Exposição de convidado durante a 18ª Sessão de Debates Temáticos, no Senado Federal

Sessão de Debates Temáticos destinada a discutir o feminicídio no Brasil. Afirmação de que a centralidade da formação de valores da "geração Z" deslocou-se da família e da comunidade para o ambiente virtual, ressuscitando conceitos machistas sob novas roupagens e tornando o ódio contra as mulheres um nicho de mercado altamente lucrativo e estruturado. Exposição da necessidade de criminalização da misoginia praticada no âmbito virtual.

Autor
RAQUEL ANDRADE DOS SANTOS
Casa
Senado Federal
Tipo
Exposição de convidado
Resumo por assunto
Direito Penal e Penitenciário, Mulheres, Segurança Pública:
  • Sessão de Debates Temáticos destinada a discutir o feminicídio no Brasil. Afirmação de que a centralidade da formação de valores da "geração Z" deslocou-se da família e da comunidade para o ambiente virtual, ressuscitando conceitos machistas sob novas roupagens e tornando o ódio contra as mulheres um nicho de mercado altamente lucrativo e estruturado. Exposição da necessidade de criminalização da misoginia praticada no âmbito virtual.
Publicação
Publicação no DSF de 24/03/2026 - Página 47
Assuntos
Jurídico > Direito Penal e Penitenciário
Política Social > Proteção Social > Mulheres
Soberania, Defesa Nacional e Ordem Pública > Defesa do Estado e das Instituições Democráticas > Segurança Pública
Matérias referenciadas
Indexação
  • SESSÃO DE DEBATES TEMATICOS, DEBATE, FEMINICIDIO, BRASIL, VIOLENCIA, MULHER.
  • PREOCUPAÇÃO, EFEITO, MIDIA SOCIAL, INTERNET, JOVEM, PROMOÇÃO, MACHISMO, MISOGINIA.
  • NECESSIDADE, CRIAÇÃO, CRIME, MISOGINIA, INTERNET, MIDIA SOCIAL.

    A SRA. RAQUEL ANDRADE DOS SANTOS (Para exposição de convidado.) – Uma boa tarde a todas as pessoas aqui presentes. Quero cumprimentar, na pessoa do Senador Paim, como a gente diz lá no Ceará, "a vocês tudim", certo? Que estiveram à Mesa, que estão aqui nos assistindo.

    Eu vou ser bem objetiva, até porque, Senador, muito já foi falado e é importante a gente trazer várias perspectivas sobre esse tema. Mas antes, eu não posso deixar de agradecer a V. Exa. A agenda da mulher é a agenda mais transversal que existe, em termos de política pública, você não resolve o problema da violência fazendo só política para mulheres.

    Então, quando o senhor instituiu o Estatuto da Pessoa Idosa, o Estatuto da Igualdade Racial, o Estatuto da Pessoa com Deficiência, o senhor agiu estruturalmente para prevenir e enfrentar violência contra as mulheres negras, contra as mulheres idosas, contra as mulheres com deficiência, em todas as suas particularidades.

    Então, queria saudá-lo. Estou conhecendo V. Exa. aqui de mais pertinho, pela primeira vez, mas já acompanho, enquanto advogada, há muitos anos seu trabalho. Então, muito obrigada, seu apoio é indispensável.

    Bom, de tudo que já foi falado aqui, eu escolhi um ponto, alguns pontos elementares, mas um ponto fundamental.

    Gente, falar de violência contra a mulher, em todos os seus aspectos, é falar de crença, é falar de valor, de cultura. E não existe nada mais difícil, mais complexo para você mudar do que aquilo em que uma pessoa acredita, seja em que aspecto for.

    Por isso que a gente... Eu atuo com o enfrentamento à violência há quase 20 anos, pesquiso, mestrado, doutorado, tudo, e as pessoas têm aquela sensação de que não dá jeito, porque cada vez que se faz mais o problema se expõe. Não existe solução simples para problema complexo, a gente precisa de soluções que também sejam estruturais. E eu quero falar, como já foi dito por uma das especialistas que me antecederam, dessa transição de constituição de valores. Antigamente, os valores se construíam essencialmente no seio familiar, Senador: era o pai, era a mãe, era a família, era a comunidade, era a igreja. Agora, o ambiente virtual é o centro, é a centralidade da formação de valores, principalmente dessa geração que nos sucede – como foi dito aqui, a geração Z.

    Estudando isso, avaliando diagnóstico crítico, o menino, o jovem não está mais perguntando para o pai como lidar com o ciúme que tem da namorada, não; ele está indo para o coach de masculinidade, que ele segue lá no perfil dele, para ver esse negócio – ô, negócio para me irritar é essa história – de energia masculina e energia feminina. Minha gente, e Senador, isso atinge tão profundamente a constituição da subjetividade de homens e mulheres que parece que as pessoas não estão enxergando que a gente está usando um instrumento novo para ressuscitar – é que nem ressuscitar um morto – valores antigos extremamente machistas e conservadores. Só mudou o instrumento.

    Esse negócio do homem alfa, da mulher beta... Como no caso daquele feminicida que está sendo investigado, aquele acusado de feminicídio, o tenente-coronel, como ele dizia nas mensagens para a PM que foi morta. Aquilo ali, gente, é o puro estrato, é a estratificação da masculinidade comercializada, porque misoginia dá lucro, Senador. Existe uma economia da misoginia. Tem 8 milhões de canais em rede social, com mais de 4 bilhões de visualizações, em que 61% desses canais – de "machosfera"; de homem alfa, mulher beta; mulher de energia feminina tem que ter um laço na cabeça, vestir um vestido de florzinha e baixar a cabeça, porque tem que ser submissa –, repito, 61% dos canais que estão dizendo isso levam para links externos para vender alguma coisa: é um curso, é uma mentoria, é um workshop, é uma oficina, é um livro.

    E a gente não está olhando para isso, porque nós vivemos em um país estruturalmente desigual, mas onde o espectro da violência chega a todos os lugares. Não tem hoje uma estratificação. E a gente precisa olhar para essa questão, porque a impunidade agora, Senador, não é só objetiva: "Se eu cometer o feminicídio, vão ser tantos anos de cadeia, vou perder meu emprego, vou perder meu salário". Não, agora a impunidade é subjetiva: "Eu não me incomodo de ser preso, não me incomodo de perder tudo, mas ela não vai sobreviver. Eu prefiro abrir mão da minha própria vida". Gente, o bem mais precioso que nós temos é a vida, e o ódio está tão enraizado que os feminicidas estão abrindo mão de viver – de viver! – para tirar a vida da sua companheira, da sua esposa, da sua ex-companheira, da sua ex-esposa. Isso é muito grave! Isso é muito sério. Isso expõe a profundidade do problema.

    Então, criminalizar a misoginia, realizar estudos, diagnósticos sobre o impacto econômico da misoginia é fundamental, porque a nova geração está vendo isso como um nicho de mercado: "Eu vou abrir um canal para gerar conteúdo falando disso, falando que mulher tem que fazer isso, homem tem que ter aquilo, e vou lucrar", porque ódio dá lucro, ódio dá engajamento, meu povo!

    Vou finalizar, porque fiquei por último e o tempo é curto.

    Senador, isso é tão sério, isso é tão estruturado – muito obrigada –, que o engajamento que esses grupos fazem, de maneira muito organizada e muito estratégica, não consegue ter uma conexão com o conteúdo positivo. Se você produzir conteúdo positivo ou conteúdo aleatório sobre mulheres, quem vai consumir esse conteúdo são as mulheres, porque os homens não consomem conteúdos de mulheres nas redes sociais. O que é isso? É a discriminação em relação ao pensar, à perspectiva de mundo, de vida, de cotidiano feminina: "O feminino não me serve, não me atrai. Eu prefiro ouvir um homem falando sobre a mesma coisa do que ouvir a mulher porque eu não me sinto atraído pela intelectualidade feminina, pelo pensamento crítico reflexivo de uma mulher". Olha como isso está enraizado e pulverizado, sobretudo, nas gerações Z, que envolvem os jovens que estão se constituindo enquanto masculinidade, enquanto afirmação, inclusive, da sua orientação de gênero.

    Eu tive uma experiência – e posso compartilhar porque, teoricamente, eu seria a vítima – na rede social, e eu fiz um estudo algorítmico, porque, antes de ser influencer eu sou nerd. Então, nerd faz o quê? Estudo, diagnóstico, relatório – eu não me controlei. Um vídeo que a gente postou na rede social, totalmente despretensioso, viralizou. Eu acordei, abri o celular, e tinha 7 milhões de visualizações, e eu não estava preparada para isso, porque não era o meu objetivo. O conteúdo? Era um conteúdo de análise de cotidiano: "Eu fui à academia, dez anos depois, e notei que 'isso' e 'isso' mudou".

    Senador, nós temos um ranking de temas que mais engajam na rede social. Nesse vídeo eu explorei as categorias: vida saudável, estilo de vida e humor, que estão entre os cinco que mais engajam. Esse vídeo alcançou 7 milhões de pessoas: 89% eram mulheres, só 11% eram homens, mesmo sendo um conteúdo estatisticamente relevante nas redes sociais socialmente.

    Quando eu fui fazer a análise estatística, algorítmica, eu peguei um outro vídeo, em que eu fiz uma crítica à estética masculina e ao posicionamento masculino em ambientes coletivos, especificamente em academia, e obviamente eu fui fazer o estudo, o diagnóstico – eu não me controlei. Eu precisava entender aquilo ali. E eu fui linchada, escrachada, vilipendiada nesse vídeo, que atingiu 1 milhão de pessoas. Quando eu peguei os dados, inverteu-se: se no conteúdo positivo eram 89% de mulheres comentando, engajando, etc., e 11% de homens, no conteúdo, podemos assim dizer, misógino em que fui atacada – não me atinge, pessoal, porque eu sou da geração 80; para uma coisa me atingir, é muito difícil; eu faço terapia... (Palmas.)

    Está tudo bem, não me atinge, mas as mulheres jovens, as meninas estão muito expostas a esse conteúdo, e o linchamento escala muito rápido. Quando eu peguei o gráfico e fui ver o escalonamento, então, no de 7 milhões, 89% mulheres, 11% homens; no de linchamento, mulheres, 45%, homens, 55%. Saiu de 13 para 55% porque era – para quê? – para linchar uma mulher.

    Então, é tão organizado, é tão estratégico. O algoritmo direciona de uma forma que nem uma mulher hoje pode fazer uma crítica à masculinidade na rede social sem ser linchada, Senador, sem ser exposta. Não é o meu caso, enfim, mas você imagine uma moça jovem que está ali construindo a sua autoestima, a sua percepção de mundo e começa a receber – eu recebi para mais de 15 mil comentários –: "Você é feia, se mate, suma do mundo, você é uma pessoa ruim". Existem duas categorias que se sobressaem: a estética feminina, que sempre é atacada primeiro, e a moral feminina. Isso também, cientificamente, tem raízes patriarcais, tem raízes machistas.

    Se a gente não olhar para isso, Senador, de criminalizar a misoginia, mas a misoginia digital, a misoginia no âmbito virtual, a gente não vai ter o impacto esperado. Tem que ter ou uma qualificadora... Aí o senhor faz a análise, junto com a Senadora Augusta Brito, que é minha chefe, Procuradora Especial da Mulher, vocês fazem uma análise jurídica se entra uma qualificadora ou uma espécie de agravante porque a geração está construindo bases da masculinidade pela rede social. Não adianta. Inclusive, entre o pai, o avô, o tio, já é outra camada geracional, a gente já tem um trabalho para desconstruir. E o coach, de blusa preta, e a luz laranja aqui, e sentado assim, dizendo: "Você é macho alfa. Venha ser macho alfa". Ele quer ser alfa, porque o coach é rico, coloca a foto do carro importado, da viagem para a Europa, da mulher esposa troféu que tem uma estética padrão. Então, é naquilo que a juventude quer se espelhar, é aquilo que o homem jovem...

(Soa a campainha.)

    A SRA. RAQUEL ANDRADE DOS SANTOS – ... quer para ele enquanto homem.

    Então, pessoal, a economia da misoginia, a criminalização da misoginia sob a perspectiva virtual vai salvar vidas, nós vamos prevenir o feminicídio. Vamos olhar para essa transição de crenças e ver a perspectiva macroeconômica: ódio dá lucro, misoginia dá lucro. Não podemos deixar a misoginia virar nicho de atuação profissional. Tem curso, Senador! Tem curso que, se você for assistir – eu não assisti, mas eu me infiltrei pelo menos na abertura –, você abre o conteúdo, as frases... Estão fazendo... Eu vi uma blusa agora, que foi feita por um influencer e está sendo vendida – e eu vou fazer as minhas também –, que era: "Não é ciúme, é preocupação". O que é isso? É controle disfarçado de cuidado, e eles estão vendendo camisas para os jovens com frases que induzem o controle das mulheres, que induzem a manipulação das mulheres, que induzem a estética da submissão, a estética do homem provedor – é o que mais a gente está escutando.

    Por que o homem jovem quer ser o macho alfa, viajar para a Europa, ter aquela esposa troféu, ter o carro importado, morar num apartamento chique? Por que ele quer isso? Por que essa é a masculinidade ideal? Porque ele espelha o sucesso também do ponto de vista de uma economia da masculinidade bem-sucedida. Por que ele tem que ter isso? Porque, se ele não for provedor, ele não é homem de verdade. É isso que estão vendendo nas redes sociais, Senador. O homem de verdade, o homem para você casar é o homem provedor. Não importa o que você tenha que fazer para ser o provedor, você tem que ser o provedor.

    Aí você imagine o impacto disso num país desigual como o nosso, num país cheio de questões macro e socioeconômicas. O impacto lá para o jovem da periferia, que se tenta cooptar todo dia pelo tráfico, para o dinheiro fácil, para o dinheiro que vai entrar rápido. Isso tem impacto coletivo, geral, macropolítico e macroeconômico.

    Então eu vou encerrar a minha fala agradecendo a todos vocês pela paciência de estarem aqui. Conheçam a Procuradoria Especial da Mulher, conheçam o trabalho da Senadora Augusta Brito.

    Muito obrigada, Senador. É um prazer estar aqui perto de você. Muito obrigada por ser um aliado tão forte.

    Parabéns a todas as mulheres que me antecederam.

    Muito obrigada. (Palmas.)


Este texto não substitui o publicado no DSF de 24/03/2026 - Página 47