Discurso durante a 31ª Sessão Especial, no Senado Federal

Sessão Especial convocada em celebração à Democracia Brasileira

Autor
João Vicente Goulart
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
Homenagem:
  • Sessão Especial convocada em celebração à Democracia Brasileira
Publicação
Publicação no DSF de 03/04/2024 - Página 12
Assunto
Honorífico > Homenagem
Matérias referenciadas
Indexação
  • SESSÃO ESPECIAL, CELEBRAÇÃO, DEMOCRACIA, BRASIL, ASSUNTO, DITADURA, REGIME MILITAR, FORÇAS ARMADAS.
  • HISTORIA, EX-PRESIDENTE DA REPUBLICA, JOÃO GOULART, GOLPE DE ESTADO, PARTICIPAÇÃO, PAIS ESTRANGEIRO, ESTADOS UNIDOS DA AMERICA (EUA).

    O SR. JOÃO VICENTE GOULART (Para discursar.) – Bom dia a todos. Bom dia, meu querido amigo Senador Randolfe Rodrigues. Bom dia à minha mãe e, na pessoa dela, saúdo a todas as mulheres aqui presentes. Bom dia a todos os Embaixadores e corpo diplomático presentes neste dia importante, importante porque nós vivemos no país uma memória muito esparsa, e é importante essa iniciativa do Senado de relembrar 60 anos de um golpe de Estado que levou o país a 21 anos de silêncio, a 21 anos de prepotência, a 21 anos em que duas gerações ficaram no limbo da história nacional.

    Quero dizer a vocês que essa iniciativa nos traz hoje a memória daquele país que vivíamos em 1964, onde se debatia política governamental e onde se debatia o destino da formação de uma nação plena, democrática, saudável, mas principalmente mais equitativa, mais justa e soberana. Naquele momento, o país discutia política nos grêmios estudantis, o país discutia política no teatro, o país discutia no Cinema Novo, o país tinha uma ebulição cultural que nós hoje tentamos retomar, e tentamos resgatar essa memória. O país era composto por jovens; jovens que queriam uma nação nova.

    O Presidente João Goulart renunciou ao poder naquele momento, para não derramar sangue dos seus irmãos brasileiros, mas principalmente porque existia um período de guerra fria, e nós sabemos que o imperialismo americano teve grandes influências aqui no golpe de Estado de 1964. O país queria apenas o seu lugar, como hoje nós procuramos, num mundo não globalizado naquele momento, mas num mundo efetivamente de terceiro mundo e de países independentes. As reformas de base que compunham a reforma agrária, a reforma tributária, a reforma urbana, a reforma bancária, a reforma educacional, a Lei da Remessa de Lucros, o monopólio do petróleo para a nossa Petrobras, fundada então por Getúlio Vargas; a Eletrobras, colocada em funcionamento pelo Presidente João Goulart; uma época de décimo terceiro salário, uma conquista dos trabalhadores brasileiros...

    E nós temos, lamentavelmente, de dizer que naquele momento o Brasil perdeu a guerra fria. E perdeu a guerra fria por uma decisão pessoal do Presidente João Goulart; uma decisão que, historicamente, nós entendemos que não foi, pessoalmente, gravando a sua história, muito menos que uma derrota. Jango, com a sua renúncia ao poder, obteve duas grandes vitórias. Uma, não deixou correr sangue, não quis resistir, porque a Quarta Frota americana estava no Brasil com porta-aviões, destroyers, e certamente isso não era para retirar o embaixador americano caso houvesse resistência. E obteve uma outra vitória, no meu entendimento, que foi a preservação da territorialidade brasileira, porque o império americano já tinha dividido a Alemanha, já tinha dividido o Vietnã, já tinha dividido a Coreia. E, sem dúvida alguma, se houvesse resistência, essa Quarta Frota americana não estava aqui para brincar em serviço nem para retirar um ou dois embaixadores aqui da embaixada.

    Então, eu quero agradecer, meu caro Senador Randolfe, esta homenagem que o Senado presta a esse momento histórico do Brasil, um momento histórico que nós devemos conhecer, um momento histórico em que este país queria e tinha um projeto de nação; e relembrar algumas figuras, porque a ditadura, durante 21 anos, disse que o Governo João Goulart caiu pelos seus incapazes. Os incapazes de Jango eram Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Waldir Pires... (Palmas.) Enfim, na educação, nós tínhamos Paulo Freire, Anísio Teixeira. Esse era o Governo "incapaz", que queria resgatar o Brasil para a liberdade, para a soberania e, principalmente, para a justiça social.

    Então, a todos os presentes aqui eu quero agradecer profundamente. Vamos resgatar essa memória! Muitos de nós, querido Senador, não temos mais 60 anos para esperar que o Brasil tenha essas mudanças na sua estrutura social e econômica. Nós precisamos, a partir dessa memória, resgatar as lutas políticas. A esquerda não perdeu as ruas, a esquerda às vezes perde as pautas: a Eletrobras, a BR Distribuidora, muitas pautas nacionalistas que nós deveremos resgatar.

    Então, meus amigos, muito obrigado pela presença de vocês hoje, aqui neste Plenário. Nós estamos não fazendo pó da história, nós estamos aqui resgatando a luz de nosso destino.

    Obrigado. (Palmas.)


Este texto não substitui o publicado no DSF de 03/04/2024 - Página 12