém este mandato, só ao povo de Roraima, ao povo humilde. Eu ganhei a eleição, Senador Paim. O Estado de Roraima tem 15 Municípios. A capital tem duas zonas eleitorais: a dos ricos e a dos pobres. Eu já ganhei a eleição só na zona dos pobres, contra a maior oligarquia e o maior poder econômico daquele Estado. Então, nós temos que trabalhar sim. Nós temos que começar com reforma política, reforma judiciária. O Judiciário tem que desengavetar... O meu Estado já está há dois ou três mandatos, através de liminares... A liminar é uma porta de corrupção: ganha banca de advogado, ganha juiz, ganha promotor, ganha deputado estadual, governador fica de joelhos. É preciso acabar com essa imoralidade! A reforma não pode ser só no Executivo não! É no Executivo, é no Legislativo, é em todos os Poderes. Um juiz prende um carro e vai passear... Que País vergonhoso! Isso é uma vergonha! Então, nós temos que aproveitar a crise sim, Senador Cristovam, mas fazer mudanças verdadeiras, e não mudanças para a plateia, para enganar o povo. Nesta Casa aqui, nós temos que fazer isso, e eu vou fazer essas proposições. Obrigado pela oportunidade.

            O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco Apoio Governo/PDT - DF) - Senador, eu agradeço muito sua fala, porque ela, primeiro, levanta a voz para algo que a gente está evitando levantar, que são as mordomias que nos asseguram aqui. Eu, às vezes, até as evito, porque, como eu sou de Brasília, não preciso de nada disso. Defendo até que não deva ter direito quem é daqui: não precisa de apartamento se já mora aqui, não precisa de passagem para ir para casa se já mora aqui. Mas o senhor é de um Estado que precisa disso, e levanta voz contra essas mordomias. Ontem, nesse debate, uma das coisas mais levantadas foi a manchete do Correio Braziliense sobre as passagens para esposas de Parlamentares oferecidas pela Câmara dos Deputados, medida que, eu espero, o Senador Renan não adote aqui - e tenho a impressão de que ele tem bom senso nesse sentido.

            Isso me traz o assunto onde eu parei: onde estão os Tancredos e os Ulysses - eu lhe agradeço -, os Juscelinos, os Getúlios e os Brizolas, nosso líder especialmente?

            O SR. PRESIDENTE (Paulo Paim. Bloco Apoio Governo/PT - RS) - Senador Cristovam, permita-me. Casualmente...Olhe aqui, está ligado. Entrou aqui agora dizendo “pelo amor de Deus”, cumprimentou V. Exª e pediu que eu falasse também sobre isto, que o Senado não faça o que a Câmara fez, num retrocesso em relação àquilo que falamos sobre diminuir os gastos, àqueles gestos que depõem contra o próprio Parlamento.

            O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco Apoio Governo/PDT - DF) - São contra o Parlamento.

            O SR. PRESIDENTE (Paulo Paim. Bloco Apoio Governo/PT - RS) - São contra o Parlamento. Então, quero me somar a V. Exª e dizer que o apelo é exatamente no sentido desse depoimento que V. Exª fez agora, em relação àquilo que Câmara acabou fazendo esta semana.

            O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco Apoio Governo/PDT - DF) - Pois bem, eu retomo.

            Quando perguntamos onde estão os Ulysses, pensamos onde estão os oradores capazes de seduzir o povo. Não é isso! O povo é capaz de entender a verdade com grandes ou pobres e pequenos oradores. O que falta, Senador Telmário, a meu ver, não é voz, não é língua, não é boca: faltam ouvidos e olhos. Nós, políticos, não estamos ouvindo e nem estamos vendo. Não estamos ouvindo, por exemplo, o futuro que nos chama. O futuro chama o Brasil, mas não estamos ouvindo o futuro. Estamos trabalhando, agindo, para o imediato. Alguns em busca de locupletar-se - o Senador Telmário falou em relação a mordomias -; outros, não só de mordomias, até de propinas. Mas, olhando os decentes, que não estão atrás de mordomias, não estão atrás de propinas, estão presos ao presente, estamos preocupados com o que dizer para ganhar a próxima eleição e não com o que propor para construir a próxima geração de brasileiros. Nós não estamos ouvindo o futuro nos chamando.

            E esse futuro não é mais a continuação do passado. O futuro é outro mundo diferente, como fizemos quando saímos da escravidão, como fizemos quando saímos do Império, como fizemos quando Getúlio reorientou este País de um país agrícola exportador para industrial e urbano, quando mudamos de ditadura para democracia. O futuro daqui para frente é outro.

            E pensando nesse outro futuro é que eu me engajo tanto na luta pela educação, porque a grande riqueza do futuro virá do conhecimento, o conhecimento vem da ciência e da tecnologia, que vem das universidades, que vem do ensino médio, que vem do ensino fundamental, que vem desta coisa chamada educação de base.

            Essa vai ser a base da riqueza do futuro.

            Mas a gente não ouve o futuro, não ouvimos o mundo. Nós continuamos achando que o futuro do Brasil é ser um país isolado, um país que não vai ter que se vincular - se ligar soberanamente, mas ligar-se - ao mundo global que hoje está construído, que existe e que, cada vez mais, vai se consolidar. Nós não estamos ouvindo as ruas, que estão gritando contra as coisas que fazemos e, ainda mais: nós não a estamos ouvindo reclamar das coisas que não fazemos, como a reforma política.

            Agora mesmo, as ruas estão mostrando, gritando, que até percebem que o Governo que está aí errou nos últimos anos e criou uma situação caótica nas finanças, e que as finanças precisam ser reequilibradas sim. Mas não é o propósito, apenas, reequilibrar: tem que dizer aonde vai o Brasil depois das contas equilibradas e, a partir daí, é dizer onde cortar. O corte linear que o Governo está fazendo para ajustar as contas é uma prova da falta de prioridades, de rumo. Não podia estar cortando na educação, tinha que escolher onde cortar.

            Senador Paim, a ideia de não corrigir a linha dos que pagam Imposto de Renda: por que fazer isso sacrificando o andar de baixo e não o andar de cima? Com um pequeno reajuste sobre a alíquota dos que ganham bem, não precisava sacrificar aumentando o número dos que pagam lá embaixo e, além disso, aumentando quanto pagam os que estão um pouquinho acima em relação aos lá de baixo. Nós não estamos ouvindo as ruas.

            E nossa cegueira? Nós não estamos vendo, nós não estamos vendo a inadimplência que caracteriza o Brasil: as dívidas que nós temos, as dívidas com os milhões de pobres. E não vamos dizer que basta Bolsa Família para pagar a dívida. A dívida tem que ser paga com a educação do pobre igual à educação do rico; com a saúde do pobre sendo tratada igualmente à saúde do rico; com a justiça sendo distribuída igualmente para pobre e para rico - não é como hoje acontece no Brasil, onde quem tem dinheiro compra educação, quem tem dinheiro compra saúde, quem tem dinheiro fica solto mesmo cometendo crimes. Temos uma dívida com os pobres.

            Nós temos uma dívida com a natureza. Há 500 anos, vamos destruindo as florestas para ocupar terra e produzir bens agrícolas. Se esgotou. E a prova que se esgotou é a seca que chega até o Sudeste do Brasil. Deixou de ser uma questão lá do meu Nordeste. Essa é uma dívida que a gente tem com a natureza.

            Temos uma dívida com os negros, Senador Paim, e não bastam cotas. O senhor sabe como eu sou defensor das cotas, como já há exemplos de que as cotas têm sido bastante positivas. Eu dou aula na UnB, e, nesses 20 anos, a cor da cara dos meus alunos mudou na UnB! Conquista das cotas. Mas é pouco. Ainda temos, como a maior parte dos analfabetos, negros brasileiros. O salário dos negros é mais baixo. Aqui nesta Casa temos quantos, Senador Paim, que o senhor considera negros? O senhor, e tivemos a Benedita. Na Câmara, eu não tenho ideia de quantos são.

            O SR. PRESIDENTE (Paulo Paim. Bloco Apoio Governo/PT - RS) - Doze, eu acho.

            O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco Apoio Governo/PDT - DF) - Doze.

            O SR. PRESIDENTE (Paulo Paim. Bloco Apoio Governo/PT - RS) - Uma dúzia.

            O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco Apoio Governo/PDT - DF) - Então, nós temos dívidas, e a gente não está vendo essas dívidas.

            E a outra coisa que tem a haver com o que se falou, Senador Telmário: nós não estamos vendo a indignação do povo. Quando eu falei que a gente não houve os gritos das ruas é em relação às exigências que o povo tem. Mas a indignação, não é nem o grito, é o olhar das pessoas para quem é político. Quando eu digo olhar não é vendo com olhos, porque não veem: é o olhar subjetivo como eles percebem.

            Senador Paim, nós não estamos vendo um fato gravíssimo que aconteceu esta semana, em um hospital de São Paulo, quando o senhor, cidadão, homem Guido Mantega foi levar a esposa ao hospital, doente; ele é um cidadão, é um ser humano, e foi vaiado ali dentro! Uma grosseria. Mas vamos prestar atenção também sobre o que é que está por trás dessa grosseria: é uma raiva muito grande com o estado das coisas.

            Eu não desculpo os que fizeram aquilo, mas eu entendo a lógica do porquê eles fizeram aquilo. E não entendo a lógica e digo apenas: foi uma grosseria, uma falta de solidariedade imperdoável! Mas a gente tem que perceber que, até naquilo que mais caracteriza a solidariedade, que é a doença, este País está se rompendo. E a gente não está vendo essa indignação com clareza.

            Nós não temos hoje, Senadores, os Ulysses e os Tancredos, que viam e ouviam; nós, políticos de hoje, não estamos vendo, nem estamos ouvindo! E ainda menos entendendo. Ainda menos entendendo a dimensão da crise, a necessidade de uma reorientação para o futuro do Brasil. Isso porque não ouvimos o futuro, um Brasil integrado no mundo, porque não ouvimos o que o mundo diz. Justo, porque não ouvimos o que as ruas pedem.

            É aí que está o impedimento de termos hoje estadistas, que sejam capazes de reorientar o rumo do País, porque, Senador Paim, para fazer ajuste fiscal, basta um bom economista! Mas, para reorientar o futuro do País, tem de ser um bom estadista, que tenha ao seu lado um bom economista, mas não para definir, apenas para sugerir os limites do possível, os recursos, como falei, que eram a primeira condição depois do propósito, depois da vontade. Os recursos o bom analista, economista e outros técnicos trabalham; agora, para onde ir e a vontade de lá chegar, esse é o trabalho do estadista.

            Político é aquele que sabe como ficar no poder, falando o que o povo quer ouvir para o presente. Profeta é aquele que diz para onde se deve ir, sem ter ninguém atrás dele. Estadista é aquele que diz para onde ir e consegue reunir, atrás dele, as bases necessárias para uma vontade política que construa esse futuro.

            Nós estamos carentes. Fala-se que a crise é de água, que a crise é de dinheiro, até que a crise é de educação, de saúde. A crise é de estadista. A crise é de políticos capazes de entender para onde devemos ir, ouvindo; que saiba como o povo quer ouvir, olhando; e que, ao mesmo tempo, seja capaz de nos convencer.

            Eu disse “nos convencer” porque, apesar de ser Senador, ex-Governador, apesar de ter sido candidato a Presidente, manifesto aqui, com clareza, a dificuldade em ocupar um espaço como esse. Eu estou em busca de um Ulysses! Eu estou em busca de um Tancredo, de um Getúlio, de um Brizola, porque não me sinto em condições de ocupar o lugar de um desses grandes homens.

            E a falta que eles fazem é trágica, porque a crise, o terremoto que o Professor Marcel ontem disse, que é a falta de chão que estamos sentindo, 200 milhões de habitantes, como se estivéssemos num terremoto, se essa falta de chão demora muito, vem o desespero, agora aliado aos desencantados, que acreditaram no discurso eleitoral e estão vendo outro discurso na prática.

            A aliança dos desencantados com os desesperados, caminhando em cima de um terremoto e diante de um abismo que a gente percebe que está aí, é uma tragédia que, no mínimo, a gente pode dizer catastrófica.

            E o que me preocupa, Senador Paim - e termino -, é que, no mundo de hoje, parece que a pedagogia do argumento perdeu força e que só está valendo a pedagogia da catástrofe. Parece que a gente só aprende depois do erro cometido, que não somos suficientemente capazes de nos anteciparmos às consequências dos erros para evitá-los.

            A água em São Paulo é um exemplo. Não nos antecipamos na maneira como ocupamos o território urbano; na maneira como deixamos que, lá na Amazônia e em outras partes, se destruíssem florestas; na maneira como preferimos fazer estádios bonitos para a Copa do que reservatórios para a água. Não fomos capazes de educar a população para consumir menos água, nada disso. Agora a catástrofe chega, e nós aprendemos com ela.

            É uma pena, mas parece que a pedagogia do argumento perdeu força para a pedagogia da catástrofe, e a gente só vai aprender depois de os desastres chegarem às piores consequências, piores ainda do que as consequências atuais, que são muito graves, mas que ainda podem piorar.

            Era isso, Sr. Presidente, que eu tinha para colocar.

            Onde estão nossos Tancredos, capazes de ouvir e ver, entender, formular e nos atrair, aglutinados em defesa de um novo Brasil, um Brasil que saia da crise para a harmonia? Harmonia entre as pessoas. Harmonia social. Harmonia do bem-estar. Harmonia do direito de cada um buscar a sua felicidade. E harmonia com a natureza brasileira, para que não falte água, para que não falte energia, por conta de um bom cuidado do patrimônio natural brasileiro.

            Era isso, Sr. Presidente.

            O SR. PRESIDENTE (Paulo Paim. Bloco Apoio Governo/PT - RS) - Muito bem, Senador Cristovam Buarque, que faz uma reflexão em âmbito nacional e demonstra preocupação com a situação do País, que passa, inclusive, pela paralisação dos caminhoneiros e todo o quadro conjuntural.

            Estamos na busca - eu diria -, querendo caminhar ao lado de estadistas, e, sem sombra de dúvida, V. Exª é um estadista. V. Exª é um deles. Tomara que venham outros. Parabéns a V. Exª.

            O SR. CRISTOVAM BUARQUE (Bloco Apoio Governo/PDT - DF) - Obrigado, Sr. Presidente.

 

            


Este texto não substitui o publicado no DSF de 28/02/2015 - Página 90