Discurso durante a 33ª Sessão Especial, no Senado Federal

Sessão Especial destinada a celebrar os 300 anos da cidade de Fortaleza, capital do Estado do Ceará. Valorização e incentivo ao sentimento de pertença e de ocupação dos espaços públicos, defendendo a preservação da memória histórica.

Autor
SANDOVAL MATOSO DA CRUZ
Casa
Senado Federal
Tipo
Discurso
Resumo por assunto
Cultura, Governo Municipal, Homenagem:
  • Sessão Especial destinada a celebrar os 300 anos da cidade de Fortaleza, capital do Estado do Ceará. Valorização e incentivo ao sentimento de pertença e de ocupação dos espaços públicos, defendendo a preservação da memória histórica.
Publicação
Publicação no DSF de 14/04/2026 - Página 27
Assuntos
Política Social > Cultura
Outros > Atuação do Estado > Governo Municipal
Honorífico > Homenagem
Matérias referenciadas
Indexação
  • SESSÃO ESPECIAL, MUNICIPIO, FORTALEZA (CE), CELEBRAÇÃO, ANIVERSARIO DE FUNDAÇÃO, MES, ABRIL.
  • INCENTIVO, CULTURA, INCLUSÃO, OCUPAÇÃO, ESPAÇO, EQUIPAMENTO URBANO, DEFESA, PRESERVAÇÃO, MEMORIA, HISTORIA.

    O SR. SANDOVAL MATOSO DA CRUZ (Para discursar. Por videoconferência.) – Olá, que alegria estar junto a cada um de vocês. Quero saudar aqui o Senador Eduardo Girão; nossa querida Vice-Prefeita Gabriella; Danilo, nosso Vereador também, grande companheiro, inspiração para cada um de nós; nosso Deputado Domingos; e cada um que está nos acompanhando; cada um que está aqui conosco, conectado, para celebrar os 300 anos da Cidade Solar.

    A gente só pode amar o que a gente conhece, e a gente só pode cuidar daquilo que a gente ama. Nós somos dessa Fortaleza, essa cidade que, como foi muito bem falado, carrega essa marca de acolhimento. A Fortaleza de Iracema, nossa mãe, a Virgem dos Lábios de Mel, que diferentemente daquele romantismo próprio de Alencar, se baseia, mas também se conecta com tanta mulher forte, tantas indígenas. Essa Fortaleza que se expande, que se inspira também nessa cacique pequena, a primeira cacique mulher do Brasil, que vai nos inspirar e lembrar dessa Iracema que cuida de cada um de nós.

    Somos a Fortaleza também do Padre Mororó, deste homem que – na busca pela liberdade, na busca por valorizar ainda mais este Brasil – não silencia. Pelo contrário, tem uma máxima que tanto nos inspira que é: "Por uma mentira não se morre, mas por uma verdade vale a pena dar a vida". E esses cinco confederados, representando tantos outros, dão a vida por essa verdade que transforma a história.

    Nós somos dessa Fortaleza de fé, fé de um povo que carrega essa marca de acreditar, de não desistir. Essa Fortaleza de tantos credos, de tantos corações. Essa Fortaleza miscigenada, que carrega as suas africanidades, não somente com o nosso centenário baobá, na Praça dos Mártires ou Passeio Público, mas também nesses campos, nessas terras, nesses terreiros, nessas igrejas, nesses templos, que falam do nosso povo. Fortaleza da igrejinha do Rosário dos Pretos, de 1730, sinal dessa resistência e desse amor de um povo que não desiste. Fortaleza de uma das catedrais mais icônicas do mundo, charmosa, que traz tanta memória, inclusive até mesmo a sua construção, feita por muitas mãos. É essa Fortaleza que nós vivemos. Essa Fortaleza que busca ser de todos e que, sim, assim como o ser humano tem suas contrariedades.

    Essa Fortaleza que nos inspira. Fortaleza de Henriqueta Galeno, nossa grande artista, escritora, poeta, marca da cultura. Fortaleza dessa Rachel, que muda o mundo e inaugura essa maneira de ver. Fortaleza também dos seus campos de concentração e da Noite dos Mil Mortos, mas que não deixa isso ser uma marca definitiva. Não! Você que nos escuta, que nos acompanha, nós somos desta terra que vai além das belezas naturais e das praias que se estampam pelo mundo.

    Nós somos dessa terra de Rodolfo Teófilo, que não se treme, não foge dessa luta e vai vacinar esse povo contra a temida e maléfica varíola, indo até mesmo nessa Fortaleza periférica para também fazer a sua parte. Nós somos a Fortaleza não somente do Dragão do Mar, a grande inspiração de José Napoleão, mas também somos a Fortaleza do Manuel Jacaré, um jangadeiro que, quando o Danilo falava "Vargas vem para cá", Manuel Jacaré vai até lá, no Rio de Janeiro, pedir e defender a causa desses que tiveram ali, de certa forma, a não contemplação nas reformas trabalhistas.

    Esses quatro aventureiros, esses quatro fortalezenses saem do Mucuripe, aquele Mucuripe eternizado nos versos de Fagner e Belchior, das suas velas, mas também do seu farol, mas também do seu acervo, mas também da sua gente, da sua peixada, como foi bem falado aí, e vão até o Rio de Janeiro, sendo recebidos com festa e – mudando essa história de morte trágica de Manuel Jacaré, sendo ali vítima de um acidente na gravação de um filme sobre a sua saga – para mostrar para nós que por uma mentira não se morre, mas por uma verdade vale a pena dar a vida.

    Somos essa Fortaleza, sim, de Casimiro Montenegro, ele que vai fundar o ITA, ele que acredita na força da educação, na força da ciência e na soberania do Brasil, se inspirando nessas novas tecnologias e maneiras de ver o mundo. Nós somos essa Fortaleza de tantos professores e professoras, mulheres, homens que constroem, que enfrentam. Nós somos a Fortaleza que fez uma revolução, uma rebelião por conta do serviço dos bondes, que não estavam sendo muito bem ali associados e pela elevação da tarifa.

    Dessas mulheres, como o Senador falou, da proximidade com a Cione, que, em pleno 1968, vão fazer também uma greve, mostrando a força, força dessa Fortaleza que é mulher, essa Fortaleza que é mais do que Iracema, essa Fortaleza que encanta com seu sol, capital alencarina, cidade solar. Essa Fortaleza que nós buscamos construir por meio de uma consciência histórica, por meio da tentativa de ir além dos livros que vão mostrar somente a história do Brasil lá no Rio e em São Paulo. Não! Nós somos essa Fortaleza também do Padim Ciço.

    Todo mundo aqui que tem um interior para chamar de seu, tem uma raiz fincada nesse torrão. Cada um de nós carrega também essa Fortaleza das nuances, a Fortaleza necrópole, a cidade dos vivos e dos mortos, que inspira na sua necrópole maior, que fez 160 anos há pouco – o Cemitério São João Batista –, nos lembrando do caráter efêmero dessa vida e da importância de refletirmos sempre qual caminho temos trilhado.

    A gente brinca até aqui, na capital, que tem uma rua que nasce no cemitério e morre numa catedral, a atual Rua Castro e Silva, mas a chamada Rua das Flores, mais ou menos um quilômetro e cem metros separando a vida e a morte, para nos lembrar, como diz o Prof. Cortella, que "a vida é muito curta para ser pequena". É justamente andando em Fortaleza, nas suas temporalidades, nas suas narrativas, no coração da sua gente, que nós constantemente devemos pensar isto: celebrar a vida, celebrar os 300 anos é celebrar o início, e não vislumbrar um fim, pelo contrário, mas construirmos coletivamente.

    Estou em sala de aula, na escola pública, na escola particular e também estou em sala de aula nas ruas de Fortaleza, com diversos projetos que procuram resgatar essa nossa identidade, essa nossa memória. Seja nos trilhos do VLT e do metrô, seja na necrópole São João Batista ou nesses templos religiosos que narram a fé de um povo, nós estamos aqui, somos Fortaleza do Padre Cícero, que vem para cá estudar, que vem para cá se consagrar e mudar a humanidade com o seu amor, com a sua piedade e com a sua vida.

    Nós somos essa Fortaleza que vai eleger a primeira Prefeita mulher do Brasil, um fato inédito, histórico. Nós somos essa Fortaleza de outra Maria, não só Maria Luiza, mas Maria da Penha, que, com seu coração firme, vem lutar e vem lembrar da importância de estarmos sempre na busca da justiça. Essa Fortaleza, que acolhe, que congrega, que transforma. Nós somos essa Fortaleza de tanta gente. Eu só posso amar aquilo que eu conheço e, para transformar, eu preciso da força desse amor. Nós somos Fortaleza de Belchior, que vem nos lembrar constantemente que não, nós não somos do lugar dos esquecidos, não somos das nações dos condenados, nem somos do sertão dos ofendidos.

    Vocês sabem muito bem. Diante do Senado Federal, nesta sessão especial em homenagem... E que se perpetue, que não fique somente neste ano. A grande dor no coração é pensar que, no próximo ano, os 301 anos também têm que ser comemorados. Nós somos deste lugar, não somos o sertão dos ofendidos. Vocês sabem bem, conhecemos o nosso lugar. E nós não somente conhecemos, nós amamos, nós pertencemos, nós somos dessa vila que se transforma em uma cidade por apoiar a independência do Brasil.

    Como gratidão, D. Pedro I olha para a vila de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção e, em 1823, vai dizer: "Vocês agora são uma cidade, a Fortaleza de Nova Bragança". O nome depois vai ser alterado. Nós, há pouco, tínhamos nos tornado "independentes" – entre aspas – de Pernambuco, que era a nossa vinculação jurisdicional. A capital do Ceará era Recife, não é? Depois, você vai ter essa transformação. Essa Fortaleza que se expande; essa Fortaleza que traz a sua modernidade; essa Fortaleza de Antônio Sales, com a irreverência da Padaria Espiritual; a Fortaleza do Bode Ioiô... Se temos o Danilo Lopes, também temos o Bode Ioiô, com todo o seu charme, simpatia, mas também a marca da nossa gente, da nossa terra.

    Somos essa Fortaleza que não desiste. Que esse sol que queima, que inspira, que transpira, também seja o sol sempre da esperança, essa esperança desses lugares, essa esperança de uma valorização e de uma cultura patrimonial.

    Essa Fortaleza de tantos templos e de tantos tempos começa lá no Forte São Tiago, começa lá no Forte de São Sebastião, começa no Schoonenborch, começa na Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. História é construção, história é disputa, história é narrativa, história é processo.

    A Fortaleza da gente não cabe num dia. A sua gênese não cabe num segundo. Ela precisa do mundo, ela precisa da história para mostrar a sua complexidade, para mostrar a sua beleza, para mostrar a sua essência manifestada em cada um de nós que, com o seu jeito, com o seu estilo, conta essa trajetória; essa Fortaleza que vai servir de palco da disputa clássica de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto quando o nosso Palácio da Luz amanhece cravado de bala porque Clarindo de Queiroz não queria sair e resiste. E esses fatos também acompanham.

    Não é Fortaleza somente ali do que está nos jornais, do que está nas grandes notícias e nos pequenos rodapés dos livros e apostilas do Brasil. Não, essa Fortaleza é nossa. A Fortaleza da nossa avó, a Fortaleza daquela calçadinha onde a família se reúne e se reunia para ficar na cadeira de balanço lá no Otávio Bonfim, e a avó França vendo o povo passar para ir para missa, atravessando ali aquela ruazinha tão marcante. A Fortaleza da avó Terezinha e das mil Ave-Marias, lá, pertinho da praça da Nova Betânia, do Conjunto das Nações. É a Fortaleza desses estudantes, desses jovens que lutam por um futuro melhor e que entendem que é o agora.

    Essa Fortaleza que vai nos inspirar, Ednardo e tantos outros que vão sempre cantar "as longarinas [dessa] ponte velha", enquanto a gente engoma uma calça, vai fazendo as coisas, a gente não desiste; essa Fortaleza que tantos corações, que seja aqui ou que seja em outro lugar, carregam para sempre.

    E como canta o nosso querido Gonzagão, a asa branca vai, ela voa, mas assim que pode, ela retorna. Não à toa, há tantos de vocês com esse coração desejoso, inclusive em Brasília, redutinho muito cearense. Basta a asa branca soprar, basta o sinal do trovejar que ela regressa.

    Um dos momentos mais fortes enquanto professor, enquanto fortalezense, enquanto historiador foi na final da Olimpíada Cearense de Ciências Humanas do Estado do Ceará, organizada pelo Instituto Federal, ver uma jovem lá da região metropolitana, em Maranguape, cantar:

Já faz três noites que para o norte relampeia

E a asa branca ouvindo o ronco do trovão...

    Ela bate as asas e volta para sua terra. Isso é próprio de nós, cearenses, isso é próprio da cidade solar. A gente vai, mas volta, se vai é porque tem que ir, mas o coração quer ficar, e fica porque ama, e fica por se identificar, e fica porque é Fortaleza, que atravessa histórias; o mundo cabe aqui, o mundo vem para cá e em que o mundo é acolhido para que, nessa confluência, nesse respeito, nessa diversidade, nessa pluralidade, a gente possa somar.

    Não se constrói uma Fortaleza, uma edificação só com tijolo. É impossível. E só de tijolo nem dá. Assim como a nossa alfândega, era preciso, na época, além das pedras, o ferro lá de Glasgow e também o óleo de peixe e a areia de argamassa.

    É nessa diversidade, é nessa complementariedade que a gente está nesses 300 anos, construindo com a rede – ou as redes – dos nossos pescadores, as redes da rendeira, das nossas rendeiras, ou aquelas redes que cada bom fortalezense, cearense tem na sua varanda, no seu quintal, na sua sala, que nos lembra desse descanso, desse acolhimento, desse se lançar.

    Essa Fortaleza de médicos e pessoas que nem, na primeira formação, eram história, mas se apaixonam tanto que não tem como não ser.

    Essa Fortaleza desses alunos, desses estudantes e de tantos outros que, questionando não conhecer, começam a ocupar e a procurar.

    Em 2021, para finalizar, nem eram os 300 anos, mas o meu coração se indignava e se inquietava, ao saber que muitos de nós aqui, desses 2 milhões e quase seiscentos mil – como o Senador falava – conhecem pouco a nossa história, investem pouco aqui e, quando viajamos, vamos consumir a cultura, vamos consumir os patrimônios, trazemos ao pé da língua – e de letra – as histórias dos outros lugares, e aqui, não?

    Então, a gente começa com tantos outros, que foram pioneiros, a ocupar o nosso centro, a ocupar as nossas histórias, a ocupar os nossos patrimônios, e aí vem: por amor, a gente ocupa. Então, que os nossos corações possam, cada vez mais, transformar em gestos tantas palavras que nos inspiram e que já nos acompanham, de habitar, ocupar essa cidade, transformar, cuidar.

    O Senador falava: "Olha, parece que é o meu aniversário!" Não é? Isso é um sentimento de pertença, e aniversário bom de celebrar é o aniversário de quem a gente conhece. De quem a gente não conhece, fica até um constrangimento. É a oportunidade que hoje o Senado Federal tem de mostrar para o país um pouco mais dessa nossa história, que é encantadora, que é tão irradiante quanto o nosso sol, que é tão envolvente quanto os nossos mares, que é tão firme quanto os nossos fortes, mas, mais do que isso: a nossa gente.

    Essa é a Fortaleza que queremos cantar, mostrar, anunciar, construir e defender para o mundo, seja em sala de aula, seja no meio da rua, seja nos templos, com o Fortaleza de Fé, lá nas necrópoles, com o Fortaleza Necrópole, seja o Vem Comigo, no meio dessa confluência toda, seja o Fortaleza sobre Trilhas, seja em cinema, seja em confeitaria, seja em tudo, porque Fortaleza é tudo!

    Que viva Fortaleza! Conhecemos o nosso lugar: não somos do Sertão dos ofendidos, não; não somos do lugar dos oprimidos, não. Isso faz parte também. Sandoval, o meu tio que vai para São Paulo, como diz Belchior:

Pois o que pesa no norte, pela lei da gravidade

Disso Newton já sabia, cai no sul, grande cidade.

    Havia uma lei, não só natural – que a gravidade é uma lei física, ela puxa todos para baixo –, mas havia uma lei social que carregava todos para o sul, para São Paulo, para o Rio. O Senador, no início, falava sobre um garçom que era cearense, e em tantos outros, essa marca, não é? E muitos tiveram que ir por não encontrar aqui essas oportunidades. Que a gente possa então também carregar essa história e dizer: hoje o ITA vem para cá, hoje o mundo vem para cá – fruto de uma construção, de um tempo, e que também inspira essa coragem.

    A asa branca vai, a asa branca volta, a asa branca fica; a nossa jandaia continua a cantar: cantar a dor, cantar a alegria, cantar a história. Afinal de contas, é isso que nós chamamos de vida.

    Que esses 300 anos nos inspirem, então, a pôr muito mais e a reconhecer que essa Fortaleza está aqui. A história, a vida, a memória somos nós.

    Muito obrigado.


Este texto não substitui o publicado no DSF de 14/04/2026 - Página 27