Discurso durante a 15ª Sessão Especial, no Senado Federal

Sessão Especial destinada a celebrar e promover o lançamento do Guia da Candidata, em alusão ao Mês da Mulher, com foco na prevenção e no enfrentamento à violência política de gênero. Manifestação de apoio à Deputada Erika Hilton, destacando a importância de combater ataques transfóbicos e racistas na Comissão da Mulher. Afirmação de que as mulheres indígenas sempre fizeram política na defesa dos territórios e na preservação de saberes, e que a entrada na política institucional é uma extensão dessa luta coletiva.

Autor
SONIA GUAJAJARA
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
Eleições e Partidos Políticos, Mulheres:
  • Sessão Especial destinada a celebrar e promover o lançamento do Guia da Candidata, em alusão ao Mês da Mulher, com foco na prevenção e no enfrentamento à violência política de gênero. Manifestação de apoio à Deputada Erika Hilton, destacando a importância de combater ataques transfóbicos e racistas na Comissão da Mulher. Afirmação de que as mulheres indígenas sempre fizeram política na defesa dos territórios e na preservação de saberes, e que a entrada na política institucional é uma extensão dessa luta coletiva.
Publicação
Publicação no DSF de 18/03/2026 - Página 23
Assuntos
Outros > Eleições e Partidos Políticos
Política Social > Proteção Social > Mulheres
Matérias referenciadas
Indexação
  • SESSÃO ESPECIAL, CELEBRAÇÃO, LANÇAMENTO, MANUAL, CANDIDATO, MULHER, PREVENÇÃO, COMBATE, VIOLENCIA, NATUREZA POLITICA, GENERO, MES, MARÇO.
  • APOIO, DEPUTADO FEDERAL, MULHER, ERIKA HILTON.
  • REGISTRO, AUTUAÇÃO, NATUREZA POLITICA, MULHER, INDIO, COMUNIDADE INDIGENA.

    A SRA. SONIA GUAJAJARA (Para discursar.) – Obrigada, Senadora Augusta. Bom dia!

    Cumprimento todas as mulheres aqui, das diferentes representações, participando aqui deste importante momento. Quero saudar a querida Eutália, do Ministério das Mulheres; minha amiga Deputada Jack Rocha; Manuela d'Ávila, aqui sempre muito forte, combativa. E quero aqui saudar também uma pessoa que não está, mas eu acho que é importante a gente fazer essa citação: a nossa amiga Erika Hilton, que, sob muitos combates, ataques transfóbicos e racistas, assumiu a Comissão da Mulher na Câmara de Deputados. Acho que é importante sempre essa solidariedade, para que a gente possa combater todas as formas de violência.

    Bom, eu sou a Sonia Guajajara, eu sou Deputada Federal eleita pelo Estado de São Paulo, hoje a primeira mulher indígena a assumir um ministério, e um ministério inédito: o Ministério dos Povos Indígenas. Para mim é muito importante participar deste momento, Senadora Augusta, querida Leila – tinha levantado, é um prazer sempre estar com você nessas agendas que a gente tem enfrentado juntas –, importante participar do lançamento do Guia da Candidata, porque é como participar de um gesto que fortalece a democracia brasileira, essa luta por ocupação de espaço cada vez mais por nós mulheres.

    Este guia é um instrumento de coragem, um instrumento de orientação e, sobretudo, um instrumento de convocação para que as mulheres ocupem os espaços, cada vez mais, de poder e de decisão. Durante muito tempo, disseram que nós, mulheres, não poderíamos estar na política, que a política não é lugar para mulheres. E, quando as mulheres ousaram entrar na política, foram recebidas com muitas barreiras, com muitas desigualdades, constrangimentos e violência. E, ainda hoje, essas barreiras seguem de pé, assim como a Senadora Eliziane acabou de relatar aqui: a dificuldade que está enfrentando para que tenha sua candidatura garantida. E nós, mulheres brasileiras, nunca aceitamos o não como destino e sempre ousamos lutar e enfrentar cada vez mais para que a gente possa estar, de fato, fazendo valer essas leis, os direitos de lutar enquanto mulher.

    As mulheres sempre fizeram política: fizeram política nas comunidades, nos movimentos, nas associações, nas escolas, nos territórios, nas periferias e nos espaços onde a vida real do povo brasileiro acontece todos os dias. E nós, mulheres indígenas, também fazemos políticas: fazemos política na defesa dos nossos territórios, na proteção das florestas, dos rios e dos nossos modos de vida; fazemos política na transmissão dos saberes ancestrais, na preservação das nossas línguas, na organização coletiva dos nossos povos e na luta permanente pelo direito de existir com dignidade. Por isso, quando uma mulher indígena entra na política institucional, ela não entra sozinha; ela leva consigo a memória do seu povo, a força do seu território e a responsabilidade com as futuras gerações.

    É importante destacar que este guia reconhece que as mulheres não vivem os mesmos desafios da mesma maneira. Ele reconhece a pluralidade das experiências femininas no Brasil e fala também para mulheres indígenas, negras, quilombolas, periféricas, trans, do campo, das águas e de povos e comunidades tradicionais. Isso é essencial, por quê? A democracia só será verdadeira quando acolher de fato a diversidade das mulheres brasileiras.

    Também é muito importante que este material enfrente com seriedade a violência de gênero. Nós sabemos que muitas mulheres são atacadas não pelas ideias que defendem, mas simplesmente por serem mulheres. E sabemos também que, quando essas mulheres são indígenas, negras ou periféricas, a violência costuma ser ainda mais brutal, marcada pelo racismo, pelo preconceito e pela tentativa de apagamento.

    Por isso, orientar, acolher, proteger e oferecer caminhos concretos de denúncia e apoio é fundamental; é parte central da defesa da democracia. Um país que quer mais mulheres na política precisa garantir que elas possam disputar, permanecer e exercer seus mandatos com dignidade e com segurança. Como diz o próprio guia: "Quando uma mulher entra na política, muda a mulher; quando várias entram, muda a política". É exatamente isto que nós queremos mudar, a política brasileira, para que ela seja mais justa, mais plural, mais humana e mais parecida com o povo.

    Eu quero, neste momento, falar especialmente para as mulheres que ainda têm dúvida, medo ou receio de entrar na política: a sua voz importa, a sua história importa, a sua experiência importa. O Brasil precisa de vocês, de cada uma, seja em qualquer lugar que esteja dos rincões do nosso Brasil; precisa de mais mulheres nos Parlamentos, nas prefeituras, nas assembleias, no Congresso Nacional, nos governos, nos espaços onde se decidem prioridades, orçamentos, direitos e futuros; precisa de mulheres que conheçam a vida real do povo brasileiro; precisa de mulheres que saibam o que significa lutar todos os dias para existir com dignidade; precisa de mulheres que tragam outras formas de liderança, de cuidado, de coragem e de compromisso com a coletividade.

    Do ponto de vista do Ministério dos Povos Indígenas, esta é uma agenda estratégica e inadiável: fortalecer a participação política das mulheres é fortalecer a democracia brasileira, e fortalecer a presença das mulheres indígenas na política é afirmar que este país precisa cada vez mais ouvir os povos originários também nos espaços formais de decisão, sobretudo nós, enquanto mulheres indígenas, que agora completamos oito anos tendo mulher ocupando cargos no Congresso Nacional, na Câmara de Deputados. (Palmas.)

    Quero parabenizar aqui a Procuradoria Especial da Mulher, aqui do Senado Federal, por essa iniciativa, a Senadora Augusta, e que esse guia circule por todo o Brasil como a orientação que nós precisamos neste ano tão importante de decisão eleitoral. Que ele chegue às aldeias, que chegue às periferias, que chegue aos interiores, às comunidades, aos movimentos e, principalmente, aos partidos políticos. Que ele encoraje novas candidaturas, que ele proteja trajetórias e que fortaleça lideranças. E que ele ajude a transformar a política brasileira em um espaço menos violento, mais plural e mais representativo, porque a política é lugar de mulher, porque a política é lugar de mulher indígena, e o futuro do Brasil será mais justo quando mais mulheres estiverem nos espaços de poder para decidir os rumos deste país.

    Muito obrigada.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 18/03/2026 - Página 23