Pronunciamento de Weverton em 14/03/2019
Pela Liderança durante a 22ª Sessão Especial, no Senado Federal
Sessão Especial destinada a comemorar os 98 anos do jornal Folha de São Paulo e a homenagear, in memoriam, o Diretor de Redação Otávio Frias.
- Autor
- Weverton (PDT - Partido Democrático Trabalhista/MA)
- Nome completo: Weverton Rocha Marques de Sousa
- Casa
- Senado Federal
- Tipo
- Pela Liderança
- Resumo por assunto
-
HOMENAGEM:
- Sessão Especial destinada a comemorar os 98 anos do jornal Folha de São Paulo e a homenagear, in memoriam, o Diretor de Redação Otávio Frias.
- Publicação
- Publicação no DSF de 15/03/2019 - Página 23
- Assunto
- Outros > HOMENAGEM
- Indexação
-
- SESSÃO ESPECIAL, DESTINAÇÃO, COMEMORAÇÃO, ANIVERSARIO DE FUNDAÇÃO, JORNAL, FOLHA DE S.PAULO, HOMENAGEM POSTUMA, JORNALISTA, OTAVIO FRIAS, DIRETOR, REDAÇÃO, PERIODICO.
O SR. WEVERTON (Bloco Parlamentar Senado Independente/PDT - MA. Pela Liderança.) – Sra. Presidente Kátia Abreu, autora do requerimento que faz esta justa homenagem ao Jornalista Otávio Frias Filho e aos 98 anos da Folha de S.Paulo; Sr. Ministro do Supremo Gilmar Mendes, que me antecedeu nas palavras; Vice-Governador do Distrito Federal, Paco Britto, aqui representando o Governador Ibaneis; Vice-Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Sr. Luiz Viana; Sra. Diretora de Editorial e Redação do jornal Folha de S.Paulo, a Sra. Maria Cristina Frias; autoridades; embaixadores; imprensa; telespectadores; ouvintes da Rádio Câmara... Da Rádio Senado. É o costume, Sra. Presidente; oito anos lá na Câmara, agora... Ouvintes da Rádio Senado; galeria; demais autoridades e colegas Senadores.
Ao comemorarmos hoje, aqui, os 98 anos da Folha de S.Paulo e fazer esta justa homenagem ao Diretor de Redação Otávio Frias, por requerimento de V. Exa., também homenageamos a vida brasileira, que passou e passa por suas páginas, que estão registradas em seus arquivos, fotografadas pela lente profissional dos que lutaram pela construção de uma sociedade mais justa, de um Brasil justo, digno de orgulho de seus filhos.
Digo isso porque é consenso que, ao longo do tempo, a Folha tem sido um instrumento ágil, rápido, eficaz, em que o debate é amplo e as correntes de pensamento manifestam-se intensa e livremente, por exemplo, por meio de sua página 3. Jamais, em tempo algum, soube-se que tivesse havido alguma negativa à publicação de artigos que trouxessem ideias novas, muitas vezes contrárias à linha editorial do jornal.
A Folha destaca-se como um jornal que teve a coragem de fazer – e faz, diariamente – uma autocrítica, na medida em que criou a figura do ombudsman, crítico do próprio jornal. Essa figura preza pela democracia, ou seja, a ideia de que nela, na democracia, pode haver acertos e pode haver erros. A Folha teve sabedoria política extraordinária, compatível com o sistema participativo: a ideia de que é preciso autocriticar-se, de que é preciso verificar quais são os seus erros e quais são os seus acertos.
Portanto, com essa linha editorial – em primeiro lugar, independente; em segundo lugar, dando oportunidade para que as várias manifestações de pensamento sejam nela acolhidas; e, em terceiro, pela crítica permanente que faz do seu próprio trabalho –, a Folha dá um exemplo para todos nós, do Poder Legislativo, que vivemos da contrariedade, da controvérsia, da contestação, da oposição de ideias.
Exemplo dos melhores, da abertura ao debate, comparecem diariamente às suas páginas, as mais diversas correntes políticas. Expoentes de todos os pensamentos ali encontram o espaço para apresentar suas ideias, argumentos, fomentando discussões extremamente salutares para a cultura e a informação de seu privilegiado público leitor.
Quero destacar a figura do homenageado, in memorian, o Otávio Frias Filho. Ele que é o grande responsável pela reforma editorial que começou a ressuscitar a imprensa brasileira, em meados da década de 70, acordando do sono letárgico em que fora arremessada pela censura.
Em Otávio identificam-se vários escritores e jornalistas, numa simbiose feliz, pois, por usar a expressão comum de Aníbal Fernandes, combatente jornalista, pernambucano, dos anos 40 e 50: "Nem todo escritor é jornalista, mas todo jornalista deve ser um escritor".
A Otávio deve-se a renovação gerencial e editorial do jornal, no chamado Projeto Folha, que atraiu numerosos talentos, recrutando jovens egressos da Universidade Paulista, que trouxeram ao batente o contributo de novas ideias e ajudaram na consolidação editorial do veículo.
Ele quebrou todos os tabus e convenções, acabando com um tipo de "jornalismo pronto-a-vestir", que existia para adaptar-se a todos os gostos políticos, servindo à Ia carte, indistintamente, a políticos e a governos de ocasião.
Trouxe para a redação da Folha a aplicação prática da máxima cunhada por Juan Luís, famoso jornalista espanhol, que fala no seu livro "Carta a um Jovem" acerca dos jornalistas – abro aspas: "Só há dois gêneros de jornalistas: os que escrevem bem e os outros". Fecho aspas.
Com Otávio Frias Filho, na Folha, o jornalismo brasileiro definitivamente fixou a sua credibilidade editorial, abalada por tantos anos de interferência de Governos na orientação da mídia e também pela ingerência da censura, que abafou vozes e amesquinhou o papel da imprensa, retardando a redemocratização do Brasil.
Cabe aqui uma reflexão: a imprensa e o Parlamento são instituições permanentes da sociedade democrática. Os governos passam. Elas resistem, todavia, às vicissitudes do tempo, aos ataques dos radicais e dos fundamentalistas, que não aceitam a crítica.
Não somos, porém, instituições perfeitas. Refletimos a opinião pública e, parodiando Churchill, quando ele diz: "Construímos a opinião publicada".
Ao longo da história, a opinião pública apoiou ditadores absolutos e liberais, exultou com os demagogos, consentiu aristocracias, aplaudiu democracias, derrubou Parlamentos. Nada se fez que a opinião pública não consentisse ou aprovasse, de forma tácita ou explícita. Nela, o político vai buscar aquela reserva de poder que o sustenta na renovação do seu mandato popular. Nela, os jornais apoiam-se para corrigir os rumos, mudar seções, orientar editoriais, melhorar seu padrão gráfico, criar e oferecer serviços ao universo dos leitores. O Parlamento e o jornal — e essa responsabilidade muito cabe à Folha de S.Paulo — devem contribuir cada vez mais para as suas expectativas e aspirações de desenvolvimento econômico com a justiça social.
Mas novos desafios se fazem presentes a cada momento neste mundo em estado de efervescência. As novidades tecnológicas brotam a todo momento e mudam a forma como as pessoas interagem entre si e com as mídias tradicionais e as novas, particularmente as redes sociais. Hoje somos, em diferentes níveis, produtores e receptores críticos de conteúdo, e tudo num simples clique.
Finalizo, desejando que a Folha siga, para o bem da democracia, priorizando o apartidarismo, a imparcialidade e a interpelação jornalística das autoridades públicas, fazendo da informação do conteúdo o seu maior capital.
Vida longa à criatividade, à inventabilidade e à liberdade de imprensa a serviço do nosso Brasil!
Eu queria aqui, com muita honra, Sra. Presidente, Kátia Abreu, que é colega de Partido, o nosso PDT, dizer que, não só justa, mas neste momento difícil que estamos vivendo da quadra do nosso País, eu lhe confesso – sou do Maranhão, Nordeste brasileiro: pela primeira vez, na história, nós não vimos, no primeiro escalão do Governo Federal, nenhum representante do Norte e do Nordeste. Nós estamos vendo pouco a presença das mulheres no Executivo. Estamos sentindo um clima, nos corredores do Congresso Nacional, de medo, de pessoas cautelosas, com medo de expressar as suas opiniões, por eventuais perseguições. Nós estamos percebendo um ambiente extremamente difícil. E há poucos. E os líderes que restam precisam ter a coragem de dizer que o fascismo não pode vencer a democracia. E a imprensa tem que ter, mais do que nunca, essa altivez, para ter a coragem de se unir nessa quadra e dizer que ela é muito maior do que qualquer projeto de poder de quem quer que seja.
Por isso, parabéns, Otávio! Eu tenho certeza de que, in memoriam, ele representa todos esses brasileiros que acreditam numa democracia forte, numa imprensa livre e também numa Política, com "p" maiúsculo, funcionando, porque, só através dela, a gente vai conseguir construir um Brasil mais justo, mais igualitário, para as nossas crianças e para as próximas gerações.
Muito obrigado, Presidente. (Palmas.)