Pronunciamento de Hélio José em 09/02/2017
Discurso no Senado Federal
Críticas ao estado de abandono do Teatro Nacional Cláudio Santoro, em Brasília.
- Autor
- Hélio José (PMDB - Movimento Democrático Brasileiro/DF)
- Nome completo: Hélio José da Silva Lima
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Discurso
- Resumo por assunto
-
CULTURA:
- Críticas ao estado de abandono do Teatro Nacional Cláudio Santoro, em Brasília.
- Aparteantes
- Cristovam Buarque.
- Publicação
- Publicação no DSF de 10/02/2017 - Página 39
- Assunto
- Outros > CULTURA
- Indexação
-
- CRITICA, ABANDONO, TEATRO, BRASILIA (DF), DISTRITO FEDERAL (DF), PROJETO ARQUITETONICO, AUTORIA, OSCAR NIEMEYER, MOTIVO, AUSENCIA, FUNCIONAMENTO, COMENTARIO, IMPORTANCIA, MONUMENTO, CITAÇÃO, TRECHO, MUSICA BRASILEIRA, CANTOR, CAETANO VELOSO, REGISTRO, CENTRO CULTURAL, LOCALIDADE, SAMAMBAIA, INFRAESTRUTURA.
O SR. HÉLIO JOSÉ (PMDB - DF. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) – Quero cumprimentar o nosso Presidente, Senador Cidinho Santos, cumprimentar os nossos ouvintes da Rádio Senado, os telespectadores da TV Senado, dizer à nossa querida Ângela, minha antecessora, à Regina que, indiscutivelmente, essa discussão da educação é fundamental, que conta com o apoio de todos nós.
O meu pronunciamento aqui, meu nobre Presidente, Senador Cidinho Santos, vem numa crítica ao estado de abandono do Teatro Nacional Cláudio Santoro, em Brasília.
Sr. Presidente, Srªs Senadoras, Srs. Senadores, estou aqui com o nosso ex-Governador do Distrito Federal, nosso Senador Cristovam Buarque, que é o homem da cultura da nossa cidade. Eu vou aqui falar algumas poucas linhas a respeito do estado de abandono, nobre Cidinho Santos, do nosso grande Teatro Nacional, uma obra concebida por Oscar Niemeyer, na nossa Capital.
Brasília é uma cidade que respira política e, quando a política passa por crises graves como a atual, o oxigênio deste lugar parece ficar ainda mais escasso.
Em momentos históricos, assim tensos, mesmo que não se justifique, é comum darmos pouca atenção à cultura da cidade, à cultura do País, lamentavelmente. Contudo, não há desculpa que explique o descaso com que vem sendo tratado o nosso Teatro Nacional Cláudio Santoro aqui, na Capital Federal.
O Teatro Nacional é uma das joias do conjunto arquitetônico-urbanístico do nosso mestre, conhecido por Oscar Niemeyer, e Lúcio Costa – foi concebido por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.
Calculado pelo grande engenheiro pernambucano, nobre Senador Cristovam, o nosso querido Joaquim Cardozo, que trabalhou em outros tantos projetos na implantação de Brasília e ainda encontrava tempo para escrever poesias.
O Teatro tem seu desenho em forma de pirâmide sem ápice, inspirado na arquitetura asteca, nobre Senador Cidinho Santos – o senhor que é de Mato Grosso, mas que conhece bem a nossa cidade.
Quantas cidades do mundo podem se orgulhar de um teatro construído com tanto esmero e por tantas mentes e mãos habilidosas, como Brasília pode se orgulhar do seu Teatro Nacional?
Os jardins foram projetados pelo paisagista Roberto Burle Marx, o tratamento acústico ficou sob a responsabilidade do renomado arquiteto russo radicado no Brasil Igor Sresnewsky, os cubos brancos nas paredes norte e sul foram desenhados por Athos Bulcão e a ambientação interna do teatro foi pensada pelo cenógrafo italiano Aldo Calvo. É um teatro que enche Brasília de orgulho.
Nobre Senador Cristovam, estou falando aqui sobre o abandono do nosso querido Teatro Nacional, que foi concebido e calculado pelo querido arquiteto pernambucano Joaquim Cardoso. Estou falando aqui das pessoas que contribuíram para sua construção e do nosso grau de decepção com o estado em que ele se encontra hoje.
A construção se deu, nobre Presidente, em diversas etapas, com início oficial em 30 de julho de 1960. A estrutura foi concluída em janeiro de 1961, ficando a obra parada por um período de cinco anos, sendo retomada apenas em 1966, com a inauguração da Sala Martins Pena, umas das maiores salas do Teatro Nacional. O teatro só foi considerado concluído e entregue definitivamente ao público no dia 21 de abril de 1981.
Esses longos hiatos temporais mostram como foi difícil e demorada a construção do Teatro Nacional, mas nada se compara ao tratamento vergonhoso que lhe é conferido hoje, nobre Senador Cristovam.
O espaço foi fechado para reforma depois de recomendações do Ministério Público e vistorias do Corpo de Bombeiros no início do ano de 2014, nobre Presidente. Na ocasião, foram listados 112 problemas de estrutura e acessibilidade, que deveriam ser solucionados para que o prédio fosse reaberto à cultura do Distrito Federal e do Brasil.
A obra de recuperação foi orçada, inicialmente, em R$150 milhões, com cálculos revisados para R$220 milhões, e deveria ter-se iniciado em junho de 2014. A previsão de entrega da obra era o final de 2015, mas o que vemos é só abandono e desolação, lamentavelmente, no nosso Teatro Nacional, nobre Senador Requião.
Quem passa pelas proximidades do teatro vê tapumes velhos, fiações expostas e lixeiras quebradas, além de sinais de que o local se transformou em ponto de consumo de entorpecentes, lamentavelmente. É de dar pena! Um lugar que já recebeu apresentações dos balés russos Bolshoi e Kirov, do balé da Ópera de Paris, que recebeu Rita Hayworth, Paulo Autran, Fernanda Montenegro; um lugar onde já se ouviu o tango de Astor Piazzolla, onde já se ouviu João Gilberto, onde o maestro Claudio Santoro regeu magistralmente tantas vezes que acabou homenageado, dando nome ao Teatro, onde brilhou Dulcina de Moraes, que também é nome e uma faculdade aqui, no Distrito Federal.
Hoje, o lugar por onde passaram tantos artistas célebres se resume a um ponto de consumo de crack, nobre Senadora Regina Sousa, empesteado pelo odor fétido de urina. Bem ali, a pouco menos de quatro quilômetros do Palácio do Planalto e do nosso Congresso Nacional, um templo da cultura brasileira está penando dessa forma.
Caetano Veloso, que também já se apresentou no Teatro Nacional, compôs uma canção chamada Fora da Ordem, que, em determinado trecho, diz:
Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína [lamentavelmente]
Tudo é menino e menina no olho da rua
O asfalto, a ponte, o viaduto ganindo pra lua
Nada continua
Isso é, fecho aspas, do Caetano Veloso.
Pobre do país, nobres Senadores, nobre Presidente, nobres Senadoras, em que tudo parece construção e já é ruína. Se é assim com as nossas escolas inacabadas, se é assim com as nossas obras sanitárias pelas metades, que deixam o esgoto a céu aberto, se é assim com nossos hospitais caindo aos pedaços, por que não será assim com os nossos teatros? Essa é a pergunta que fica no ar.
Eu sou membro aqui – e Cidinho também é membro – de uma comissão de obras inacabadas. Nós precisamos acabar com esse cemitério de obras inacabadas pelo bem da nossa Nação. E estamos trabalhando para isso, não é, Cidinho?
Nem o mais belo deles, o Teatro Nacional, escapa lamentavelmente dessa mediocridade e da nossa incapacidade de pararmos em pé com a Nação. Fica registrada minha palavra de protesto e solidariedade em relação ao estado calamitoso do Teatro Nacional Cláudio Santoro.
Um povo sem cultura e arte não tem alma. Será que querem matar nossa alma, nobre Senador Cristovam?
Essa é a minha reflexão sobre a questão do Teatro Nacional, essa importante obra aqui, do Distrito Federal, que tem que ser retomada para o bem da nossa cultura, para o bem da nossa sociedade e para o bem do nosso País.
Senador Cristovam.
O Sr. Cristovam Buarque (Bloco Socialismo e Democracia/PPS - DF) – Senador Hélio José, é boa a sua reflexão sobre querer matar a alma do povo do Distrito Federal. De fato, a alma de um povo vem da cultura.
O SR. HÉLIO JOSÉ (PMDB - DF) – Exato.
O Sr. Cristovam Buarque (Bloco Socialismo e Democracia/PPS - DF) – A economia nos dá os elementos para construir um teatro e nos dá o alimento para a gente ficar vivo na carne, mas a alma vem da cultura. E o teatro é uma parte fundamental disso. Essa reflexão é boa, mas eu queria fazer outra: ao mesmo tempo em que se deixava o teatro se degradar, ao lado se construía um estádio por R$2 bilhões...
O SR. HÉLIO JOSÉ (PMDB - DF) – Exatamente.
O Sr. Cristovam Buarque (Bloco Socialismo e Democracia/PPS - DF) – ... um estádio de futebol em uma cidade em que a gente sabe que o futebol está começando ainda, está engatinhando. Ainda não há torcedores. Antes de ontem ou ontem, houve aqui um jogo do Flamengo. Havia uns torcedorezinhos, mas, quando a gente compara o tamanho do estádio, não era nada. Não pode o Flamengo vir jogar todo fim de semana aqui, toda semana, ou o Corinthians. São esses que enchem. Quando o nosso Gama joga – e houve, na semana passada, um jogo – dá para ocupar bem o estádio deles lá no Gama, e deu. Não precisava dessa extravagância de R$2 bilhões, um elefante branco que vai ficar aí por décadas, por séculos, embora eu não descarte que, dentro de algum tempo, o valor daquele terreno vai ser tão alto que é capaz de comprarem para detonar, implodir o estádio e construir ali coisas com mais utilidade, porque é a utilidade que dá o valor definitivo, a utilidade de hotéis, por exemplo, que era a destinação. Pois bem, essa é uma reflexão que a gente precisa fazer: a reflexão de que, quando a gente põe um tijolo num estádio, a gente não pode pôr o mesmo outra vez no teatro. Um tijolo – e o senhor é engenheiro – só se pode usar uma vez.
O SR. HÉLIO JOSÉ (PMDB - DF) – Exato.
O Sr. Cristovam Buarque (Bloco Socialismo e Democracia/PPS - DF) – A multiplicação de tijolos deve ser mais difícil do que a multiplicação de peixes. E a gente gastou os tijolos – no sentido metafórico, porque, na verdade, são os ferros, os concretos e os vidros – ali naquele estádio. Esse governo que terminou, que passou, do Sr. Agnelo Queiroz, um dia vai ter que se explicar. Como é que foi possível deixar um teatro degradar-se, definhar, fechado, e construir ao lado um estádio de R$2 bilhões em uma cidade onde ainda não há torcedores em número suficiente para encher os estádios. Essa é a reflexão que eu queria adicionar à sua, que é muito mais rica do ponto de vista teórico, da ideia de que sacrificamos a alma ao não ter um grande teatro. E a gente fala a palavra teatro, mas, na verdade, é ali que está a sede da nossa orquestra sinfônica, uma excelente orquestra sinfônica. Orquestra precisa de teatro, porque a casa da orquestra é o teatro.
O SR. HÉLIO JOSÉ (PMDB - DF) – Com certeza.
O Sr. Cristovam Buarque (Bloco Socialismo e Democracia/PPS - DF) – E a nossa ficou tendo de encenar em outros lugares. Nós temos uma orquestra maravilhosa e que é nômade. É nômade! Porque não tem a sua casa, o seu teatro. E não dá para a gente colocar a orquestra no Estádio Mané Garrincha. Não há como fazer isso. Por isso, parabéns por sua fala. A gente precisa continuar discutindo isso para que o povo brasileiro entenda o que é prioridade. Sei que muitos são contra, mas essa tal da PEC do teto de gastos vai trazer um grande avanço na consciência brasileira. Nós vamos descobrir que, sim, existe uma coisa chamada limite de recursos. Logo, é preciso haver outra: prioridades. Antigamente, a gente fazia um estádio e dizia que iria fazer um teatro, e aí não fazia. Agora, na hora de dizer que vai fazer o estádio, vai estar implícito o fato de relegar o teatro. Foi uma reflexão adicional, mais pragmática do que a sua. Mas vamos recuperar. Eu fico feliz de ter ido, com o Ministro da Cultura, Roberto Freire, ao Presidente Temer. E eu ouvi dele o compromisso de recuperar o teatro. Não de uma vez ele fica pronto, mas sala por sala, começando pela Martins Pena, até termos todo o teatro recuperado.
O SR. HÉLIO JOSÉ (PMDB - DF) – Agradecido, nobre Senador Cristovam. Vou incorporar ao meu discurso as suas reflexões, muito procedentes.
Inclusive, eu estive também com o nosso Ministro Freire, colocando que aqui, em Brasília, Cristovam, uma cidade chamada Samambaia, uma cidade nova, de 26 anos, construiu um grande centro cultural, que se encontra fechado por falta de mobiliário e por falta de apoio para poder fazer essa parte estrutural mínima de funcionamento. E o nosso Ministro Freire foi muito receptivo em ajudar o Centro de Cultura de Samambaia, uma obra feita pelo Fundurb, para a gente, de fato, colocar a estrutura necessária para o funcionamento daquele centro cultural.
E esperamos que, com relação ao Teatro Nacional, todos nós da Bancada do Distrito Federal possamos ajudar na sua recuperação. Colocamo-nos todos à disposição disso.
E quero deixar claro a Brasília que as reflexões que o senhor aqui coloca realmente são procedentes. Nós temos que ter priorização. Sem priorização, não vamos a lugar algum.
Obrigado, nobre Presidente, Senadora Regina Sousa. Estas são as reflexões que a gente traz sobre a importância da retomada do Teatro Nacional, numa sequência, porque é importante para a população de Brasília; sobre a importância de o Governo do Distrito Federal realmente intervir no sentido proativo.
Muito obrigado, Presidente.